Luis Soares
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Direita 05/Jun/2013 às 18:09
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Classe média inconformada: hidratação facial agora só em casa...

Imprensa lamenta que mulheres que integram famílias com renda superior a R$ 8 mil se vejam obrigadas a reduzir seus gastos com cabeleireiro, de R$ 800 por mês – e agora tenham que fazer hidratação facial em sua própria casa

Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa com Viomundo

A série de reportagens pintando um cenário de apocalipse na economia brasileira, que marca as edições recentes dos principais jornais genéricos de circulação nacional, traz como pano de fundo uma tese perigosa: a de que a plena oferta de empregos seria uma das principais causas de aumento dos preços no Brasil.

Observe-se que a imprensa brasileira não questiona se estamos de fato imersos no perigoso jogo inflacionário, embora os aumentos de preços tenham se mostrado pontuais e randômicos, não lineares, o que indica a ocorrência de causas múltiplas e não necessariamente um processo consistente de inflação.

Há apenas dois meses, os jornais e os noticiários da televisão e do rádio martelavam a tese da inflação de alimentos; depois, com o tomate voltando ao molho com preços 75% inferiores, a imprensa passou a ressaltar o custo de produtos eletrônicos, depois das viagens aéreas e agora o vilão é o setor de serviços.

hidratação facial classe média

Crise: Classe média condenada a fazer hidratação facial em casa (Imagem: Reprodução)

Nesse período, artigos e reportagens tentam impor a seguinte teoria: se o crescimento econômico é insatisfatório, o pleno emprego torna-se fator de inflação porque a disputa por bons funcionários aumenta o custo das empresas, o que acaba se refletindo no preço final dos produtos.

Por outro lado, dizem esses teóricos, o crescimento da renda dos trabalhadores aumenta a procura, porque há mais gente com dinheiro para as compras e, apesar do aumento recente dos juros, a oferta de crédito segue em alta.

Os defensores dessa tese consideram que, para fazer a economia crescer sem inflação, é preciso manter um exército de trabalhadores sem renda, ou dispostos a ganhar pouco, para que os preços se mantenham estáveis e o Produto Interno Bruto possa crescer a níveis chineses.

Para eles, a boa política econômica é aquela que preserva os “bons fundamentos da economia”, e não aquela que produz bem-estar para a maior parcela da população.

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O pensador francês Edgar Morin já observou que “a economia é, ao mesmo tempo, a ciência humana mais avançada matematicamente e a mais atrasada humanamente”.

No caso do Brasil, os especialistas mais apreciados pela imprensa são os que se apegam a fundamentos que se justificam mais por ideologia do que por evidências científicas, e se recusam a considerar a nova complexidade da sociedade brasileira.

Esse novo contexto social se baseia no ingresso de uma nova classe de renda no mercado, que permite a milhares de produtos e serviços alcançarem uma escala nunca antes vista.

Durante alguns anos, esses novos protagonistas irão realizar alguns sonhos de consumo que acalentam desde a infância, o que certamente produz desequilíbrios nas cestas do mercado

Que dó, que dó!

Foi assim com biscoitos recheados e iogurte, nos primeiros anos do Plano Real; foi assim com os calçados esportivos e vestuário até 2005, o que estimulou a maior frequência a shopping centers, que proliferaram por todo o País; depois vieram os carros populares, as viagens aéreas, os cruzeiros marítimos, os computadores, e, mais recentemente a TV digital, tablets e smartphones.

O enigma que os economistas devem decifrar é: quais setores do sistema produtivo precisam de uma injeção de produtividade para atender essa demanda sem aumento abusivo de preços.

O pleno emprego e o aumento da renda dos trabalhadores, ocorrendo em curto prazo num contexto de desigualdades históricas, baixa renda e trabalho informal, tendem a produzir distorções de preços, em parte, porque a economia estava organizada para os padrões estáveis de uma classe média tradicional e de pouca escala.

De repente, essa classe média, que nunca passou de 15% da população brasileira, tem a companhia dos emergentes, que representam mais de 55% da população e formam um novo país de 105 milhões de consumidores.

Mas jornais e revistas são feitos para a classe média tradicional, o que justifica a reportagem de capa da revista Época desta semana.

O texto é um primor de falácia jornalística: “O arrocho da classe média”, diz o título da reportagem, com a chamada de capa em tom de manifesto: “A conta sobrou pra você”.

Com uma série de exemplos de famílias com renda superior a R$ 8 mil mensais que agora precisam conter custos, Época faz coro aos lamentos da dona de casa que se vê obrigada a reduzir seus gastos com cabeleireiro, de R$ 800 por mês – e agora tem que fazer hidratação facial em sua própria casa!

Também há o exemplo dos brasileiros de classes A/B que não aguentam mais pagar o preço do vinho nos restaurantes, porque não dá para manter esse hábito essencial e ao mesmo tempo custear o médico particular. Eles são obrigados a reunir os amigos para beber em casa!

A reportagem nota, com espanto, que na última década a renda dos 10% mais pobres subiu 91,2% acima da inflação, enquanto a dos 10% mais ricos subiu apenas 16,6%.

Há outras referências, mas bastam esses exemplos do que a revista chama de “calvário” da classe média tradicional.

O texto termina com um recado para seus leitores: “Eu era feliz e não sabia”.

A frase poderia ser bem outra: “É a distribuição de renda, cidadão”.

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Comentários

  1. Caio Postado em 06/Jun/2013 às 01:01

    não sei se quem gasta 800 em cabeleireiro é classe média, pra mim isso é classe alta (no máximo classe média alta, já que hoje em dia gostam de dividir as divisões), ou quem consome vinho em restaurantes, sei lá vai ver estou errado, eu até pensava que eu era classe média mas pelo jeito não sou essas revistas da editora abril são um lixo total, eu sei porque já me convenceram a assinar uma vez, não consegui ler, não creio que elas representam o pensamento da classe média em geral, talvez elas representem o que eles gostariam que a classe média em geral pense

    • Paulo Postado em 06/Jun/2013 às 09:25

      Estou traumatizado com o sacrifício dessas damas tão gentis.

  2. Caio Postado em 06/Jun/2013 às 01:03

    editora globo* mas a abril é a mesma coisa tbm

  3. Rafael Postado em 06/Jun/2013 às 01:10

    Classe media que ganha 8.000 reais? Ora se isso é classe média então sou pobre, não preciso mais lutar contra os comunas eles estão do meu lado só esqueceram de avisar a eles.

  4. Adriane Postado em 06/Jun/2013 às 08:17

    Bolsonaro Impressa (Veja) fazendo discípulos...

  5. Rodrigo Postado em 06/Jun/2013 às 09:48

    A classe média é a culpada porque agora muitos esquerdistas passam a integrar a elite econômica e temos de mudar o foco? Quanto ganha a filósofa que, apesar das últimas, ainda continuo a admirar, Marilena Chauí? O bolso dela a coloca em que "faixa" de renda? Não digo que ela não mereça a remuneração, muito pelo contrário, haja vista a produção intelectual da mesma. Quanto ganham os comentaristas, leitores e mesmo o autor do blog? Quanto ganham Lula e seu filho? FHC e filho(/as)? Quanto ganha Chalita? Alckmin? O Conde Suplicy (um dos poucos que ainda admiro)? O cuidado que temos de ter é não ficarmos a repetir chavões criados por nossa elite política (esquerdista e direitista), sem pararmos para pensar. Como uma pessoa amiga e a quem quero bem, respeitando a inteligência que tem, um dia veio me dizer: "sabia que Alexandre Garcia trabalhou no Banco do Brasil?" Eu disse que não sabia e que não entendia o que o cuscuz tinha a ver com as calças. Minha mãe também trabalhou, tenho amigos que trabalham. E daí? Qual a correlação de uma coisa com a outra? Quem trabalho no BB, ou na CEF ou seja lá aonde for, necessariamente tem seu discurso contaminado e há de ser execrado? Então, prezados, critiquemos, mas sem generalizações. Critiquemos também a nós mesmos, nossos amigos, nossos companheiros neoliberais e neoneoliberais, lembrando-nos que somos pagadores de impostos e, ainda que não estivéssemos na faixa de renda em que contribuímos mediante desconto na fonte, cidadãos brasileiros que somos, temos o direito de cobrar o tucano e o petista.

    • Michael Postado em 06/Jun/2013 às 14:09

      É o mercado da santa futilidade,propagada pela ideologia culturalista marcada por um esteticismo exagerado,inclusive cada vez mais incitado pela tecnologia estética em soma do processo neoclassicista da economia,tendo a beleza,lugar como mercadoria primordial.Nada contra a vaidade,mas o próprio perfil do exagero tem feito demasiadamente empobrecer não somente as mulheres,mas inclusive aos homens,em contextos de valores humanos.Parece besteira?Basta ver a dificuldade de grande numero de pessoas não colocarem o quesito beleza em primeiro plano.É péssimo este tipo de ideologia social.Os gêneros diante do medo da feiura relativa e da velhice inevitável,se adentram exageradamente no mercado estético,com fins a ressaltar sua beleza e eternizar sua juventude,seja 800 ou 10.000 reais.Pois bem,cada um faz o que quer,mas deveria,caso não percebeu,refletir acerca da indução criada sobre a sociedade e reproduzida sobre ela mesmo,acerca desta ideologia estética.Ao preço da eterna beleza,cada vez mais caro paga a natureza.

  6. Andrea Postado em 06/Jun/2013 às 09:59

    Não gosto de reportagem que estigmatiza e julga pessoas por terem uma determinada renda . Nem todo pobre é coitado e trabalhador e nem toda classe média alta, seja o que for, é pilantra e ganha dinheiro à custa do suor dos outros. Em ambas as classes há trabalhadores honestos e desonestos. A futilidade pode estar intrínseca na mente tanto de ricos quanto de pobres, quando o pobre compra a maior televisão da loja, o celular mais caro, ou até mesmo e mais comum, opta por manter um carro caro na garagem o que ele é? Trabalhador honesto, vítima do excesso do apelo de consumo, ele merece ter, sempre quis ter é do direito dele. Ok e é mesmo, viva a prosperidade! Agora se o mesmo trabalhador só que de classe média alta, que trabalha na iniciativa privada com metas absurdas, sofre alta concorrência, doa 10h,12h,14h por dia a empresa, exibe um carro mais caro, vai ao tal salão de beleza e gasta dinheiro, toma vinhos em restaurantes com os amigos o que ele é? Perante o julgamento de muitos FÚTIL. Isso é preconceito. Desde que comecei a trabalhar com a área de projeto social (há 6 anos), quebrei muitos paradigmas e o primeiro deles é o de que todo pobre é vítima e excluído em termos de oportunidades. O ser humano é muito mais complexo que estes estereótipos superficiais preconcebidos por alguns, o fator escolha e dedicação dificilmente são levados em conta por idealistas de gabinete, estes ainda preferem dar ênfase ao vitimismo oriundo de fatores como a renda e a cor. Concordo que há ainda é vexaminosa a desigualdade de renda em nosso país, isso não se altera do dia para a noite, mas felizmente estamos caminhando rumo a uma melhora. Só que para que isso ocorra, primeiro: Abaixo ao preconceito. Precisamos que a riqueza e a futilidade seja inclusive maior, mais aceita e menos criticada, no sentido de CONSUMO, afinal, o tal consumo fútil sustenta, e muito, o emprego de milhares de pessoas envolvidas nas cadeias produtivas e estas, dependem dessa futilidade para que também possam realizar os seus sonhos fúteis e viver uma condição de vida digna.

  7. Jorge Postado em 06/Jun/2013 às 10:52

    Relembrando do ódio da classe média contra a melhora de vida dos pobres http://geraldoalckminpsdb.blogspot.com.br/2010/11/elite-pig-globo-psedebista-com.html

  8. Rodrigo Postado em 06/Jun/2013 às 14:36

    Marilena Chauí, quando fala em Classe Média, fala sobre um conceito de Luta de Classes, como definido pelo pensamento de Marx, e não por renda. Para Chauí, um trabalhador que ganha medianamente bem não deixa de ser trabalhador. Classe Média para ela são as pessoas reacionárias, pequeno burguesas, que tem ideologia da mão de obra barata para que seus dengos sejam atendidos (ter empregada doméstica barata, ter cabelereira barata, ter funcionário barato, idealiza sobre afrouxamento dos direitos trabalhistas, fica puto ao ver que o filho de trabalhador hoje tá conseguindo ter o mesmo diplominha que o filhinho tem acabando com esse status elitista do diploma, etc). A luta agora é para que setores especuladores da economia e setores de produção consigam atender a demanda dessa nova classe média (do IBGE e não da Chauí), já que o aumento do consumo fatalmente gera pressões inflacionárias, tanto por oportunistas especuladores, quanto pela lei da oferta e procura. Uma inflação alta com certeza seria um retrocesso e causaria a regressão de boa parte das pessoas da 'nova classe média' de volta para o limite da pobreza. E o BC está sendo bastante prudente em relação a isso e tem uma margem boa para executar medidas de controle, ao contrário do que setores específicos da mídia de massa apregoa.

  9. Lucas Postado em 06/Jun/2013 às 15:21

    é óbvio que alguém tem que pagar a conta! recursos não aparecem do nada, então se para alguns (na verdade a maioria) está chegando mais, é claro que para outros chega menos. e não é exatamente essa a proposta? diminuir o abismo social no país não é o objetivo? se pra isso eu tenho que comprar um carro mais barato, evitar vodkas caríssimas ou deixar de fazer algo "essencial, só que não", tô dentro!

  10. Patricia Postado em 06/Jun/2013 às 17:34

    Ótima matéria, só tem UM erro nela, mas infelizmente é um PUTA erro. Não é distribuição de renda. É distribuição de CRÉDITO. Esse povo todo tá com a corda no pescoço e continua sem dinheiro.

  11. Nádia Postado em 06/Jun/2013 às 17:58

    Ai, sugeriu que a classe média é fútil, todo mundo se arrepia né! Me desculpe, mas gastar 800 reais com salão de beleza e dar mais de 500 reais de mesada pra uma adolescente é sim futilidade (a não ser que seu ganha-pão dependa da perfeição do seu corpo - modelos, atrizes, etc. E olhe lá). 800 reais é o salário de muito professor, meus caros. Os ~classe média~ acham um absurdo pagar muito mais que 800 reais pra uma empregada que limpa inclusive a privada deles. Então sim, é futilidade sim, no meu ponto de vista, que fica aqui embaixo, na classe que acabou de entrar pro consumo - e eu não tenho carro, nem popular, mas pude estudar, ainda bem. Mas o problema é outro. Eles querem ser fúteis e repugnantes, sejam, azar deles. Conheço gente rica dessa tal de classe média que não precisa ficar ostentando tudo isso aí. O problema, minha gente, é essa revistinha sugerir que, no fim das contas, é tudo culpa dos pobres. Se os pobres continuassem na pobreza de onde não deviam ter saído, eu, ryco, poderia continuar vivendo minha vida de ryco sem ter que me misturar à pobreza nos locais onde eu reinava - shopping, aeroporto, navio de cruzeiro. Mas não! Esse sapo barbudo tinha que vir aqui estragar meu conto de fada cor de rosa e colocar ~gente diferenciada~ comprando roupa da Zara também. "A reportagem nota, com espanto, que na última década a renda dos 10% mais pobres subiu 91,2% acima da inflação, enquanto a dos 10% mais ricos subiu apenas 16,6%." Na minha vida de classe média baixa, isso é motivo de comemoração. Os 10% mais pobres já não são tão pobres assim. Os ricos, bem, continuam ricos, parabéns pra eles. Mas a ganância não pensa assim. O governo deve trabalhar para EU continuar enriquecendo cada vez mais, não pra um pobre chegar perto de ser o que eu sou. Evidentemente, há diversos detalhes econômicos, dos quais de fato não entendo nada, que passam a ser peça fundamental quando mais consumidores entram no mercado. Mas cada vez que as manobras do governo favorecem a economia de forma que o pobre possa continuar consumindo e melhorando cada vez mais a sua vida, a classe média pula assustada da cama de plumas, e xinga o sapo barbudo por ter implantado essa ideia absurda de que pobre pode consumir também.

  12. Rodrigo Postado em 06/Jun/2013 às 18:45

    "Eles" "eles" "eles"... Os diferentes, os esquisitos, quem ousa discordar, o petralha ou o tucanalha, o reaça ou o revoluça, os do "nosso lado" e os "anti"... Um dia o Brasil ainda vai ouvir o "nós", ou seja, ver um povo com a consciência de unidade, sem discriminações trocadas, sem pré-conceitos trocados, todos, ao final, entendendo tratarem-se de seres humanos, cidadãos brasileiros, não consentindo com a vontade deste ou daquele político, esquerdista ou direitista, no sentido de tentar extirpar essa cidadania, essa condição humana, o intuito final destes sendo, sempre, manobrar mais facilmente o gado, ops, o eleitorado. Mais uma vez replico o quanto dito em comentário anterior: "Assim, concordo com Dom Hélder Câmara (antes de apedrejar a memória do falecido, lembrem-se da luta dele, durante a ditadura militar): ” Ninguém pretenda prender-me a um grupo, ligar-me a um partido, tendo como amigos os seus amigos e querendo que eu adote as suas inimizades. ” Dom Helder Câmara Centro de Convivência Dom Helder Câmara – Caucaia – Ceará Não sou cientista político, antropólogo, nem mesmo psicólogo, mas identifico algo muito conveniente aos políticos “esquerdistas” e “direitista”, nesse processo de rotulagem: o esquerdista não cobra a correção dos erros de seus companheiros no poder, o mesmo sendo feito pelo direitista. Ao contrário, ambos apenas atacam o “lado contrário”, escondendo seus erros ao dizer que “tudo é intriga da oposição”. Valendo-me do raciocínio de Lula, quanto à sua fala no debate com Alckmin (cobrado sobre os aloprados, disse que o filho apronta em casa e a mãe, muitas vezes, não sabe de nada), o filho (político direitista ou esquerdista) que não é cobrado pela mãe (eleitor), segue com as mesmas traquinagens de sempre, piorando-as… "

  13. Vinícius Postado em 06/Jun/2013 às 21:43

    Exatamente! Estas revistas tendenciosas que pregam uma economia selvagem (capitalismo selvagem), onde o pobre deve ficar mais pobre para o rico ficar mais rico devem começar a mostrar o lado do povo e não das madames que não podem mais fazer uma hidratação de ouro.