Redação Pragmatismo
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Saúde 18/Apr/2013 às 17:22
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Belo Horizonte oferece álcool e tabaco para viciados largarem crack

Belo Horizonte rejeita internação forçada, adotada por Rio e São Paulo e que pode virar lei, e aposta em política que tenta levar usuário a trocar pedra por álcool e tabaco, até se livrar do vício

Na contramão da lei que deveria ter sido votada ontem no Congresso Nacional, que prevê a política de internação involuntária dos usuários de crack – já adotada este ano em São Paulo e Rio de Janeiro –, Belo Horizonte tem outra frente de trabalho para lidar com o desafio. Referência nacional da luta contra os manicômios, a capital mineira optou pelo modelo da redução de danos proposto pelo Ministério da Saúde, com a troca da pedra por drogas mais leves, como opiáceos, álcool e tabaco, até conseguir a abstinência total. Na prática, a iniciativa vem apresentando indicadores positivos no Centro de Referência em Saúde Mental (Cersam-AD) da Região da Pampulha, com adesão de até 40% dos pacientes. O índice é oito vezes maior em relação aos 5% de recuperação obtidos, em média, com a internação dos dependentes químicos.

viciados crack belo horizonte

Usuários em uma das várias cracolândias da capital: mistura de substâncias comum nas ruas é testada como arma contra dependência (Foto: Sandra Kiefer / Divulgação)

O problema é o tamanho do desafio e a capacidade de lidar com ele. Desde 2008, BH conta com apenas um Cersam-AD, o da Pampulha, para uma demanda de 2,2 mil moradores de rua, boa parte deles envolvidos com álcool e crack, segundo o Movimento Nacional de População de Rua. Diante da falta de atendimento, estão se formando pequenas cracolândias distribuídas pela cidade, até mesmo em bairros residenciais.

Apesar disso, só em último caso é aceita a internação do usuário de drogas em BH, segundo o secretário municipal de Saúde, Marcelo Teixeira. “É preciso ter clareza de que você pode internar alguém compulsoriamente, mas não pode tratar ninguém compulsoriamente. Ao dizer isso, não estou me posicionando contra a internação. Só defendo que a medida tem de ser eventual e avaliada do ponto de vista clínico”, afirmou.

Mistura

Muitos dependentes químicos passaram a fazer associação de diversas drogas. Em geral, fumam primeiro cigarros, tomando o cuidado de guardar as cinzas. Elas serão usadas para fazer render a pedra do crack, previamente triturada em porções menores. Antes de queimar a mistura nos cachimbos, os usuários tomam cachaça. “Diante dessa situação, o ponto central da redução de danos será o crack. Se o usuário conseguir largar primeiro o crack, ficando com o álcool e com o tabaco, e em seguida só com o tabaco, seria desejável dentro de uma estratégia de intervenção”, defende Marcelo Teixeira.

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A meta do programa é conseguir diminuir os danos causados pela pedra no organismo, resgatando valores e vínculos, familiares ou não, de trabalho e da sociedade. Ao convencer o craqueiro a usar menos pedras por dia, em seguida substituir o vício por tabaco e permanecer apenas com o álcool, os técnicos de saúde ganham a confiança do usuário de drogas, que, ao mesmo tempo, será convencido a se comprometer com um emprego, a resgatar a convivência com os filhos e a retomar hábitos de higiene. Na visão da prefeitura, é o oposto de isolar o usuário de drogas dentro de uma entidade, como já foi feito no passado com doentes mentais, hansenianos e tuberculosos.

Para tentar garantir o sucesso do projeto, além de abordar os usuários de crack por meio das equipes de consultório de rua, oferecendo camisinhas gratuitas e a chance de tirar uma nova carteira de identidade, a PBH está fechando parceria para garantir vagas de emprego subsidiadas, com entidades empresariais como Fiemg e Fecomércio. Além disso, há a proposta de criar duas equipes de abordagem familiar, que visitarão dentro de casa, antes de irem morar nas ruas, dependentes químicos prestes a cortarem os laços com mulheres e filhos. “Quando estiver todo implementado, nosso programa vai ser um dos mais completos do país”, aposta o secretário.

PONTO CRÍTICO: VOCÊ É A FAVOR DA INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA?

Domingos Sávio Lage Guerra, psiquiatra, ex-diretor do Instituto Raul Soares e professor da Faculdade de Ciências Médicas

SIM:

A dependência de crack é muito grave e o sujeito não consegue parar. A droga está devastando o Brasil, aumentando a criminalidade e trazendo um sério problema de mão de obra para o país, repercutindo na construção civil e no comércio. O crack está comprometendo a população jovem. Temos 35 milhões de jovens e um contingente expressivo deles está dependendo do crack, que está destruindo famílias. Também a população de rua está aumentando muito, bem como a quantidade de roubos, furtos e assassinatos relacionados ao uso dessa droga, que é muito mais potente que a cocaína. O estrago provocado pelo crack é muito grave. Seu uso deixa o sujeito paranoico, agressivo e agitado. A entrega à dependência é grande, os usuários estão em risco social e em grave risco de mendicância, com a perda dos vínculos sociais. Só quem tem um usuário de crack dentro de casa pode realmente falar sobre o assunto.

Alda Martins Gonçalves, professora da Escola de Enfermagem da UFMG, integrante do Centro Regional de Referência em Crack e Outras Drogas

NÃO:

O uso do crack é um problema individual, familiar e coletivo. O usuário acaba perdendo seu espaço na família e buscando na rua a convivência com outros na mesma situação, o que constitui um grande desafio para a implantação de medidas de atenção aos grupos e de uma política de atendimento aos usuários. O Serviço de Saúde Mental da Prefeitura de BH vem atendendo e buscando a adesão dos dependentes ao tratamento. A abordagem procura ajudá-los a recuperar a autoestima, os laços familiares e a convivência social, para que aceitem o processo de recuperação. Simplesmente internar um usuário não garante sua adesão ao tratamento e pode esbarrar no direito ao livre arbítrio. Se uma pessoa está em risco de morte, intoxicada por drogas, não há que se perguntar se ela quer ser socorrida. O socorro tem de ser prestado, mesmo que exija internação. Isso não significa internação compulsória. Não há garantias de que, depois da desintoxicação, o usuário de drogas vá aceitar o tratamento.

Estado de Minas

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Comentários

  1. Anon Postado em 18/Apr/2013 às 19:08

    Trocar o crack por álcool e cigarros industrializados? É isso que eles chamam de "drogas leves"? Mesmo sendo lícitas, essas drogas são tão ruins quanto o crack e não vão tratar dependência nenhuma, apenas criarão novos vícios. A solução é a cannabis, uma droga leve que nunca fez e nunca fará mal a saúde de ninguém, possui uma onda bem atraente, não causa dependência química e ajuda absurdamente a amenizar crises de abstinência de outras drogas. Mas infelizmente nosso país ainda é muito ignorante para entender isso.

  2. Roney Postado em 18/Apr/2013 às 19:24

    Anon, acredito que vc não tenha ideia dos efeitos do crack. Dá uma estuda antes de falar baboseiras.

  3. Claudia Postado em 18/Apr/2013 às 19:33

    ¬¬'

  4. Thiago Postado em 18/Apr/2013 às 19:46

    Trocando BOSTA por MERDA, esse é o Brasil....

  5. Mateus Postado em 18/Apr/2013 às 19:54

    É uma política de redução de danos Anon, há de convir que o cigarro e a bebida são sim "drogas MAIS leves" a cannabis se inclui no rol também. Quem trabalha com política de redução de danos (me incluo aqui) geralmente recomenda sim o seu uso. Mas...vamos falar sério, uma política pública gigantesca como essa de BH nuuunca que ia deixar em aberto o uso de qualquer coisa ilícita. Muita polêmica. No mais, ótima matéria, ótima política. Aprovo.

  6. Giovanna Postado em 18/Apr/2013 às 21:10

    Concordo plenamente com o Mateus, eu ia dizer exatamente isso: política de redução de danos. Creio que se aplicada efetivamente, vai dar melhores resultados (a longo prazo) do que internação compulsória. Parabéns pela iniciativa, PBH!

  7. afaracs Postado em 18/Apr/2013 às 21:34

    Anon, Vc dizer que alcool e tabaco são mais prejudiciais que maconha é uma grande bobagem. Nesse caso a principal preocupação é com os danos sociais, como a perda de vínculos familiares, vínculos afetivos e outros que levam o individuo ao abismo, cada vez mais. O homem por ser um ser sociável, ao se ver fora do do círculo social (como emprego, amizades, conversas...) cai em extremo desespero e agonia, recorrendo ao crack para se livrar dessa sensação, mesmo que por alguns minutos, devido aos neurotransmissores liberados. Sendo assim o crack se torna o único meio de prazer e fuga do desespero Trocando o crack por maconha os danos sociais seram altos também, devido ao preconceito com a mesma, sem contar na depressao pós uso, e a preguiça que causa, fazendo o individuo se sentir um inutil com uso constante, por nao fazer nada.

  8. Conceição Rezende Postado em 18/Apr/2013 às 22:17

    A política de tratamento de pessoas com "uso abusivo de álcool e outras drogas", com base na "redução de danos" é um processo altamente complexo, que exige a elaboração por parte da equipe multiprofissional e multidisciplinar de planos terapêuticos individualizados e tem como objetivo REDUZIR o dano (avaliado coletivamente), qualquer que seja ele. Como reduzir o dano, existem várias fórmulas... nenhuma pode ser excluída, todas precisam ser avaliadas, até reduzir os danos causados aos dependentes em níveis aceitáveis pelo usuário, pela família com o acompanhamento e as intervenções da Equipe e com o apoio fundamental das instituições de políticas públicas (trabalho, lazer, cultura, moradia, educação, etc., etc., ...). A canabis poderia ser indicada, sim. Muitos países a utilizam para a redução de danos. Mas, como é que o SUS iria adquirir a Canabis para disponibilizá-la aos serviços de saúde? Lamentavelmente, não é atoa que estamos nesta situação. Tem prevalecido o debate preconceituoso e criminalizador do dependente de drogas... Parabéns às Equipes de Saúde de Belo Horizonte que vem fazendo diferente...

  9. Pedro Gobett Postado em 19/Apr/2013 às 00:02

    Trabalhei como coordenador de grupos de apoio a usuarios de drogas. E a gente sabe que pelas estatísticas, do total que sao internados VOLUNTARIAMENTE o máximo que se atinge de recuperação é 30%. Ou seja, quando o sujeito já demanda a prevenção terciária (quando a dependência já está instalada, pois existe a prevenção primária, a secundária e terciária) apenas 3 de cada 10 que se internam tem chances de se recuperarem. A proposta causa polêmica, pois tendemos a ver esse tipo de coisa de forma moralista: "se entrou pra dependência, se por isso roubou em casa, ou fez mal a alguém, tem que pagar, tem que sofrer as consequencias", estamos afastando o dependente cada vez mais da recuperação por nós tão desejada e proclamada. O que posso entender da atitude em BH é o que se chama de "redução de danos". Sabendo da dificuldade de recuperação, e como estratégia para remover a dependência do sujeito, a proposta é ir substituindo drogas mais perigosas (no sentido de causarem morte rapidamente) por drogas potencialmente de menor risco, e numa sucessão de substituições trazer o dependente de volta à vida saudável. Por isso, apesar de não ser o ideal, não vejo com maus olhos essa decisão em BH, mesmo porque a internação compulsória não vai funcionar em termos de recuperação, pois não parte de um desejo do dependente, é uma imposição externa e a dependência provoca distorções no caráter ao ponto de isso ainda funcionar na contra-mão do que se espera. Como o dependente foi compulsoriamente internado por decisão judicial, ele se revolta e assim que sai vai "mostrar que todos estavam errados ao interná-lo" e acabará voltando ao seu mundo de vícios. Por isso e outras coisas vejo que a redução de danos pode funcionar bem melhor. Eu tomo várias chícaras de café por dia (café é droga, pela OMS) então se eu decidir parar repentinamente será muito dificil, por causa da síndrome de abstinência. Mas se eu reduzir uma chicara e ficar uma semana com uma a menos, depois reduzo mais uma e fico mais uma semana com duas a menos até zerar, eu tenho melhores chances de me livrar do café definitivamente, se eu quiser. Não acho que BH esteja agindo errado não. Talvez tenha até melhores resultados que a internaçao compulsória.

  10. Julio Postado em 19/Apr/2013 às 18:37

    O comentário da Alda foi alguma defesa para internação compulsória? Ela só falou: é ruim, é ruim, é ruim, é ruim, é ruim, é ruim e é ruim. Agora pq utilizar o metodo que dá praticamente nada de resultado, perante o realista respeitoso método de redução de danos?

  11. AnonVegan Postado em 19/May/2013 às 17:46

    Sem dúvidas uma medida necessária, parabéns aos idealizadores e médicos envolvidos. Como no Brasil a Cannabis ainda é proibida, mas se não fosse seria a alternativa menos danosa ao dependente químico e aos envolvidos. Efeitos da Cannabis em pessoas em crises nervosas, de abstinência, ansiedade são extremamente positivas, e sem efeitos colaterais. A forma adotada por São Paulo e Rio de Janeiro não é acabar com os viciados, é criminalizá-los e interná-los para que saem das ruas belas das cidades, higienização descarada.

  12. Marlene Postado em 24/May/2013 às 19:24

    Trocar merda por bosta ?? Quem teve essa ideia só pode ter merda na cabeça!!

  13. Francisco Pereira Postado em 28/May/2013 às 20:01

    Trocar por maconha o efeito pode ser positivo, visto que já foi feito o experimento com cem usuários de crack, a droga foi substituída por maconha e 68 deles largaram o crack e depois a maconha.