Luis Soares
Colunista
Compartilhar
EUA 09/May/2013 às 15:34
12
Comentários

Leonardo Boff: A teatralização do atentado em Boston

Por mais que se manipule o atentado de Boston, por quanto tempo os poderosos ocultarão a situação dramática que pesa sobre nós? Oxalá acordemos todos, simplesmente porque não queremos morrer, mas viver e irradiar

Por Leonardo Boff (edição: Pragmatismo Politico)

Precisaria ser inumano e sem sentido de solidariedade e de compaixão não se indignar e não condenar o atentado perpetrado em Boston com dois mortos e centenas de feridos. Mas isso não nos dispensa de sermos críticos. Houve uma teatralização mundial do atentado com objetivos ocultos que devem ser desvendados. Atentados ocorrem muitos no mundo, especialmente na Síria, no Afeganistão e no Iraque na presença das tropas norte-americanas e dos aliados. Sempre com muitos mortos e centenas de feridos. Quase ninguém dá importância ao fato, já naturalizado e banalizado. Muitos pensam: trata-se de gente terrorista ou próxima a eles, incômodos à ocupação ocidental. Que se matem. Convenhamos: são seres humanos como aqueles de Boston. Mas as medidas de avaliação são diferentes. Sabemos o porquê.

Precisamos estar atentos ao significado político-ideológico da espetacularização do atentado de Boston. É uma forma de desviar a atenção mundial de questões muito mais fundamentais: a primeira é o estado de terror que o Estado norte-americano está impondo internamente a seus cidadãos e ao mundo inteiro. Com isso atraiçoa o que de melhor tinha: a defesa dos direitos fundamentais. Não fechou Guantánamo nem ratificou instrumentos internacionais importantes como o Tratado de Roma da Corte Penal Internacional nem a Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José de Costa Rica). Não quer que as violações e atentados que seus agentes perpetram pelo mundo afora para garantir o império sejam levados àqueles tribunais.

atentado boston leonardo boff

O sistema imperial vive buscando bodes expiatórios (antes eram os comunistas, depois os subversivos, agora os terroristas, os inimigrantes… quem mais?) sobre os quais recai o desejo mimético e coletivo de vingança. (Foto: Agência ABC News)

Mas pela ininterrupta ocupação das mídias mundiais (a nossa Globo estava em peso por lá) a propósito do atentado, os “senhores do mundo” querem desviar a atenção da segunda questão, esta sim, de consequências funestas e que pode afetar a todos: a ameaça do fim da espécie humana. Primeiro, estes “senhores” devastaram durante séculos o planeta a ponto de ele não poder, sozinho, recuperar sua sustentabilidade. Pelos eventos extremos, dá mostras de que os limites foram ultrapassados. Em seguida, no afã de acumular ilimitadamente e dominar o processo de planetização da humanidade, montaram uma máquina de morte que ameaça a vida na Terra e pode trazer o armagedon para a espécie humana.

Notáveis cientistas do mundo e os mais sérios teóricos da ecologia chamaram atenção para esta ameaça real. Apenas não sabemos exatamente quando e como vai ocorrer. Mas mantido o curso atual das coisas, ela será fatal. Michel Serres, renomado filósofo francês da ecologia já o disse: depois de Hiroshima, Nagasaki e agora de Fukushima, a humanidade descobriu um novo tipo de morte: a morte da espécie. Sim, como Gorbachev não se cansa de repetir: podemos destruir toda a espécie humana, sem restar nenhum testemunho, com as armas químicas, biológicas e nucleares que já construímos e estocamos. Segurança? Nunca é absoluta. Lembremos Three Islands, Chernobyl e Fukushima.

Leia também

Então: a nossa espécie realmente se mostrou o Satã da Terra: aprendeu a ser homicida (mata seus semelhantes), etnocida (quantos povos originários não foram liquidados?), ecocida (devastou ecossistemas inteiros) e agora pode ser especiecida (leva a própria espécie ao suicídio).

O sistema imperial vive buscando bodes expiatórios (antes eram os comunistas, depois os subversivos, agora os terroristas, os inimigrantes..quem mais?) sobre os quais recai o desejo mimético e coletivo de vingança. E assim se auto-exime de culpas e de erros. Mas principalmente faz de tudo para que esta ameaça letal sobre a espécie humana não seja lembrada e se transforme numa consciência mundial perigosa.

Ninguém aceita passivamente um veredito de morte. Vai lutar para garantir a vida e o futuro comum. Este deveria ser o objetivo de uma governança global que exige a renúncia de uma vontade imperial que pensa só em sua perpetuação em vez de pensar no Bem Comum da Mãe Terra e da Humanidade. Por mais que se manipule o atentado de Boston, por quanto tempo os poderosos ocultarão a situação dramática que pesa sobre nós? Oxalá acordemos todos, simplesmente porque não queremos morrer, mas viver e irradiar.

Recomendados para você

Comentários

  1. Altair Ahad Postado em 09/May/2013 às 15:52

    DISSE TUDO!!!

  2. Walter Dietschi Postado em 09/May/2013 às 18:56

    Bem isso, a coisa tá muito feia!

  3. André Postado em 09/May/2013 às 22:52

    Parabéns Leonardo boff, pela exposição clara das mazelas produzidas pela nação norte americana, que USA e abusa e depois se vê como vítima.

  4. Lua Luz Postado em 10/May/2013 às 09:40

    Leonardo Boff, você é foda, irmão <3

  5. Sérgio Postado em 10/May/2013 às 10:50

    Será que os países que são aversos ao EUA sabem dessas tragédias sem precedentes que se aproxima, por isso eles coíbem a introdução alienatória norte-americana em sua população? Cuba é um exemplo, será que a maioria está errada? e o a minoria certa?, o que será que ocorrerá com o mundo se continuar com essa evolução bélica? Pensamos bem, os países do oriente médio são impedidos de produzirem armas de grande destruição em massa e porque os próprios norte-americanos não são, porque a ONU está em seus domínios?. E no ataque aos palestinos feito por Israel, porque a mídia fez com que a massa populacional acreditasse que os palestinos eram os mal-feitores da história, e não Israel? se quem invadiu o território palestino e dizimou com sua população que lá habitava foram os israelenses com a ajuda dos norte-americanos, será que não se ver que a atual palestina é um enorme "PRISÃO A CÉU ABERTO"

  6. Larissa Postado em 10/May/2013 às 14:43

    A terceira guerra mundial irá seguir a lógica de Hegel: tese, antítese e síntese. Já inventaram o tal de capitalismo versus socialismo, agora apresentarão um governo único mundial que será uma mistura dos dois. O novo governo será a tal síntese, mas para isso, terá uma guerra que matará muita gente.

  7. Rômulo Postado em 13/May/2013 às 13:23

    Agora, me atendo especificamente à questão da destruição do meio ambiente provocada nos EUA. Porque essa mesma questão não é abordada com o enfoque na China? Lá, onde o Estado manda em tudo e em todos, ninguém nada comenta. Porque?

  8. Mlyra Postado em 13/May/2013 às 14:09

    Jamais seria contrário a um homem com a barba e a intelectualidade de Boff. Entretanto, este homem prova a cada texto, que deve ser admirado pela Barba, intelectualidade, bondade e lucidez. Grande Boff.