Luis Soares
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Política 22/Nov/2012 às 10:56
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Piadas racistas reforçam padrão colonial, explica pesquisador

“A personagem Adelaide está colocada dentro dos marcos do passado. Havia uma leitura nas piadas de que os negros eram pobres, desdentados e feios. Adelaide tem o nariz e os lábios exageradamente alargados e o cabelo despenteado, em um clichê, que, no final, a compara a um gorila”

Piadas sobre negros ainda são usadas para desqualificar e marginalizar essa parcela da população, critica o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Dagoberto José da Fonseca, que pesquisa o tema desde a década de 1980. “Esse tipo de piada, de brincadeira, que não é nada inocente, tem o objetivo de rebaixar, de inferiorizar, de desqualificar o negro, de mostrá-lo como um animal, incompetente ou estigmatizar uma situação de pobreza pela qual passa boa parte dessa população.”

adelaide zorra total

Personagem Adelaide do programa Zorra Total. (Foto: reprodução)

Doutor em ciência sociais, ele começou a pesquisar o tema depois de ouvir de um amigo uma piada racista ainda na faculdade. A anedota deu origem a uma tese de mestrado que, engavetada desde então, foi resumida e será publicada no livro Você Conhece Aquela? A Piada, o Riso e o Racismo à Brasileira, com previsão de lançamento em dezembro.

Em 133 páginas, o professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp reúne piadas em que os protagonistas são negros e aparecem como “vadios, malandros, ladrões”. Em algumas dessas anedotas são comparados a doenças degenerativas, como câncer, ou têm características físicas, como o nariz e a boca, exageradas, reforçando estereótipos.

É o caso da personagem Adelaide, do programa Zorra Total, da TV Globo. No quadro, ela é uma mulher negra, pobre, sem dentes, que se refere aos cabelos da própria filha como “palha de aço”. As aparições da personagem estão sob análise no Ministério Público do Rio de Janeiro, que vai avaliar se há racismo no programa, a pedido da Secretaria de Igualdade Racial (Seppir).

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“A personagem Adelaide está colocada dentro dos marcos do passado. Havia uma leitura nas piadas de que os negros eram pobres, desdentados e feios. Ela a personagem não rompe com o passado, como Mussum, Grande Otelo e Chocolate. Adelaide tem o nariz e os lábios exageradamente alargados e o cabelo despenteado, em um clichê, que, no final, a compara a um gorila”, criticou.

Sobre o tema da sexualidade, em um dos quatro capítulos da obra, Fonseca também critica o mito da potência sexual, no caso dos homens, ou de lascívia, no caso das mulheres. Segundo o professor, essas ideias surgem na colonização tanto no Brasil quanto na África e refletem teorias de um momento histórico em que o negro era tido como inferior.

“Quando a gente pensa em um negro brutamonte, está associando o negro a um tarado, a um cavalo, a um touro, ou seja, voltamos para a questão da animalização”, ressaltou. ”Do outro lado, quando se remete à mulher negra, há ideia de lascividade, de promiscuidade. Tudo vinculado ao processo colonial, em que o dono do corpo era quem escravizava”, acrescentou.

Para o professor, por trás das piadas racistas há uma intenção de buscar a “padronização” do corpo, da beleza, por meio da valorização de um “ideal branco”, o que tem impactos negativos, especialmente, entre as crianças negras. A tendência, explica o pesquisador, é que elas se sintam inferiores e tenham mais dificuldade para aprender.

Em relação à personagem Adelaide, a Central Globo de Comunicação informou que o humorístico “é notadamente uma obra de ficção, cuja criação artística está amparada na liberdade de expressão”. A nota acrescenta ainda que a personagem foi inspirada na avó de seu intérprete e criador, o ator Rodrigo Sant’anna.

Portal Terra

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Comentários

  1. andre Postado em 22/Nov/2012 às 19:38

    Esse tipo de "espetáculo" acontecia nos EUA até os anos 30. Vejam: Jograis/menestréis (minstrel show" (http://pt.wikipedia.org/wiki/Minstrel_Show) e a mesma "cara negra" desse personagem ridículo do zorra total Blackface (http://en.wikipedia.org/wiki/Blackface).

  2. idan Postado em 23/Nov/2012 às 16:01

    Enquanto esse ESGOTO informativo chamado rede GLOBO ser a maior e mais assistida emissora do Brasil, disseminando uma cultura européia como padrão de família perfeita, essa situação turva de discriminação e marginalização irá prevalecer/subsistir. Na ótica dessa emissora medíocre, os negros dessa avenida Brasil só servem para servir de empregados e personagens estigmatizados do talante de traficantes, malandros, mendigos, ou melhor, “A CARA DA POBREZA”, como assim quer nos fazer acreditar o ZORRA TOTAL. Os diretores de filmes americanos acusam o Brasil de NEGAR A COR DE SEU POVO, eis que em todo filme eles colocam UM SÓ negro, UM SÓ!, mesmo sabendo que nesse país há negros e brancos em números quase proporcionais(…) A lamentar, ESSE É O PAÍS DOS CACHOEIRAS, DOS DEMOSTENES, DOS SERRAS, DOS ALI KAMELS e etc., o país onde uma só família (marinho’s) abocanha grande parte do PIB brasileiro E que ainda é contra as políticas afirmativas de inclusão social e redistribuição de rendas; o pais onde, mesmo com TODO UM POVO acenando para aprovação de um presidente, encontra uma MIDIA CORRUPTA tentando derrubá-lo, ÀS MENTIRAS (…)….enfim, é o país onde a justiça é igual as serpentes: só picam os DESCLAÇOS.

  3. Wanderley T. Costa Postado em 23/Nov/2012 às 18:41

    Mas fazer piada de loira pode né?! Generalizar dizendo que toda loira é burra não é preconceito não? Vão pra PQP. Isso é racismo também. Preconceito puro. País de gente hipócrita que agora está exaltando o negro como se ele fosse o máximo da criação. É um ser humano comum como qualquer outro e que deve ter os mesmos direitos que outros. Apenas isso. País onde a mídia (descaradamente e de forma subliminar também) incentiva a união amorosa entre negros e brancos como se isso fosse algo de extrema importância para a nação; e muitos tem seguido esta nova onda, deixando-se levar pelas subliminares de novelas, filmes, programas e propagandas de TV. A mídia faz o que quer com a população brasileira.

  4. João Postado em 24/Nov/2012 às 18:45

    Libedade de expressão. Lide com isso.

  5. Rodolfo Postado em 25/Nov/2012 às 21:15

    Liberdade de expressão tem limite. Lide com isso.

  6. Pedro Postado em 25/Nov/2012 às 23:37

    "Seus direitos acabam onde meus direitos começam" não é "seus direitos acabam onde meus sentimentos começam". Lide com isso.

  7. sofia Postado em 29/Nov/2012 às 12:57

    Liberdade de expressão não de doutrinação. O proprio fato deste lixo chamado globo se recusar de rever as caracteristicas do dito "personagem " é uma tentativa de nos impor sua visão arcaica e estreita do negro dentro sociedade brasileira. Tentam com isto refoçar o preconceito, impor como coisa normal ou natural para que este comportamento persista e sobretudo para este tipo de estereotipo funcione como um espelho para os afrodescendentes, limitando sua auto-estima e sua atuação dentro da sociedade .

  8. João Postado em 07/Dec/2012 às 16:33

    Ninguém está te impondo nada. Você tem a plena liberdade de não assistir se não quiser. Todos tem.

  9. Annia Postado em 15/Dec/2012 às 16:47

    Wanderley T. Costa, realmente, piadas contra loiras são tão prejudiciais, preconceituosas e estigmatizadoras quanto as piadas contra os negros, até pq nós todos sabemos o peso que as loiras levam por serem loiras, a desvalorização da mulher loira na sociedade, a baixa/nula valorização da beleza de mulheres loiras claramente alimentada pela mídia, e claro, o peso histórico que essas piadas têm - afinal, chamar uma loira de burra é a mesma coisa que chamar um negro de macaco, já que elas tbm já foram consideradas animais, e não pessoas, teoria sustentada até pela "ciência" de algum tempo atrás... Tá de brincadeira, né? Ah, e sobre "(o negro) ser humano comum como qualquer outro e que deve ter os mesmos direitos que outros" - bem, eu concordo que todos têm o mesmo valor humano, mas sobre todos serem "tratados da mesmíssima forma" - leia-se negros & brancos, gays & héteros, pobres & ricos, etc -, isso aqui ajuda a esclarecer http://academico.direito-rio.fgv.br/wiki/Igualdade_Formal_v._Igualdade_Material . Boa leitura. {: Enfim, esse comentário seu me é bastante arcaico e superficial, mas infelizmente bastante disseminado em nossa sociedade.

  10. Annia Postado em 15/Dec/2012 às 17:06

    "Humor" (ou liberdade de expressão) não é habeas corpus para a propagação e/ou estímulo de um estigma contra um grupo de pessoas (seja negro, gay, judeu, etc...) que já é historicamente marginalizada na sociedade. E reduzir/chamar todo um peso histórico e cultural carregado por certos grupos humanos de "sentimentos (particulares, pelo contexto)" é uma piada, né?

  11. Guilherme Postado em 28/Dec/2012 às 02:32

    Geralmente personagens de humor são caricaturas, enfeiados para serem engraçados. Vejo caricaturas de todos os tipos, ridicularizando todos, sem exceção. A princípio não vejo intenção racista em nada disso. Senão todos os personagens feios deverão ser necessariamente brancos? É muito complicado, admito. De qualquer formá e nãogosto desse tipo de humor.

  12. Raquel Santtos Postado em 07/Jan/2013 às 13:43

    Também acredito que esta personagem não foi feita para um fim racista,mas com o objetivo de ser engraçado - e como todo personagem de humor,possui exageros e contradiçoes- porem,como o assunto da moda é racismo acabaram dando aldiencia de mais a ele... É claro que posuimos uma infinidade de opçoes de emissoras,programas,seriados,novelas,filmes,etc e ninguem é obrigado a nada neste país onde temos plena LIBERDADE, e digo liberdade em todos os sentidos,quem não quiser assistir o programa de humor ou a rede globo que vá ler um livro... Também tenho nojo da REDE ESGOTO,mas também acredito que as pessoas fazem dela um "deus" da maldade - Nossa,é claro que nem tudo que é feito,no mundo,é entendido como foi feito para ser entendido! - e assim, dando ainda muito mais IBOP do que essa emissora merece... Vamos deixar um pouco a revolta e a "falaria" de lado pra fazer algo de concreto! :[]