Luis Soares
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Racismo não 09/May/2013 às 14:46
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Entenda as diferenças entre preto, pardo e negro

Especialista diz não ser correto, para efeito de pesquisas, reunir pardos e pretos em um só grupo, de negros. Segundo ele, a discriminação contra os pretos é muito maior do que a verificada entre as pessoas que se autodeclaram pardas

A divulgação, por parte da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), de notícia sobre a ausência de pessoas pretas nos cursos mais concorridos da Universidade de São Paulo (USP) alimentou uma polêmica sobre a forma mais correta de se classificar a população pela cor ou raça. Com a bandeira do “politicamente correto” levantada, alguns defenderam que seria melhor utilizar os termos negros ou afrodescendentes. Mas é errado chamar alguém de preto?

O debate começou porque a Fuvest, responsável pela seleção dos alunos da USP, adotou o padrão de classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divide a população do País em cinco grupos: pretos, pardos, brancos, amarelos e indígenas.

negro preto pardo brasil

Qual a diferença entre preto, pardo e negro? (Imagem: Reprodução)

A alegação é histórica: o primeiro censo demográfico do Brasil foi feito em 1872 e perguntava aos brasileiros em qual dos quatro grupos eles se enquadravam: preto, pardo, caboclo ou branco. Ao longo de mais de 140 anos, foram feitas algumas mudanças na nomenclatura, mas ainda não há consenso sobre a forma de classificar a população.

José Luiz Petruccelli, que faz pesquisas sobre diversidade racial há mais de 20 anos no IBGE, reconhece que a classificação pode ser aprimorada, embora defenda que o modelo segue uma série histórica e mudanças poderiam prejudicar a comparação dos dados. “Esse é um tema muito polêmico. Alguns defendem que deveríamos usar a classificação negro, mas o negro é uma identidade social. Leva em conta uma visão política, a identidade de um povo muito mais do que a cor da pele”, defende.

O especialista diz não ser correto, para efeito de pesquisas, reunir pardos e pretos em um só grupo, de negros. Segundo ele, a discriminação contra os pretos é muito maior do que a verificada entre as pessoas que se autodeclaram pardas, e essa diferença precisa estar presente nos levantamentos demográficos. “Existe diferença no comportamento social entre pretos e pardos: quanto mais escuro, mais discriminado”, afirma.

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Já a União de Negros pela Igualdade (Unegro), organização de movimentos sociais criada na Bahia e presente em 24 Estados, defende que o mais adequado é usar o termo negro, embora aceite as regras do IBGE. “Como não existe um critério científico para essa classificação, acordou-se em usar a nomenclatura do IBGE para pesquisas, que seria o mais próximo do viável”, disse Alexandre Braga, diretor de comunicação da entidade.

Apesar de concordar que quanto mais escura a cor da pele, maior a discriminação, a Unegro acredita que o IBGE possa vir a usar apenas a classificação negro no futuro. “As pessoas se identificam mais como negras do que pretas ou pardas”, afirma Alexandre.

Preto e pardo

Nas pesquisas do Censo feitas pelo IBGE, é apresentada uma relação com as cinco nomenclaturas utilizadas e as pessoas precisam indicar a qual cor pertencem. Segundo Petruccelli, cada pessoa tem liberdade para dizer a sua classificação. Ele explica que pretos normalmente são as pessoas que se enxergam com a cor mais escura. Mas em relação aos pardos não há consenso. “Normalmente são as pessoas que se classificam como ‘morenas’ ou ‘mulatas’, mas isso depende na região”, afirma.

O pesquisador diz ainda que nas regiões Sul e Sudeste, a população que se declara parda normalmente é de origem africana. Porém, no Norte, muitos pardos são, na verdade, descendentes de indígenas. Ele ainda conta uma história curiosa sobre a situação no Distrito Federal. “A população local, por mais branca que seja a sua pele, se classifica como parda porque vê os brancos como os funcionários públicos que vieram de fora”.

De acordo com o pesquisador do IBGE, a presença de pretos é menor no Brasil, por isso existe a tendência em reunir pardos e pretos em um grupo de negros. Ele diz que apenas para as pesquisas o termo não se aplica, mas que na convivência social é válido agrupar as duas nomenclaturas. Para o representante da Unegro, ocorre também a resistência em assumir a cor preta e muitos preferem ser incluídos na lista dos pardos – que seria uma forma intermediária. “A identidade do negro é muito maior, por isso defendemos a utilização desse termo”, afirma.

E o afrodescendente?

De acordo com o diretor da Unegro, o termo afrodescendente – ou afrobrasileiro – está em desuso. “Acredito que hoje seja muito mais adequado chamar alguém de negro do que de afrodescendente. Essa é muito mais uma nomenclatura política, de ação dos movimentos sociais na luta contra discriminação do que para designar a cor”, explica.

com Portal Terra

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Comentários

  1. Rodrigo Postado em 09/May/2013 às 18:29

    A diferença é que... Aliás, a semelhança: todos são seres humanos! Uns com mais, outros com menos melanina na pele. O pai de um grande amigo me diz o seguinte: "preto é cor e negro é raça". Eu, se fosse usar tais definições, seria pardo, por ser descendente de índios, brancos e negros, além de Nordestino (baiano). Tudo com muita satisfação, assim como ficaria satisfeito se fosse branco, índio, oriental, esquimó etc. Só fiquei pensativo quanto à cota para negros. Os pardos serão excluídos? É essa a razão nas entrelinhas do texto? Espero estar errado e que superemos essa necessidade de definir quem é negro, branco, pardo etc.; quem é religioso ou ateu; quem é homo ou heterossexual; homem ou mulher; "reaça" ou "revoluça"; entendendo que definições não são, por si só, atestados de idoneidade ou de falta da mesma, ao contrário, implicando em falha tentativa de criar equivocados grupos de pessoas que se julgam mais perfeitas que as demais.

  2. Magali Postado em 11/May/2013 às 07:14

    Meu filho vai se inscrever este ano p o vestibular e não sabe se é branco ou pardo...aparentemente é branco...meu bisavô era português mas minha bisavó era indígena e temos olhos puxados...meu registro de nascimento diz q sou parda, mas minha pele é clara... estivemos pesquisando no Google e chegamos a conclusão q todo brasileiro é pardo...

  3. Gessica Justino Postado em 05/Jun/2013 às 10:54

    O termo "negro" era dado pelos colonizadores a qualquer pessoa que se submetesse a escravidão. Logo, escravo = negro .Aqui l somos o único país que abraçou esse termo e relacionou aos africanos e afrodescendentes escravizados. Em outros países, inclusive da Europa, chamara alguém de negro tem caráter discriminativo. Penso que o mais ideal seria denominar PRETO.

  4. Hudson Moraes Postado em 17/Jun/2013 às 18:50

    Eu odeio a palavra negro, justamente porque ela designa raça, coisa que não existe na espécie humana. Por isso faço questão de chamar os pretos de pretos. Todos que me ouvem consideram isso ofensivo, mas é o cúmulo do absurdo. Por que ser chamado de preto seria mais ofensivo que ser chamado de branco? Não faz nenhum sentido, a palavra é meramente descritiva. A palavra negro é muito mais complicada de se usar, pois envolve outras nuances, tais como os traços faciais ou o tipo de cabelo. Ninguém nunca chegará a um consenso sobre quem merece ou não ser chamado de negro. É muito mais simples usar a palavras preto, pardo e moreno.

  5. Agora sim Postado em 16/Jul/2013 às 04:49

    Estou esperando a reparação histórica pelos atos de injustiça cometidos pelo império romano... Ensino Fundamental e Médio é lugar de inclusão, de esforço para melhorar, de lugar aonde podemos nivelar desigualdades intelectuais decorrentes de problemas sociais. Agora, me desculpem, FACULDADE É LUGAR DE MÉRITO INTELECTUAL.

  6. Murilo Postado em 24/Jul/2013 às 04:23

    Não Gessica, você está totalmente equivocada. No Brasil ESCRAVO era escravo, uma condição jurídica; PRETO é o africano recém chegado; CRIOULO é o preto nascido no Brasil. Ou seja: você poderia ser um preto escravo ou liberto, um crioulo escravo ou liberto. De forma simplista, o termo negro foi cunhado com um fim político, o de reunir as pessoas da cor preta que tem origens semelhantes e experiências semelhantes de submissão ao europeu; isso para que essas pessoas que carregam a "insignia da cor" (termo de DU BOIS) se unam e retirem a ideia negativa acerca dos afrodescendentes. Dê uma pesquisada sobre o pan-africanismo.