Luis Soares
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Direita 14/Mar/2013 às 16:29
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Vaticano e PSDB têm o mesmo marqueteiro?

A estratégia do Vaticano que a escolha de um Papa argentino revela repete a estratégia eleitoral que os conservadores têm usado na América Latina, com resultados conhecidos

Eduardo Guimarães, Blog Cidadania

Após o anúncio da escolha do cardeal Jorge Mario Bergoglio pelo Conclave do Vaticano para suceder Joseph Ratzinger – o agora “Papa Emérito” Bento XVI – sob o nome “Francisco”, formou-se, quase que imediatamente, um consenso até meio óbvio de que tal escolha busca combater o avanço dos evangélicos e da esquerda na América Latina, a região do mundo que – ainda – é a mais católica.

A tese que o Vaticano obviamente abraçou é a de que ter um líder da Igreja Católica oriundo desta parte do mundo poderá recuperar para si o imenso rebanho que veio perdendo através das últimas décadas para as igrejas evangélicas, como se essa desidratação do catolicismo tivesse ocorrido pela nacionalidade dos Papas João Paulo II ou Bento XVI e não por essa Igreja se manter presa a dogmas cada vez mais incompatíveis com a evolução política e ideológica dos povos latino-americanos.

vaticano papa francisco psdb

Cardeal argentino foi escolhido ontem novo Papa, Francisco I (Reprodução)

Antes de analisar a estratégia católica, porém, alguns dados importantes

O novo Papa é um descendente de italianos que foi escolhido no país mais italiano da América Latina, pois a Argentina foi o país da região que mais recebeu imigrantes italianos – estima-se que entre 1870 e 1970 entraram no país 2,9 milhões de italianos por lá, enquanto que o Brasil recebeu 1,5 milhão.

Só para se ter uma ideia de quão italiana é a Argentina, apesar de hoje o Brasil, com seus quase 200 milhões de habitantes, ter cerca de 25 milhões de descendentes de imigrantes italianos, a Argentina, com quase 40 milhões de habitantes, tem um contingente de descendentes de italianos bem menos miscigenado e que é mais ou menos o mesmo ou até um pouco superior.

E quanto ao perfil do novo Papa, é mais parecido com o de seu antecessor do que parece. Muitos apontaram a coincidência entre Bergoglio e Joseph Ratzinger por ambos supostamente terem tido vínculos com regimes ditatoriais e desumanos, respectivamente a ditadura argentina e o nazismo.

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Ratzinger foi chamado de “nazista” por ter integrado a juventude hitlerista e Bergoglio é acusado de ter delatado esquerdistas ao regime militar argentino e até de ter se envolvido em “sequestro de bebês”.

Ambos se defendem da mesma forma. Enquanto Ratzinger e seus biógrafos alegam que ele integrava a juventude hitlerista porque na Alemanha, à época, era obrigatório, mas que nunca se filiou ao partido nazista, Bergoglio e os biógrafos dele alegam que após a prisão dos dois sacerdotes os quais é acusado de ter delatado, trabalhou nos bastidores para libertá-los intercedendo junto ao ditador Jorge Rafael Videla.

Quanto às ideias do atual Papa e de seu antecessor, o Vaticano trocou seis por meia dúzia. Ambos conservadores, ambos intransigentemente contrários aos direitos dos homossexuais, ao aborto etc., etc., etc.

O que resta de novidade no novo Papa, portanto, é a sua origem latina – apesar de ser mais italiano do que o antecessor, ainda que menos europeu –, um suposto ativismo social cujos resultados concretos ninguém sabe quais foram e uns tais “hábitos simples” como o de ter usado transporte público um dia, o que, convenhamos, parece muito pouco para ele se comparar – ou, vá lá, ser comparado – a São Francisco de Assis.

É nesse ponto que a escolha do novo Papa, assim como a do anterior, assume contornos bem parecidos com a estratégia que o PSDB vem adotando há muito, mas que se acentuou a partir da eleição presidencial de 2010: ir buscar apoio entre a parcela mais reacionária da sociedade, fenômeno que fez o partido apelar para os mesmos “valores” ultraconservadores como “família” e “direito à vida”.

O Vaticano com Bergoglio, portanto, parece estar inovando muito pouco em termos de estratégia política, e errando a mão em sua escolha.

Não só o PSDB, mas todos os grandes partidos que se desviaram para a direita – ou que sempre a integraram – na América Latina vêm tomando verdadeiras sovas eleitorais com o recurso a esse setor decadente e minguante das sociedades da região, o qual, com a crescente escolarização e ascensão social em curso por aqui, deve diminuir muito nos próximos anos.

O fato de o novo Papa ser latino, portanto, muito dificilmente fará os convertidos à fé evangélica retornarem ao seio da Santa Madre Igreja, pois não a deixaram devido ao Papa anterior ser europeu e sim porque sentem-se mais acolhidos pela nova fé que abraçaram, que, ao menos, não lhes parece tão distante de si quanto o catolicismo, mesmo que isso possa não ser verdade, ou que seja apenas parte dela.

E, politicamente, a latinidade de Bergoglio não fará a América Latina trocar o bem-estar e a ascensão social da maioria pobre da região proporcionados por governos progressistas para cair de cabeça na retórica sobre “corrupção” ou “valores familiares” que políticos conservadores como os do PSDB, do DEM etc. encamparam, pois tais “valores”, como bem sabem todos, não enchem barriga.

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Comentários

  1. Rodrigo Postado em 14/Mar/2013 às 19:22

    Quanta criatividade... Mas, repetindo comentário anterior: "Inicialmente, se realmente procederem as acusações, nada contra as denúncias. Devemos sempre ser justos, transparecer a verdade. Só não entendo o porquê de tantas acusações contra tudo e todos (novamente, sendo devido, nada a opor), associado ao silêncio quanto à conduta dos companheiros. São tantos dedos apontados para os outros, mas nenhum em retorno… Só nos últimos dias, a greve dos jornalistas da Caros Amigos, seguida da demissão dos manifestantes; o Capitão Cueca reapresentando o vetado projeto tucano de desoneração da cesta básica, sendo então sancionado, como se fosse idéia dele (a “bondade” poderia ter começado a viger já há muito mais tempo, pois); fora o mensalão; os cartões corporativos; dentre tantos outros escândalos. Continuem, pois, disparando a metralhadora de denúncias, sempre que devido. Falem de tucanos, demistas, católicos, evangélicos, de qualquer um, quanto aos seus malfeitos. Mas evitem o corporativismo, sendo verdadeiramente justos, em louvor a uma efetiva nova mídia, mas não em relação a uma “nova velha mídia”."

  2. Fabiola Postado em 14/Mar/2013 às 23:51

    Vê-se que sabe escrever, que sabe conectar ideias opostas, mesmo que em uma linha de raciocínio ilusória. O grande problema da América Latina, com destaque para o Brasil, não é "se" determinado partido se falseia em palavras sobre "valor à vida", e sim um pensamento ideológico completamente antiquado e caquético para o período pós-moderno em que vivemos agora. Não, o que faz estarmos com uma vergonhosa posição no IDH não foi a política "PSdeBista" "elitizada" como defendem alguns, e sim a falsa ideia marxista de que é necessária a luta entre classes e o assistencialismo medíocre, que não investe no essencial para a verdadeira democratização e crescimento REAL de um país, que é a educação, educação e educação. A Internet está cheia, repleta, tomada de pseudos-intelectuais, não só nos textos como também nos comentários, auto-intitulados jornalistas que por ventura acabam por diminuir o verdadeiro valor da profissão. E o PT, por sinal, fez isso muito bem, desobrigando o diploma para exercer a profissão. Não, não sou PDSB ou levanto bandeira para nenhum partido, não sou dona da verdade e nem metida a intelectual, apenas procuro discernir uma visão mais ampla da realidade. E digo mais: O Brasil está tão entranhado de pensamentos caducos e patéticos e é por isso que andamos a passadas curtas. Essa "evolução", com licença da palavra, é fortemente perceptível para alguém que já teve alguma experiência internacional, que convive, trabalha ou mora no exterior (Países desenvolvidos, diga-se). Claro, há corrupção e bagunça nestes países, mas o que a maioria deles deixou séculos atrás, inclusive durante a Inquisição de uma Igreja que você tanto critíca, foi este pensamento mesquinho de que é preciso sustentar políticos para criarem emendas ridículas e roubarem a torto e a direito, sem caráter e sem vergonha, encapados em seus ternos pagos com o "vale-terno". E voltando ao ponto inicial do texto, nada de lógico e tudo de medíocre há em achar que um novo papa, recém-escolhido, é a cara de uma Igreja de naftalina. Como dizem os PeTistas, "deixa o homem trabalhar". Mal começou o papado e já há metralhadoras de julgamento por todos os lados. É óbvio que dá para fazer pequenas avaliações sobre a persona baseada em seu histórico, mas daí tirar conclusões maquiavélicas do total de suas ações é patético. Se quer fazer juízo de valor, aconselho-o a ser positivo, a torcer para que o papado seja de grande valor aos corações, pois o que mais precisamos neste momento é de fé, união e paz. E nada, nada de ataques insanos e injustificáveis da "torcida do contra". Sugiro a você rezar um Pai-nosso, receber um Johrei ou qualquer que seja sua crença (se é que você tenha uma, nada contra). Ore pelo que há de melhor na vida: não precisa ser debaixo de um teto sacral de uma Igreja. Faça para você. Tire este rancor do seu coração e essa ideologia mesquinha de sua mente. Isto só vai fazer bem para você!

  3. Alex Mamed Postado em 15/Mar/2013 às 07:43

    Oras, se não aceita os valores da Igreja, que se mude pra Cuba, rapaz... a Igreja não pretende retomar os fiéis que perdeu, até porque não eram fiéis. É preferível ter uma Igreja menor, e mais coesa, que defenda seus princípios, do que um rebanho que não segue seu Pastor.

  4. Anchieta Mendes Postado em 26/Mar/2013 às 05:31

    Excelente conteúdo informativo com elegãncia, cuidado e responsabilidade -parabens - anchieta mendes

  5. Caio Postado em 21/May/2013 às 09:33

    E ainda falam a respeito de Veja, isso aqui tá parecendo um blog de Reinaldo Azevedo só que da esquerda. ".....de italianos bem menos miscigenado e que é mais ou menos o mesmo ou até um pouco superior." WOW! Isso sim é imprensa confiável não? "mais ou menos".......hahahahahahahaha