Luis Soares
Colunista
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Tráfico de Drogas 21/Dec/2012 às 17:20
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Delegados e juízes defendem legalização das drogas

Formada por delegados, policiais e juízes, Leap Brasil diz que guerra aos narcóticos é a grande causadora da violência no país e defende regulação da produção pelo Estado

‘Quem morre na guerra contra as drogas não é o usuário: é o policial e o traficante’. A frase, dita pelo ex-chefe do Estado-Maior da PM, coronel Jorge da Silva, resume bem a ideia de um movimento que vem ganhando corpo entre os profissionais responsáveis por aplicar a lei no Brasil: a guerra contra as drogas está perdida. Formada por policiais, delegados e magistrados, a Leap Brasil (Agentes da Lei contra a Proibição) acredita que somente a legalização do consumo e a regulação da produção serão capazes de conter a espiral de violência causada pela luta entre Estado e narcotráfico.

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O coronel da PM Jorge da Silva (E), a juíza Maria Lúcia Karam e o delegado Orlando Zaccone: unidos pelo fim das mortes causadas pela ‘guerra’ (Foto: Carlo Wrede / Agência O Dia)

“Você já viu alguém tomando conta de uma vinícola com fuzis?”, emenda a juíza aposentada Maria Lúcia Karam, presidenta da organização. “Não viu, mas nos EUA, na época da proibição, era assim. A violência só acabou com a descriminalização”, conclui.

Criada em 2010, a Leap Brasil vai ampliar sua atuação em 2012. Ela é baseada na sua coirmã norte-americana — de onde vem o maior interesse pela continuidade da política, por conta do bilionário lucro do mercado das armas. “Foi uma política criada pelo Nixon (presidente nos anos 60/70) para combater o movimento dos direitos civis nos EUA, que questionava a Guerra do Vietnã.

Como não podiam prender pelo ativismo, prendiam pelo uso de drogas”, acrescenta o coronel Jorge da Silva. “Fui criado no Morro do Adeus, no Alemão, e até os anos 70 as armas eram as pedras atiradas pela garotada”.

O coronel acredita que o fim da guerra às drogas levará as comunidades do Rio a uma nova onda de solidariedade. E de paz. “Já enterrei muitos policiais. Quem morre é o preto, o pobre e o favelado. Vi muito mais gente morrendo na guerra contra as drogas do que por usar drogas”, conclui. “Ser a favor da legalização não é ser a favor da glamourização da droga”.

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Procurada, a Secretaria de Segurança informou que não comentaria o assunto.

Delegado fala em ‘hipocrisia’

Delegado titular da 18ª DP, Orlando Zaccone tem pronto o discurso de defesa da Leap Brasil, organização da qual é o primeiro-secretário. “A diferença entre o traficante e o empresário é a legalização”, diz o policial. “Há hipocrisia neste tema. Enquanto o banco HSBC aparece no noticiário de economia pagando multa por lavagem de dinheiro do tráfico, só policiais e favelados morrem nesta guerra”, diz. “A guerra contra as drogas afeta a vida e a saúde de muito mais pessoas do que as próprias drogas”.

Pai, inspetor diz não temer ‘apologia’

Com 17 anos de polícia e membro-fundador da Leap Brasil, o inspetor Francisco Chao garante: não quer que sua filha, ainda criança, use drogas. “Mas se ela quiser, não vou conseguir impedir, mesmo sendo policial. Por isso, prefiro a droga legalizada, porque o Estado terá controle”, diz ele, que tem no currículo a prisão do traficante Elias Maluco, assassino do jornalista Tim Lopes, após intensa caçada no Alemão. “Na Europa, não se bebe na rua. Com as drogas legalizadas, devem fazer a mesma coisa ”.

Jornal O Dia

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Comentários

  1. Rik Daniel Postado em 25/Dec/2012 às 19:09

    A ideia é boa, provavelmente irá diminuir a violência, mas aí que tá o problema, estamos no brasil, e a assistência do estado ainda é bastante precária. Enquanto doentes tem de esperar 3 horas no corredor do hospital para depois ser alocado em um leito, enquanto presos ficam em celas superlotadas, por aí vai, deve-se dar uma reformulada imensa para que o estado passe a atuar melhor. E isso demora.

  2. Percival Postado em 27/Dec/2012 às 11:10

    Também acho a idéia boa, porém não podemos esquecer que esse é um país de ÍNDIO, e sempre tem alguém querendo tirar vantagem sobre qualquer coisa, e não será diferente em relação à produção de droga legalizada. É muito fácil dizer que o 'Estado terá controle' sobre a produção, assim como é fácil trazer idéias que foram implantadas na Europa e nos EUA, achando que serão tão efetivas e terão o mesmo resultado se aplicadas aqui nesse país.

  3. Pablo Vieira de Mendonça Postado em 28/Dec/2012 às 14:49

    Bom, estou de pleno acordo. A luta contra o narcotráfico é falida e corruptora. A história da humanidade mostra que no mínimo 15% das populações, tende ao uso de alguma droga que mude a percepção. Exemplo clássico é o ÁLCOOL, que é DROGA. Impedir o uso, a meu ver, é inconstitucional pois fere o direito inalienável do ser humano sobre sua VIDA, tanto é que se uma pessoa tentar se matar e sobreviver, não vai presa. O preocupante é, como disseram acima, "Estamos no Brasil." Nós temos que "baixar a bola" e discutir isso a nível de 3° mundo. Exigirá esforço DOBRADO e INTELIGÊNCIA nas políticas de saúde pública e educação. Pago para ver.

  4. Marcos Postado em 04/May/2013 às 11:48

    Eu assisti uma palestra deles e fiquei pasmo com as pesquisas distorcidas que eles divulgaram. Quando tentei me manifestar, me proibiram dizendo que o "foco é segurança pública e não o consumo", para depois minimizar o consumo dizendo que "a maioria das pessoas que usa não é dependente". A propaganda deles pode até ser bonitinha, mas para quem conhece a realidade como eu que sou Dependente Químico com 16 anos em recuperação e Conselheiro em Dependência Química, o discurso todo cai por terra. Cuidado com as alegações deles. Um exemplo claro da manipulação deles: "Uma pesquisa diz que de 100 pessoas que EXPERIMENTAM a cocaína cerca de 17 a 18% se tornam dependente, então isto significa que a maioria que USA não é dependente." Perceberam a manipilação entre EXPERIMENTAM e USAM? cuidado.

  5. Marcos Postado em 23/Sep/2013 às 14:38

    Não defendem a legalização, defendem a regulamentação é completamente diferente, o controle do estado do mercado das drogas, legalizar as drogas não vai mudar nada.

  6. Walter Postado em 24/Sep/2013 às 02:25

    pelo que eu vejo todos estão nessa posição de liberar as drogas, aí que eu me pergunto, então por que ela ainda continua proibida?