Redação Pragmatismo
Compartilhar
Contra o Preconceito 20/Dec/2012 às 12:50
12
Comentários

Primeiro aluno da UFG com Síndrome de Down comenta experiência universitária

Discriminação existe, diz mãe do primeiro aluno com Down da UFG. Apaixonado por mapas, Kallil decidiu fazer o vestibular para geografia no ano passado, após concluir o ensino médio em uma escola privada de Jataí

kallil síndrome down ufg

Kallil, o primeiro estudante da UFG com síndrome de down, comemora seu ingresso à universidade. (Foto: divulgação)

Em fevereiro deste ano, o sítio Terra contou a história de um jovem que, aos 21 anos, tornou-se o primeiro estudante com Síndrome de Down aprovado no vestibular da Universidade Federal de Goiás (UFG). Passados 10 meses, o fato inédito transformou-se em um exemplo de superação para professores e alunos da instituição. Kallil Tavares está no segundo semestre do curso de geografia no campus de Jataí (GO) e contou, em entrevista por telefone, que está “feliz e com muitos amigos”.

A pedagoga Eunice Tavares Silveira Lima, mãe de Kallil, concorda que ele foi bem recebido tanto pelos professores quanto pelos colegas. “Claro que a discriminação existe em todos os lugares, na universidade não é diferente. Algumas pessoas ficam olhando de lado, não se manifestam, mas, em compensação, tem muitos amigos especiais, que participam, ajudam”.

Apaixonado por mapas, Kallil decidiu fazer o vestibular para geografia no ano passado, após concluir o ensino médio em uma escola privada de Jataí. Incentivado pela mãe, ele conseguiu a aprovação, sem correção diferenciada – concorreu em condições iguais a todos os demais candidatos.

Leia também

No primeiro semestre, Kallil conseguiu aprovação em cinco das oito disciplinas. “Em maio eu percebi que ele estava tendo dificuldades em algumas aulas mais teóricas, então resolvemos trancar uma disciplina. Em outras duas ele acabou reprovando”, afirma a mãe. Apesar disso, Eunice se diz “surpresa” com o desempenho do filho na faculdade. “A universidade é outro ritmo, bem mais corrido. São muitos textos, conteúdos mais complexos do que ele estava acostumado na escola. Mas estamos muito felizes por ele estar conseguindo acompanhar”, afirma ao ressaltar que o filho não tem nenhum tipo de privilégio nas avaliações. “Ele faz a mesma prova que todos os outros”.

Questionado sobre o que mais gosta na universidade, Kallil não vacila em afirmar: “astronomia, geologia e dos mapas”. Segundo a mãe, as aulas práticas despertam mais interesse do filho. “É mais fácil para ele quando consegue aprender com algo concreto, como vídeos e imagens. Em geologia, por exemplo, ele participou de uma aula de campo e voltou para casa cheio de rochas que coletou”, conta.

No começo do curso, Kallil teve auxílio de uma monitora, uma colega de curso que auxiliava o jovem na leitura dos textos e explicava os conteúdos passados pelos professores. No entanto, no segundo semestre ela acabou desistindo da bolsa paga pela universidade e agora a UFG tenta conseguir outro monitor. A mãe espera que o problema seja resolvido logo, já que sem a monitoria fica mais difícil garantir o aprendizado.

De acordo com o professor da Faculdade de Educação e coordenador do Núcleo de Acessibilidade da UFG, Ricardo Teixeira, a faculdade de geografia está empenhada em conseguir, o mais breve possível, um novo monitor para Kallil. Para Ricardo, a história de superação do estudante é um exemplo para a universidade, que tenta incluir cada vez mais alunos com deficiências físicas e intelectuais.

Neste ano, outro jovem com Síndrome de Down ingressou na UFG, mas não pelo vestibular. O estudante do curso de matemática, cujo nome a universidade não divulga a pedido da família, conseguiu a aprovação pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), por meio da nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Há quatro anos tínhamos apenas 10 alunos com algum tipo de deficiência na UFG, hoje são mais de 100. Esse movimento a gente espera aumentar ainda mais, com exemplos como o do Kallil”, diz o professor.

De acordo com ele, não houve resistência por parte dos professores em dar aula para um aluno com Down. “Essa resistência ao novo é algo comum, mas surpreendentemente não enfrentamos isso com os professores da geografia. Não houve nenhuma rejeição e todos tentam se empenhar ao máximo para garantir que ele tenha um bom aproveitamento”, afirma. No entanto, Teixeira lembra que a estrutura física e o acompanhamento oferecido aos alunos com alguma deficiência ainda precisa melhorar. “Isso é algo que estamos em constante construção”.

estudante síndrome down UFG

Foto: Kallil e a irmã

Para Eunice, contudo, a família não cria expectativas e não pressiona o jovem para ser aprovado e concluir logo o curso. “Se for em quatro ou em 10 anos, tanto faz. O importante é que ele se sinta feliz”.

Planos para o futuro

Na conversa com o Terra, Kallil disse que seu sonho é ser professor de geografia. Ele ainda tem uma longa jornada pela frente, já que as aulas do segundo semestre começaram faz pouco por causa da greve dos professores. Mas determinação e vontade de vencer não faltam, mesmo que alguns ainda duvidem.

“A sociedade tem dito historicamente para essas pessoas (com Síndrome de Down) que elas não são capazes, mas essas pessoas estão mostrando que sim, que são capazes. O exemplo do Kallil é muito importante para termos consciência que qualquer pessoa que tenha oportunidade, que é estimulada, consegue”, afirma o professor da UFG.

Eunice sempre acreditou que o seu menino era capaz de chegar a universidade e de alcançar muito mais. Mas hoje ela diz que a maior alegria da vida é ver o sorriso no rosto do filho todos os dias enquanto se prepara para a aula. “Ele está feliz, não tem nada melhor para uma mãe que ver um filho feliz”.

Portal Terra

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook.

Recomendados para você

Comentários

  1. Fabiana Farias Postado em 21/Dec/2012 às 07:05

    :) O desempenho dele foi muito bom! Alunos ditos "normais" costumam ter desempenho similar ao dele. Que ele não desista do seu sonho e que outras mães se inspirem a incentivar seus filhos a irem mais longe.

  2. Rosimary Postado em 22/Dec/2012 às 17:26

    Sou Pós Graduada em Educação Inclusiva/Especial. Quero deixar o meu carinho ao Kallil e dizer que todos nós somos especiais e diferentes. Ele é uma pessoa escolhida por Deus para ser VENCEDOR. Parabéns a mamae Eunice pelo filho maravilhoso. Um forte abraço e muito sucesso em 2013.

    • Professora Postado em 22/Oct/2013 às 12:43

      Ele é diferente sim, e quem é igual?? Nao creio que tenha havido escolha "divina". E se tem que se pensar em escolha, eu diria quesua família sim, o escolheu, acolheu, amou e o faz ser como é.

      • Guillermo Postado em 22/Oct/2013 às 13:34

        Concordo contigo prof. É muito bom que haja essa integração, fico muito feliz pelo Kallil, mas atribuir isto tudo a uma escolha divina para um dito vencedor é um absurdo.

  3. Fabio Melo Postado em 29/Dec/2012 às 11:49

    Eu sinto por este rapaz ser a exceção e não a regra. Um grande exemplo de como as pessoas com dificuldades motoras e psíquicas precisam ser incluídas em nossos meios de ensino, incluindo o superior. Muito bom a universidade prestar este apoio a ele.

  4. RMM Postado em 29/Dec/2012 às 13:30

    Sou professor de história e ver a história de um rapaz como este é uma inspiração e grande estímulo para continuar acreditando na educação. Muito sucesso Kallil!

  5. Artur Benchimol Postado em 31/Dec/2012 às 15:06

    Só acho que enquanto falarmos coisas do tipo: "Nossa o desempenho dele foi tão bom quanto de alguém 'normal'". É idiotice, fazem ele ser diferente, lógico que ele tem que ter um cuidado especial quando pequeno, um pouco mais que outra criança. Mas o preconceito só existe quando nós o apontamos. Parabéns !

  6. José Milton Pereira Postado em 05/Jan/2013 às 10:03

    Bom colocada a visão do Benchimol. O "estranhamento"faz parte o modo como construimos nossa visão de si e do mundo. O problema é quando ele se envereda para o preconceito e nesse sentido esse tipo de comportamento é típico dos fracos. Parabéns ao estudante e, como diz aquela frase: "ter consciênca de seu limite e ir além dele".

  7. JULIA MACHADO Postado em 08/Jan/2013 às 20:48

    Julia Machado,em 8 de janeiro de 2013 Parabéns Kallil por não desistir e vencer as barreiras e preconceitos do dia a dia...qnd escola e familia caminham juntas concerteza o resultado é positivo...!!!!!!

  8. Gabriel Adams Postado em 14/Jan/2013 às 02:26

    Ele não foi o primeiro, não. Antes dele já havia entrado um.

  9. Ana maria martins Lemos Postado em 17/Jun/2014 às 13:07

    Eu tenho uma filha especial que está fazendo faculdade de pedagogia , passou pelo enem,e conseguiu. Ela tem 23 anos . Com todas as dificuldades ela está lá.

  10. Superação: Primeiro médico indígena se forma na UnB Postado em 18/Feb/2016 às 17:39

    […] Primeiro aluno da UFG com Síndrome de Down comenta experiência universitária […]