Luis Soares
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Racismo não 05/Jan/2013 às 01:08
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Monteiro Lobato: racismo, literatura e liberdade de opinião

Talvez a obra de Lobato possa servir como instrumento de docentes empenhados em demonstrar que o racismo precisa ser superado, que a odiosa distinção entre negros e brancos, baseada tão somente na diferença de cor, admitida em tempos antigos de triste memória, é hoje, no mínimo, injustificável

O Supremo Tribunal Federal protagonizará uma das mais importantes discussões da atualidade, diretamente relacionada ao amadurecimento do Estado Democrático de Direito, por envolver assuntos polêmicos e de envergadura constitucional como censura, livre opinião e racismo. Refiro-me à controvérsia acerca da distribuição, em escolas públicas, da obra “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, que alegadamente conteria adjetivações ofensivas à personagem Tia Nastácia.

A questão foi parar no Supremo por provocação do Instituto de Advocacia Racial – IARA, após o Conselho Nacional de Educação – CNE manifestar-se favoravelmente à distribuição em escolas públicas. Há que se notar que a pretensão, portanto, não é a de proibir a publicação ou a comercialização do livro. Ainda assim, a manifestação da Corte estabelecerá paradigma com possíveis efeitos a situações mais abrangentes.

racismo brasil monteiro lobatoIntelectuais de renome têm se manifestado contrários a restrição. Argumentam que é preciso examinar o contexto histórico e sociológico no qual a obra foi escrita. Que em trabalhos importantes de Aristóteles e Platão, por exemplo, são identificadas passagens abertamente escravagistas ou machistas, sem que por isso tenham sido censuradas.

Na oportunidade em que escritos, a escravidão se impunha como direito dos conquistadores sobre os vencidos, ou dos civilizados helênicos sobre os povos que reconheciam como bárbaros, assim como era natural considerar os homens superiores às mulheres, as quais sequer podiam participar das celebradas deliberações democráticas da antiga Grécia.

Pois Monteiro Lobato escreveu influenciado por idéias eugenistas, numa conjuntura onde os negros eram representados de maneira estigmatizada e aviltante. O discurso racista, em voga na época, e não restrito ao Brasil, terminou por resultar numa das maiores tragédias da humanidade, o Holocausto. Embora os judeus tenham sido as maiores vítimas da infâmia, outras etnias e grupos religiosos também foram perseguidos sob o argumento da superioridade ariana.

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Outra consideração plausível é a necessidade de encarar-se franca e radicalmente o problema do racismo. Podem ser reduzidas atualmente suas manifestações ostensivas, mas é inegável a habitualidade com que aparece de forma velada ou disfarçada. Em plano mais genérico, basta observar as estatísticas a respeito de quais os grupos étnicos que compõem as classes socialmente menos e mais privilegiadas do país, quais integram majoritariamente os quadros universitários, quais ingressam em maior quantidade no sistema penitenciário, e cotejá-las aos números absolutos de negros e brancos que se incorporam à população brasileira, para notar visível distorção.

Por que dissimulado, é que o racismo deve ser exposto. Uma das construções psicanalíticas mais interessantes sugere a figura do recalque como origem de manifestações neuróticas em alguns indivíduos. Por não lidarem na oportunidade adequada com suas exigências pulsionais, depositam no inconsciente tensões que surgirão de maneira perturbadora noutro momento. Mal comparando caberia indagar se os efeitos perversos desse racismo escuso, reprimido pelo golpe de uma decisão proibitiva, não retornaria no futuro de maneira agressiva e incontrolável.

Nesse sentido, talvez a obra de Lobato possa servir como instrumento de docentes empenhados em demonstrar que o racismo precisa ser superado, que a odiosa distinção entre negros e brancos, baseada tão somente na diferença de cor, admitida em tempos antigos de triste memória, é hoje, no mínimo, injustificável. Antes que a obra seja encarada como estímulo ao racismo, que seja utilizada exatamente como arma contra ele, desencadeando o tratamento aberto que o tema merece, cumprindo ao estado – a despeito de suas ineficiências – preparar adequadamente os professores e atuar pontualmente nas situações em que identificado mediante imposição de sanções penais, indenizações etc.

Mas há uma questão, de natureza bastante pessoal, porém não por isso menos importante, que preciso considerar. Não sou negro. Jamais fui vítima do que amigos negros identificam como preconceito. Não senti na pele, e em razão da pele, essa execrável hostilidade.

A controvérsia é de dificílima resolução. É provável que não se chegue a qualquer consenso. Mas é premente seu enfrentamento, por propiciar que se descortine uma realidade que sempre foi convenientemente ocultada ou eufemisticamente tratada sob o mito da democracia racial, e para fazer frutificar, nesta sociedade etnicamente plural, soluções socialmente integrativas.

Artigo de Gerson Godinho da Costa, Juiz Federal, publicado na 37ª edição do Jornal Estado de Direito

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Comentários

  1. josé serra Postado em 05/Jan/2013 às 11:37

    O 'PRESIDENTE NEGRO' é a maior demonstração de ódio aos negros que já li

  2. Vitor Postado em 06/Jan/2013 às 07:35

    Se Monteiro Lobato pode Então deve liberar "Os Protocolos dos sabios de sião" nas escolas É um livro muito importante para entender a segunda guerra mundial.

  3. priscila Postado em 07/Jan/2013 às 11:20

    nunca gostei de ler o Monteiro lobato rsrs

  4. Daniel Bacellar Postado em 07/Jan/2013 às 15:39

    Os livros do Sítio do Pica-pau Amarelo são excelentes. Aprendi a ler por eles e sequer havia percebido estas passagens racistas até serem destacadas nesta polêmica recente. Com Monteiro Lobato aprendi que não podemos nos deixar ser vítimas de complexo de inferioridade, como povo; tive contato com mitologia grega e romana, com a formação do idioma, com exploração de petróleo e muitas outras coisas. Para mim é muito triste que sua obra infantil tenha sido "desconstruída" pelas séries na TV e, agora, corra o risco de ser banida da educação pública. Eliminar o passado indesejado não faz com que este de existir, é só uma forma de revisionismo atenuado.

  5. Daniel Bacellar Postado em 07/Jan/2013 às 15:40

    "... com que este DEIXE de existir..."

  6. reis Postado em 07/Jan/2013 às 17:49

    Nenhuma discussão literária nas escolas está isenta de uma posição ideológica, passada quase que inevitavelmente do corpo docente aos alunos. Não existe professor algum que consiga apresentar um livro à turma que ensina e, sem comentá-lo de qualquer maneira, incentivá-los à leitura - e garanto que, se por ventura algum aluno se acostumar a tomar esse tipo de iniciativa, ele não é do tipo de pessoa que formaria conceitos tão ignorantes na cabeça. Assim, por quê escolher o caminho sempre duvidoso da censura, e não o esforço de uma apresentação adequada? Os conceitos de racismo e de influências conjunturais de uma determinada época sobre o trabalho de certos artistas são difíceis de explicar a uma criança, mas um bom professor sabe que não se pode subestimá-las a ponto de tentar esconder estes assuntos pra sempre. (quanto à imagem, só queria lembrar que, de vez em quando, mudar de canal já é mais do que suficiente pra "abrir a mente". da globo pro canal brasil tem uma puta diferença...)

  7. Luis Postado em 07/Jan/2013 às 22:28

    Ainda bem que eu já tenho o Sítio do Picapau Amarelo completo, então o meu filho terá acesso a essas belas obras sem ter de passar pelo filtro babaca do politicamente correto.

  8. Rodrigo Teixeira Postado em 08/Jan/2013 às 13:40

    Essa questão do racismo no Brasil, está virando uma caça (esquizofrênica) as bruxas. Pobre do Monteiro Lobato deve estar se revirando no túmulo...

    • Prof. Victor Postado em 13/Mar/2014 às 20:50

      Concordo, é muito simples avaliar as obras com olhar critico adquiro em pleno século XXI, para sabermos se ele é ou não racista, basta analisar suas obras voltando-se a época em que foram escritas. Será que naquela época isso que hoje chamam de "racismo" era realmente classificado assim?

  9. Pablo Vieira de Mendonça Postado em 08/Jan/2013 às 15:49

    ... daqui a alguns anos, muito do que registramos na história hoje será taxado como preconceito. ACORDA, gente!

  10. Pablo Vieira de Mendonça Postado em 08/Jan/2013 às 15:50

    Significado de Hipocrisia s.f. Particularidade ou modos do que é hipócrita; falsidade. Ação ou efeito de fingir; de esconder os sentimentos mais sinceros; inventar ou dissimular. Característica daquilo que não é honesto: a hipocrisia do discurso. Hábito que se baseia na demonstração de uma virtude ou de um sentimento inexistente. (Etm. do grego: hypokrisía.as)

  11. Helô Postado em 02/Feb/2013 às 02:32

    Tenho pena das novas gerações, que submetidas a interesses escusos, sofrerão de amnésia precoce e perpetuarão iniquidades...

  12. Tiago Barufi Postado em 01/Mar/2013 às 09:06

    Nossa. O Luís está aliviado porque vai poder ensinar direito ao filho dele como tratar a Tia Nastácia, como nos velhos tempos. É de uma burrice comovente confundir a não distribuição do livro da rede de ensino com censura do mesmo. Você lê o que quiser e até o momento ninguém cogitou recolher os livros do Lobato (que recomendo a todos, evidentemente não como manual de conduta).

  13. CENA7 Postado em 19/Mar/2013 às 22:31

    " O Brasil é racista. Mas além de ser racista, a sociedade se organizou na base do escravismo e de sua memória. A idéia do outro como uma coisa, que era uma idéia oficial, continua vigente no Brasil atual, onde os negros ainda são coisas. Não importa se eles tenham uma melhoria financeira, econômica ou cultural. " ( Milton Santos )

  14. Organização Negra Nacional Quilombo – ONNQ Postado em 08/Apr/2013 às 10:55

    A MeGaLOBO RACISMO? A violência do preconceito racial no Brasil personagem (Uma negra degradada pedinte com imagem horrenda destorcida e bosalizada é a Adelaide do Programa Zorra Total, Rede Globo do ator Rodrigo Sant’Anna? Ele para a Globo e aos judeus é engraçado, mas é desgraça para nós negros afros indígenas descendentes, se nossas crianças não tivessem sendo chamadas de Adelaidinha ou filha, neta e sobrinha da ADELAIDE no pior dos sentidos, é BULLIYING infeliz e cruel criado nos laboratórios racistas do PROJAC (abrev. de Projeto Jacarepaguá, como é conhecida a Central Globo de Produção) é o centro de produção da Rede Globo que é dominado pelos judeus Arnaldo Jabor,Carlos Sanderberg, Luciano Huck,Tiago Leifert, Pedro Bial, William Waack, William Bonner&Fatima Bernardes, Mônica Waldvogel ,Ernesto Paglial& Sandra Annenberg,Wolf Maya,Caio Blinder,Glenda Kozlowski, Daniel Filho e o poderoso Ali (KKKK) Kamel diretor chefe responsável e autor do livro Best seller o manual segregador (A Bíblia do racismo,que ironicamente tem por titulo NÃO SOMOS RACISTA baseado e num monte de inverdades e teses racistas contra os negros afro-decendentes brasileiros) E por Maurício Sherman Nisenbaum(que Grande Otelo, Jamelão e Luis Carlos da Vila chamavam o de racista porque este e o Judeu sionista racista Adolfo Block dono Manchete discriminavam os negros)responsável dirige o humorístico Zorra Total Foi o responsável pela criação do programa e dos programas infantis apresentados por Xuxa(Luciano Szafir) e Angélica(Luciano Hulk) ambas tendos seus filhos com judeus,apresentadoras descobertas e lançadas por ele no seu pré-conceitos de padrão de beleza e qualidade da Manchete TV dominada por judeus sionistas,este BULLIYING NEGLIGENTE PERVERSO que nem ADOLF HITLER fez aos judeus mas os judeu sionistas da TV GLOBO faz para a população negra afro-descendente brasileira isto ocorre em todo lugar do Brasil para nós não tem graça, esta desgraça de Humor,que humilha crianças é desumano para qualquer sexo, cor, raça, religião, nacionalidade etc.o pior de tudo esta degradação racista constrangedora cruel é patrocinada e apoiada por o Sr Ali KAMEL (marido da judia Patrícia Kogut jornalista do GLOBO que liderou dezenas de judeus artistas intelectuais e empresários dos 113 nomes(Contra as contra raciais) com o Senador DemóstenesTorres que foi cassado por corrupção) TV Globo esta mesma que fez anuncio constante do programa (27ª C.E. arrecada mais de R$ 10,milhões reais de CENTARROS para esmola da farsa e iludir enganando escondendo a divida ao BNDES de mais de 3 bilhões dollares dinheiro publico do Brasil ) que tem com o título ‘A Esperança é o que nos Move’, o show do “Criança Esperança” de 2012 celebrará a formação da identidade brasileira a partir da mistura de diferentes etnias) e comete o Genocídio racista imoral contra a maior parte do povo brasileiro é lamentável que os judeus se divirtam com humor e debochem do verdadeiro holocausto afro-indigena brasileiro é lamentavel que o Judeu Sergio Groisman em seu Programa Altas Horas e assim no Programa Encontro com a judia Fátima Bernardes riem e se divertem. (A atriz judia Samantha Schmütz em papel de criança no apoteótico deste estereótipo desleal e cruel se amedronta diante aquela mulher extremem ente feia) para nós negros afros brasileiros a Rede GLOBO promove incentivo preconceito raciais que humilha e choca o povo brasileiro. Organização Negra Nacional Quilombo – ONNQ 20/11/1970 – REQBRA Revolução Quilombolivariana do Brasil [email protected]

  15. Urudur Postado em 04/Sep/2013 às 13:23

    Responder ao racismo anti-negro com racismo antisemita é , pelo menos, uma contradição. Reivindicar a revolução bolivariana, antisemita e homófoba, é outra. Ódio não se combate com mais ódio.

  16. dasdsad Postado em 28/Apr/2014 às 16:48

    Sinceramente, o direito que temos hoje, pode não ser o direito que teremos amanhã, mais o respeito sempre será o mesmo.