Luis Soares
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Educação 21/Dec/2012 às 18:42
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Faculdades particulares: "Dê aula e se limite a isso"

“Dê aula, e se limite a isso”. Professores têm que lecionar conforme manuais pré-estabelecidos pelas universidades e são sobrecarregados com um número maior de alunos devido à adoção do ensino semipresencial

Apesar da redução de salários e da carga horária, algumas universidades particulares têm aumentado o fluxo de trabalho de seus docentes com a adoção do ensino semipresencial em suas grades curriculares. Isto porque, conforme especialistas ouvidos pelo jornal Brasil de Fato, esse tipo de método educacional tem uma dinâmica diferente, requerendo mais tempo dos professores para a elaboração das atividades e correção de trabalhos.

professor faculdade particular

Regulamentação do ensino semipresencial prejudica a qualidade do ensino. Objetivo é apenas obter um número para computação em seus relatórios.

O ensino à distância nas universidades particulares é regulamentada pelo Ministério da Educação (MEC). De acordo com a Portaria 4.059, de 10 DE dezembro de 2004, as instituições podem ofertar disciplinas semipresenciais em seus currículos, desde que não seja ultrapassado o limite de 20% da carga horária total do curso.

Contudo, a adoção do ensino semipresencial por essas universidades significa apenas a possibilidade de abater o “custo-benefício por cabeça”. É isso que pensa o secretário do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), Rondon de Castro. Ao regulamentar tal método, para Castro, o governo mostra que sua real intenção “está longe da qualidade do ensino, e sim de obter um número para computação em seus relatórios”.

Segundo o vice-presidente do Sindicato dos Professores de Instituições Particulares de Ensino Superior de Curitiba e Região Metropolitana (Sinpes), Valdyr Arnaldo Lessnau Perrini, o ensino semipresencial é um “verdadeiro câncer” que tem se espalhado no ensino superior. Ele afirma que o método é válido para regiões longínquas, onde há dificuldades de locomoção dos estudantes até as instituições. “Mas esses cursos à distância estão se espalhando na graduação e os cursos que são presenciais começam a ter um percentual significativo de aulas à distância, isso para liberar a sala de aula e botar mais alunos”, explica o sindicalista.

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Como consequência, os professores passam a ter mais alunos sob sua responsabilidade com as turmas semipresenciais. “Ele não vai ter aquele limite físico de 60, 70, 80 pessoas por aula. O mesmo professor vai ter 200, 300 alunos à distância. Vai ter mais provas para corrigir e mais dificuldades, porque é toda uma filosofia nova de ensino”, pondera Perrini.

Menos participação

Segundo Castro, a adoção do ensino à distância nas universidades particulares faz parte do processo de tecnização do ensino superior. Ele avalia de forma negativa a condução do ensino superior para o caráter técnico, porque visa apenas a formação de mão de obra. Segundo o diretor do Andes, a prática resulta na precarização do trabalho docente, já que impõe manuais aos professores, afastando-os da pesquisa e da extensão.

“Antes você discutia propostas para os cursos, linhas de atuação, dava sugestões e havia um bom espaço para isso. Atualmente, o professor é contratado e tem de se encaixar num modelo pronto, deve lecionar diversas disciplinas distintas e recebe um plano de aula fechado, com poucas possibilidades de criação”, relata o professor Dorival Reis (nome fictício). De acordo com o docente, que leciona há 27 anos, o nível de participação dos professores nas universidades particulares caiu bastante nos últimos anos.

Somando-se às críticas, Walcyr de Oliveira Barros, vice-presidente da Regional do Rio de Janeiro do Andes, explica que os professores têm que se submeter às regras impostas pelas universidades, porque não têm a estabilidade no emprego que lhes garantiria segurança para se contrapor. “Para esse sistema privado, a lógica imposta para o docente é que ele dê aula, aula de conteúdo técnico e se limite especificamente a isso”, resume.

Aline Scarso e Michelle Amaral, Brasil de Fato

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Comentários

  1. Sérgio Postado em 21/Dec/2012 às 21:24

    Deve ser isso que rola em Yale e Harvard, que são privadas, né não?

  2. Jéssica Postado em 23/Dec/2012 às 19:46

    Já tive o desprazer de fazer um curso à distâmocia numa Federal, e a única coisa que eu posso dizer é que foi uma perda de tempo, pela péssima qualidade, desorganização e falta de estrutura. Isso é um problema que também atinge as públicas também. Se informem mais antes de disserem que é apenas nas particulares.

  3. emanoel carlos Postado em 27/Dec/2012 às 01:48

    A noticia meus caros amigos foca as faculdades particulares ! e Yale e harvard tem investimento publico, e quem disse que é a melhor se os EUA tem que importa mão de obra especializada de outros países inclusive da India, é só ver um filme chamado 3 idiotas. A educação particular está se desmanchando muitos alunos não querem ter dificuldade para passar e os pais também não querem ver os filhos reprovados e isso dede de o jardim de infancia

  4. Larissa Postado em 28/Dec/2012 às 01:33

    O ensino superior particular no Brasil está cada ano pior. A cada esquina abre-se uma IES. O MEC avalia faculdades lixos com nota 4. Faculdades estão burlando o ENADE, a reprovar alunos que só querem diploma (a maioria na rede particular) e colocar 4 ou 5 alunos do curso para realizar a prova. Por isso curso superior hoje em dia não quer dizer nada. Infelizmente ensino superior pago no Brasil virou consórcio. Qualquer um ingressa, investe um valor por mês e pega o diploma no final. Aprendizado mesmo que é bom, nada. Culpa das instituições que só querem lucros e alunos displicentes que só querem diploma.

  5. Frederico Postado em 27/Apr/2013 às 04:31

    Foi tempo em que ter um diploma representava um conquista: hoje em dia basta ter R$ 5.000,00 no bolso que se deixar você ganha um. É assim que são e serão formados os "profissionais" do futuro, Médicos, Advogados, Psicólogos, Engenheiros,... E é nas mãos desses projetos de profissionais que estamos entregando nossos bens, nossa segurança, nossa confiança... Prédios serão erguidos por caras que mais mataram aula do que marcaram presença, Hospitais receberá Médicos, se é que assim podemos dizer, mal instruídos e que passaram na faculdade mais tempo bebendo cerveja do que realmente estudando. Já vi Advogados oferecerem seus serviços numa esquina aqui no RJ cobrando "agilidade sem burocracia", só não disseram o valor das custas... Mas é isso que o governo quer: fingir que tem um ensino de qualidade com um quadro acadêmico simplesmente horroroso. Faculdades sem recursos, professores mal pagos, falta de incentivo à educação,... E ainda tem o ENEM, que é a maior farsa estudantil da história rs! Esse é o país da Copa e das Olimpíadas...