Luis Soares
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Política 26/Dec/2012 às 23:19
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A Folha tenta se explicar, em vão

Nos três momentos mais importantes da história brasileira, a mídia estava do lado golpista, do lado das elites, contra o povo e a democracia. Entre eles, a Folha de S. Paulo, um dos que mais tem a esconder do seu passado e do seu presente

Emir Sader, Carta Maior

Os órgãos da imprensa brasileira não podem fazer suas histórias, tantos são os episódios, as posições, as atitudes indefensáveis deles ao longo do tempo. Suas trajetórias estão marcadas pelas posições mais antipopulares, mais antidemocráticas, racistas, golpistas, discriminatórias, de tal forma que eles não ousam tentar contas suas histórias.

carro folha ditadura militar

Veículos da Folha eram usados pelo regime militar. (Foto: Arquivo)

Como relatar que estiveram sempre contra o Getúlio, pelas políticas populares e nacionalistas dele? Como recordar que todos pregaram o golpe de 1964 e apoiaram a ditadura militar, em nome da democracia? De que forma negar que apoiaram entusiasticamente o Collor e o FHC e fizeram tudo para que o Lula não se elegesse e se opuseram sempre a ele, por suas políticas sociais e de soberania nacional? Nos três momentos mais importantes da história brasileira, a mídia estava do lado golpista, do lado das elites, contra o povo e a democracia.

Entre eles, o jornal dos Frias, um dos que mais tem a esconder do seu passado e do seu presente. Uma funcionária da empresa há 24 anos, que fez sua carreira profissional totalmente na empresa, sem sequer conhecer outras experiências profissionais, que já ocupou vários cargos na direção da empresa, decidiu – ou foi decidida – a escrever uma espécie de história ou de justificativa da empresa dos Frias.

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O livro foi publicado numa coleção da empresa. A funcionária se chama Ana Estela de Sousa Pinto e o livrinho tem o titulo Folha explica Folha. Mas poderia também se intitular Folha tenta se explicar, em vão.

Livro mais patronal, não poderia existir, até porque quem o escreve não tem a mínima isenção para analisar a trajetória da empresa da qual é funcionária. Começa com uma singela apresentação histórica das origens da empresa. De resgatável, uma citação do editorial de apresentação do primeiro jornal da empresa, que se diz como um jornal “incoerente” e “oportunista”, numa visão premonitória do que viria depois. Nada do que é relatado considera a historia como elemento constitutivo do presente. São informações juntadas, num péssimo estilo de historiografia que não explica nada.

Logo no primeiro grande acontecimento histórico que a empresa vive, sua natureza política já aflora claramente: apoio a Washington Luís e oposição férrea a Getúlio, tudo na ótica que perduraria ao longo do tempo: “a defesa dos interesses paulistas” ou do interesse das elites, revelando a função da imprensa paulista: passar seus interesses pelos de São Paulo.

Naquele momento se tratava de defender os interesses da lavoura do café. Para favorecer aos fazendeiros em crise, a empresa aceitava o pagamento de assinaturas em sacas de café, revelando o promiscuidade entre jornal e o café.

De forma coerente com esse anti-getulismo em nome dos interesses de São Paulo, a empresa se alinha com a “Revolução Constitucionalista” de 1932, contra a “ditadura inoperante, obscura e inepta em relação ao Estado de São Paulo”. O estado é sempre a referência, sinônimo de progresso, de liberdade, de democracia. O anti-getulismo é visceral: “O diretor Rubens Amaral levava seu anti-getulismo ao extremo de impedir que os filhos saíssem de casa quando o ditador (sic) visitava São Paulo. ‘Dizia que o ar estava poluído”, conta sua filha mais velha.”

Esse elitismo paulistano fez, por exemplo, que o Maracanaço de 1950 só fosse noticiado na terça-feira, na pagina 4 do caderno “Economia e Finanças”.

A autora tenta abrandar as coisas. Afirma que “A posição da Folha foi oscilante ao abordar o governo de João Goulart (1961-64) e a ditadura que o sucedeu.” Mentira, o jornal fez campanha sistemática pelo golpe militar.

Bastaria ela ter se dado ao trabalho de ler os jornais daquela época.

Encontraria, por exemplo, no dia 20/3/1964, a manchete: “São Paulo parou ontem para defender o regime”. E, ainda na primeira pagina: “A disposição de São Paulo e dos brasileiros de todos os recantos da pátria para defender a Constituição e os princípios democráticos , dentro do mesmo espírito que dito a Revolução de 32, originou ontem o maior movimento cívico em nosso Estado: “Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade”. E vai por aí afora, reproduzindo exatamente as posições que levaram ao golpe. Editorial de primeira página vai na mesma direção.

Bastaria ler alguns dos jornais desses dias e semanas, para se dar conta da atitude claramente golpista, mobilizadora a favor da ditadura militar, pregando e enaltecendo as “Marchas”. Nenhuma oscilação ou ambiguidade como, de maneira subserviente, a autora do livrinho sugere.

A transformação da Folha da Tarde num órgão diretamente vinculado à ditadura militar e a seus órgãos repressivos, o papel de Carlos Caldeira, sócio dos Frias, no financiamento da Oban, assim como o empréstimo de veículos da empresa para dar cobertura à ações terroristas da Oban, são coerentes com essas posições.

De Caldeira, ela não pode deixar de mencionar que “tinha afinidade com integrantes do regime militar e era amigo do coronel Erasmo Dias”. “Caldeira não era o único com conexões militares. Na redação da empresa havia policiais civis e militares, tanto infiltrados como declarados – alguns até trabalhavam armados.”

Sobre o empréstimo dos carros à Oban, a autora tenta aliviar a responsabilidade dos patrões, mas fica em maus lençóis. Há os testemunhos de Ivan Seixas e de Francisco Carlos de Andrade, que viram as caminhonetas com logotipos da empresa estacionadas várias vezes no pátio interno na fatídica sede da Rua Tutoia. Só lhe resta o apelo às palavras do então diretor do Doi-Codi, major Carlos Alberto Brilhante Ustra – condenado pela Justiça Militar como torturador – que “nega as afirmações dos guerrilheiros”. Bela companhia e testemunha a favor da empresa dos Frias, que a condena por si mesma.

Já um então jornalista da empresa, Antonio Aggio Jr. “reconhece o uso de caminhonete da empresa por militares, mas antes do golpe”. Dado o precedente, ainda na preparação do golpe, nada estranho que isso tivesse se sistematizado já durante a ditadura. Fica, portanto, plenamente caracterizado tudo o que diz Beatriz Kushnir no seu indispensável livro “Caes de Guarda”, da Boitempo, significativamente ausente da bibliografia do livro, sobre a conivência direta da empresa dos Frias na ditadura, incluído o empréstimo das viaturas para a Oban.

Editorial citado confirma a posição da empresa: “É sabido que esses criminosos, que o matutino (Estado) qualifica tendenciosamente de presos políticos, mas que não são mais do que assaltantes de bancos, sequestradores, ladrões, incendiários e assassinos, agindo, muitas vezes, com maiores requintes de perversidade que os outros, pobres-diabos, marginais da vida, para os quais o órgão em apreço julga legítimas toda promiscuidade.” (30/6/1972)

Assim os Frias caracterizam os que lutaram contra a ditadura. Fica plenamente caracterizado que a empresa estava totalmente do lado da ditadura, reproduzindo os seus jargões e a desqualificação dos que estavam do lado da resistência.

Passando pelo apoio ao Plano Collor, a empresa saúda a eleição de FHC como a Era FHC, com um caderno especial, assumindo que se virava a pagina do getulismo, para que o Brasil ingressasse plenamente na era neoliberal. Do anti-getulismo a empresa passou diretamente para o anti-lulismo – posição que caracteriza o jornal há tempos -, sempre em nome da elite paulista. A Era FHC acabou sem que o jornal tivesse feito sequer uma errata e nem se deu conta que a nova era é a Era Lula.

A decadência da empresa não consegue ser escondida. Depois de propalar que tinha chegado a tirar 1.117.802 exemplares em agosto de 1994, 18 anos depois, com todo o aumento da população e da alfabetização, afirma que tira pouco mais de 300 mil, para vender muito menos – incluída ainda a cota dos governos tucanos.

Ao longo dos governos FHC e Lula, a empresa foi sendo identificada, cada vez mais, com órgão dos tucanos paulistanos, seus leitores ficaram reduzidos aos partidários do PSDB, sua idade foi aumentando cada vez mais e o nível de renda concentrado nos setores mais ricos.

A direção do jornal, exercida pelos membros da família Frias nos seus cargos mais importantes, tendo a Otavio Frias Filho escolhido por seu pai para sucedê-lo, cargo que ocupa já há 18 anos, por sucessão familiar.

Apesar de quererem explicar a Folha, a impossibilidade de encarar com transparência sua trajetória, o livro se revela uma publicação subserviente aos proprietários da empresa, oficialista, patronal, que reflete o nível a que desceu a empresa ao longo das duas ultimas décadas.

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Comentários

  1. João Alberto de Lima Nassif Postado em 27/Dec/2012 às 00:45

    Fui assinante por muitos anos até o dia que não aguentei mais,para o Clovis Rossi dor de cotovêlo, unha encravada,paralama amassado,casa pichada era tudo culpa do Lula e as barbaridades que mais pareciam a tentativa porca de lavagem cerebral me fizeram tomar a melhor atitude cancelar a assinatura.

  2. Anon Postado em 27/Dec/2012 às 09:10

    Excelente texto, digno de livros de história do brasiL

  3. Daniel Postado em 27/Dec/2012 às 14:31

    Realmente as manchas na história da Folha são óbvias, inquestionáveis e de conhecimento público. Mas o autor parece que andou faltando em algumas aulas história. Acreditar que Getúlio Vargas era o modernizador, que estava ao lado das massas, contra os interesses estrangeiros e do grande capital, é comprar ingenuamente o discurso proto fascista do Estado Novo, mais de 60 anos depois do fim do regime. Getúlio Vargas era sim um ditador, como diz uma famosa piada entre historiadores: " Getúlio foi 'pai dos pobres' e 'mãe dos ricos'. A tentativa de alinhar a imagem de Getúlio a de Lula é vergonhosa. Lula foi um presidente eleito democraticamente, q sempre respeitou a Constituição e a divisão de poderes da República. Diferente do Ditador Getúlio Vargas, que dissolveu o poder legislativo, acabou com a autonomia dos estados, suspendeu a Constituição e governou através de decretos até 1934, em 1937 deu novo golpe de Estado, instituiu a Lei de Segurança Nacional (q foi muito útil aos militares quando estes estabeleceram sua própria ditadura). Vergonhoso que este site, que eu reputava como uma das poucas mídias realmente progressistas neste país reacionário, tenha dado voz a este getulismo tacanho, anacrônico e fascista.

    • Gustavo S Postado em 27/Dec/2012 às 16:15

      Daniel, concordo com suas ponderações

    • Vivian Postado em 26/Sep/2013 às 13:55

      Também concordo, a reportagem tinha potencial mas a "menção honrosa" ao Getulio Vargas e o comentário sobre a decadência de empresa baseada no número de exemplares forçou um pouco a barra. Não se fez comparação com nenhum outro jornal "não decadente", e creio que, não obstante o passado vergonhoso da folha, a internet e outros meios digitais fizeram com que todos os jornais em papeis reduzissem drasticamente o número de exemplares impressos, o que não necessariamente tem relação com o passado indigesto dos diretores. Da maneira como foi usado o dado, ficou um tanto falacioso....

  4. Daniel Bacellar Postado em 27/Dec/2012 às 17:32

    Daniel, você analisa o período de Getúlio Vargas fora do contexto histórico. Ditaduras fascistas eram a solução adotada em todo o mundo, na primeira metade do século XX, aliás, até a década de 1960. Isto inclui, de certa forma, os Estados Unidos, pelos expurgos macartistas. Vargas foi imposto pelas armas, mas foi ditador somente no período de 1937 a 1945. Não é demais lembrar que posteriormente foi eleito democraticamente, dentro das limitações da democracia da época, em 1950. Não há dúvidas de que os governos de Vargas tiveram diversos problemas e que a ditadura por ele implantada tenha sido cruel e estúpida, mas não é razoável negar a modernização do Estado acontecida com ele, com o fim da política do 'café-com-leite', a industrialização e a reforma das leis do Trabalho. Um problema que temos aqui é o messianismo (ou sebastianismo?), que espera que um líder perfeito resolva todos os problemas nacionais e vingue os pobres. Nenhum líder é perfeito, mas tanto Vargas quanto Lula destacaram-se por suas visões e atos. Eu entendo a comparação: Vargas fez a transição do país agrário para o industrial, Lula fez a transição do país com complexo de inferioridade e subdesenvolvimento crônico para um país mais consciente de sua posição no mundo e caminhando para ter uma classe média forte, garantindo um grau maior de desenvolvimento humano.

    • fabio Postado em 26/Sep/2013 às 14:58

      Daniel, deixe de ser estúpido. O regime ditatorial de Vargas foi muito mais sanguinário do que o regime militar. O contexto histórico, na época do regime militar na américa latina, também era de ditaduras e, nem por isso devemos nos curvar a um regime opressor. Vc mostra toda sua parcialidade ao analisar esse tema. Fala das conquistas da Era Vargas e se esquece de mencionar o crescimento no período do regime militar. Não defendo nem um nem o outro. São injustificáveis. Esse artigo de Sader é a prova cabal que ele é um débil mental. Na cabecinha oca dele aqueles que pegaram em armas para roubar, matar e aterrorizar em nome do comunismo e pela ditadura do proletariado são heróis da pátria. Me poupe! Se formos analisar, como lhe apetece, o contexto histórico daquela época, notaremos que o mundo vivia a Guerra Fria e duas superpotências polarizavam o mundo e tentavam impor ao restante dos países seus modelos políticos e econômicos - liberalismo/capitalismo vs socialismo/comunismo. Essa era a realidade na época! Não havia mocinhos apesar dos românticos esquerdistas com ideias que cheiram a naftalina acharem que o socialismo é a solução e em nome dele vale tudo, inclusive matar, roubar...Quanto a Lula melhor eu nem entrar nesse tema senão vou me alongar muito e acho que, pelas suas considerações a respeito dele, nada que eu diga vai abalar sua paixão pelo barbudo.

  5. Daniel Postado em 02/Jan/2013 às 19:33

    Então caro xará, seu argumento é que o autoritarismo da Era Vargas ( que não foi restrito ao Estado Novo) é justificável porque todo mundo também era? Acho que você está distorcendo um pouco o que é contextualizar. Compreender um processo dentro de seu tempo- espaço é uma coisa, outra bem diferente é dizer que o contexto justifica o caminho tomado. O Brasil não se tornou um país industrial (algo bem mais recente) e o embrião de indústria lançado por ele se manteve localizado e sob o controle das mesmas elites nacionais, basicamente paulistas, mineiras e cariocas. Esse negócio de 'política do café-com-leite' é uma simplificação grosseira, de livros didático de ensino fundamental, sobre as disputas políticas das primeiras décadas do século XX. Claro que nada isso significa que não houve modernização no período Vargas (inclusive no Estado Novo), mas o fim não justifica os meios. " caminhando para ter uma classe média forte".... Desculpa então devo morar em outro mundo. Só o IBGE, o governo e alguns petistas menos avisados acreditam que o Brasil está formando uma classe média forte. Com os índices que nosso país apresenta (mesmo após todos os avanços do governo Lula) as pessoas deviam ter vergonha de dizer que o Brasil se tornou um país de classe média, estamos superando a pobreza sim, mas ainda não chegamos tão alto, afinal que classe média é essa que tem renda per capita de menos de 2 salários mínimos, que tem educação precária, empregos em chão de fábrica ou setor de serviços, que ainda precisa gastar a maior parte do seu salário em alimentação, que paga aluguéis altíssimos, que precisa financiar (com as mais altas taxas de juros do mundo) eletrodomésticos básicos para um lar como geladeira ou fogão? Além disso não existe nenhuma relação entre as duas transições que você acredita que aconteceram. PS: Voltando na questão da industrialização, muitos podem ficar tristes ou chocados, mas esse foi um processo bem mais longo, que só foi se concluir bastante tempo depois. Esse processo foi intensificado nos anos 1970, em pleno governo militar, em grande parte impulsionado pela setor da construção civil (como acontece hoje, diga-se de passagem). Devemos bater palmas pra eles também? Afinal, era um contexto de governos militares. Figueiredo, Geisel e Médici também foram cheios de atos e visões para o Brasil, e não digo apenas no plano político. Mas podemos ficar tranquilos, era só um contexto latino americano.

  6. Alex Postado em 31/Mar/2013 às 17:20

    O amigo Daniel parece não entender que considerar que um Estado voltado apenas para interesses econômicos e administrativos é a mola propulsora de toda ideologia fascista, por detrás de onde o conservadorismo cultural se esconde e protege. Os dados que cita podem ter sua relevância em seu escopo e âmbito específicos. mas de forma alguma suprem as demandas de um Estado democrático multicultural( tanto que para manter tal mentalidade se erigiram inúmeras ditaduras de extrema direita). Considerar que o interesse de um estado é meramente instrumental dá nisso. Tenta-se, em vão, porque apenas os mais desavisados caem nessa, justificar o conservadorismo fascista a partir dessas análises reducionistas de " economês" quando as demandas de nossa sociedade são muitíssimo mais complexas. Por esse motivo desconfio tanto de anti esquerda radicais quanto de esquerdistas radicais. Todos lados opostos da mesma moeda de radicalismo.