Luis Soares
Colunista
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Meio Ambiente 24/May/2013 às 10:33
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A história das crianças envenenadas pelo agrotóxico da Syngenta

A história do envenenamento de crianças pelo agrotóxico da Syngenta em Goiás

O mono-motor sobrevoou, às 9h20, do dia 03 de maio de 2013, a escola pública “São José do Pontal”, localizada no Projeto de Assentamento “Pontal dos Buritis”, que abriga 150 famílias, às margens da Rodovia GO-174, no município de Rio Verde (GO), situada a 130 km da área urbana.

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No dia 17, foi descoberto que sete casos necessitariam de acompanhamento médico especializado, por terem sido diagnosticados problemas nos rins e fígados das crianças (Foto: Reprodução)

Num período de 20 minutos, o piloto sobrevoou por cinco vezes a escola, em especial a quadra de concreto, molhando com o pesticida “Engeo Pleno”, da empresa Syngenta, 60 crianças que ali se encontravam.

Os alunos, com idade entre 4 a 16 anos, que naquele momento lanchavam a céu aberto, engoliram o composto denominado piretroide (classe toxicidade 3 e 4), sem conhecimento perigo no primeiro instante.

Em seguida, todos já afetados pelo veneno sentiram, no primeiro momento, coceira na pele, falta de ar, tonturas e problemas na visão. Logo após, várias crianças desmaiaram, enquanto outras tentaram se livrar do pesticida, se lavando com água e sabão. Os professores pediram ajuda por telefone.

A maioria das vitimas foi levada para a cidade mais próxima, Montevidio, localizada a 30 km. Dessas, 28 ficaram internadas no hospital municipal, vomitando, com a boca seca e sentindo tonturas permanentes.

Alguns alunos foram socorridos pelos próprios pais, que os transferiram para a Unidade do Pronto Atendimento – UPA, na cidade de Rio Verde, tendo recebido alta no dia 5 de maio de 2013.

No dia 17 deste mês, as crianças retornaram ao UPA Rio Verde e, no dia seguinte, foi descoberto que sete casos necessitariam de acompanhamento médico especializado, por terem sido diagnosticados problemas nos rins e nos fígados.

As denúncias foram registradas junto a Agência Goiana de Defesa Agropecuária – AGRODEFESA, no IBAMA e na Policia Civil, cujas instituições estão investigando o caso, que não se trata de fato isolado, conforme informa o Delegado Danilo Carvalho, responsável pelo 8º Distrito Policial, e considera o acidente como crime federal. O piloto e a empresa responsável pela aeronave (Aviação Agrícola Agrotex LTDA) foram multados.

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O engenheiro agrônomo da Cooperativa Comigo, responsável pelo receituário, não se manifestou sobre o fato.

Uma equipe multidisciplinar, formada por toxicólogos, médicos, sanitarista, psicólogos, biólogos, dentre outros, irá acompanhar as vítimas e suas eventuais sequelas.

Os agrotóxicos

O Engeo Pleno é um inseticida da Syngenta e é constituído por uma mistura de lambda cialortrina e tiametoxan. O último é um neonicotinóide que está sendo proibido na Europa devido à associação com o colapso das colmeias.

O tiametoxam está na lista de agrotóxicos (junto com imidacloprido,Clotianidina e Fipronil) em reavaliação ambiental pelo IBAMA, para fins de revisão do registro, como publicado num comunicado no DOU de 19 de julho de 2012, por serem altamente tóxicos para abelhas. No mesmo comunicado que indicou a reavaliação, havia a indicação de suspensão imediata de pulverização aérea.

No entanto, posteriormente foi publicado no DOU de 03 de outubro de 20,13 o cancelamento da suspensão da pulverização aérea anunciada em julho. No DOU de 04 de janeito deste ano o MAPA publica Instrução Normativa onde permite, até o fim da reavaliação ambiental desses quatro venenos, a pulverização desses agrotóxicos para as culturas de algodão, soja, cana-de-açúcar, arroz e trigo, proibindo-a somente no período de floração.

Pelo que tudo indica, o tiametoxam, do ponto de vista ambiental, já poderia ter sido proibido e, pelo menos pelo principio da precaução, não deveria mais ser utilizado por pulverização aérea, podendo até ter evitado o acidente relatado. Além do que sua pulverização aérea não ser permitida para lavouras de milho, muito menos é recomendada para “controle de pulgão”.

Do ponto de vista da saúde a lambda-cialotrina está associada a distúrbios neuromotores, como mostrado em estudo com ratos (Dossie Abrasco parte 1). Já o tiametoxam pode causar ansiedade e alterar os níveis da acetilcolinesterase (Behavioral and biochemical effects of neonicotinoid thiamethoxam on the cholinergic system in rats. Rodrigues et al, 2010). O tiametoxam também mostrou efeitos hepatotóxicos e tumores de fígado em camundongos, mas não em ratos. Segundo os autores do estudo o modo de ação não é relevante para seres humanos (Case Study: Weight of Evidence Evaluation of the Human Health Relevance of Thiamethoxam-Related Mouse Liver Tumors. Pastoor et al, 2005).

Contraagrotóxicos.org

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Comentários

  1. Anon Postado em 24/May/2013 às 15:30

    WTF, como assim passaram jogando agrotóxico numa escola? Expliquem melhor essa história!

  2. Pedro Postado em 24/May/2013 às 16:45

    não, é assim, é que de um lado da rodovia estava a produçao onde o aviao estava jogando agrotoxico, e do outro lado da rodovia estava a escola, entao o cara atravessava a rodovia e ia caindo agrotoxico em cima da escola, pura falta de responsabilidade do eng agronomo que assinou a ART ...

  3. Thiago Postado em 24/May/2013 às 18:57

    Culpar a Syngenta pelo fato ocorrido é algo totalmente equivocado. Se uma mãe deixa uma criança sozinha em casa e ela se intoxica com água sanitária por exemplo, você vai culpar a Qboa por ter desenvolvido o produto?

  4. Grayson Postado em 25/May/2013 às 00:34

    Falta de responsabilidade do piloto e de um dialogo, pois assinar e/ou recomendar não e o problema mas quem ira manusear o produto. Poderia ter havido um dialogo com os representantes da escola para que não deixassem as crianças a céu aberto. E só minha opinião. Vocês tem direito de discordar ou não dela.

  5. Fabio Carvalho Postado em 25/May/2013 às 20:04

    falta de responsabilidade de TODOS ENVOLVIDOS, é um ABSURDO, ainda ser permitido no brasil esse tipo de aplicação assassina, obviamente o aviao nao joga tudo na plantaçao, logico que vai cair fora da plantaçao, isso é OBVIO.

  6. Sousa Postado em 26/May/2013 às 07:38

    Duvido que o receituário desse agrônomo indicasse ao piloto para jogar inseticida em crianças de escola. Acidentes acontecem. - Engeo Pleno é autorizado para uso na agricultura brasileira. Então, nada de anormal quanto a utilização desse herbicida. Não sou advogado da Syngenta, mas condenar um fabricante pelo mau uso de um produto, intencional, ou por acidente é muito radical e desnecessário. Interessante é que tanta coisa acontece erroneamente no Governo e os apoiadores desse governo corrupto que preside o Brasil atualmente não levanta bandeirinhas para condenar esse povo em Brasília...

  7. Lúcio Postado em 02/Aug/2013 às 15:30

    É a mesma coisa que culpar a fabricante de um automóvel por um atropelamento que ele tenha se envolvido. Nesse caso aí, a Syngenta não tem qualquer responsabilidade, o dono da lavoura que contratou o avião, o piloto e a empresa proprietária do avião é que devem responder cível e criminalmente.