Luis Soares
Colunista
Compartilhar
Racismo não 19/Nov/2012 às 23:57
12
Comentários

Racismo no Brasil e o besteirol de Ali Kamel sobre 'democracia racial'

Ao contrário do que afirma o chefão da TV Globo, somos um país racista e isto se reflete no mundo do trabalho, nas escolas, no cotidiano. O racismo está presente nas instituições públicas e privadas

Se dependesse de Ali Kamel, todo-poderoso capataz da TV Globo, não haveria feriado nem manifestações no Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, em 20 de novembro. No livro “Não somos racistas”, publicado em 2006 pela Nova Fronteira, ele garante que não há discriminação racial no Brasil e que todos vivem em harmonia. Obrado em plena batalha pela implantação das cotas nas universidades, o livro de 144 páginas serviu como instrumento da direita para combater as políticas afirmativas do governo Lula.

ali kamel racismo racistas

Foto: Ali Kamel, o todo poderoso do jornalismo da Globo que acredita no Brasil como um país democrático racialmente.

Para o jornalista metido a intelectual, o racismo não teria peso na cultura nacional e não contaria com o aval das instituições públicas e privadas. Nesse sentido, teorizava o autor, a implantação das cotas raciais teria um efeito inverso, negativo, estimulando o racismo. As teses do chefão da Rede Globo, porém, logo caíram no ridículo e “sociólogo” global virou motivo de gozação. Nesta semana, o estudo “Vozes da Classe Média”, realizado pelo Instituto Data Popular, confirmou a visão elitista e racista de Ali Kamel.

Avanços das políticas sociais

Organizado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, o estudo revelou que as políticas sociais implantadas pelo governo Lula melhorara a renda dos negros no país. Nos últimos dez anos, ela cresceu em um ritmo cinco vezes maior do que a da população não negra. A soma dos salários dos negros (incluindo pardos) passou de R$ 158,1 bilhões, em 2002, para R$ 352,9 bilhões em 2012 – incremento de 123,2%. Também houve aumento da renda dos não negros, mas num ritmo menor – 21,1%. Ela passou de R$ R$ 272,1 bilhões para R$ 329,5 bilhões.

Leia também

“Com a maior participação no mercado formal de trabalho (carteira assinada e direitos trabalhistas), mais acesso à educação e mais facilidades em conseguir crédito para o consumo, essa população viu a sua renda melhorar em um ritmo mais intenso. Além desses fatores, políticas públicas adotadas pelo governo federal –como aumento real de salário mínimo e programas sociais de transferência de renda, caso do Bolsa Família- contribuíram para o incremento”, destaca o jornal Folha deste domingo (18).

Discriminação não foi superada

“A expansão da classe média foi resultado da entrada dos grupos sociais menos privilegiados, como o dos negros, e da redução das desigualdades. Oito em cada dez entrantes da classe média são negros”, afirma Renato Meirelles, diretor do instituto Data Popular. Dos 40 milhões de brasileiros que ingressaram na chamada nova classe média, 75% são negros. “A entrada maciça de negros na classe média fez com que a participação desse grupo na classe média brasileira subisse de 38% em 2002 para 52% em 2012”.

Estes avanços evidenciam as besteiras escritas por Ali Kamel, mas não significam que a discriminação racial foi superada no Brasil. Ao contrário do que afirma o chefão da TV Globo, somos um país racista e isto se reflete no mundo do trabalho, nas escolas, no cotidiano. O racismo está presente nas instituições públicas e privadas. Daí a importância do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. É preciso lutar ainda muito mais para avançarmos na superação dos preconceitos, da opressão e da exploração em nossa sociedade.

Altamiro Borges, Correio do Brasil

Recomendados para você

Comentários

  1. Alexandre Postado em 20/Nov/2012 às 00:24

    Interessante os dados, mas, faltou contextualizar no final, explicando melhor de que modo essa discriminação se dá. Entrei pra ler exatamente sobre isso e acabei ficando na mão.

  2. idan Postado em 20/Nov/2012 às 15:41

    Olhem o nome do sujeito: ALI KAMEL. Ele é de descendencia palestina. Sim, a mesma pelestina que está sendo dizimada por israel, e a REDE GLOBO do tio sam está endossando. Ou seja, se ele nao tem compaixão por suas próprias origens (palestina-branca), imaginem por aqueles que lhe são estranhos?(negros).

  3. Rodrigo Teixeira Postado em 22/Nov/2012 às 12:19

    Os instrumentos de discriminação e marginalização vigentes na nossa sociedade são de ordem social e não racial. A chave para entender isso, é que por motivos históricos óbvios, entre as classes mais baixas da sociedade o negro é maioria. Portanto, ações de ordem social, por consequência atingiriam o objetivo, seja ele justiça social ou "reparar o que foi feito ao negro no Brasil". Os deficientes físicos, tem cotas de assentos nos ônibus e filas por um motivo. Por sua condição física, não tem condições de ficar em pé por muito tempo. Ações "inclusivas" como cotas raciais para negros em universidades, se assemelham a vagas para deficientes. Ou seja garantem um privilégio baseado numa condição física. Seria o negro, menos capaz intelectualmente de ter acesso a universidade pública por ser negro ou por ter sido pobre e não ter tido preparo adequado ? Pois se o motivo é o segundo, por que o aluno branco que é pobre e não também não teve acesso a um preparo adequado não merece o mesmo privilégio ? Em quanto dividirmos as pessoas por classificações de cor, haverá racismo.

    • Gustavo S Postado em 22/Nov/2012 às 12:23

      Rodrigo Teixeira, o aluno branco e pobre também está incluso na nova Lei de Cotas. Sugiro que informe-se sobre a lei, ou a leia na íntegra.

    • Caroline Postado em 10/Apr/2014 às 08:28

      Totalmente de acordo! É tão óbvio.. Pena que as pessoas que podem tomar decisões não são capazes de enxergar o óbvio. Ser lógico, racional e justo no Brasil não dá votos.

  4. Rodrigo Teixeira Postado em 22/Nov/2012 às 15:25

    Pelo contrário Gustavo, conheço muito bem a nova Lei que reserva 12,5% das vagas para alunos que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas, 50% para candidatos com renda familiar mensal de até um salário mínimo e meio, por pessoa. A outra metade para quem ganha acima disso. Porém uma proporção de todas as vagas reservadas, nas duas faixas de renda, será para quem se declarar negro, pardo ou índio, de acordo com o tamanho dessas populações em cada estado. Estima-se que ao longo de quatro anos, o índice de vagas reservadas chegará a 50%. (dados do MEC) Então a pergunta continua : A cor do indivíduo influência na sua capacidade se qualificar para um exame ? Tratar de maneira diferente, pessoas de diferentes raças não é exatamente a definição de racismo ?

  5. Maia Postado em 14/Dec/2012 às 17:45

    Concordo plenamente com O senhor Rodrigo teixeira. No brasil não há negros nem brancos, somos um pais mestiço de origem. No brasil, há pobreza, que assola qualquer classe racial! E outra, Programas como o bolsa familia tornou a nação brasileira mendiga, dependente de um governo com uma patologia crônica que é a corrupção!

  6. Maia Postado em 14/Dec/2012 às 17:48

    Corrigindo à cima "classe social"

  7. Victor RF Postado em 17/Dec/2012 às 14:34

    As pessoas se esquecem do verdadeiro motivo das cotas raciais nas universidades. Eu sou de Brasília e essa discussão acontece aqui há muito tempo por causa do sistema de cotas da UnB. As pessoas acham que o sistema de cotas é para dar a chance do negro entrar na universidade e por isso quem é contra como o nosso amigo dos comentários acima usa o argumento: "A cor do indivíduo influência na sua capacidade se qualificar para um exame?" ou "Então o negro é menos capaz que o branco?" e o pior é quem é a favor também não sabe o real motivo e utiliza argumentos errados para defender o sistema de cotas. O verdadeiro motivo do sistema de cotas é promover a convivência entre negros e brancos aonde não existia e num lugar onde todo tipo de convivência tem que existir, na universidade. A UnB era uma universidade quase completamente branca antes do sistema de cotas, isso porque é uma universidade pública num país aonde 50% da população se considera negra e o número de estudantes negros não chegava nem a 10%. A universidade viu que tinha alguma coisa errada e tomou uma providência, a ideia do sistema de cotas é promover a convivência e é com a convivência que os preconceitos diminuem, ou seja, diferente do que esse maluco do Ali Kamel defende, o sistema de cotas esta aí para tentar diminuir o preconceito e não aumentá-lo.

    • tukavga Postado em 29/Jul/2014 às 19:55

      Concordo com vc Victor RF. Excelente comentário. Mas, infelizmente, mesmo com tanta clareza na sua exposição, o racista, que não se assume, vai continuar buscando argumentos para justificar sua posição.

  8. bernardo Postado em 18/Jul/2013 às 21:05

    Me preocupa essa política das cotas raciais, principalmente, porque não existem raças. Isso foi uma coisa inventada pela Europa pra proclamar uma suposta superioridade sobre outros continentes. Portanto, qualquer classificação de uma pessoa como sendo da raça negra, branca, indígena, etc é sim uma classificação racista. Por mais que seja por uma intenção nobre de ajudar determinados segmentos da sociedade, a divisão de pessoas em raças é algo que pode levar a um sentimento de que negros e brancos não são humanos iguais, e sim tipos diferentes. E isso é o berço do racismo. Mas o fato de ser contra a classificação racial da população (até porque ela parte de critérios totalmente arbitrários), não quer dizer que eu ignore que existe preconceito, sim. Acontece que o preconceito no Brasil é um preconceito de COR e de status social. Bastaria aplicar um sistema de cotas sociais (para alunos de baixa renda), que automaticamente, a população como um todo seria beneficiada, inclusive os ditos "negros". Não vejo porque motivo uma pessoa pobre que não teve chances na vida tem que se encaixar em uma classe fictícia de negro, índio, ou branco, ao se inscrever na universidade. Ela tem que ter preferência porque a sociedade não deu as chances pra ela. Não interessa a sua cor.

  9. Joao Victor Postado em 22/Feb/2014 às 19:06

    Sim, infelizmente, somos um pais racista, mas nao acredito que as cotas resolvam este problema, muito menos os programas sociais. Uma pessoa que ganha 1200 reais, por exemplo, eh considerado classr media, mas de fato nao eh. Bolsa familia eh uma grande farsa, de vdd.