Redação Pragmatismo
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Cultura 17/Sep/2013 às 12:10
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Empresária conta como descobriu cemitério de escravos na própria casa

Empresária descobriu cemitério de escravos durante reforma da casa. “Quando encontrei uma arcada dentária de criança fiquei assustada. Pensei em uma chacina, que alguém havia matado a própria família”

cemitério escravos rio de janeiro
(Imagem – Ilustração)

Empresária do ramo da dedetização, Ana Maria de la Merced Guimarães, nunca imaginou que a compra do imóvel na rua Pedro Ernesto, nº 36, no bairro da Gamboa, zona portuária do Rio, mudaria radicalmente sua vida, a de seu marido, Petruccio, e das três filhas. Em 1996, durante uma reforma, a família descobriu ossadas debaixo da casa. A princípio, desconfiou que fossem de cachorros, até encontrarem várias arcadas dentárias humanas.

“Quando encontrei uma arcada dentária de criança fiquei assustada. Pensei em uma chacina, que alguém havia matado a própria família. Pensei o pior. Liguei para minha advogada, que ligou para um delegado. Depois, com a cabeça fria, lembramos que a Gamboa é uma região histórica”, contou.

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A casa de Merced e dezenas de outras casas do bairro haviam sido construídas por cima de um cemitério de escravos do século 18. Após pesquisas e estudos dos artefatos, descobriu-se que a maioria dos mortos enterrados eram crianças e pré-adolescentes. Por esse motivo, o cemitério ficou conhecido como Pretos Novos (criado em 1769 e extinto em 1830). Lá foram enterrados, em covas coletivas, escravos que não resistiam à longa viagem nos navios negreiros vindos da África.

“Este cemitério era conhecido por poucos, esquecido por todos. Um passado funesto, mas importantíssimo para a nossa cidade. Isto representa o Holocausto negro. Aqui embaixo estão enterradas milhares de pessoas. A maioria pré-adolescente. Isto aqui representa um crime contra a humanidade e não pode ser esquecido”, declarou Merced. Além das ossadas, também foram encontradas cerâmicas e conchas.

A notícia sobre a existência de um cemitério de escravos acabou atraindo visitantes do Brasil e de outros países interessados em saber mais sobre a história envolvendo as mortes e o local. “Passamos a abrir a casa para pesquisadores, estudantes, jornalistas, uma média de dez a 15 pessoas por mês”. Novos amigos surgiram, assim como a admiração pelos artefatos e pela história.

Em 2005, ela e o marido compraram mais dois terrenos na mesma rua, um deles se tornou a sede do Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos, fundado naquele ano por Merced, amigos e estudiosos do tema.

Dezessete anos depois da reforma, Merced e o marido são responsáveis pela manutenção e promoção do instituto, que é também uma galeria de arte e um museu memorial.

Em 2011, mais uma surpresa: na busca por mapear o cemitério, arqueólogos descobriram um sambaqui, sítio pré-histórico formado pelo acúmulo de conchas, moluscos, ossos humanos e animais de mais de 3 mil anos e vestígios do primeiro encontro entre indígenas Tupinambás e portugueses que aqui chegaram pela primeira vez.

A dedicação à causa custou à família sacrifícios que emocionam Merced até hoje. “Fomos proibidos de fazer a obra e, em 1998, tivemos que sair correndo da casa, que ameaçava desabar por causa das escavações e das chuvas. Minhas filhas, na época adolescentes, tiveram que morar em um abrigo na nossa empresa até 2001”, contou entre lágrimas. “Isso ficou nas nossas mãos sem ninguém assumir esta responsabilidade”.

Hoje, o local também conta com um núcleo de pesquisa e oficinas de história sobre os pretos novos. Em 2012, mais de mil pessoas participaram das atividades promovidas pelo núcleo. A Companhia de Desenvolvimento Urbano e Portuário da prefeitura contribui com um pequeno aporte para cobrir os gastos com conta de luz, água e limpeza. A maior parte das receitas vem de doações e do bolso da família. A manutenção das janelas arqueológicas e produção de folhetos explicativos também são de responsabilidade da prefeitura, mas quem cuida e mantém aberto o lugar é Merced e o marido.

Flávia Villela, Agência Brasil

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Comentários

  1. Bruna Pagnan Postado em 17/Sep/2013 às 13:19

    Como sempre, o Brasil é um país sem memória, sem história e sem interesse da maioria dos populares e autoridades competentes. Parabéns para esta família que preserva tamanho tesouro, até o dia em que, alguém consciente,reconheça como de suma importância para a construção da nossa identidade, os caminhos do nosso passado! "Um povo sem história, é um povo sem memória. Um povo sem memória, é um povo a mercê da própria sorte!"

    • Nina Postado em 17/Sep/2013 às 20:38

      Perfeito, Bruna. Endosso suas palavras.

    • doroteia nascimento Postado em 19/Sep/2013 às 20:24

      É uma vergonha, ninguém ligado a cultura deste país se interessar... Concordo com você Bruna, povo sem memória, povo sem história.

  2. Raquel Postado em 18/Sep/2013 às 16:19

    O "Cemitério dos Pretos Novos" era um local destinado ao sepultamento de escravos recém chegados da África (novos no Brasil, que ainda não falavam o idioma, não estavam aculturados). Não necessariamente um lugar para o sepultamento de crianças e adolescentes. Os escravos que morriam durante a viagem, a quarentena, ou no período de exposição/venda no Mercado do Valongo eram enterrados nesse local. As condições higiênicas eram lamentáveis. A população reclamava em virtude do mau cheiro (miasmas) das covas rasas que mostravam os ossos e das fogueiras que queimavam os corpos. O tratamento dados aos vivos e aos mortos era desumano.

  3. Edna Postado em 20/Sep/2013 às 12:08

    Minha pele é branca, por conta de sucessivos casamentos com homens brancos de minhas ancestrais, mas minha tetravó foi trazida para cá em um navio negreiro, muito jovem, não chegou a ser escrava, por conta da lei recém criada, e foi acolhida por uma família burguesa, que a tratou bem, dentro dos preceitos da época. Era muito jovem e, se o seu destino tivesse sido outro, com certeza estaria fazendo parte dessa ossada descoberta e eu não existiria do jeito que sou... Somos todos um e a humanidade ainda vai tropeçar muito, até chegar a esse nível de consciência.

  4. Fúlvia Postado em 20/Sep/2013 às 19:20

    Bruna Pagnan , penso exatamente como você. Perfeito o seu post.