Luis Soares
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Justiça 16/Apr/2013 às 10:24
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Joaquim Barbosa, a justiça e os 'resorts' de luxo: uma breve reflexão

A frase de efeito de Joaquim Barbosa busca açular o senso comum de uma sociedade insatisfeita justamente com a falta de estrutura da Justiça, mas é vazia como um balão de gás. Alguém se perguntou qual é o custo da lentidão da Justiça?

Eduardo Guimarães, em seu blog

O presidente do STF pôs associações de magistrados, OAB e até a Associação dos Delegados de Polícia de São Paulo (Adepol) em pé-de-guerra. Mas sua mise-en-scène acrescentou mais um tijolinho à imagem de grilo falante da República que vem erigindo.

Os vergonhosos convescotes patrocinados por empresas para as associações de juízes nos tais “resorts” em “grandes praias” conferem um falso sentido à conduta desairosa de Joaquim Barbosa na reunião com os representantes dessas entidades.

Todavia, ainda está por provar-se a teoria de que a criação de novos Tribunais Regionais Federais não passa de desperdício de bilhões de reais de dinheiro público.

joaquim barbosa resorts de luxo

Ministro Joaquim Barbosa (Foto: Reprodução)

Misturar os resorts aos quais grandes empresas cheias de ações na Justiça levam aqueles que julgarão as causas que interessam a elas com a criação de maior estrutura para o sobrecarregado Poder Judiciário, foi uma jogada que visou predispor o cidadão desatento.

Uma breve reflexão, porém, faz lembrar que falta estrutura à Justiça brasileira, razão pela qual ela é tão lenta.

O Brasil terá, agora, mais quatro Tribunais Regionais Federais – em Curitiba, Belo Horizonte, Salvador e Manaus. O Projeto de Emenda Constitucional 544, que criou os novos TRFs, teve origem em proposta do senador Arlindo Porto (PTB/MG), em 2001. Mas a reivindicação tem pelo menos 20 anos no Paraná.

O que desgostou Barbosa e o levou a essa postura danosa ao país, então, não foi o interesse público, mas seus delírios de poder e sua egolatria, como ficou patente na reunião em seu gabinete na qual humilhou magistrados, quando bradou: “Não fui ouvido pelo Congresso!”.

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Esse é o problema de Barbosa com os novos Tribunais Regionais Federais. Uma iniciativa do Congresso que tramita há tanto tempo e que é uma reivindicação antiga da Justiça fez com que o presidente do Supremo enviasse um ofício ao presidente da Câmara dos Deputados exigindo que o projeto não fosse aprovado.

A ousadia derivada dos delírios de poder de Barbosa ao tentar dar ordem ao Legislativo, porém, teve efeito inverso. No dia seguinte ao ofício, a PEC 544 foi aprovada por votação maciça — 371 votos a favor, 54 contra e apenas 5 abstenções.

Queira Barbosa ou não, a PEC modificou o formato da Justiça Federal brasileira. É uma realidade, não há retorno.

Que argumento o furioso presidente do STF apresentou contra a criação dos TRFs? Que serão construídos em “resorts” e “grandes praias” onde os que lá trabalharem desfrutarão de mordomias às custas do Erário.

Custarão caro? Alguém se perguntou qual é o custo da lentidão da Justiça?

Ora, faça-me o favor, doutor Barbosa!

A frase de efeito do presidente do STF busca açular o senso comum de uma sociedade insatisfeita justamente com a falta de estrutura da Justiça, mas é vazia como um balão de gás. Que “resorts” e “grandes praias” há em Belo Horizonte, Curitiba ou Manaus, dr. Barbosa?

A medida aumentará a capacidade de uma Justiça sobrecarregada. Abaixo, a nova estrutura do Judiciário Federal.

TRF-1 – Com sede em Brasília, passará de 13 para 6 estados: MT, GO, TO, PI, PA e MA, mais o DF.

TRF-2 – com RJ e ES, continuará igual.

TRF-3 – Ficará somente com SP.

TRF-4 – Com sede em Porto Alegre, ficará reduzido ao RS.

TRF-5 – Perderá SE, ficando com PE, CE, RN, PB e AL.

Os novos Tribunais serão o TRF-6, com sede em Curitiba e englobando MS e SC; o TRF-7, com MG; o TRF-8, com BA e SE; e o TRF-9, com sede em Manaus e jurisdicionando RO, RR e AC.

O Brasil precisa de mais estrutura para sua Justiça dar conta de uma carga de trabalho que qualquer um, por menos conhecimento que tenha sobre o tema, sabe que está acima de sua capacidade.

A frase sobre os “resorts” e “grandes praias” esconde o que motivou a decisão soberana do Poder Legislativo: a lentidão da Justiça brasileira.

O ególatra Joaquim Barbosa, portanto, em seus delírios de poder – fomentados por uma mídia que o está enlouquecendo com suas bajulações –, ficou contra a medida porque a considerou uma afronta a si.

Pobre Joaquim Barbosa. Dá pena imaginar o choque que sofrerá quando se der conta de que é apenas um dos 200 milhões de brasileiros, não o dono do Brasil.

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Comentários

  1. MSROD Postado em 16/Apr/2013 às 11:29

    Alguém sentiu falta do Amapá aí? Ou ele ficará na mão da justiça 'batistiniana' (do senhor Eike - isso lá é nome de gente?- Batista) ou da justiça 'sarneyaniana'????

  2. Diego Postado em 16/Apr/2013 às 15:18

    O dia que o Juiz cumprir o horário mínimo semanal, acaba a morosidade da justiça. Ainda, iluda-se em pensar que grandes empresas não mandam juízes a resort's inclusive com direito a passagem aérea!

  3. Norton Postado em 16/Apr/2013 às 15:19

    O Arlindo Porto é do PTB e não do PT.

  4. Vinicius Postado em 16/Apr/2013 às 16:18

    Caro Norton, está escrito PTB (PTB/MG).. Em relação a Joaquim Barbosa, mais um querendo aparecer, ser herói do povo, mas ganhando salário astronomico, um dos maiores do país, para se fazer muito pouco e ainda querer se manter nela e não "dividir" com outros magistrados. Se ele se acha tão protetor do povo e da justiça, como no teatro apresentado durante o julgamento do mensalão, deveria apoiar e contribuir para a descentralização do poder, só assim serão agilizados processos.

  5. Filipe Postado em 17/Apr/2013 às 10:00

    Feliz ou infelizmente, Joaquim Barbosa é presidente do STF e do CNJ e sim, ele deve ser ouvido em todas as questões que envolvam o judiciário nacional. Existem outras personalidades egoístas que vocês nem comentam, mas como ele foi o grande 'vilão' do julgamento do mensalão, recebe todo tipo de críticas. Estamos num país democrático e ele representa uma das três esferas de poder constituído pela Carta de 1988. Ele pode até ter errado no método, mas o que ele diz sobre a estrutura do judiciário é procedente e sua opinião deve ser respeitada. Se ele quisesse, ainda pode usar a frase de Zagalo enquanto for presidente do STF: 'vocês vão ter de me engolir!'

  6. Danilo Fernandes da Silva Filho Postado em 17/Apr/2013 às 16:05

    "O dia que o Juiz cumprir o horário mínimo semanal, acaba a morosidade da justiça". Concordo, plenamente com o Diego. Mas para acreditar na(s) Lei(s), no Direito e na Justiça é preciso confiar nos homens. Homens sérios na Terra existem mas são poucos.Vamos aguardar por dias melhores pensando que no futuro, o Direito, as Leis e a Justiça formarão uma corrente da fé e da esperança de quem deles necessitam.

  7. Alan Postado em 29/May/2013 às 17:01

    A pergunta sobre os estados sem praias parece um tiro no pé." Que “resorts” e “grandes praias” há em Belo Horizonte, Curitiba ou Manaus, dr. Barbosa? " Ora pois e Barbosão disse que precisa ser nos estados sede? - Pois bem ..... kkkkkkkk