Luis Soares
Colunista
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Mulheres violadas 06/Feb/2013 às 15:05
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Sakamoto: quem é a mulher brasileira da propaganda televisiva?

A mulher brasileira respira fundo para poder aceitar a vida que os comerciais lhe garantiram ser o modelo de felicidade. Deita-se na cama, enquanto espera. E viaja para bem longe. Sozinha

Leonardo Sakamoto, em seu sítio

Baseado no que nos dizem os comerciais de televisão, finalmente consegui entender quem é a mulher brasileira.

Ela é simpática, meiga, solícita. Independente, mas multitarefa. Não é que não queira a ajuda de ninguém – ela não precisa. Faz questão de trabalhar o dia inteiro e, depois, chegar em casa e cuidar de tudo e dos filhos. E, se o marido aguentar, ainda está disponível para muito sexo.

comerciais tv mulher brasileira

Quem é a mulher brasileira dos comerciais de TV? (Reprodução)

Vejamos: ela gosta de fazer uma boa faxina. Daquelas pesadas, que incluem tirar gordura do fogão, a sujeira do chão e o pó que se esconde nos vãos, desde que os produtos usados não irritem muito a pele. E que o sachê para tirar odor do vaso sanitário possa ser trocado facilmente. Afinal de contas, hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás! O que ela mais ama ganhar de presente de Dia das Mães é uma geladeira e um aspirador de pó.

E o momento em que a mulher brasileira prefere dar a geral na casa é quando os filhos clamam por atenção, querendo a velha e boa papinha de nenê com frango com hormônio ou a fralda nova que absorve o xixi antes mesmo dele ser feito. Ou no momento exato em que a horda composta pelos amigos do rebento mais velho resolve vir comer cachorro-quente e sanduíche de peito de peru ao mesmo tempo. É sempre ela, sozinha, que abre as garrafas de refrigerante, engordando a molecada.

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Até porque, como sabemos, é raro homem aparecendo na cozinha em comercial. Ele só vai para preparar pratos especiais, refinados, gourmet. No dia a dia, o reino das panelas é das mulheres. Para ele, há outras tarefas: aparece com mais frequência, por exemplo, em anúncios de TVs LED de 52″ e de carros que não rodam, voam – deixando claro que tamanho e potência são o que importam de verdade. Ou nos de cerveja, como se o consumo de álcool fosse algo apartado por gênero. Aí sim, ressurge a brasileira, pelada, esbanjando sensualidade, disponível para qualquer coisa, quase pedindo: “vem cá e me beba inteira”.

Voltemos à mulher que acabou de lavar a louça com um detergente que transforma pratos em espelhos e colocar a roupa do marido do futebol na máquina de lavar com um sabão que deixa tudo muito branco. Ela, que nasceu com um cabelo maravilhosamente cacheado, aproveitou o tempinho livre que o uso de produtos de limpeza avançados lhe concedeu e o alisa inteiro com uma das incríveis chapinhas anunciadas no canal a cabo. Quer ficar igual às amigas, que são iguais às mulheres dos comerciais de TV, que são iguais às modelos, que atendem a um parâmetro traçado por uma elite de outro continente, de que liso é bom, curvo é uma droga. Tem o mesmo DNA da ideia de que branco é bom, negro é uma droga.

Ela ainda aproveita alguns segundos para untar a barriga com gel emagrecedor, tomar alguns comprimidos feitos com esterco de besouro caolho da Serra da Mantiqueira que prometem emagrecer e depilar a perna com emplastos coloridos que ninguém provou que não são carcinogênicos. Está está cansada, mas sabe como o marido fica depois de tanto comercial de cerveja. Quer agradá-lo. Coitado, trabalha tanto, né? Corre ao banheiro e esconde o tempo, o cansaço e a idade com maquiagens mil. Diante do espelho, ao ver outra mulher que não ela, uma mulher que ela tem certeza que viu diz desses na TV, sorri.

Então, respira fundo para poder aceitar a vida que os comerciais lhe garantiram ser o modelo de felicidade. Deita-se na cama, enquanto espera. E viaja para bem longe. Sozinha.

Pena que, infelizmente, antidepressivo não aparece em comercial de TV. Ainda.

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Comentários

  1. Fernanda Postado em 06/Feb/2013 às 15:40

    Mother's little helper, já diziam meus queridos Stones.

  2. Loli Postado em 06/Feb/2013 às 17:29

    Engraçado, há dois dias eu estava comentando ao ver um comercial de produto de limpeza de roupa: quando é que vão fazer um comercial em que o HOMEM está lavando roupa/pratos/limpando a casa?

  3. Ana Postado em 06/Feb/2013 às 18:36

    Comercial de antidepressivo na TV ainda nao tem, já na Óia tem quase toda semana...

  4. Romero Postado em 07/Feb/2013 às 12:33

    Não sei se o post pretende a inversão da figura de papeis da mulher e do homem, estando aquele a cuidar de casa e afazeres e a mulher a sair para o trabalho externo e demais coisas; ou se é uma crítica ao modo como os comerciais retratam o homem, só no bem bom, carros, bebidas e mulheres; ou se ambos devem sair e deixar as coisas de casa a serviço de terceiros... Algum tempo atrás a mulher em casa, cuidando dos filhos e de sua educação, mantendo o lar em ordem, responsável pela ordem dentro de casa e o homem saindo para garantir os mantimentos, era algo bom e bonito de se ver. Hoje "essa coisa" de mulher em casa e homem na rua parece ter se tornado até um "insulto" para alguns.

  5. Christiane Postado em 07/Feb/2013 às 16:09

    Romero, a questão não é menosprezar esta ou aquela função, há necessidade- e porque não dizer- beleza em todas, a questão aqui é ESCOLHA EM LIBERDADE. Não acredito também que seja um problema de espaço público ou privado. Não há escolha quando os papéis e a personalidade são definidos exteriormente , ainda mais através de um paradigma tão questionável como o econômico o qual é guia dos comerciais de TV. Acredito também que o texto aborda muito mais que isso, lidando com estigmas de perfeição, brincando com auto estima das pessoas( homens e mulheres, héteros ou homos) para manter a máquina econômica girando, fazendo com que os desejos sejam maior que a naturalidade e que a insegurança se torne mola propulsora do consumo. Isso é assustador meu caro.. e porque as mulheres? Porque em uma sociedade machista a mulher é quem mais deve responder a demandas de expectativas. Em uma sociedade machista a mulher é observada todo tempo como aquela que pode ser analisada, julgada e avaliada, e qualquer desvio estético e comportamental é quase um desvio de caráter, ou você nunca escutou coisas do tipo " Nossa que mulher desleixada, aposto que deve ser assim com tudo na vida" .. bom, eu já escutei, e tratava-se de uma das mais espetaculares intelectuais brasileiras. Enfim, aqui não trata-se de troca de papéis, mas de COMUNHÃO de papéis, ou até mesmo sua mobilidade, sem julgamento, sem avaliação.. buscando entender que os papéis que escohemos em vida deve antes de tudo ser uma ESCOLHA, não uma resposta a expectativa de outro :)

  6. Kanella Postado em 07/Feb/2013 às 17:59

    A Christiane foi perfeita em seu comentário!!

  7. Ana Lee Postado em 08/Mar/2013 às 15:53

    Obrigada à Christiane pela respostas, pois se eu fosse responder não iria dar certo, seria grossa. Se sua mamãe, Romero, soube "maquiar" que era feliz no antigo modo de vida, o tal patriarcal, boa atriz era ela =)

  8. Raquel Postado em 02/Apr/2013 às 13:21

    Christiane sabias palavras! Porque contestar um modelo que lhe e tão conveniente não e mesmo Romero? Afinal de contas quem esta do lado do carrão e da cerveja, vai querer compartilhar o lado dos pratos sujos e servidão 24 horas, por que?... Todo o conforto para alguns, deste que um destes seja EU. Ótimo! Deixa o mundo como esta, afinal... Meu nome e Romero, sou homem, branco, bla, bla, bla...

  9. Guilherme Postado em 16/Apr/2013 às 15:59

    Muita pretensão esperar da publicidade um conteúdo educativo e neutro. Cabe cobrar do poder público para que as pessoas que recebem esse conteúdo publicitário tenham acesso a informação/educação para ter critério e raciocínio e poder avaliar o conteúdo, como você avaliou.

  10. victor Postado em 17/Apr/2013 às 00:33

    Raquel, acho que levaste o comentário de Romero para outro lado. Romero quis dizer que há mulheres que estão satisfeitas com a vida simples de uma dona de casa( ou conto de fadas) como algumas feministas preferirem chamar. Assim com hoje em dia há homens que estão também assumindo esse papel de "dona de casa". Então por que levar como um insulto a opção de uma mulher em ser dona de casa?

  11. Lucas Postado em 18/Apr/2013 às 09:42

    o texto é raso. se pretende colocar a publicidade como vilã demonstra mt pouco conhecimento sobre marketing e suas variáveis. mas acho q foi bem intencionado.

  12. Prado Postado em 25/Apr/2013 às 20:46

    Ninguém realmente entendeu o comentário do Romero, assim como o comentário da Raquel por estar em sintonia com uma verdade absoluta e incontestável foi aclamado ser ser realmente analisado. Pois não precisamos pensar, só precisamos adorar uma verdade que nos conforte e que seja atualizada conforme mudam nossas descontentações e inseguranças.

  13. Zack Postado em 06/Jun/2013 às 13:32

    O texto é uma crônica, não uma tese de doutorado e não se baseia em conhecimentos específicos e sim na observação dos papéis atribuídos a homens e mulheres na grande maioria dos comerciais de tv.