Luis Soares
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Educação 14/Aug/2013 às 16:50
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Professor cria projeto contra preconceito a partir de apelidos racistas

Professor reúne apelidos racistas e cria projeto contra preconceito. Assustado com mais de 360 nomes ofensivos encontrados entre alunos de escola na Zona Norte do Rio, professor monta jardim que mistura História e cultivo de plantas

Mais de 125 anos depois da Lei Áurea, o racismo entre alunos do ensino fundamental chamou a atenção de Luiz Henrique Rosa, professor de biologia da Escola Municipal Herbert Moses, no Jardim América, Zona Norte do Rio. Assustado com a agressividade das crianças, Rosa pediu que todos colassem no papel os apelidos já ouvidos na escola. O resultado? Das mais de 400 terminologias catalogadas, cerca de 360 continham conteúdo racista, como “macaco”, “galinha de macumba” e “asfalto”.

professor contra preconceito rj

O professor de biologia Luiz Henrique Rosa em frente ao muro decorado por alunos da Escola Municipal Herbert Moses com cerca de 200 nomes de escravos (Foto: Paula Giolito)

No mesmo período dessa pesquisa, Rosa, entusiasta da história dos negros no Brasil, ficou impressionado com a falta de curiosidade pelo aniversário da Revolta de Vassouras, rebelião escrava ocorrida em 1838. Pressionado pelo racismo em sala de aula, de um lado, e o desconhecimento da cultura negra, de outro, o professor resolveu agir. Assim nasceu, no fim de 2009, o projeto “Qual é a Graça?”.

No quintal então abandonado da escola, Rosa pediu para que seus alunos escrevessem e colassem no muro os quase 200 nomes de escravos que participaram da revolta. O objetivo era que cada um “apadrinhasse” um cativo, estimulando o sentido de responsabilidade. Cada estudante contribuiu com R$ 6 pelo pedaço de mármore.

É possível encontrar nomes cristãos como “Concórdia”, “José” e “Cesário”, dados aos cativos assim que chegavam ao Brasil. Já as pedras com os dizeres “Deus Sabe seu Nome” representam os escravos não identificados, fazendo uma analogia com o “Soldado Desconhecido”, no monumento em homenagem aos combatentes da Segunda Guerra Mundial.

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Da canela ao café, uma aula de história

Depois, no mesmo espaço, Rosa fez os alunos cultivarem plantas e espécies ligadas à História do Brasil. O cultivo das plantas começa por especiarias como canela e noz-moscada. Em uma viagem no tempo, passa-se pelo pau-brasil, cana-de-açúcar e café. Para incutir nos estudantes o tempo de viagem entre Moçambique e o Brasil a bordo de um navio negreiro, o professor Luiz Henrique Rosa pediu para que eles plantassem e acompanhassem o ciclo da couve e da alface por 90 dias — o período em que um escravo sofria nos porões da embarcação. Para a viagem entre Brasil e Angola, pepinos e mostardas, que têm ciclos de 60 dias.

— Meus alunos olham para a planta e perguntam: “Ele ainda tá amarrado, professor?”, referindo-se ao escravo. Desse jeito consigo trabalhar com eles a dureza da escravidão e o desenvolvimento dos vegetais — explicou Rosa.

Nascido para combater o racismo, o projeto “Qual é a Graça?” ganhou contornos pedagógicos e agora é transdisciplinar, afirmou. Para ele, é impossível separar os conteúdos no jardim:

— Por que eu planto essa berinjela? Na biologia, para mostrar como as plantas nascem e se reproduzem. Já o professor de português pode botar uma plaquinha com o nome dela e lembrar que “berinjela” se escreve com “j”, não com “g”. O aluno nunca mais vai errar.

Sem apoio financeiro

Os trabalhos no jardim de Rosa não contam para a nota final do aluno, mas todos são incentivados a participar. E dá resultados. Aos 12 anos, a estudante Aretha Barra Mansa Nascimento era chamada na escola de “petróleo”. Hoje, com 14, ela diz que a iniciativa do professor ajudou a amenizar o clima entre as crianças, e agora atender apenas por Aretha no colégio.

— No começo os alunos mais velhos vinham aqui no jardim e destruíam as plantas, mas agora todos participam. Fora que é muito melhor aprender as matérias da aula na prática do que em um livro, dentro de sala — contou ela.

Em seus dois anos e meio de existência, o projeto nunca recebeu incentivos financeiros da Secretaria municipal de Educação. Segundo o diretor da escola, Renato Borges Giagio, um grupo de professores chegou a levar uma coleção de fotos e um relatório ao órgão para convencer os gestores, sem sucesso. Rosa calcula que o “Qual é a Graça?” já consumiu mais de R$ 6 mil da comunidade, entre professores, pais e alunos.

— Estamos fazendo a nossa parte, mas cadê a deles? A educação vai além da sala de aula, e quando se coloca amor, o resultado é isso aí — disse Giagio.

Situada próxima às comunidades de Vigário Geral e Parada de Lucas, em 2011 a Herbert Moses teve nota 4.1 no Ideb, contra 4.7 da média nacional.

Leonardo Vieira, O Globo

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Comentários

  1. Maria Teresa Postado em 14/Aug/2013 às 17:00

    Bela iniciativa, só acho que a analogia com o "soldado desconhecido" poderia ser "cativo desconhecido" ao invés de " deus sabe o seu nome". Para de quebra, ajudar a combater o preconceito contra os ateus.

  2. Luís Postado em 14/Aug/2013 às 17:42

    Uma palavra sem contexto não pode ser considerada ofensiva. Não é assim que a língua funciona. É um exagero falar que essas crinanças são "racistas".

  3. FN Postado em 14/Aug/2013 às 17:44

    Pensei a mesma coisa. O "Deus sabe o nome" sei que nao foi por maldade, mas é melhor evitar, pra incluir tb aqueles que nao acreditam em deus.

  4. [email protected] Postado em 14/Aug/2013 às 17:48

    Bonita iniciativa mas è uma gota no oceano. O racismo é um vergonhoso problema nacional e como tal combate se com programas com a mesma dimensão. Mas pra isso é preciso vontade e consciencia civica e politica e isso é o q falha.

  5. renato Postado em 14/Aug/2013 às 18:22

    Luis, se alguem me chama de galinha de macumba, eu olho para ele e digo, Isto que você falou está fora de contexto. Daí o cara diz, farofa, vela preta, cidra, ovo cozido,olho de cabra, garrafa de pinga. Pronto estou no contexto. Que faço agora. Chamo o pai de santo. Para confirmar que ele me considera um negro. E é com muito amor e carinho que ele me chama de Galinha de Macumba. Não poderia ser um galo, ao menos. Alguem te chama de Água Benta.

  6. renato Postado em 14/Aug/2013 às 18:25

    Parabéns ao Professor. Pelo modo de tratar de um assunto que faz parte de nossa história, e tenho certeza que a sala de aula dele é de crianças que vão descolar do preconceito.

  7. Peterson Roberto da Silva Postado em 14/Aug/2013 às 23:09

    Nossa Luís, realmente, tá bem fora de contexto. Se eu fosse negro e me chamassem de asfalto, macaco e galinha de macumba eu me perguntaria POR QUE SERÁ? Ó vida, Ó CEUS, POR QUÊ? Deve ser porque sou determinado e resiliente como o asfalto, criativo como o macaco e... Sei lá, um símbolo/estereótipo religioso. É, deve ser.

  8. Márcia Cassiana Rosa Postado em 15/Aug/2013 às 07:54

    É no território e com pequenas ações que desconstruiremos o devastador preconceito racial. O fato do poder público não dar a mínima atenção para o projeto, pode se caracterizar como racismo institucional.

  9. Fernando Fidelis Vasconcelos Postado em 15/Aug/2013 às 10:25

    Desejo com muita fé que minha próxima encarnação eu seja um negro bem dos humildes, nascido de uma dessas pretas lindas de coração, e muitas vezes de fisionomia, e de um crioulo muito sábio com mãos calejadas que vemos tanto por aqui no Brasil, pra eu TER MUITO ORGULHO de ser apelidado do que quiserem. E serei muito feliz com minha negritude e sabedoria herdada para ter piedade dos bobos que acham que cor de pele seja símbolo de alguma coisa.

  10. ANGELA MARIA DA FONSECA. Postado em 15/Aug/2013 às 10:36

    MUITO BOM PROFESSOR, AI VAI A DIGA. MINHA PELE É MORENA , MAIS SOU FILHA DE NEGRA ME CONSIDERO NEGRA. SE ME CHAMAR DE NEGRA EU RESPONDO , É ISSO AI, SE ME CHAMAR DE MACACA, GALINHA DE MACUMBA... SIMPLESMENTE EU REPREENDO EM NOME DE JESUS E SIGO EM FRENTE, NÃO SOU MESMO.

  11. Fernando Fidelis Vasconcelos Postado em 15/Aug/2013 às 10:39

    Parabéns ao Professor Rosa!

  12. Roger Seula Postado em 15/Aug/2013 às 19:40

    Uma pena que não há a opção de responder os comentários, seria ótimo. Sou ateu e não vejo problema nenhum na frase "Deus sabe seu nome". Acho que é uma frase muito impactante e que seu significado é entendido tanto por ateus quanto por qualquer religioso. Há nessa frase uma ligação com a morte muito forte. Cabe aí com perfeição. Quanto as palavras "inocentes" fora de contexto... Não, as crianças não estão fora de contexto. Esse contexto é a sociedade, a mídia, a política e até a religião. Elas sabem muito bom o que ofendem quando chamam alguém de "petróleo". É insultar outra pessoa com base na sua cor de pele, inferiorizar outra pessoas baseado nessa característica. Parece sutil, mas a longo prazo essas atitudes se enraízam e geram preconceito de verdade. O preconceito racial é uma doutrina. Ninguém nasce preconceituoso. As crianças são ensinadas a sê-lo por seus familiares, pelos filmes, pelos programas humorísticos. O pior é que isso é um circulo vicioso.

  13. carlos Postado em 15/Aug/2013 às 22:39

    Em que mundo vive esse Luis?

  14. Luís Postado em 16/Aug/2013 às 14:07

    Brincadeira com a cor da pele nem sempre é racismo. Metade dessa molecada de 12 anos nem sabia o que era racismo.

  15. João Vitor Postado em 16/Aug/2013 às 20:35

    Luís, e quem disse que precisa saber o que é racismo para ser racista? Uma criança pode propagar piadas e apelidos racistas, sexistas, homofóbicos, etc, sem saber que é ofensivo, mas isso não descaracteriza o fato de que ela está sim sendo preconceituosa (racista, machista, homofobica, etc), e o fato dela propagar o preconceito sem nem ao menos ter conciência de que é ofensivo torna projetos assim mais importantes ainda.

  16. Luís Postado em 16/Aug/2013 às 22:38

    João Vitor, ele podia focar em questões de racismo (e justiça social) de verdade: violência policial, discrepância salarial, guerra às "drogas", estudo da cultura de povos africanos, história da África, a história do colonialismo, o neo-colonialismo, a história dos negros no Brasil, etc. Focar em questões politicamente corretas como reprimir piadas amesquinha a questão e tira o foco desses aspectos mais importantes.

  17. Eson Postado em 17/Aug/2013 às 19:34

    Peterson, se quando tivesse 13 anos os colegas o chamasse de "bunda mole", certamente você ira adorar, óbvio que não estava chamando gay, mas será que iria gostar? quaisquer apelidos que nos remetem às questões religiosas, de sexo ou de raça não agrada nenhuma criança ou adolescente. Devemos cultivar sim o bom senso, a união, o prazer da pesquisa e de estudar dos nossos jovens. O professor está de parabéns. Iniciativa que deve ser seguida em todas as disciplinas.

  18. femininja Postado em 18/Aug/2013 às 23:53

    amei, amei, amei! <3

  19. Camila Alvarenga Postado em 19/Aug/2013 às 11:51

    Excelente! É um verdadeiro educador e assumiu a responsabilidade social que a profissão carrega. Orgulho em ver professores assim no Brasil.

  20. Walquiria Lobato Postado em 19/Aug/2013 às 19:21

    Isto é que é professor! Soube reverter a situação, usando de inteligência, didática, meiguice, tudo de mais especial que um verdadeiro professor tem! Chamar uma pessoa de "asfalto" ou sei lá o quê, é racismo, sim. Os pestinhas aprendem em casa, na rua. No mínimo, é uma baita falta de educação. Se meu filho fosse chamado de galinha de macumba, vela preta, ou um destes belos nomes, eu o ensinaria a sentar o braço no moleque, pro cara deixar de ser besta e chamar de galinha a senhora mamãe dele! Tenho dito. Nosso País, que amo mais que a minha vida, tem mil defeitos e, este é dos mais nojentos deles. ( Ei, nunca falo em corrupção. Corrupção, o que é isso? Eu não conheço, nunca vi).

  21. Walquiria Lobato Postado em 19/Aug/2013 às 19:27

    Além do mais, as crianças podem não saber as implicações das questões racistas, homofóbicas, sexistas. Mas, SABEM MUITO BEM que estão ofendendo. Ninguém chama uma menina de macaca, pra elogiar. Chama de gata.

  22. RENÊ LOPES Postado em 20/Aug/2013 às 17:34

    MUITO LEGAL A INICIATIVA , FAÇO UM TRABALHO DE RESGATE DE IDENTIDADE NEGRA NAS ESCOLAS PUBLICAS DE BH, QUANDO TENHO OPORTUNIDADE, ATUALMENTE ESTOU DESEMPREGADO, POIS DEI AULAS EM ESCOLAS INTEGRADAS DA REGIÃO NORTE DE BH, UM DOS PROBLEMAS MAIS GRAVE É QUE QUEM ESTA A FRENTE DAS ESCOLAS NUNCA PASSARAM POR NENHUM CONSTRANGIMENTO EM RELAÇÃO Á RACISMO, PRECONCEITOS E OUTROS TIPO DE DISCRIMINAÇÃO. PARABENS ESTOU Á DISPOSIÇÃO PARA TROCAS.

  23. mariana Postado em 21/Aug/2013 às 16:43

    muito interessante o trabalho deste professor, parabéns!

  24. Natascha Postado em 28/Aug/2013 às 08:27

    Luis, as questões citadas não são mais importantes que o racismo enraízado, que é ainda pior que o explicito pq as pessoas acham que ele não existe, logo, não há o que combater: frescura de quem se ofende. Na realidade, é exatamente assim que nascem os problemas sociais que você citou. Ou vc acha que é coicidencia negros serem as maiores vitimas destes? Violência policial, descrepancia salarial, drogas (e o mido com que o estado trata os dependentes como criminosos). Se eles não conseguirem captar a amplitude de seus proprios atos cotidianos, como poderão ter um pensamento consciente acerca disso?