Redação Pragmatismo
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Geral 20/Jun/2013 às 09:42
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Intelectuais tentam compreender manifestações: "uma esfinge"

'Estamos diante de uma esfinge', diz historiador sobre manifestações. Intelectuais tentam compreender movimento que despreza a mediação política e tem rumo imprevisível

O movimento que toma as ruas de todo o país ainda não pode ser definido por parâmetros científicos, sociológicos e políticos definitivos. “Estamos diante de uma esfinge. O movimento pode tomar qualquer rumo”, diz, por exemplo, Lincoln Secco, professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “É um movimento de grande apelo de juventude, no qual há uma linha divisória muito forte. É como se estivessem dizendo: ‘existe um mundo velho, no qual não nos encaixamos, não nos sentimos respirando dentro dele’. Isso até explica a vagueza do movimento e o fato de que se pode ir desde reivindicações típicas de movimentos sociais, como a inicial, a revogação de aumento do ônibus, até questões mais entrópicas, como uma mudança no perfil da cidade”, acrescenta o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia Política da USP.

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‘É como se estivessem dizendo: existe um mundo velho, no qual não nos encaixamos’, diz filósofo

Para ele, uma das principais e mais enaltecidas características das manifestações, que é não ter lideranças definidas, “é mais uma qualidade do que um defeito”. “O fato de não ter identidade definida é próprio de um movimento, por um lado, de juventude, e por outro de um período em que a política ou economia já não satisfazem, quando não se consegue definir as coisas em termos do que tradicionalmente é direita e esquerda, um período entre o velho e o novo”.

Lincoln Secco considera o movimento “surpreendente”. “Porque, do ponto de vista da história do Brasil, desde 1992, com a campanha do impeachment, não havia tantas pessoas nas ruas de maneira simultânea, em várias cidades.” Porém, o historiador vê uma diferença “crucial” entre o atual movimento e as greves no ABC nas décadas de 1970, 1980, as Diretas Já em 1984 e as manifestações pelo impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992: “aqueles eram movimentos que acabavam sendo dirigidos por alguma organização pré-estabelecida, por um partido, sindicato ou, no caso de 1992, pela UNE, que acabou filtrando o processo. Hoje não temos um partido, um sindicato, uma união de estudantes que fale por esse movimento”, aponta Secco.

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Nesse ponto, o sociólogo e blogueiro Emir Sader discorda. “Há liderança, sim, pois apareceu gente falando em nome do movimento. Isso de não ter liderança é bobagem”, diz. Para o historiador da USP, o Movimento Passe Livre é “muito interessante” justamente por ser “horizontal, mas ao mesmo tempo exigir que as pessoas que definem a sua política sejam participantes orgânicos. E, no processo, até mesmo o MPL foi ultrapassado pelas ruas”. “Ser horizontal não significa que não haja organização e liderança”, diz Secco. “Obviamente, um movimento horizontal vai nomear pessoas para eventualmente negociar em seu nome. Às vezes os intelectuais têm dificuldade de entender que há outras formas de organização além das partidárias e hierárquicas.”

Emir Sader, entretanto, diz que fora a questão circunstancial sobre o aumento das passagens de ônibus ou mesmo a repressão violenta das polícias de São Paulo e Rio de Janeiro de uma semana para cá, o movimento atingiu a inesperada magnitude observada na noite de ontem (17) por um problema “mais de fundo”, nas palavras do sociólogo. “Não existe política para a juventude. O governo federal não discute a questão do aborto, está contra a descriminalização das drogas. Teve uma gestão do Ministério da Cultura (da Ana de Hollanda) trágico, que agora melhorou um pouco, mas pouco.” Atualmente, a ministra da Cultura é a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy.

“Temas que têm a ver com os jovens não fazem parte do ideário geral da política. Mesmo Lula, que foi o maior líder político que a gente já teve, não tem interlocução com a juventude. Os jovens estão afirmando sua presença, o que é bom. A pior coisa que pode acontecer é uma juventude passiva”, afirma Sader.

Na mesma linha, Renato Janine aponta “agendas que os políticos não costumam considerar”. Ele cita como exemplo a questão da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, presidida desde março pelo deputado Pastor Marco Feliciano (PSC). “A base governista e sobretudo o PMDB deram a comissão para aquele deputado, o Feliciano, e por quê? Porque os direitos humanos são irrelevantes. Coisas irrelevantes para os partidos podem ser muito importantes na vida as pessoas. Seria bom os políticos perceberem isso.”

Primavera árabe

Tanto Janine Ribeiro como Lincoln Secco veem similaridades entre o que está acontecendo no Brasil e o processo desencadeado no Oriente Médio no segundo semestre de 2010 e que redundou, como fato mais significativo, no fim de quase 30 anos de governo Hosni Mubarak no Egito, em fevereiro de 2011.

Para o filósofo da USP, há semelhanças, “mas não tem nada a ver com globalização”. Segundo ele, “o maio de 68 em Paris não tinha essa globalização e os movimentos são muito parecidos. Claro, há as redes sociais, mas um ponto que chama a atenção nesse sentido é de um movimento que vai muito além das suas causas, os 20 centavos dos ônibus, por exemplo. Todas essas explicações são muito pequenas perto do que surge”, analisa.

“Do ponto de vista mundial, o MPL se enquadra perfeitamente no processo que começou com a Primavera Árabe e que, como nos EUA e no sul da Europa, foi espontâneo”, avalia Secco. “Isso dá a força e a fraqueza do movimento. Força porque qualquer manifestação espontânea acaba sendo mais atrativa para as pessoas que rejeitam partidos e políticos em geral; mas num segundo momento, não consegue traduzir a força numa nova política. Na Primavera Árabe, o movimento foi forte, mas depois houve eleições e as forças que ganharam as eleições não representavam o movimento.”

A questão da rejeição do movimento e políticos e partidos “não é uma novidade”, para Lincoln Secco. “Se há algo positivo na rejeição aos partidos e políticos, o fato de a juventude buscar novas formas de se manifestar e se organizar, há o risco de um movimento desse tipo ser uma força que é só formalmente apolítica, mas que é na verdade um discurso conservador.”

Eduardo Maretti, RBA

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Comentários

  1. Rogério Postado em 21/Jun/2013 às 00:11

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  2. Lourdes Amorim Postado em 21/Jun/2013 às 13:43

    APROVEITO A OPORTUNIDADE PARA POSTAR ALGO QUE ESCREVI SOBRE O ASSUNTO E POSTEI NO FACEBOOK: O SÚBITO “DESPERTAR” DO BRASIL DEIXA A CLASSE POLÍTICA, A IMPRENSA, SOCIÓLOGOS E CIENTISTAS POLÍTICOS PERPLEXOS: ATÉ AGORA ESTÃO TENTANDO ENTENDER O QUE ESTÁ ACONTECENDO. (Por Maria de Lourdes Amorim Rocha, em 19/06/13) Apelo para o meu senso crítico, a minha consciência como cidadã e o meu discernimento para tecer algumas considerações e discorrer sobre alguns fatores que podem nos ajudar a compreender esse importantíssimo momento da nossa história. Primeiramente, o gigante não estava adormecido, ele estava muito bem acordado no cyber espaço, na internet, através das redes sociais. Éramos cyber ativistas e agora a nossa triste realidade política, econômica e social, grita, clama pela nossa presença nas ruas, de forma concreta, em carne, osso, coração, suor, lágrimas e, infelizmente, com algum sangue derramado, devido à presença de vândalos agressivos e oportunistas, que estão se infiltrando no movimento, assim como de policiais truculentos que reagiram com violência contra alguns manifestantes de bem, que não fazem parte desse grupo. Mas repetiremos quantas vezes forem necessárias, que nem os vândalos e nem esse tipo de atitude da polícia não são referências nas manifestações. Eles não têm legitimidade para representar os cidadãos de bem. Não permitiremos que eles maculem a nossa luta. Recomendo que a polícia preste atenção nos manifestantes que cobrem o rosto com camisas, máscaras, toucas, etc. Esses são os baderneiros, talvez até marginais, que se misturam ao movimento para depredarem e saquearem. Os ativistas legítimos mostram a cara, pintada ou não, e não têm porque se esconderem da polícia. Voltando às redes sociais, há algum tempo atrás, assisti na TV a uma entrevista com o Boninho, da Rede Globo, na qual ele desqualificava essas redes de forma debochada e arrogante, dizendo que as informações que circulam nelas são de má qualidade, por serem inconsistentes, por não serem de fontes confiáveis, e que ele não perde o seu tempo acessando o material que circula pelas redes sociais. Agora ele está vendo o tamanho da asneira que falou: está tomando na cara, assim como toda a mídia televisiva e impressa, que não tem compromisso com a verdade e manipula os fatos. Enquanto as redes sociais, especialmente o Facebook, se agigantam, por permitirem uma ampla e rápida propagação de informações e a interatividade em tempo real, a TV e os informativos impressos estão perdendo espaço. Diante disto, pode-se dizer que a imensa expansão das redes sociais no Brasil é um dos fatores que desencadearam esse fenômeno. Um outro fator, é o aumento de vagas nas faculdades e, portanto, do número de acadêmicos, que são potentes formadores de opinião e que disseminam informações rapidamente de todas as formas, especialmente nas redes sociais, despertando o povo para a nossa realidade e criando ou aprofundando a consciência política dos cidadãos. Há críticos do movimento dizendo que nestas alturas, muitos manifestantes nem sabem ao certo pelo que estão lutando. Pois que esses críticos continuem iludidos! Os cidadãos que estão nas ruas, em sua maioria, têm plena consciência dos absurdos que acontecem no nosso país, como é o caso dos gastos exorbitantes com a Copa do Mundo (e a das confederações). Romário (ex-jogador de futebol e atual deputado federal) já tinha alertado sobre a roubalheira que seria e está sendo a reforma e construção de estádios: como se tratam de obras emergenciais, as licitações são dispensadas. Se já somos roubados com licitações, imaginem sem. Enquanto isto, a saúde grita por socorro, a educação finge que anda bem, a segurança pública não existe, a violência já passa de todos os limites ponderáveis, etc. Porque não perguntaram antes aos brasileiros se eles queriam que o Brasil sediasse as copas e as olimpíadas? Tenho certeza que a maioria diria que sim, desde que a “casa” fosse estruturada e arrumada antes. É óbvio que devemos limpar e arrumar a nossa casa muito bem antes de uma festa, ao invés de disfarçar a sujeira e a desordem. Há um outro fator que parece não ter sido ainda considerado pelos cientistas políticos e pelo atual governo. O PT, contrariando promessas de campanha, está negligenciando a classe média e investindo nos cidadãos de baixa renda com a sua política assistencialista e, num outro extremo, investindo na classe alta, composta por banqueiros e grandes empresários, como é o caso de Eike Batista que recebeu empréstimo do BNDES para comprar o estádio do Maracanã. Enquanto isto, a classe média vai sendo estrangulada e sufocada, pagando impostos abusivos, enquanto os seus direitos são cerceados. Tenho percebido que os veículos de comunicação que apoiam o governo do PT, como o jornal Pragmatismo Político por exemplo, tem proferido ofensas contra a classe média, chamando-a de histérica, por reinvindicar a redução da maioridade penal e outras coisas urgentes. Para mim, isto não passa de uma estratégia do governo: de um lado, investe na classe alta com grandes empréstimos, através dos bancos estatais, e de outro lado investe nos “pobrezinhos”, alienando-os com as políticas assistencialistas. Num caminho oposto, esse governo subestima, desqualifica e massacra a classe média. Será por quê? Na minha opinião é porque é na classe média que está contida a maioria dos formadores de opinião, como os acadêmicos, que, como eu já disse, têm mais senso crítico, mais consciência política, mais poder de discernimento e, portanto, maior capacidade de perceber os erros do governo (os acadêmicos mais ricos geralmente estudam no exterior). Desta forma, neutralizando a classe média, os erros são mais facilmente acobertados. Será que os “cabeças” do governo não sabem que mais cedo ou mais tarde essa merda toda viria à tona, como veio agora? Com certeza, a maioria que está bradando por mudanças nas ruas pertence a esta classe. Concluíndo, assim como eu me acho no direito de fazer críticas, vou dar uma sugestão que não é nenhuma novidade e parece uma solução muito óbvia: porque o governo não contém os próprios gastos? Precisamos mesmo de tantos deputados e seus respectivos assessores? E quanto ao senado, já pensaram para que ele serve? O congresso não supre as funções do legislativo? No Brasil, o senado funciona como uma espécie de reduto de velhas raposas políticas que querem se perpetuar no poder... E quanto à sangria de recursos que sai pelos ralos da corrupção? Só de combater a corrupção, muitos recursos seriam economizados. E quanto aos tributos que o povo paga enquanto muitos ricos sonegam? E quanto ao altíssimo preço da gasolina no nosso país, talvez o mais alto do mundo? Cobrando menos impostos no preço de venda dos combustíveis, as empresas de transporte coletivo poderiam e deveriam reduzir as suas tarifas, assim como as transportadoras cobrariam fretes menores e os preços baixariam de uma maneira geral. Enfim, se houver vontade política, há solução para os nossos problemas, mesmo que a médio e longo prazo. Diante da magnitude desse momento que estamos vivendo, a presidente Dilma enfim fez um pronunciamento, elogiando as manifestações de forma aparentemente sincera. Penso que ela teve um momento de nostalgia e se lembrou dos velhos tempos em que ela era uma forte ativista política. Deve estar se enxergando em cada jovem que está nesta luta por um Brasil melhor. Tenho um conselho para a nossa presidente: que ela não se deixe manipular por José Dirceu, que considero o “cérebro” do PT, e nem por Lula, que considero o “coração” do PT; que ela exerça toda a força da sua personalidade e do seu caráter e aproveite esse maravilhoso momento que estamos vivendo, da mais forte expressão de cidadania e democracia, onde a única bandeira permitida é a bandeira do Brasil, para deixar o seu nome registrado nos anais da nossa história, como uma presidente que está ouvindo com respeito o brado retumbante que está nas ruas do nosso país e faça a diferença na construção do Brasil com que sonhamos, que cause em nós o imenso orgulho de sermos brasileiros e de termos o privilégio de morar numa nação que, além de carnaval e futebol tem muito mais a oferecer.