Redação Pragmatismo
Compartilhar
Racismo não 14/May/2013 às 14:56
17
Comentários

A ironia de Machado de Assis sobre a Abolição da Escravidão

A fina ironia de Machado de Assis sobre a Abolição da Escravatura. Na crônica abaixo, o saudoso escritor aborda a questão do “fim da escravidão”, que havia ocorrido oficialmente no dia 13 de maio de 1888

Por Machado de Assis

Bons dias!

Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

machado de assis racismo escravidão

Machado de Assis. Crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888. (Foto: Arquivo)

No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…

Leia também

– Oh! meu senhô! fico.

– …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…

– Artura não qué dizê nada, não, senhô…

– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

– Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.

Boas noites.

Texto extraído do livro; Assis, Machado de. Obra Completa, Vol III. 3ª edição. José Aguilar, Rio de Janeiro. 1973. p. 489 – 491.

Recomendados para você

Comentários

  1. João Eduardo Postado em 15/May/2013 às 14:59

    Simplesmente genial e atualíssimo.

    • Jean Carlos Postado em 15/May/2013 às 15:10

      Genial. Machado está ironizando o público com consciência culposa da época ao mesmo tempo em que ironiza quem acredita que apenas em tornar-se legalmente livre o negro, este conseguiria tornar-se Professor de Filosofia na universidade do Rio de Janeiro (das COBRAS!). E não só isso: o negro continuaria a ser massa de manobra nos dados oficiais da estatística assim como no palavrório dos políticos profissionais para angariar votos em tempos de eleição. A desigualdade social permaneceria ao longo do século XXI com a cor preta e parda. Foi essa a previsão do profeta na abertura do texto.

  2. matzit15 Postado em 15/May/2013 às 15:28

    "[...]os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela[...]"-Genial!

  3. Jamilton Postado em 15/May/2013 às 15:37

    O maior escritor brasileiro de todos os tempos. Grande Machado de Assis, nos deixou uma riquíssima obra literária.

  4. Manuela Postado em 14/Jun/2013 às 05:50

    ironia? mas ele não era escravocrata, defensor da eugenia?

    • Fátima Polo Postado em 05/Nov/2014 às 12:16

      Brilhante Machado de Assis: retratou com maestria a técnica de políticos... Antecipar-se à lei à véspera de sua sansão... Espertalhões! E quase nada mudou desde a instituição da Lei Áurea... Escravos continuam a ser não só os negros, mas os de outros grupos étnicos... A manutenção da pobreza é a garantia de disponibilidade e diversidade de escravos em potencial; por isso a resistência às tantas mudanças necessárias, entre elas a instituição e a prática de políticas sociais... Elite gananciosa luta mesmo é por manutenção da escravidão, enrustida, acobertada pela CLT, que tentam derrubar a qualquer custo; não largam mesmo esse osso.

      • Mario Santos Postado em 05/Mar/2015 às 23:28

        Brilhante analise Fatima. O negro brasileiro teve a alforria, mas continua escravo!

    • Verluce de Souza Ferraz Postado em 28/Dec/2014 às 17:50

      Machado de Assis "escravocrata, defensor da eugenia?" - Ele era muto discriminado, isso sim, e ninguém via Machado de Assis como sendo filho de uma portuguesa - discriminavam-no por ser filho de pobres e por ser mulado.... Sua mãe, portuguesa (da Ilha de São Sebastião, Açores), mas pobre. Seu pai, um bisneto de um padre português que teve um caso com Rosa, uma escrava; daí Machado sair mais ao pai - mulato...

    • Luiz Pessoa Postado em 05/May/2015 às 04:26

      Monteiro Lobato que era. Agora a Ironia maior é que Machado foi tão grande que de mulato (pardo ou moreno) foi descrito como branco em seu óbito.

  5. gerson rignel Postado em 06/Nov/2014 às 17:49

    A raiz de nossa desigualdade está na falta de um projeto de nação...Aqui por essas plagas todos querem uma casa com muros eletrificados, dois carros na garagem, uma casa na prais e o resto que se arrume......

  6. Elza Mascio Jorge Postado em 28/Dec/2014 às 11:57

    Ainda hoje temos uma escravidão tão cruel quanto a antiga, e os políticos vivem dizendo que vão aboli-la: é a inexistente qualidade de ensino público. Os brasileiros desfavorecidos pelo local de nascimento (famílias muito pobres) continuam escravos, sem saber que o são.

  7. @cabrito2606 Postado em 29/Dec/2014 às 18:57

    Genial? Onde, o quê? Ele liberta com uma mão o que a outra arrastas na coleira de uma mentalidade em metástase escravista? Todos,a assim como Pancrácio, ainda não querem ir, mesmo que ordenado$ de valor indigno de alforriar. $arneys!!

    • Tammy Postado em 06/May/2015 às 12:13

      Cabrito, perceba a ironia do texto. Machado é sempre irônico. Jamais o leia literalmente! Cordial abraço,

  8. Renata Santana Postado em 15/Jan/2015 às 11:17

    KKKKK GENIAL!!! Entendo perfeitamente o sentido e a necessidade de antecipar-se à lei, a obrigatoriedade legal do ato. Cujo objetivo é sempre corrigir e ou, proporcionar. Aproveito o ensejo: eu já "cumpria" todos os direitos trabalhistas da minha funcionária do lar, bem antes destes se tornarem obrigatórios! Antecipemos à EVOLUÇÃO!!!

  9. adilson Postado em 28/Feb/2015 às 20:51

    Muito atual!

  10. Arlete Postado em 07/Mar/2015 às 14:46

    "Êle continua livre"... não sei se o conto continua, mas fico pensando até quando o narrador "suportará" manter o ex-escravo livre, pois que o espanca como antes. Será que vai lembrar de pagar-lhe o salário? Será que vai respeitar seu descanso? Como trabalhadora e branca, sei que a cultura da escravidão ainda persiste nas relações entre patrões/chefes e empregados/funcionários.

  11. Dóri Edson Postado em 05/May/2015 às 09:27

    Que pena ainda ser atual