Luis Soares
Colunista
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Justiça 14/May/2013 às 10:28
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"Estou com medo do Supremo como tinha de general na ditadura", diz ator

Ator José de Abreu comete ‘tuiticídio’ após selar acordo com Gilmar Mendes, do STF, que moveu processo devido a críticas postadas na rede social: ‘Eu não sei mais o que eu posso dizer. Fiquei inseguro’

Rede Brasil Atual, Gisele Brito

José de Abreu saiu do twitter. A motivação foi o mesmo STF a que criticou durante todo o segundo semestre do ano passado. Seguido por mais de 75 mil pessoas, Zé de Abreu ganhou um problema quando suas declarações contra o ministro do Supremo Gilmar Mendes, em dezembro, renderam uma queixa-crime por injúria e difamação movida pelo magistrado. Na ocasião, o ator escreveu “E o Gilmar Mendes que contratou o Dadá? 19 anos de cadeia pro contratado. E pro contratante? Domínio do fato?”. A mensagem aludia a Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, preso pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo e apontado como espião contratado por Carlinhos Cachoeira.

josé de abreu gilmar mendes

José de Abreu: ‘Estou com medo do Supremo como eu tinha de general no tempo da ditadura’ (Foto: Reprodução)

Certo da derrota na disputa judicial, o ator desistiu de usar o processo para discutir a liberdade de expressão no país e fechou um acordo com Mendes em que se compromete a não mais proferir expressões ofensivas contra o ministro e a doar R$ 10 mil ao Hospital São João Batista, em Diamantino (MT), cidade natal de Mendes.

Na entrevista a seguir, Zé de Abreu diz se sentir inseguro para continuar a se manifestar e compara o medo que sente do Supremo com o que sentia de generais no período da ditadura. E afirma que pretende processar sete pessoas que usam o microblog para ofendê-lo. “Já me provaram que eu não posso escrever tudo que quero. Então eu também não quero escutar tudo que eu não quero.”

Leia trechos da entrevista realizada por telefone na tarde de ontem (13).

Você chegou a dizer que não iria se retratar e iria até o fim do processo para discutir liberdade de expressão. Por que resolveu selar um acordo agora?

O Código Penal não é o lugar para discutir liberdade. A partir do momento que ele vira um processo, é o Estado e o Gilmar Mendes, porque é um crime contra a honra, contra mim. Eu, obviamente, seria condenado, o juiz vai dar uma pena. O lugar para discutir isso era o Código Civil. As duas vezes que ele me processou foi por uma palavra, uma coisinha. Um twitter. Não um conjunto. Se eu for pegar todo mundo que me xinga de ladrão, de petralha, mensaleiro, sócio do José Dirceu ou coisas mais pesadas. Se for pegar esse tipo de coisa, tem centenas de milhares. Mas isso não dá para considerar.

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O que a gente está escolhendo é gente que fala coisas sérias. Mas é difícil, tem sete que tem pelo menos dez mensagens bem pesadas.

Então você pretende processar essas pessoas?

Pois é, acho que sim. Porque aí é a maneira de discutir se pode escrever tudo ou não. Já me provaram que eu não posso escrever tudo que quero. Então também não quero escutar tudo que não quero. Tem que ver até onde isso vai. Porque ser processado pelo Gilmar Mendes, que na semana passada era o homem mais poderoso do Brasil, pelo menos para a mídia… Você vê aquele monte de senadores, de todos os partidos, Pedro Simon (PMDB-RS), Ana Amélia (PP-RS), Randolfe Rodrigues (Psol-AP), a Marina Silva (Rede) foi lá na casa dele pedir (senadores foram ao Supremo para declarar apoio à liminar do ministro que impediu a tramitação do PL 14, de 2013, que restringe o acesso dos novos partidos ao tempo de rádio e TV no horário eleitoral e também aos recursos do fundo partidário). Quer dizer, todo mundo virou o baba-ovo dele e eu vou brigar sozinho?

Você se sentiu abandonado pelas pessoas que defende, por isso saiu do twitter?

Não. Abandonado, não. O Twitter você pode acompanhar mesmo sem estar nele. Não estou lendo com a mesma assiduidade. Entro para saber o que estão falando de mim.

Mas por que você fechou sua conta?

Sou muito compulsivo. Vejo uma injustiça escrita e vou para cima. Não consigo ficar pensando dez vezes antes de apertar o botão. Eu não sei mais o que eu posso dizer. Fiquei inseguro.

Essa judicialização acaba provocando o medo de falar?

Claro. Eu estou com medo do Supremo como eu tinha de general no tempo da ditadura. O mesmo medo. Todo mundo vai lá puxar o saco dele, até o Randolfe e a Marina. Me dá medo, me dá medo. É o mesmo pessoal que fez do mensalão esse espetáculo.

É um tipo de censura?

Não é uma espécie de censura. A coisa é muito sutil. Eu não falei nada do Gilmar Mendes que 500 mil pessoas no Twitter não tenham falado. Essa escolha por mim tem um sentido político. Tem um objetivo político. Eu saí na capa do O Globo duas vezes em solidariedade ao José Dirceu. Eu voltei a fazer política para acabar com esse mito do mensalão, no dia que o Zé Dirceu saiu da Casa Civil. Eu tinha certeza que essa história era uma farsa. Isso não sou só eu que estou falando, eu conversei com bastante gente e realmente tem endereço certo esse processo. Não é aleatório.

Você dá visibilidade ao tema…

Pelo menos uma visibilidade dentro de um núcleo de pessoas onde não havia essa visibilidade. Eu sou seguido por todos os grandes jornalista do Brasil, por pessoas que pensam. Tenho muitos seguidores por causa da novela, mas isso agrava mais a situação. De repente o telespectador de novela que só recebe informação de um lado estava achando que o PT só tem ladrão. Aí vê que seu ídolo, entre parênteses, seu ator favorito, tem uma outra visão sobre a história e fica botando links, frases, atacando e defendendo. Dizendo ‘meus amigos não são ladrões. José Dirceu não é ladrão, Genoino não é ladrão, o PT não inventou a corrupção no Brasil, o MST não é um bando de vagabundos’. Isso vindo de uma pessoa que, querendo ou não, tem um poder: eu tenho o poder da comunicação. E a Globo não se importa. Eu já fui lá perguntar um tempo atrás, voltei agora com essa história da candidatura e nada, nunca. Não há a menor possibilidade da Globo fazer qualquer coisa contra mim por conta da minha posição política.

Muita gente acreditava em uma reação da Rede Globo…

Talvez o Serra tenha ligado na época da campanha, não sei. Mas a Globo não dá a menor bola, não mistura mesmo. Nem pode misturar. A Globo não dá nem meu endereço para o oficial de justiça.

E você vai sair candidato a deputado no ano que vem?

Não. A família ficou muito contra. A gente conversou muito. Além da família ia ter uma diminuição muito grande de salário do que eu ganho na Globo e o que eu ganharia como deputado. É muita diferença. Eu não conseguiria viver. Eu tenho pensão alimentícia, tenho filho de 12 anos. Ajudo familiares. E tem a história do financiamento de campanha. Se fosse financiamento público até podia ser. Mas ter que sair captando dinheiro para fazer campanha… Eu não aguento fazer isso nem para fazer teatro pela Lei Rouanet. Deus me livre. O PT, óbvio que iria arcar com uma boa parte por meio do diretório nacional, mas mesmo assim.

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Comentários

  1. Raphael Tsavkko Garcia Postado em 14/May/2013 às 10:32

    Ele é realmente um palhaço. Canalha da pior espécie. http://governismodoencainfantil.tumblr.com/post/50387596317/a-rede-pt-atual-entrevistou-o-zedia-e-espera

  2. Herivelto Canales Postado em 14/May/2013 às 11:14

    Raphael Tsavkko Garcia, seu comentário pode gerar um processo por parte de José de Abreu. As piores canalhices vêm daqueles que deveriam apoiar a liberdade de expressão, mas que normalmente, se beneficiam do cargo para calar as pessoas, impondo de maneira escancarada quem é que manda neste país. Seus pensamentos, assim como de todos os direitista sem causa, são previsíveis e repetitivos.

  3. Lavínia Postado em 14/May/2013 às 11:22

    Desculpa, mas eu vejo um ator global que falou o que quis e pagou por isso. Nada mais do que isso. Falar o que não deve pela internet é isso. Internet não é "terra de ninguém". Não defendendo Gilmar Mendes, afinal, não o conheço, mas o ator em questão disse coisas sem conhecimentos de fato. Aliás, quem é José de Abreu para dizer algo sobre Monte Carlo, Dadá, Teoria do Domínio do Fato e Supremo Tribunal Federal. Sem contar que uma pessoa de idade avançada como ele, que viveu os tempos da ditadura, comparar a postura de defesa do ministro do STF de simplesmente apresentar uma queixa crime contra ele, é uma piada!!!!! Ridículo! Sensacionalismo e vitimização.

  4. Cacique Postado em 14/May/2013 às 14:03

    O comentário de José de Abreu sobre o Gilmar Mendes não tem nada de mais. Não é mais ofensivo do que a piada da falta do dedo do Lula, que todo mundo faz. E é menos ofensivo do que os comentários acima. Se fôssemos usar os parâmetros de Gilmar Mendes, cada edição de Veja renderia no mínimo uma meia dúzia de processos. Gilmar Mendes tentou e conseguiu intimidá-lo simplesmente porque não gostou do que ouviu. A mensagem não foi ofensiva e muito menos mentirosa. A postura do ministro é anti-democrática. Na democracia, conviver com o diferente faz parte. Ouvir o que não se quer, também. Divergir não é caso de polícia. Ou pelo menos não deveria ser.

  5. Wesley M Fonseca Postado em 14/May/2013 às 16:17

    Ele não se expressou ele levantou uma possível acusação, a burrice as vezes custa caro!

  6. Pablo Postado em 14/May/2013 às 22:19

    Impressionante como as pessoas continuam confundindo democracia com esculhambação... Na democracia és livre para expressar o que pensa, mas tens que entender que precisa assumir as conseqüências do que falou! Se o que dizes for ofensivo a outrem correrás o risco de responder judicialmente pela ofensa. Na justiça terás o direito de ampla defesa! Isto é democracia! O que ocorreu com este ator medíocre não tem nada a ver com censura!

  7. Rômulo Bittencourt Pereira Postado em 23/Jun/2013 às 13:21

    É engraçado como a Democracia para alguns está conectado ao PC (Politicamente Correto) e ao que a maioria acha certo. Não é! A verdadeira Democracia é um fórum permanente de discussão onde as ideias e ideais tem lugar garantido tanto nas minorias quanto nas maiorias. Se manifestar e protestar contrário ao que se acha certo, também é Democracia! Portanto, quando um ator de expressão como José de Abreu se colocar a favor de José Dirceu, não deveria ser algo q o colocasse no ostracismo, limbo ou condição que não se possa se defender simplesmente porque o Juiz do Supremo ficou ofendido com que foi dito a respeito dele! Ele, é pessoa pública! Tanto quanto é o ator José de Abreu! Mas quando se utiliza a força do supremo tribunal, a justiça como instrumento intimidatório e o poder do próprio juiz em um ambiente em que o ator já inicia o processo derrotado, aí sim, é hora de se questionar que tipo de Democracia queremos e estamos praticando. Porque o juiz não vai discutir isso na coxia ou no Teatro? Tenho certeza q neste ambiente o ator teria mais chances. Indo além, qdo a classe média vai as ruas reivindicar em hordas por mudança, acredita-se que eles representem a maioria prq a mídia amplifica milhares em milhões, como se todos eles representassem o todo, mais sabemos que isso não é verdade! Tudo é uma questão de perspectiva, apenas isso.