Luis Soares
Colunista
Mídia desonesta 18/Jan/2013 às 13:46
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O que Hugo Chávez ensinou ao mundo e ao Brasil?

Liberdade de imprensa na Venezuela? Jornalista brasileira relata: “Pedi ao jornaleiro imprensa de oposição ao Chávez. Ele apontou para toda a sua banca e disse-me. Minha filha, isso aí tudo é contra o governo, pode escolher à vontade”

Desde que foi eleito em 1998, o presidente Hugo Chávez vem estimulando uma série de debates, seja em razão das amplas transformações sociais que promove na Venezuela, seja em razão do medo pânico que causa nos governos imperiais e nas oligarquias de cada país, vassalas e zeladoras dos interesses deste imperialismo em cada país. Certamente, sobre cada um destes aspectos é possível retirar profundas lições.

No caso brasileiro, a mídia do capital que jamais se preocupou em oferecer um mínimo de informação objetiva sobre as mudanças em curso na Venezuela, agora, em razão do infortúnio da enfermidade de Chávez, esta mídia supera-se. Promove uma comunicação necrológica, havendo inclusive comentarista de veículos das Organizações Globo, que chega mesmo ao grotesco de torcer pela desaparição do mandatário venezuelano.

hugo chávez venezuela brasil

As notas que a mídia brasileira divulgam sobre Chávez atentam contra a prática basilar do jornalismo. Críticas e discordâncias são absolutamente normais e devem ser praticadas. Mas, desinformação, distorção e inverdades grotescas são atributos rigorosamente alheios ao jornalismo

Sobre isto devemos tirar lições, seja aquelas amargas , a partir do comportamento medieval da mídia empresarial sobre a trágica enfermidade de Chávez, enfermidade que, óbvio, pode alcançar a qualquer um de nós, mas também sobre o que este mandatário já realizou mudando a face de seu país e ajudando a mudar a face da América Latina. Por um lado, fica claro que para aqueles comentaristas globais, a ideologia está por cima de qualquer conceito básico de humanidade ou solidariedade, que sustentariam desejos de restabelecimento e de superação deste azar pessoal.

Mas, o que se observa é ainda mais grave: para além do desejo pessoal da morte alheia, as concessões de serviço público de radiodifusão estão a ser utilizadas para a propagação destes desejos mórbidos em grande escala de difusão, violando a Constituição Brasileira, que, em seu artigo 221, estabelece como princípio a ser observado, “o respeito aos valores éticos e sociais, da pessoa e da família”, sem qualquer manifestação da autoridade responsável.

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É como se fosse autorizado aos concessionários de serviços públicos de abastecimento de água, distribuir água contaminada e suja à sociedade.

Para que serve a mídia?

Será que isto estaria se tornando uma tendência? Há alguns meses, quando cientistas iranianos foram assassinados em atentados que, segundo o noticiário da época, teriam sido organizados por comandos israelenses – os mesmos que assumem agora terem participado na eliminação de Yasser Arafat – num programa televisivo, Manhattan Conexion , também veiculado por empresa das Organizações Globo, comentaristas chegaram a defender que aqueles cientistas iranianos mereciam mesmo ser assassinados. Apologia do homicídio!

Tanto num caso, como em outro, Venezuela e Irã são países com os quais o Brasil possui relações de amizade e cooperação, aliás crescentes, em benefício mútuo notório. Qual seria a reação do Itamaraty, do Governo Federal, caso emissoras de TV da Venezuela ou do Irã passassem a hostilizar autoridades brasileiras, e, chegassem a torcer pela reincidência do câncer em Dilma ou em Lula, e para que eles não resistissem? Ou se estas emissoras defendessem a morte de cientistas brasileiros, pois, como sabemos, o Brasil também possui – de modo soberano – seu próprio programa nuclear, como EUA, Rússia, China, Israel e Irã?

Pra que servem os meios de comunicação social, afinal de contas? Para hostilizar e desejar o pior, de modo incivilizado, embrutecido, desumano e antidemocrático, a personalidades de outros países, com o que se desrespeitam povos com os quais temos relações de cooperação e amizade? Será mesmo admissível que concessões de serviço público sejam utilizadas para insuflar, propagandear e celebrar o desejo de morte de seres humanos, simplesmente por não comungar de suas ideias? Esta prática não seria equiparável àquelas que Goebels denominava de “razões propagandísticas”, e que precederam os ataques nazistas a outros povos?

Estranho “ditador”

As notas que a mídia brasileira divulgam sobre Hugo Chávez atentam contra a prática basilar do jornalismo. Críticas e discordâncias são absolutamente normais e devem ser praticadas. Mas, desinformação, distorção e inverdades grotescas são atributos rigorosamente alheios ao jornalismo.

Um dos aspectos mais utilizados nesta cruzada midiática de anos é a tentativa de rotular Hugo Chávez como ditador. Estranho “ditador” este que chegou ao poder pelas urnas e, em 14 anos, promoveu 16 eleições, referendos e plebiscitos, dos quais venceu 15 pelo voto popular e respeitou, democraticamente, o resultado do único pleito em que não foi vencedor. Estranhíssimo “ditador” esse Chávez que introduziu na Constituição Bolivariana – ela também referendada pelo voto popular – o mecanismo da revogabilidade de mandatos, utilizado pela oposição que, no entanto, não conseguiu a vitória nas urnas.

Auditoria eleitoral

Na Venezuela, para dar ainda mais segurança às eleições, estas não são julgadas pela mesma autoridade que as organiza. Além disso, as urnas possuem mecanismo de impressão do voto, possibilitando ao eleitor conferir se o voto que teclou foi realmente o voto registrado pelo computador. De posse deste voto impresso, o eleitor, no mesmo momento da votação, o deposita em urna anexo. Isto possibilita que haja plena auditoria do voto, o que não ocorre no Brasil, onde, conforme já demonstraram especialistas da UnB, as urnas eletrônicas são vulneráveis a interferência externa sobre seus programas, além do que, na existe a possibilidade do voto material em papel para eventual necessidade de recontagem.

Estranho “ditador” este Chávez, que ampliou a segurança eleitoral dos cidadãos, lembrando que lá na Venezuela o voto não é obrigatório, tendo sido registrada, na eleição de outubro de 2012, uma participação superior a 86 por cento do colégio eleitoral. O revelador aqui é que as Organizações Globo, tão empenhada em rejeitar e criticar a democracia venezuelana, é aquela que apoiou o a supressão do voto popular no Golpe de 1964, apoiou a Proconsult contra a eleição de Brizola em 1982 e foi contra a Campanha Diretas-Já, em 1984, uma das mais belas páginas da consciência democrática do povo Brasil. E, ainda hoje, a Globo insiste em difamar e combater a instituição do voto impresso na urna eletrônica brasileira, cuja vulnerabilidade tem lhe causado a rejeição por mais de 40 países, exceção para o Paraguai, a quem o TSE regalou tais equipamentos……

Povo ignorante?

Esses comentaristas da Globo tentam passar a imagem de que a Venezuela é um país de atraso cultural, para o que se valem , novamente, do expediente corriqueiro da desinformação massificada, repetida sistematicamente. Vamos aos fatos: enquanto a Venezuela já foi declarada oficialmente, pela UNESCO, como “Território Livre do Analfabetismo”, o Brasil ainda não tem sequer uma meta segura para erradicar esta mazela social, apesar de terem nascido aqui os geniais Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire.

Lá, para a erradicação do analfabetismo, além da utilização de um método super-revolucionário elaborado em Cuba, o “Yo Si Puedo”, houve uma tremenda mobilização do governo, das massas, das instituições, mas também dos meios de comunicação públicos, que, existem, informam e possuem uma programação cultural educativa elevada ao contrário daqueles sintonizados com os ditames prepotentes do Consenso de Washington.

Aliás, vale lembrar que foi exatamente por meio deste método que o Deputado Tiririca foi alfabetizado em prazos relâmpagos e foi capaz superar as ameaças elitistas da autoridade eleitoral que queria lhe cassar o mandato. Tiririca aprendeu a ler e escrever em poucas semanas. Com também foram alfabetizados campesinos, índios, povo pobre na Venezuela, na Bolívia e no Equador. Em breve será a Nicarágua a ser declarada também, oficialmente, pela Unesco, Território Livre do Analfabetismo.

Como contraponto, vale lembrar que o programa Telecurso Segundo Grau, produzido pela Fundação Roberto Marinho, é exibido em horário da madrugada pelas emissoras que empregam esses comentaristas, apesar dos volumosos recursos públicos despendidos para a sua produção e veiculação. A escolha do horário é apenas demonstração da baixa preocupação e vontade dos concessionários de serviços públicos de radiodifusão em contribuir para a elevação do nível educacional e cultural do nosso povo. Contrariando a Constituição.

O que é notícia?

Aqueles comentaristas são incapazes de informar sobre tudo isto, bem como sobre o papel dirigente de Hugo Chávez ao formar com estes países e outros a ALBA – Aliança Bolivariana para o Progresso, numa iniciativa em que colocou o petróleo com instrumento da elevação das condições de vida não apenas dos venezuelanos, mas também do progresso social conjunto destes povos. A isso chamam de ingerência, trocando solidariedade por intromissão. Graças aos recursos do petróleo, milhares de latino-americanos, estão recuperando a plena visão, por meio de cirurgias gratuitas realizadas pela Operación Milagro, um esforço comum entre Cuba e Venezuela.

Esta operação humanitária, jamais divulgada adequada pelas Organizações Globo, nasce quando a OPAS alertou para a possibilidade de que pelo menos 500 mil latino-americanos perdessem a visão à curto prazo, vítimas de catarata, uma tragédia perfeitamente evitável. As cirurgias são feitas tanto em Cuba, como na Venezuela, e agora também na Bolívia, no Equador, seja por médicos cubanos, ou locais. Isto não se informa, mas um dia destes , fiquei tomei conhecimento, pelo Jornal Nacional, da edificante informação de que a esposa do Príncipe Willians, a tal duquesa de Cambridge, está sofrendo muito enjoo na sua gravidez. Cuba e Venezuela decidiram operar 6 milhões de latino-americanos, gratuitamente, em 10 anos. O que é notícia?

Índios leem “Cem anos de solidão”

Aí temos outra lição de Chávez: depois de erradicar o analfabetismo, Chávez criou a Universidade Bolivariana, pública e gratuita, a Universidade das Forças Armadas, e um programa para elevar a taxa de leitura do povo venezuelano. Por meio deste programa foram editados, dando apenas alguns exemplos, a obra “Dom Quixote”, com uma tiragem de 1 milhão de exemplares que foram distribuídos gratuitamente nas praças públicas, e também a obra “Contos”, da Machado de Assis, pelo mesmo programa, com uma tiragem de 300 mil exemplares, tiragem que o genial escritor do Cosme Velho jamais mereceu aqui no Brasil, onde não apenas o analfabetismo persiste , mas a tiragem padrão de nossa indústria editorial arrasta-se na melancólica marca de 3 mil exemplares.

Além disso, algumas tribos indígenas da Amazônia venezuelana, que, até Chávez, ainda desconheciam a escrita, já tiveram seu idioma sistematizado, e, como primeira obra publicada no novo sistema de escritura, tiveram o belíssimo “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez. No entanto, apesar de tudo isto, para estes comentaristas da Globo, que agridem Chávez no leito de um hospital, na Venezuela há um “povo ignorante”, dirigido por um “ditador”…. Como explicar, então, a realização destas mudanças marcantes?

Vale contar um caso: o senador Cristovam Buarque, ex-Ministro da Educação de Lula, foi à Venezuela para a solenidade de Declaração de Território Livre do Analfabetismo. Escreveu num papelucho um endereço e saiu pelas ruas perguntando ao acaso aos transeuntes, que lhe orientassem como chegar ao destino marcado. “Falei com pessoas indistintamente, camelôs, donas-de-casa, jovens ou não, ninguém me disse que não sabia ler e davam a informação”, contou. São as lições de Chávez que a Globo não possui aptidão para aprender….

Petróleo a preço de água

Antes de Chávez, quando 80 por cento dos venezuelanos viviam na miséria absoluta, o petróleo era regalado aos EUA, enquanto a burguesia local era conhecida por ser a maior consumidora de champanhe do mundo, depois da francesa, e pela elevadíssima importação de caviar para pequenos círculos oligarcas.

Eleito, Chávez cumpriu promessa de campanha de acabar com a farra imperialista com o petróleo venezuelano regalado. Recuperou gradativamente o controle sobre a PDVSA e também fez uma cruzada internacional para acordar a OPEP de seu sonho colonizado. Na época, o preço do petróleo estava em 7 dólares o barril – ou seja, muito mais barato que água mineral ou Coca-Cola – e hoje, avança pela casa dos 100 dólares. Eis a razão do ódio dos EUA a Chávez.

Evita Perón e Vargas

Este ódio imperial se expressa como uma ordem, uma sentença de morte, dada pelos falcões norte-americanos para que seja alcançada, por meio do câncer, aquela meta mórbida contra qualquer mandatário que não seja talhado para vassalagem, para submissão. Não é a primeira vez na história que isto ocorre. Quando Evita Perón foi acometida por um câncer, este jornalismo mortífero se expressou sem qualquer escrúpulo. O ódio que os círculos imperiais nutriram por Evita fez com que ele saltasse das páginas da imprensa portenha para os muros de Buenos Aires, nos quais a oligarquia festejava sua podridão moral escrevendo “Viva el Câncer!”.

Os imperialistas jamais perdoaram Evita por ter armado os trabalhadores da CGT para resistir aos golpes que frequentemente se organizavam contra Perón. Chegou mesmo a advertir Perón, que lhe criticou pela distribuição de armas, da qual ela nunca se arrependeu, que ele estava preparando as condições – desmobilizando os trabalhadores – para não ter capacidade de resistir ao golpe, que chegou em 1955, 3 anos depois da morte de Evita. Ela bem que avisou.

Depois foi contra Getúlio Vargas, quando sua saída da vida para entrar na história foi comemorada em círculos manipulados pelo capital externo, que não suportavam a criação da estatal Petrobrás, dos direitos laborais inscritos na CLT e da lei da remessa de lucros ao exterior. Não por acaso, o povo expressou sua tristeza e sua fúria, pranteando Vargas, mas também empastelando os símbolos daquele ódio contra o popular presidente, entre os quais os jornais Tribuna da Imprensa, Globo, e, até mesmo do jornal do PCB, Tribuna Popular, que no dia do suicídio de Vargas trazia desorientada entrevista de Prestes pedindo sua renúncia.

Assustados e envergonhados, os dirigentes comunistas recolhiam os exemplares do jornal que ainda estavam nas bancas. Mas, não tiraram conclusões históricas do porquê também foram alvo da fúria popular contra seus inimigos, sobretudo porque Vargas havia convidado Prestes para ser o chefe militar da Revolução de 30, aquela que em apenas 24 horas alistou mais de 20 mil voluntários para pegar em armas e combater a República Velha. Prestes inicialmente aceitou o convite, mas a ordem stalinista foi para que se afastasse de Vargas, enquanto que, na mesma época, em sentido contrário, Leon Trotsky escrevera que tanto Vargas como o mexicano Cárdenas, eram expressão de um bonapartismo sui generis, com potencial revolucionário, e que deveriam receber o apoio tático dos revolucionários.

O Levante de 4 de Fevereiro de 1992

Processos revolucionários começam sob formas mais inesperadas, normalmente com rupturas da legalidade instituída quando esta acoberta iniquidades, sob a forma de insurreições, armadas ou não. A partir das revoluções outra legalidade é constituída. Assim foi a Revolução de 30. Assim havia sido a Revolução Francesa, Assim foi a revolução em Cuba, na Nicarágua ou na Argélia. A Revolução Iraniana, por exemplo, desde 1979, de quatro em quatro anos promove eleições diretas, o que ainda não foi conquistado pelo povo dos EUA, onde o voto é indireto e apenas os candidatos que podem pagar aparecem na mídia para defenderem suas ideias.

A Revolução Bolivariana começa com um levante insurrecional – o 4 de fevereiro de 1992 – destinado a convocar uma Assembleia Nacional Constituinte, cujo objetivo era retirar a Venezuela da condição de colônia petroleira. Evidentemente, os comentaristas que seguem orientação imperial não suportam qualquer forma de rebeldia contra hegemonias colonizadoras. Na prisão, Chávez se transforma no homem mais popular da Venezuela, aquele capaz de traduzir e promover a identidade de seu povo com a sua história, com Bolívar, com a sua identidade cultural, sua mestiçagem negra e índia, como são os venezuelanos.

A Revolução Bolivariana começa com um levante armado e transforma-se em processo institucional por meio da aprovação do voto popular. Mas, diante das constantes ameaças golpistas imperiais e também das provocações desestabilizadoras da oligarquia, Chávez mesmo declarou que “esta é uma revolução pacífica, pero armada” , como a expressar a consciência do golpismo que sempre esmagou processos democráticos de transformação social na América Latina. Não lhe sai da lembrança que Allende morreu de metralhadora na mão…

Jornalismo de desintegração

As lições de Chávez estão aí aos olhos do mundo, mesmo que esta mídia golpista, praticando o mais vulgar jornalismo de desintegração, queira ocultar. A parceria Brasil-Venezuela multiplicou em mais de 500 por cento o comércio bilateral em poucos anos e hoje estão atuando na pátria de Ali Primera a Embrapa, a Caixa Econômica e muitas empresas brasileiras. Realizam obras de infra-estrutura indispensáveis para que o país dê um salto em seu desenvolvimento, o que sempre foi sabotado pelas oligarquias do período pré-Chávez.

Agora Venezuela constrói ferrovias, metrôs, teleféricos, estradas, hidrelétricas, pontes, e a participação brasileira nisto, com financiamento estatal, via BNDES, traduz bem o pensamento de Lula de que integração significa “todos os países crescendo juntos”. Os comentaristas da Globo não informam nada disso, até porque apoiaram quando o Brasil, na era da privataria neoliberal, demoliu um terço de suas ferrovias, além de ter destruído sua indústria naval, que agora, recuperada, tem inclusive 27 encomendas para a construção de navios petroleiros da PDVSA, a serem feitos aqui.

Solidão do uniforme

Além da integração, Chávez recuperou para o centro do debate o conceito de socialismo, além de propor a organização de uma nova Internacional, indignando-se com a cruzada da morte que o imperialismo organizou contra o Iraque, a Líbia e também contra Síria. Muito longe de resolver o desemprego galopante que assola a França, o governo de Hollande lança-se em mais uma empreitada imperial contra. Só sabem guerrear.

Chávez recupera o debate sobre uma nova função social para os militares, retirando-os da solidão do uniforme, unindo-os ao povo e às causas mais preciosas para viver com dignidade, com soberania e como democracia e justiça social. Recuperou até mesmo a função histórica do General José Ignácio de Abreu e Lima, pernambucano que lutou ao lado de Bolívar e que foi o primeiro a escrever sobre O Socialismo na América Latina, o que, em boa medida era desconhecido até mesmo pelas esquerdas brasileiras. Hoje os militares venezuelanos cumprem função libertadora e resgatam a função das correntes militares progressistas e antiimperialistas na história e seus representantes como Velasco Alvarado, Torres, Torrijos, Perón, Prestes, Nasser, Tito, a Revolução dos Cravos…..São lições de Chávez.

Os comunicadores que ignoram os fatos objetivos alardeiam a existência de desabastecimento alimentar quando a Unicef comprova que a Venezuela teve reduzida drasticamente a desnutrição e sua mortalidade infantil. O que há é boicote da indústria alimentar, o que levou o governo a montar uma rede estatal de mercados, fixos e móveis, que chegam a vender alimentos ao povo a preços até 70 por cento mais baratos, já que supera a especulação dos oligopólios.

Na semana que passou, para as autoridades venezuelanas confiscaram 3 mil toneladas de alimentos que estavam escondidos pelos oligopólios, numa operação casada com a mídia para fazer a campanha de que “falta alimento”, operação da qual participam, vergonhosamente, os comentaristas globais e sua grotesca desinformação. Segundo estatísticas da FAO, o consumo de alimentos na Venezuela aumentou em 96 por cento no período de 2001 a 2011, Era Chávez, enquanto a Cepal atesta que este país é hoje o menos desigual da América Latina, além de pagar o maior salário mínimo do continente, o equivalente a 2440 reais, informação que a Globo jamais noticiará.

MST, sem veneno

Antes de Chávez, a Venezuela não possuía economia agrícola, ou melhor, tinha apenas uma “agricultura de portos”, todo alimento era importado, até alface vinha de avião de Miami. Hoje o país, graças à integração e à cooperação promovidas incansavelmente por Chávez, já tem uma pecuária leiteira, já produz metade do arroz que consome e recebeu até a solidariedade do MST que lhe doou toneladas de sementes criollas de soja não transgênica. Aliás, Chávez organizou convênio com o MST, o então governador Roberto Requião e a Universidade Federal do Paraná para montar escolas de agroecologia aqui no Brasil, abertas à participação de estudantes de toda a América Latina.

Jornais populares e diversidade

Essas são algumas das generosas lições de Chávez, atacado pela Globo daqui, como pela de lá, exatamente porque existe plena liberdade de imprensa na Venezuela. Ou, como disse Lula, “o problema da Venezuela é excesso de democracia”. Vale contar episódio de jornalista brasileira que antes de viajar para lá me perguntou como poderia ter acesso a imprensa não controlada pelo governo, segundo frisou. Eu lhe disse, vá às bancas de jornal. Ela desconfiou, mas foi. E me contou; “pedi ao jornaleiro imprensa de oposição ao Chávez. Ele apontou para toda a sua banca e disse-me. minha filha, isso aí tudo é contra o governo, que poderia escolher á vontade”, relatou-me surpreendida.

A diferença é que essas grosseiras distorções e manipulações que se lançam aqui contra Chávez, lá têm respostas pois foi constituído um sistema público de comunicação, inclusive com jornais populares distribuídos gratuitamente ao povo nos metrôs e rodoviárias, o que ainda não temos aqui. O povo brasileiro eleva seu padrão de consumo, mas não tem um jornal com o qual possa dialogar e refletir sobre as mudanças sociais em curso aqui. Continua “dialogando” com as xuxas da vida….

Caminhando e cantando e seguindo a lição….

Diante de tantas lições civilizatórias, democráticas, transformadoras e marcadas pelo humanismo que está sendo aplicado pelo governo bolivariano da Venezuela, a conclusão de um comentarista global de que Chávez iria tomar o poder no além, é apenas e tão somente confissão de um desejo golpista macabro e atestado da estatura moral desta mídia teleguiada de Washington. O que desejamos é que Chávez possa se recuperar, concluir a sua obra, na qual está a meta de construir e entregar 380 mil novas moradias em 2013, equipadas com móveis e eletrodomésticos, em terrenos localizados também em bairros nobres, e não numa periferia longínqua ou à beira de precipícios que desmoronam com as chuvas.

Quanto a nós, que aprendamos algumas destas lições, especialmente quanto à necessidade de fortalecer, expandir e qualificar um sistema público de comunicação, para que tenhamos acesso ao que está em nossa Constituição, a pluralidade e a diversidade informativas, e um jornalismo como construção de cidadania e de humanidade.

Texto de Beto Almeida, membro da Junta Diretiva de Telesur

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Comentários

  1. Humberto Postado em 18/Jan/2013 às 15:40

    Nós Brasileiros,realmente somos uns bostas,eu não compartilho com as opiniões de nossa imprensa (sinha).

  2. Daniel Lacerda Postado em 18/Jan/2013 às 15:53

    Além de demonstrar um problema relevante, esse texto ficou realmente muito bom!! Parabéns pra quem produziu.

  3. Gustavo Postado em 18/Jan/2013 às 18:12

    Acho essencial que todos aqueles como Hugo Chávez que são contra os países ricos, imperialistas e com vários outros adjetivos que de alguma forma exprimem grande poder econômico ou influência em nível mundial -- coisas que os apoiadores do socialismo e do comunismo parecem odiar até chegar ao poder -- virem as costas para os ensinamentos de tais países ricos e "opressores". A primeira medida, obviamente, é deixar de lado criações e descobertas desses países, como luz elétrica, computadores, o telefone (incluindo o celular) e também coisas como a penicilina e vários outros medicamentos.

  4. Fabio Postado em 18/Jan/2013 às 21:18

    Parabéns pelo texto! Muito bom mesmo!

  5. Thiago Postado em 19/Jan/2013 às 08:50

    O texto pode me apresentar todos os dados de sucesso do governo Chavez, mas uma pessoa que permacene por mais de três mandatos no comando do país não é democrático e é idólatra. E isso eu vejo como um abuso absurdo da total manipulação política e midiática.

  6. Cássio Suzuki Postado em 19/Jan/2013 às 20:58

    Sobre a mídia, também vale lembrar do episódio do ¿Por qué no te callas? este tomou uma proporção enorme, e em 99% dos casos, ao invés de ressaltar a falta de respeito do rei Juan Carlos da espanha, o que vimos foi um alvoroço enorme exaltando a coragem do mesmo.

  7. Antonio Lucas Postado em 19/Jan/2013 às 21:07

    "E isso eu vejo como um abuso absurdo da total manipulação política e midiática." Você leu o texto, pelo menos, Thiago? A maior parte da mídia é de oposição. Me explique como ele manipula?

  8. Camilo B. P. Postado em 20/Jan/2013 às 00:03

    Chávez é um ditador, sim! Manipula o povo através da imprensa comprada pelo seu governo para conseguir o que quer. Já no ensino fundamental das escolas públicas venezuelanas, nos estados chavistas, as crianças são ensinadas a delatar os próprios familiares que sejam contrários ao governo! Se isso não é manipulação, não sei o que é... Já assistiu ao 'Aló Presidente'? É muito romântico defender a soberania de um governo latino americano, mas vai lá viver com cortes diários de energia elétrica, com uma polícia mais perigosa que os bandidos, com a doutrinação diária na mídia, com violência galopante, corrupção generalizada e outros prazeres que 'El Brujo' proporciona!

  9. Luan Postado em 20/Jan/2013 às 01:05

    Se todos o brasileiros tivesses contato com essas informarmações, poderiamos estar investigando nossos políticos, fazendo uma revoluçao, mas diferente do que informa aqui, as midias televisivas brasileiras de grande audiência continua poluindo nossa mentes com mentiras e falsidade. E como eu queria ser um cidadão venezuelano, mas como não sou tenho que manter a esperança de que nosso país um dia consiga se desgarrar do imperialismo norte americano

  10. João Paulo Postado em 21/Jan/2013 às 11:37

    Camilo B.P, me parece que houve um engano na sua descrição, isso é o Brasil!

  11. Thiago Postado em 21/Jan/2013 às 20:25

    @Antonio Lucas ei li o texto, mas não reli meu próprio texto. não foi intencional o "midiático" ficar ali.

  12. Álisson D. Postado em 22/Jan/2013 às 17:46

    @Gustavo Descobertas desses países? Foram os países que descobriram ou foram pessoas? Dizer que o desenvolvimento científico é símbolo do capitalismo é um equívoco, todos os países capitalistas são produtores de tecnologia? Se quer atribuir os feitos ao sistema, vejamos alguns feitos da esquerda. A primeira central nuclear (Óbninsk), lançamento do primeiro satélite artificial (Sputinik 1), primeiro animal fora da Terra (Sputnik 2), o primeiro homem no espaço (Yuri Gagarin), primeira estação espacial (Salyut 1). Você deve perceber que isso colaborou para os avanços em telecomunicações que possuímos hoje. Existem ainda avanços militares e na área da saúde, como Vladimir Filatov que criou um método seguro para transplante de córnea. A União Soviética ganhou bastante prêmios Nobel, 9 se não me engano. Enfim, critique o comunismo, mas não com esse argumento. Até porque se for assim você pode passar por apuros, já que nosso sistema de saúde (PSF's) é baseado no modelo Cubano, melhor você não usar.

  13. Tabita Abramo Postado em 25/Jan/2013 às 00:56

    Ótimo texto, mas o pseudo-socialismo de Chaves é bem problemático: um socialismo com burguesia nacional. enfim. mass... sorte aê, né. já tá melhor do que uma colônia de joelhos...

  14. BARBOSA® Postado em 26/Jan/2013 às 23:21

    O texto está muito bem escrito, mas não é imparcial, o que por si só depõe contra ele e o torna contraditório às críticas que faz às Organizações Globo, ou seja, comete os mesmos erros ao mostrar apenas o que lhe interessa e é conveniente. Eu não assisto à Rede Globo e a nada produzido pelas Organizações Globo, embora admire pontualmente alguns de seus profissionais. Não a assisto por um ato de protesto velado, mas sim por não gostar de sua programação e não concordar com o seu jornalismo, nesse sentido, o que aconselho a todos fazerem, é procurarem outras formas de se manterem informados e principalmente confrontarem as informações que chegam até nossas mentes. E a internet é um território extraordinário para se obter tal equilíbrio e imparcialidade. O povo venezuelano, assim como a população de qualquer país soberano (ou não), merece respeito e se querem ter como líder Hugo Chávez, isso é um problema interno deles. Independente das conquistas e/ou mazelas que aquele presidente tenha obtido nestes últimos anos. Acho sim muito estranho sua perpetuação no poder. Não vejo isso como algo saudável, mas... como brasileiro, o máximo que me permito é estranhar. Comparar o Brasil com qualquer outro país do mundo é um risco e um convite à simplificação e banalização de assuntos sérios. Um país continental, com uma multiplicidade cultural e ideológica como a nossa torna qualquer política de governo extremamente mais difícil. Se numa comparação isso não for ponderado, tenderemos sempre a ser o pior e nossas conquistas serão sempre mais difíceis. É algo óbvio. No mais, num mundo globalizado, de tudo se extrai lições e ensinamentos, não apenas dos acertos, mas até mesmo das mazelas alheias podemos tirar experiências valiosas e no caso de nossos vizinhos venezuelanos (ou de Hugo Chávez se preferirem), não é diferente: podemos sim adaptar à nossa realidade lições positivas e/ou aprender com as falhas alheias evitando-as em nossa sociedade. Por fim, o texto critica a postura de nossa imprensa ao desejar a morte de Chávez, no entanto, no título, coloca o verbo no passado como se ele já tivesse morrido e mais nada poderia nos ensinar. Hilário.

  15. Anderson Postado em 31/Jan/2013 às 12:42

    Desculpe por sem bem direto, mas o texto nao condiz com o titulo do site (pragmatismo) e vê-se claramente que o autor nunca foi a Venezuela conhecer a "realidade em campo" do pseudo-socialismo que existe alí. No entanto cada um tem direito a sua opiniao. Boa sorte a todos.

  16. Chico Postado em 05/Mar/2013 às 05:01

    O texto de Barbosa é muito lúcido. Eu acrescentaria que gostaria de saber o nome da jornalista que passou a informação de que os jornais das bancas venezuelanas são todos de oposição....

  17. A. Leandro Muniz Postado em 05/Mar/2013 às 18:16

    Se disser que nasceu na Venezuela e morou lá, eu aceito o texto. Muito bem escrito. Hugo Chavez acabou de morrer. Se as mudanças e heranças que ele deixou são boas ou ruins, isso já é outra coisa. Com certeza ele incomodou a muitos e alegrou a tantos outros. Mas ainda sim não pode ser visto como modelo de governante para país algum.

  18. Ana Flávia Postado em 05/Mar/2013 às 18:42

    Concordo com Barbosa e Anderson. Já estive na Venezuela e pude ver e presenciar várias situações estranhas e absurdas. Além disso tive a oportunidade de conversar com um morador da capital, Caracas, que nos esclareceu vários assuntos que a imprensa brasileira não divulga, ou até mesmo o governo venezuelano não comenta. Apesar disso achei o texto interessante.

  19. Marks Werneck Postado em 05/Mar/2013 às 18:42

    Que excelente artigo!

  20. Tom Oliveira Postado em 06/Mar/2013 às 07:17

    ‎"Hugo Chavez é um ditador, sem embargo, é um curioso ditador. Ganhou oito eleições em cinco anos e recentemente se submeteu a um referendo em que perguntava aos venezuelanos se eles queriam o modelo que o Estado estava propondo. É o único presidente da história da humanidade em fazer isso, e ganhou com 60%. Você liga a TV venezuelana e o primeiro que vê são vários periodistas dizendo que na Venezuela não existe liberdade de expressão. Você liga o radio e existem vários periodistas, analistas, opositores de Chavez dizendo que lá não tem liberdade de expressão. Voce abre o jornal e tem um titulo enorme que diz: AQUI NÃO EXISTE LIBERDADE DE EXPRESSÃO. Nos últimos cinco anos, somente um meio de comunicação foi fechado, mas acho que em Venezuela existe um divorcio genial: O Divorcio entre a REALIDADE e a REALIDADE VIRTUAL..." Eduardo Galeano.

  21. william pereira Postado em 06/Mar/2013 às 12:30

    Parabéns Beto Almeida, um bom artigo e que expressa realmente o que essa mídia golpista é hoje.Uma vergonha, nojo. Aquele Maynard, dá vontade de lhe dar um mu.........., mas nem merece. Para mim que tenho a sorte de ser casado com uma grande jornalista e que vc sabe, Benildes Rodrigues, fica mais fácili entender. William Pereira Framacêutico Ouvidoria Geral do SUS- Brasilia

  22. Nélson Postado em 06/Mar/2013 às 18:13

    Manhatan Conection é um programa onde cada participante dá sua opinião. Eles são colunistas e não refletem opinião da empresa que trabalham. Muitas vezes eles discutem e discordam. Esse debate é diferente do apresentador de TV que lê um texto assinado por um superior responsável. Se você não souber esse detalhe ba'sixo e fundamental, não dá pra discutir televisão.

  23. Vander Postado em 03/Apr/2013 às 05:00

    Anderson, em 31 de janeiro de 2013 às 12:42 vc foi? só pra saber...

  24. Thiago Postado em 06/Apr/2013 às 19:13

    O que eu não gostei do governo venezuelano foi a 3° Eleição. Isso deu trela a impensa golpista a associa-lo a ditarores.

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