Luis Soares
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Cuba 30/Aug/2013 às 09:38
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Médicos cubanos não são escravos; entenda

Especialista em estudos cubanos, o jornalista Hélio Doyle explica por que a remuneração dos profissionais de saúde de Cuba é paga diretamente ao governo de Raúl Castro

Hélio Doyle

Parece que o último argumento contra a contratação dos médicos cubanos é a remuneração que vão receber. Pois é ridículo, quando prevalecem fatos, indicadores internacionais e números, falar mal do sistema de saúde e da qualidade dos médicos de Cuba. A revalidação de diploma também não é argumento, pois os médicos estrangeiros trabalharão em atividades definidas e por tempo determinado, nos termos do programa do governo federal. Não tem o menor sentido, também, dizer que os cubanos não se entenderão com os brasileiros por causa da língua – primeiro, porque vários deles falam o português e o portunhol, segundo porque os médicos cubanos estão acostumados a trabalhar em países em que a língua falada é o inglês, o francês, o português e dialetos africanos, e nunca isso foi entrave.

Resta, assim, a forma de contratação e, mais uma vez sem medo do ridículo, falam até de trabalho escravo. Essa restrição também não tem procedência, nem por argumentos morais ou éticos (e em boa parte hipócritas), nem com base na legislação brasileira e internacional. Vamos a duas situações hipotéticas, embora ocorram rotineiramente.

médicos cubanos escravos

Profissionais de saúde cubanos foram chamados de escravos por jornalistas da Veja e por médicos brasileiros (Imagem ilustrada a partir da foto de Jarbas de Oliveira / Folha)

1 – Uma empreiteira brasileira é contratada por um governo de país europeu para uma obra. Essa empreiteira vai receber euros por esse trabalho e levar àquele país, por tempo determinado, alguns engenheiros, geólogos, operários especializados e funcionários administrativos, todos eles empregados na empreiteira no Brasil. Encerrado o contrato no país europeu, todos voltarão ao Brasil com seus empregos assegurados. Quem vai definir a remuneração desses empregados da empreiteira e pagá-los, ela ou o governo do país europeu? É óbvio que é a empreiteira.

2 – Os governos do Brasil e de um país africano assinam um acordo para que uma empresa estatal brasileira envie profissionais de seu quadro àquele país para dar assistência técnica a pequenos agricultores. O governo brasileiro será remunerado em dólares pelo governo africano. A estatal brasileira designará alguns de seus funcionários para residir e trabalhar temporariamente no país africano. Quem vai definir a remuneração dos servidores da empresa estatal brasileira e lhes fará o pagamento, a estatal brasileira ou o governo do país africano? É óbvio que é a empresa estatal brasileira.

Por que, então, tem de ser diferente com os médicos cubanos? Eles não estão vindo para o Brasil como pessoas físicas, nem estão desempregados. São servidores públicos do governo de Cuba, trabalham para o Estado e por ele são remunerados. Quando termina a missão no Brasil (ou em qualquer outros dos mais de 60 países em que trabalham), voltam para Cuba e para seus empregos públicos.

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Não teria o menor sentido, assim, que esses médicos, formados em Cuba e servidores públicos cubanos, fossem cedidos pelo governo de Cuba para trabalhar no Brasil como se fossem pessoas físicas sendo contratadas. Para isso, eles teriam de deixar seus postos no governo de Cuba. Como não faria sentido que os empregados da empreiteira contratada na Europa ou da estatal contratada na África assinassem contratos e fossem remunerados diretamente pelos governos desses países. Trata-se de uma prestação de serviços por parte de Cuba, feita, como é natural, por profissionais dos quadros de saúde daquele país.

A outra crítica é quanto à remuneração dos médicos cubanos. Embora menor do que a que receberão os brasileiros e estrangeiros contratados como pessoas físicas, está dentro dos padrões de Cuba e não discrepa substancialmente do que recebem seus colegas que trabalham no arquipélago. É mais, mas não muito mais. Não tem o menor sentido, na realidade cubana, que um médico de seus serviços de saúde, trabalhando em outro país, receba R$ 10 mil mensais. E, embora os críticos não aceitem, há em Cuba uma clara aceitação, pela população, de que os recursos obtidos pela exportação de bens e serviços (entre os quais o turismo e os serviços de educação e saúde) sejam revertidos a todos, e não a uma minoria. O que Cuba ganha com suas exportações de bens e serviços, depois de pagar aos trabalhadores envolvidos, não vai para pessoas físicas, vai para o Estado.

A possibilidade de ganhar bem mais é que faz com que alguns médicos cubanos prefiram deixar Cuba e trabalhar em outros países como pessoas físicas. É normal que isso aconteça, em Cuba ou em qualquer país (não estamos recebendo portugueses e espanhóis?) e em qualquer atividade (quantos latino-americanos buscam emigrar para países mais desenvolvidos?). Como é normal que muitos dos médicos cubanos aprovem o sistema socialista em que vivem e se disponham a cumprir as “missões internacionalistas” em qualquer parte do mundo, independentemente de qual é o salário. Para eles, a medicina se caracteriza pelo humanismo e pela solidariedade, e não pelo lucro.

É difícil entender isso pelos que aceitam passivamente, aprovam ou se beneficiam da privatização e da mercantilização da medicina e da assistência à saúde no Brasil.

Brasil 247

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Comentários

  1. Gustavo Postado em 30/Aug/2013 às 10:55

    O problema de recorrer a estratégia de contratar médicos cubanos é que muito dinheiro será repassado ao Governo Cubano. Pessoas que não aprovam o regime cubano são contra.

  2. Vander Postado em 30/Aug/2013 às 11:14

    HAHAHAHAHAHAHA. Olha os exemplos dados. Piada isso né. Caro Hélio. O senhor sabia que em ambos os casos tanto a temuneraçã, quanto as condições de trabalho tem que seguir as leis locais?? Diferentemente dos casos de trabalho no exterior, os cubanos estão com seus passaportes retidos, não podem trazer os familiares e vão receber infinitamente menos que os outros membros do programa, tudo contra a legislação trabalhista brasileira. Esse site ja foi melhor.

  3. Reginaldo Postado em 30/Aug/2013 às 11:16

    Como é belíssmo, e assustador, para alguns, uma consciência verdadeiramente coletiva e de benefício à cidade, não apenas a alguns poucos!!!

  4. José Ferreira Postado em 30/Aug/2013 às 11:24

    Obrigado por apagar o meu comentário... Típico de Globo isso aí. E eu pensei que esse blogue fosse diferente. (é é blogue mesmo que se escreve, aqui se fala a língua portuguesa....)

  5. Valéria Postado em 30/Aug/2013 às 13:47

    spera ai deixa ver se entendi, fizeram este programa dos mais médicos para suprir a falta de médicos em algumas regiões, Ué e agora vão demitir os médicos que antes não existia para colocar os que vem de outro pais, me explique mais um pouco não entendi ainda, Se esses médicos do "mais médicos" vieram justamente para aumentar o numero de profissionais da área da saúde, mas se demitirem os que já trabalham, o numero de médicos não vai continuar o mesmo. me explique melhor, descobriram agora que tem medico, mas vão demitir por que os estrangeiros vão ser custeado pela União com a bolsa de 10 mil reais.

  6. Luiz David Botero Alessi Postado em 02/Sep/2013 às 01:02

    Não estou conseguindo comentar.

  7. Luiz David Botero Alessi Postado em 02/Sep/2013 às 01:04

    Não estou conseguindo comentar ainda.

  8. Marcos Postado em 02/Sep/2013 às 01:16

    São quase escravos, realmente é diferente.