Luis Soares
Colunista
Compartilhar
Aborto 10/Jun/2013 às 13:01
15
Comentários

Os espermatozoides de Arnaldo Jabor

A masturbação, condenada pela igreja, ainda não é proibida por lei. Mas em tempos de um Congresso dominado por correntes que querem ditar padrões de dogmas inspirados em crenças sobrenaturais, tudo é possível…

Rui Martins, Direto da Redação

Católicos, evangélicos e espíritas tramam no Congresso uma nova lei protegendo os embriões, a partir do encontro do espermatozóide com o óvulo feminino. Será a lei anti-aborto, mesmo em caso de estupro e de falta de cérebro no feto.

Lembro-me ter lido, ainda na minha época da CBN, uma crônica do Arnaldo Jabor que, entrava no ar pouco antes ou pouco depois de mim, chamado ao vivo pelo Heródoto Barbeiro.

arnaldo jabor nascituro

(Arnaldo Jabor – Reprodução)

Contava o cronista, numa linguagem desabrida, lembrando de sua época de internato em escola de padres, que se sentia como um criminoso ao ejacular depois de se masturbar e deixar cair no vaso ou no bueiro do chuveiro tantos espermatozóides, assim impedidos de chegarem a óvulo feminino.

Por certo, seus professores padres, no louvável afã de impedirem aos seus alunos se tornarem viciados na punheta, tinham lhes embutido no cérebro a idéia de que cada um daqueles fiozinhos cabeçudos, disparados cegamente à busca de uma fecundação, já tinha alma ou espírito.

Assim, milhões e milhões de almas, em lugar de irem ao céu ou na pior das hipóteses para o purgatório ou para o inferno, iam diretas para o esgoto. Essa quantidade vai muito além de milhões, bilhões e trilhões, é preciso se botar muitos zeros a mais nisso, se somarmos aos espermatozóides do Jabor os dos adolescentes, os de tantos milhões de homens solitários, solteiros e viciados que se desafogam diariamente.

Leia também

Lançar trilhões de almas perdidas nos esgotos deveria ser um crime hediondo, merecedor de um castigo divino mais severo que o inferno, a começar pela castração.

Isso, é claro, se cada espermatozóide na sua trajetória doida e inconsciente tivesse alma. Se cada um deles já fôsse um ser humano. Não é o caso, mesmo porque se fossem seres humanos deveriam ser todos condenados por concorrência e brutalidade, pois só um deles, no caso de haver óvulo no final do túnel, é o premiado com a possibilidade de provocar uma gravidez. É como num acidente de trem, ônibus, avião ou discoteca, quando só há uma porta des saída.

Esse pesadêlo do Jabor, que já foi e é de tantos adolescentes, não é ainda punido por lei, mesmo se a masturbação é condenada pelas igrejas. Mas, atenção – se um desses velozes espermatozóides chegar no óvulo feminino e se iniciar o processo de fecundação e formação do feto, garantem os religiosos já haver ali uma alma e ser pecado mortal intervir. E, por isso, tais religiosos são contra qualquer tipo de aborto, mesmo se a mulher grávida quiser abortar.

Não importa, segundo eles, se o feto é fruto de um estupro, numa menina por um adulto, se tem defeitos físicos e se falta ao feto todo ou parte do cérebro. O absurdo dessa loucura religiosa é de querer criar mesmo uma Bolsa Estupro para a mulher que não pôde abortar mas cujo filho indesejável foi fruto de violência sexual.

Nessa tentativa absurda de violência contra a mulher uniram-se representantes dos três principais ramos religiosos no Brasil, o católico conservador e reacionário Miguel Martini, o espírita em defesa de almas revoltadas por verem frustradas sua reencarnação, Luiz Bassuma, e o evangélico Eduardo Cunha, relator do projeto.

Tenho lido muitas manifestações de protesto de mulheres e homens e mesmo a advertência de que devemos nos mobilizar para impedir que a conjugação das forças religiosas reacionárias acabem com o nosso Estado laico e queiram ditar padrões de dogmas inspirados em crenças sobrenaturais, que não resistem a uma análise científica.

Sempre defendi o direito de todo religioso ter acesso à sua crença, porém, em contrapartida, os religiosos não podem querem impor à toda população os preceitos ditados por suas religiões. Se são contra o aborto, que suas mulheres não abortem, mesmo se forem estupradas por um padre ou pastor ou medium. Não vamos permitir que se faça no Brasil o que radicais islamitas estão fazendo nos países mediterrâneos, depois de roubarem dos jovens a revolução da primavera, retirando todos os direitos dificilmente conquistados pelas mulheres e criando um Código penal baseado no Corão.

O mais estranho é que Jesus, adorado por esses religiosos, teria dito que seu Reino não é deste mundo. Então, por que seus seguidores querem agora tomar o Parlamento, governar e editar leis religiosas ? Não lhes basta um Estado de direito que lhes garante a liberdade de culto, de pregação e mesmo de conquistar novos seguidores?

Nota do autor. Lembro-me de ter ouvido falar, pela primeira vez, em Jabor, lá pelos idos de 1968, quando ele fizera uma curta-metragem, ao que me parecia de esquerda, coisa que não é mais o seu forte, noticiado pelo Jornal do Brasil.

Recomendados para você

Comentários

  1. Jean Postado em 10/Jun/2013 às 14:20

    Texto incrivel!

  2. MAURO Postado em 10/Jun/2013 às 15:13

    Ridicula esta bancada, e mais ridicula ainda são as pessoas que concordam com tanta asneiras e idiotices proferidas e inventada por ela!

  3. Rodrigo Postado em 10/Jun/2013 às 16:41

    Quanto aos Espíritas, cabe informar que a doutrina espírita não profere a condenação ou discriminação contra quem quer que seja. Ao contrário, a doutrina informa, ensina que cada indivíduo é responsável pelos seus atos, de modo a, necessariamente, em caso de falta cometida, o próprio indivíduo promoverá a reparação que lhe for oportunizada, compatível com seu nível de evolução espiritual. A cada indivíduo, para a doutrina, é concedido o livre arbítrio, mas não pode desvencilhar-se da Lei do Retorno/de causa e efeito, sendo responsável por seus atos e sempre sendo-lhe concedida a oportunidade de aprendizado e reparação. Ou seja, a falta praticada não o condena à danação eterna, apenas retardando seu necessário progresso evolutivo, no processo reparatório recebendo o auxílio de espíritos fraternos. A doutrina profere, pois, a evolução de todos, a capacidade de todos a alcançá-la ou retardá-la, a partir das escolhas livres individuais, bem como o respeito às demais religiões e mesmo àqueles que exercem seu direito de não crer em nenhuma.

  4. MARIA DE LOURDES CARDOSO Postado em 10/Jun/2013 às 22:24

    Os religiosos não estão preocupados com aborto ou família. Eles querem ser ouvidos a qualquer preço, querem comandar, querem o poder. Dá medo da forma como interpretam ao pé da letra e sem nenhuma instrução a Bíblia. "Não lhes basta um Estado de direito que lhes garante a liberdade de culto, de pregação e mesmo de conquistar novos seguidores." São islâmicos.

  5. Juliana Postado em 10/Jun/2013 às 23:14

    Parabéns pelo texto, expôs tudo que queria falar de forma clara e maravilhosa.

  6. Mauro Postado em 11/Jun/2013 às 11:13

    Ontem ouvindo um comentário deste Arnaldo Jabour, fica claro como o cara é reacionário, no final do texto, ele mandava os americanos usarem o Drone a vontade para matar o povo islâmico, não sabe este imbecil, quantas crianças, mulheres e idosos inocentes morrem a cada ataque, quanto ao assunto em questão, o que o Rodrigo fala faz sentido, pelo que conheço do espiritismo Kardecista, ele apenas orienta, não obriga a ninguem fazer o que eles falam, a pesoa tem o direito de fazer o que quiser, apenas as possíveis consequencias é que são informadas!

  7. Nádia Postado em 11/Jun/2013 às 11:25

    Texto esclarecedor para pessoas esclarecidas. No entanto, pessoalmente, ando de saco tão cheio de argumentar com portas, que prefiro nem investir mais tempo nisso. Quem deveria ler um texto como este e entendê-lo e etc não o faz, quem lê já sabe de tudo que está aí. Só gostaria de aproveitar o espaço para deixar uma opinião sobre essa história toda. Desde de que a grobo decidiu que iria tentar criminalizar o programas de transferência de renda (dando cunho pejorativo a qualquer coisa cujo nome se inicie com a palavra 'bolsa'), falar em Bolsa alguma coisa é motivo de críticas, algumas vezes (muitas) sem fundamento lógico. Fala-se na 'Bolsa-estupro', que certamente não tem esse nome oficialmente (e nem teria se virasse realidade) que seria uma maneira do Estado garantir que a mulher grávida de um estuprador pudesse sustentar o filho, caso não abortasse. No caso, de acordo com este estatuto patético, a mulher jamais poderia abortar, então o Estado iria prover a subsistência da criança até a maioridade. Isso, em si, é tão condenável assim? Na minha visão, a parte condenável é a parte em que não se dá à mulher a escolha de gerar o filho ou interromper a gravidez. Mas será que o Estado não pode prover alguma compensação à vida destroçada dessa mulher? E se ela não quiser, de fato, abortar? Poucos pensaram que a mulher vítima de estupro PODE querer não abortar, porém merece apoio do mesmo jeito. E não venham dizer que isso é comprar a mulher, ou que geral vai começar a inventar estupro pra ganhar a bolsa. O problema é, como falei: se vem com o nome (dado pela grobo, foia e óia) de 'Bolsa-qualquer coisa', é automaticamente condenável, é compra de voto, é populismo, é culpa do Lula, é esquerda, é petralha. Já chega desse discursinho esquerda-direita, é hora de analisar com racionalidade as situações.

  8. Karine Postado em 11/Jun/2013 às 11:44

    Excelente texto. Muito bom também seu comentário Nádia. Não podemos deixar este retrocesso acontecer. Por mais que estejamos assustados (ao menos, estou) com esses "salvadores da palavra" que andam por aí, e mais ainda com o número de apoiadores/adoradores que eles tem.

  9. vanessa Postado em 11/Jun/2013 às 13:23

    Excelente texto!

  10. Eduardo Postado em 11/Jun/2013 às 14:05

    Dona Nadia, perfeito seu comentário, muito mais ainda pelo princípio quando a senhora diz que não gostaria de comentar mais, devido a mesmice de opiniões e da hipocrisia que existe, visto que como a senhora mesmo disse, os que deveriam entender não lê, e os que já entendem é que leem... o Texto é incrivelmente correto, mas eu o resumo em algumas palavras...VIDA e LIBERDADE DO QUE SE QUER DELA. Os caminhos são apenas dois, um para plenitude e o outro para ignorância e insencibilidade para com os semelhantes.

  11. Patricia Postado em 11/Jun/2013 às 18:14

    @Nádia: não faz sentido algum. Se você der a liberdade de escolha a mulher, entende-se que apesar da violência sofrida por esta ela ESCOLHEU por conta própria manter a criança e deverá, como tal, arcar com o ônus de sua escolha. A "bolsa" se justificaria porque através do estatuto o Estado estaria negando completamente à mulher a capacidade de escolha, convertendo-a em não mais que mero "vaso", uma incubadora para uma suposta nova vida.

  12. Rodrigo Postado em 12/Jun/2013 às 23:42

    "A mulher é um vaso"... Essa é ótima, para não se dizer triste (digo do aborto ser banalizado e visto como método "contraceptivo", em louvor à irresponsabilidade quanto à educação sexual e seu exercício, mas não dos casos em que a lei e jurisprudência - estupro, risco à vida da mãe e anencefalia - autorizam o aborto). Curioso seria a hipótese de a gestação caber ao homem, ao que, este resolvendo "escolher" findar o início do desenvolvimento de um ser, substituindo a vontade daquele a quem mais interessaria. Seria prontamente chamado de "porco machista assassino, violento, que não dá ao inocente a chance de se defender".

  13. Vanessa Postado em 05/Aug/2013 às 12:46

    Excelente texto. Sou espírita. Sou contra o aborto em todos os casos. Pra mim! E apenas. Acho desumano impor uma crença a outras mulheres, principalmente aquelas que sofreram uma violência da qual não consigo mensurar o sofrimento. Da qual a simples possibilidade de sofrê-la apavora todas as mulheres. Me sinto constrangida de ver representantes da religião que eu sigo pressionando o Congresso para aprovar aberrações legislativas. E sei que isso vai contra o principal princípio das próprias religiões e principalmente do espiritismo que é o amor ao próximo e a caridade. Onde está a caridade com essas mulheres violentadas? Acho que as religiões têm outras bandeiras mais importantes do que tentar impedir mulheres de exercer seus direitos e receber tratamento após violência. Se é contra o aborto em caso de estupro, se for estuprada não aborte. Simples assim!

  14. Leonardo Cezar Postado em 11/Aug/2013 às 03:40

    Ê Brasilistão...