Luis Soares
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Política 10/Jun/2013 às 19:11
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Jovens mostram que desaprendemos a sonhar

Esses moleques que tomam as ruas e dão a cara para bater incomodam muito mais porque nos obrigam a olhar para dentro das nossas próprias vidas e, nessa hora, descobrimos que desaprendemos a sonhar

Por Andre Borges Lopes

O fundamental não é lutar pelo direito de fumar maconha em paz na sala da sua casa. O fundamental não é o direito de andar vestida como uma vadia sem ser agredida por machos boçais que acham que têm esse direito porque você está “disponível”. O fundamental não é garantir a opção de um aborto assistido para as mulheres que foram vítimas de estupro ou que correm risco de vida. O fundamental não é impedir que a internação compulsória de usuários de drogas se transforme em ferramenta de uma política de higienismo social e eliminação estética do que enfeia a cidade. O fundamental não é lutar contra a venda da pena de morte e da redução da maioridade penal como soluções finais para a violência. O fundamental não é esculachar os torturadores impunes da ditadura. O fundamental não é garantir aos indígenas remanescentes o direito à demarcação das suas reservas de terras. O fundamental não é o aumento de 20 centavos num transporte público que fica a cada dia mais lotado e precário.

O fundamental é que estamos vivendo uma brutal ofensiva do pensamento conservador, que coloca em risco muitas décadas de conquistas civilizatórias da sociedade brasileira.

O fundamental é que sob o manto protetor do “crescimento com redução das desigualdades” fermenta um modelo social que reproduz – agora em escala socialmente ampliada – o que há de pior na sociedade de consumo, individualista ao extremo, competitiva, ostentatória e sem nenhum espaço para a solidariedade.

O fundamental é que a modesta redução da nossa brutal desigualdade social ainda não veio acompanhada por uma esperada redução da violência e da criminalidade, muito pelo contrário. E não há projeto nacional de combate à violência que fuja do discurso meramente repressivo ou da elegia à truculência policial.

O fundamental é que a democratização do acesso ao ensino básico e à universidade por vezes deixam de ser um instrumento de iluminação e arejamento dos indivíduos e da própria sociedade, e são reduzidos a uma promessa de escada para a ascensão social via títulos e diplomas, ao som de sertanejo universitário.

O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos “libertários” e “de esquerda” hoje abriram mão de disputar ideologicamente os corações e mentes dos jovens e dos novos “incluídos sociais” e se contentam em garantir a fidelidade dos seus votos nas urnas, a cada dois anos.

O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos “sociais-democratas” já não tem nada a oferecer à juventude além de um neo-udenismo moralista que flerta desavergonhadamente com o autoritarismo e o fascismo mais desbragados.

O fundamental é que a promessa da militância verde e ecológica vai aos poucos rendendo-se aos balcões de negócio da velha política partidária ou ao marketing politicamente correto das grandes corporações.

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O fundamental é que os sindicatos, movimentos populares e organizações estudantis estão entregues a um processo de burocratização, aparelhamento e defesa de interesses paroquiais que os torna refratários a uma participação dinâmica, entusiasmada e libertária.

O fundamental é que temos em São Paulo um governo estadual que é francamente conservador e repressivo, ao lado de um governo federal que é supostamente “progressista de coalizão”. Mas entre a causa da liberação da maconha e defesa da internação compulsória, ambos escolhem a internação. Entre as prostitutas e a hipocrisia, ambos ficam com a hipocrisia. Entre os índios e os agronegócio, ambos aliam-se aos ruralistas. Entre a velha imprensa embolorada e a efervescência libertária da Internet, ambos namoram com a velha mídia. Entre o estado laico e os votos da bancada evangélica, ambos contemporizam com o Malafaia. Entre Jean Willys e Feliciano, ambos ficam em cima do muro, calculando quem pode lhes render mais votos.

O fundamental é que o temor covarde em expor à luz os crimes e julgar os aqueles agentes de estado que torturaram e mataram durante da ditadura acabou conferindo legitimidade a auto-anistia imposta pelos militares, muitos dos quais hoje se orgulham publicamente dos seus crimes bárbaros – o que nos leva a crer que voltarão a cometê-los se lhes for dada nova oportunidade.

O fundamental é que vivemos numa sociedade que (para usar dois termos anacrônicos) vai ficando cada vez mais bunda-mole e careta. Assustadoramente careta na política, nos costumes e nas liberdades individuais se comparada com os sonhos libertários dos anos 1960, ou mesmo com as esperanças democráticas dos anos 1980. Vivemos uma grande ofensiva do coxismo: conservador nas ideias, conformado no dia-a-dia, revoltadinho no trânsito engarrafado e no teclado do Facebook.

O fundamental é que nenhum grupo político no poder ou fora dele tem hoje qualquer nível mínimo de interlocução com uma parte enorme da molecada – seja nas universidades ou nas periferias – que não se conforma com a falta de perspectivas minimamente interessantes dentro dessa sociedade cada vez mais bundona, careta e medíocre.

Os mesmos indignados que se esgoelam no mundo virtual clamando que a juventude e os estudantes “se levantem” contra o governo e a inação da sociedade, são os primeiros a pedir que a tropa de choque baixe a borracha nos “vagabundos” quando eles fecham a 23 de Maio e atrapalham o deslocamento dos seus SUVs rumo à happy-hour nos Jardins.

Acuados, os políticos “de esquerda” se horrorizam com as cenas de sacos de lixo pegando fogo no meio da rua e se apressam a condenar na TV os atos de “vandalismo”, pois morrem de medo que essas fogueiras causem pavor em uma classe média cada vez mais conservadora e isso possa lhes custar preciosos votos na próxima eleição.

manifestantes jovens passa livre sp

Manifestação em São Paulo (Divulgação)

Enquanto isso a molecada, no seu saudável inconformismo, vai para as ruas defender – FUNDAMENTALMENTE – o seu direito de sonhar com um mundo diferente. Um mundo onde o ensino, os trens e os ônibus sejam de qualidade e gratuitos para quem deles precisa. Onde os cidadãos tenham autonomia de decidir sobre o que devem e o que não devem fumar ou beber. Onde os índios possam nos mostrar que existem outros modos de vida possíveis nesse planeta, fora da lógica do agribusiness e das safras recordes. Onde crenças e religião sejam assunto de foro íntimo, e não políticas de Estado. Onde cada um possa decidir livremente com quem prefere trepar, casar e compartilhar (ou não) a criação dos filhos. Onde o conceito de Democracia não se resuma à obrigação de digitar meia dúzia de números nas urnas eletrônicas a cada dois anos.

Sempre vai haver quem prefira como modelo de estudante exemplar aquele sujeito valoroso que trabalha na firma das 8 da manhã às 6 da tarde, pega sem reclamar o metrô lotado, encara mais quatro horas de aulas meia-boca numa sala cheia de alunos sonolentos em busca de um canudo de papel, volta para casa dos pais tarde da noite para jantar, dormir e sonhar com um cargo de gerente e um apartamento com varanda gourmet.

Não é meu caso. Não tenho nem sombra de dúvida de que prefiro esses inconformados que atrapalham o trânsito e jogam pedra na polícia. Ainda que eles nos pareçam filhinhos-de-papai, ingênuos em seus sonhos, utópicos em suas propostas, politicamente manobráveis em suas reivindicações, irresponsavelmente seduzidos pelos provocadores de sempre.

Desde a Antiguidade, esses jovens ingênuos e irresponsáveis são o sal da terra, a luz do sol que impede que a humanidade apodreça no bolor da mediocridade, na inércia do conformismo, na falta de sentido do consumismo ostentatório, nas milenares pilantragens travestidas de iluminação espiritual.

Esses moleques que tomam as ruas e dão a cara para bater incomodam porque quebram vidros, depredam ônibus e paralisam o trânsito. Mas incomodam muito mais porque nos obrigam a olhar para dentro das nossas próprias vidas e, nessa hora, descobrimos que desaprendemos a sonhar.

advivo.com

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Comentários

  1. Ana Postado em 10/Jun/2013 às 19:41

    Que belo texto! Parabéns. Embora eu ache que esse "desaprendemos a sonhar" não cabe à todo mundo. E que, portanto, o quebra quebra visto em SP é uma daquelas coisas que pode reforçar o sentimento de banalização de tudo o que vivemos hoje: do sexo, da violência, da discussão política. Até do direito ao protesto e à revolta.

  2. Gustavo Postado em 10/Jun/2013 às 19:50

    Eu sei que geralmente este site apresenta um viés ideológico, mas gostaria de manifestar minha insatisfação inclusive com direita Bunda Mole dessa país. Eu acredito em uma direita libertária, veja bem não falo de neoliberalismo. Mas uma direita moderna que busca o respeito as liberdades individuais como aborto, casamento de pessoas do mesmo sexo, regulação das drogas, que defenda o estado laico e que valorize a educação como ferramenta de transformação social. Uma direita que busca se apoderar das melhores praticas de gestão pública de países eficientes. Com meritocracia no serviço público, redução do poder estatal na vida do cidadão. Que vise o crescimento sustentável, os negócios verdes de verdade, a boa gestão dos recursos públicos, sociais e naturais.

    • Denisbaldo Postado em 22/Nov/2014 às 15:44

      Voce quer uma direita que tenha valores de esquerda entao. Soh teria o nome de direita assim os seus pais e amigospoderiam aceita-la.

  3. Thaïs Postado em 10/Jun/2013 às 20:43

    O conceito de direita e esquerda é ultrapassado.

  4. Humberto Postado em 10/Jun/2013 às 21:10

    Irônico um texto desse num site denominado Pragmatismo Político. Constata-se isso ao pensar no seguinte: qual é o efeito prático benéfico causado por algumas dessas manifestações, como a manifestação pela redução da tarifa de ônibus em São Paulo? Absolutamente nenhum.

  5. Weslei Santana Postado em 10/Jun/2013 às 22:15

    Belo texto. Quando a maioria perder o medo e sair as ruas cobrando seus direitos o país muda.

  6. Jean Postado em 10/Jun/2013 às 22:21

    Nossa, me arrepiei...

  7. Filipe Postado em 10/Jun/2013 às 22:40

    Sim, esse texto possui tantas verdades inconvenientes que eu cheguei a me arrepiar. É tudo que eu sempre pensei e penso atualmente. O Brasil afunda a olhos vistos em uma lama conservadora que não se via há muito tempo. Eu tenho medo do futuro que nos aguarda. Ainda que vamos lá e briguemos, parece-me que a voz é abafada e no fim somos derrotados.

  8. ariana Postado em 10/Jun/2013 às 22:54

    Belo texto! Agora uma direita descrita por o senhor acima é no mínimo esdruxulo!

  9. Marcos Postado em 11/Jun/2013 às 04:38

    “Qualquer” protesto é valido, a questão da quebradeira é simples como estão quebrando coisas que não são suas obviamente levar bala de borracha faz parte do jogo, quero ver quem é capaz de escrever sobre todo esse contexto.

  10. Rafael Postado em 11/Jun/2013 às 04:40

    O primeiro paragrafo é fundamental, ou seja fundamental barrar tudo que é proposto ali rsrs, se defender aquilo é ser de esquerda pobre dessa.

  11. Daniel H. C. T. Postado em 11/Jun/2013 às 09:07

    Muito bom esse texto. Quem dera mais pessoas fossem como esses jovens.

  12. Gustavo Postado em 11/Jun/2013 às 11:42

    Ariana, porque esdrúxula? http://pt.wikipedia.org/wiki/Libertarismo Alguns autores como Von Mises e David Henry Thoreau abordam ideias neste sentido.

  13. Vander Postado em 11/Jun/2013 às 13:34

    wikipedia.... pela fonte Gustavo.

  14. Vander Postado em 11/Jun/2013 às 13:34

    "bela"

  15. GISELE SILVA Postado em 14/Jun/2013 às 14:55

    A vá!

  16. Gustavo Postado em 14/Jun/2013 às 15:37

    A fonte é o Von Mises e David Henry Thoreau, a Wikipedia é só pra facilitar o acesso ao conhecimento.

  17. Renato Postado em 01/Aug/2013 às 08:32

    Libertarianismo = Comunismo / não funciona porque as pessoas sao egoistas por natureza

    • Marcos Vinicius Postado em 09/Sep/2014 às 14:30

      De onde você tirou isso?

  18. Rodrigo Postado em 07/Apr/2015 às 22:15

    Muito bom texto. Se olharmos em nossa volta e vermos o que é o definido pelos países ricos e dominantes o "terceiro mundo". Sim, São Paulo, Brasilia, e todas as capitais são afetadas pelo fato de sermos "terceiro mundo", que na verdade são colónias doas países ricos. Explorados todos e muitos enganados achando que temos um governo dentro do nosso país que tem algum poder. O melhor que o governo local pode fazer contra o domínio é aliar-se aos dominadores, ou sofrer como vemos hoje a esquerda brasileira na pele do partido dos trabalhadores, se arrastando e pedindo misericórdia. O sonho descrito primorosamente pelo autor é que um dia tenhamos real liberdade, e isto passa por um processo profundo de limpeza na nossa corrupta sociedade mal informada, mal educada e em muitos casos conformada com o lixo de mundo em que vivemos. Para mim, morador do Brasil, que quando saio de casa a primeira coisa que vejo na rua da capital sulista (onde há muitas pessoas extremamente reacionárias e violentas) onde moro é um baita buraco que tenho que desviar para não danificar meu carro, é preciso sonhar mesmo! É preciso sonhar e executar uma mudança para que possamos dar aos nossos filhos um futuro melhor em um lugar melhor. E como disse o autor melhor, com solidariedade. Falta muita solidariedade, o egocentrismo está de longe sendo extremamente colocado atualmente. Isto precisa mudar, precisamos nos ver como uma nação, como um povo que tem saída. E a saída nao é apenas abandonar o pais, pois em outros países também está havendo pobreza, no centro do mundo, em Nova Iorque há milhares de pessoas sem teto, e isto vem aumentando sistematicamente, enquanto a distribuição de renda fica prejudicada. Ha dados que informam que metade das riquezas pertencem a 1% da população. E ha muitas pessoas de classe media, ou ate pobres, que consideram isto justo e normal. Eu não sou socialista, mas eu se fosse um empresário e tivesse bons lucros iria gostar de ver meus funcionários gozando de uma vida digna. Este pensamento não é o pensamento vigente, infelizmente.