Luis Soares
Colunista
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Mercado 25/Jan/2013 às 16:52
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Seja feliz, coloque um chinês trabalhando para você

O espertinho norte-americano, que não trabalha mais para a empresa, estava simplesmente colocando em prática o que o bizarro sistema produtivo de seu país lhe ensinou desde pequeno: lucre o máximo possível, colocando alguém para trabalhar por você

Leonardo Sakamoto, em seu sítio

Uma notícia deliciosa está correndo a internet há alguns dias. Um programador norte-americano terceirizou para uma
empresa chinesa o próprio trabalho, pagando um quinto do seu salário, enquanto passava o dia navegando no YouTube, Facebook, eBay, entre outros. Conforme noticiou o jornal The Telegraph, com isso, ganhava centenas de milhares de dólares anuais, seu trabalho era considerado excelente e a performance tida como a melhor de todo o escritório.

trabalho escravo china eua

O programador passava o dia navegando na internet antes de enviar o relatório de desempenho diário a seus superiores

O causo é delicioso não pela lamentável relação de exploração trabalhador-trabalhador que se estabeleceu. Muito menos pelo orgasmo dos conservadores ao ler essa história, bradando que essa é a prova que o custo da força de trabalho nos Estados Unidos, Europa e mesmo no Brasil está mandando os empregos para longe e que, por isso, o modelo a ser copiado é o da China, Vietnã, Índia, entre outros. Como se a única coisa que importasse fosse o crescimento do bolo e não a sua distribuição ou a qualidade de vida dos envolvidos (onde mesmo que eu li isso?… Ah, claro, no material de divulgação da Gloriosa durante os anos de chumbo).

Não é justo perdermos empregos por aqui, muito menos explorar trabalhadores por lá para garantir que nossos bens de consumo favoritos sejam mais baratos. Eu, como consumidor, aceito pagar R$ 20 a mais no preço de um celular, se a Apple topar reduzir, por exemplo, o dobro desse valor em margem de lucro por aparelho, e esses R$ 60 forem destinados a melhorar os salários e condições dos trabalhadores. Isso já foi possível com trabalhadores do tomate que melhoraram suas condições de vida quando alguns centavos foram acrescentados ao preço do ketchup nos Estados Unidos.

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Enfim, a delícia da história está no fato das empresas terem banalizado tanto a terceirização da produção para locais com baixo custo de mão de obra no intuito de fugir das responsabilidades trabalhistas que me pergunto que culpa tem o programador? Ele aprendeu direitinho o que deve ter visto a vida inteira.

Pois, quando uma grande empresa faz isso é uma excepcional política para uma cadeia de produção global visando à redução de custos e quando uma pessoa faz é um inaceitável comportamento antiético?

Essa “regra do jogo”, que varia conforme quem é o jogador, me faz lembrar um restaurante self-service. Os grandes passam com a bandeja primeiro e escolhem o que querem e o que não querem para o almoço. Os menores são obrigados a comer o que sobrou. Calados. Isso sem contar que quem cuida do restaurante, ou seja, o Estado, garante que essa ordem continue existindo. Afinal de contas, pessoas jurídicas valem mais que as físicas.

O espertinho norte-americano, que não trabalha mais para a empresa, estava simplesmente colocando em prática o que o bizarro sistema produtivo de seu país lhe ensinou desde pequeno: lucre o máximo possível, colocando alguém para trabalhar por você.

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Comentários

  1. João Postado em 26/Jan/2013 às 03:46

    Ambas as partes concordaram? Sim? Então é voluntário e legítimo. Lide com isso. O choro é livre.

  2. Fonseca Postado em 26/Jan/2013 às 17:14

    Ótima crítica, parabéns! Simples e objetiva.

  3. isabelle Postado em 19/Mar/2013 às 21:39

    "João, em 26 de janeiro de 2013 às 3:46 disse: Ambas as partes concordaram? Sim? Então é voluntário e legítimo. Lide com isso. O choro é livre." que comentário ignorante, João.. pare pra pensar, por que será que aceitaram esse 'serviço'? algo me diz que é porque a necessidade bateu. sei lá, só acho. ou também pode ser porque eles adoram ser escravizados, e a sua busca por uma melhor qualidade de vida não tem nada a ver. é, parece que nunca saberemos. rs

  4. Eli Postado em 09/Apr/2013 às 14:21

    O Isabelle, se a necessidade bateu, se o chinês precisava, o cara esse fez um favor pra ele, lhe dando trabalho. Custo de vida na china também é menor. Não foi um trabalho escravo. Certamente o cara chegou até esse chinês porque esse chinês devia estar divulgando também seu serviço. Não vejo nada, MAS NADA, de errado aqui. sem mais

  5. Leonardo Postado em 12/Apr/2013 às 12:27

    Vejo isso como a simples democratização do cargo patrão. Não há nada de diferente na relação patrão/empregado tradicional a qual nos sujeitamos ou impomos diariamente, nem tampouco nas relações comerciais como comprar algo para revender, etc. Isso se chama capitalismo, nada de assombroso, vivemos isso a todo instante e nos deleitamos nele, ficando vez ou outra com pena de alguma pobre criatura explorada (quais exploramos diariamente) apenas para aliviar nossa consciencia, permitindo assim a façanha de continuarmos indiferentes (e de consciencia limpa).

  6. Pedro Postado em 17/Apr/2013 às 08:08

    1 É, parece que temos um problema aqui. Por um lado essa terceirização do trabalho é explorativa, imoral e anti-ética. Esse cara é contratado de uma empresa pra fazer o seu trabalho, recepe digamos R$50 por hora pra fazer esse trabalho, mas ao invés de o fazer, contrata uma outra pessoa para fazer o mesmo trabalho pagando R$10-hora, um trabalho que vale R$50!! Isso é exploração. É sim o que as empresas fazem, mas é errado! E estas só fazem isso porque nao há quem as impeçam. A mão de obra na china é muito mais barata por que não há regulamentação sobre isso nem ninguém que defenda os trabalhadores chineses, já que o próprio governo deles não o faz..

  7. Pedro Postado em 17/Apr/2013 às 08:26

    2 Por outro lado, existe também a diferença de câmbio e oportunidade entre os EUA e a China. É bem possivel que as pessoas na China aceitem fazer esses trabalhos exploratórios porque não há melhores OPORTUNIDADES, ou seja preferem ser exploradas e ganharem R$10 fazendo um trabalho que vale R$50 do que ganharem R$0 não trabalhando. Ou ainda, se outras pessoas fazendo trabalhos similares em empresas chinesas ganham ±50, que no fim das contas acaba equivalendo a R$10, que opção elas teriam se não aceitar? É estúpido pensar que esse ''espertinho'' pode estar gerando emprego e talvez ainda pagando bem pro contexto.. Tenho certeza que o chinês fazendo este trabalho não iria gostar de perder seu ''emprego'', explorção ou não, ele está ganhando o pão de cada dia e não tem outra opção. O que eu gostaria que acontecesse é que essa empresa demitisse esse empregado incompetente e contratasse o chinês em seu lugar, pagando seus R$50-hora, ja que o trabalho feito é considerado de alta qualidade pela empresa. :)

  8. Glauco Postado em 18/Sep/2013 às 04:12

    Parece aquela velha história do banco x pessoa física; o banco pode roubar emprestando e cobrando juros pq é autorizado; o particular não pode pq não é banco... Aí é imoral! Pô!!!!

  9. Daniel Postado em 14/Nov/2013 às 06:24

    Trabalho exploratório? Faça me o favor. Na China o salário é baixíssimo. Afinal, o governo custeia tudo, e tem servicos publicos de qualidade, nada mais justo. Os 20% do salário do programador americano eram um aumento brutal no salário do chinês. E vocês tao dizendo que houve uma exploração da força do trabalho dele? Fala sério!