Luis Soares
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Política 13/Nov/2012 às 19:35
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Jean Wyllys responde mídia homofóbica: Veja que lixo!

Os argumentos de Guzzo contra o casamento igualitário seriam uma confissão pública de estupidez se não fosse uma peça de má fé e desonestidade intelectual a serviço do reacionarismo da revista Veja

Por Jean Wyllys

Eu havia prometido não responder à coluna do ex-diretor de redação de Veja, José Roberto Guzzo, para não ampliar a voz dos imbecis. Mas foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos, que eu dominei meu asco e decidi responder.

guzzo jean wyllys revista veja

José Roberto Guzzo, colunista da revista Veja. (Foto: reprodução)

A coluna publicada na edição desta semana do libelo da editora Abril — e que trata sobre o relacionamento dele com uma cabra e sua rejeição ao espinafre, e usa esses exemplos de sua vida pessoal como desculpa para injuriar os homossexuais — é um monumento à ignorância, ao mau gosto e ao preconceito.

Logo no início, Guzzo usa o termo “homossexualismo” e se refere à nossa orientação sexual como “estilo de vida gay”. Com relação ao primeiro, é necessário esclarecer que as orientações sexuais (seja você hétero, lésbica, gay ou bi) não são tendências ideológicas ou políticas nem doenças, de modo que não tem “ismo” nenhum. São orientações da sexualidade, por isso se fala em “homossexualidade”, “heterossexualidade” e “bissexualidade”. Não é uma opção, como alguns acreditam por falta de informação: ninguém escolhe ser homo, hétero ou bi.

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O uso do sufixo “ismo”, por Guzzo, é, portanto, proposital: os homofóbicos o empregam para associar a homossexualidade à ideia de algo que pode passar de uns a outros – “contagioso” como uma doença – ou para reforçar o equívoco de que se trata de uma “opção” de vida ou de pensamento da qual se pode fazer proselitismo.

Não se trata de burrice da parte do colunista portanto, mas de má fé. Se fosse só burrice, bastaria informar a Guzzo que a orientação sexual é constitutiva da subjetividade de cada um/a e que esta não muda (Gosta-se de homem ou de mulher desde sempre e se continua gostando); e que não há um “estilo de vida gay” da mesma maneira que não há um “estilo de vida hétero”.

A má fé conjugada de desonestidade intelectual não permitiu ao colunista sequer ponderar que heterossexuais e homossexuais partilham alguns estilos de vida que nada têm a ver com suas orientações sexuais! Aliás, esse deslize lógico só não é mais constrangedor do que sua afirmação de que não se pode falar em comunidade gay e que o movimento gay não existe porque os homossexuais são distintos. E o movimento negro? E o movimento de mulheres? Todos os negros e todas as mulheres são iguais, fabricados em série?

A comunidade LGBT existe em sua dispersão, composta de indivíduos que são diferentes entre si, que têm diferentes caracteres físicos, estilos de vida, ideias, convicções religiosas ou políticas, ocupações, profissões, aspirações na vida, times de futebol e preferências artísticas, mas que partilham um sentimento de pertencer a um grupo cuja base de identificação é ser vítima da injúria, da difamação e da negação de direitos! Negar que haja uma comunidade LGBT é ignorar os fatos ou a inscrição das relações afetivas, culturais, econômicas e políticas dos LGBTs nas topografias das cidades. Mesmo com nossas diferenças, partilhamos um sentimento de identificação que se materializa em espaços e representações comuns a todos.

Desse sentimento que nasce, em muitos (mas não em todas e todos, infelizmente) a vontade de agir politicamente em nome do coletivo; é dele que nasce o movimento LGBT. O movimento negro — também oriundo de uma comunidade dispersa que, ao mesmo tempo, partilha um sentimento de pertença — existe pela mesma razão que o movimento LGBT: porque há preconceitos a serem derrubados, injustiças e violências específicas contra as quais lutar e direitos a conquistar.

A luta do movimento LGBT pelo casamento civil igualitário é semelhante à que os negros tiveram que travar nos EUA para derrubar a interdição do casamento interracial, proibido até meados do século 20. E essa proibição era justificada com argumentos muito semelhantes aos que Guzzo usa contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Afirma o colunista de Veja que nós os e as homossexuais queremos “ser tratados como uma categoria diferente de cidadãos, merecedora de mais e mais direitos”, e pouco depois ele coloca como exemplo a luta pelo casamento civil igualitário. Ora, quando nós, gays e lésbicas, lutamos pelo direito ao casamento civil, o que estamos reclamando é, justamente, não sermos mais tratados como uma categoria diferente de cidadãos, mas igual aos outros cidadãos e cidadãs, com os mesmos direitos, nem mais nem menos. É tão simples! Guzzo diz que “o casamento, por lei, é a união entre um homem e uma mulher; não pode ser outra coisa”. Ora, mas é a lei que queremos mudar! Por lei, a escravidão de negros foi legal e o voto feminino foi proibido. Mas, felizmente, a sociedade avança e as leis mudam. O casamento entre pessoas do mesmo sexo já &e acute; legal em muitos países onde antes não era. E vamos conquistar também no Brasil!

Os argumentos de Guzzo contra o casamento igualitário seriam uma confissão pública de estupidez se não fosse uma peça de má fé e desonestidade intelectual a serviço do reacionarismo da revista. Ele afirma: “Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo; pode até ter uma relação estável com ela, mas não pode se casar”. Eu não sei que tipo de relação estável o senhor Guzzo tem com a sua cabra, mas duvido que alguém possa ter, com uma cabra, o tipo de relação que é possível ter com um cabra — como Riobaldo, o cabra macho que se apaixonou por Diadorim, que ele julgava ser um homem, no romance monumental de Guimarães Rosa. O que ele, Guzzo, chama de “relacionamento” com sua cabra é uma fantasia, pois falta o intersubjetivo, a reciprocidade que, no amor e no sexo, só é possível com outro ser humano adulto: duvido que a cabra dele entenda o que ele porventura faz com ela como um “relacionamento”.

Guzzo também argumenta que “se alguém diz que não gosta de gays, ou algo parecido, não está praticando crime algum – a lei, afinal, não obriga nenhum cidadão a gostar de homossexuais, ou de espinafre, ou de seja lá o que for”. Bom, nós, os gays e lésbicas, somos como o espinafre ou como as cabras. Esse é o nível do debate que a Veja propõe aos seus leitores.

Não, senhor Guzzo, a lei não pode obrigar ninguém a “gostar” de gays, lésbicas, negros, judeus, nordestinos, travestis, imigrantes ou cristãos. E ninguém propõe que essa obrigação exista. Pode-se gostar ou não gostar de quem quiser na sua intimidade (De cabra, inclusive, caro Guzzo, por mais estranho que seu gosto me pareça!). Mas não se pode injuriar, ofender, agredir, exercer violência, privar de direitos. É disso que se trata.

O colunista, em sua desonestidade intelectual, também apela para uma comparação descabida: “Pelos últimos números disponíveis, entre 250 e 300 homossexuais foram assassinados em 2010 no Brasil. Mas, num país onde se cometem 50000 homicídios por ano, parece claro que o problema não é a violência contra os gays; é a violência contra todos”. O que Guzzo não diz, de propósito (porque se trata de enganar os incautos), é que esses 300 homossexuais foram assassinados por sua orientação sexual! Essas estatísticas não incluem os gays mortos em assaltos, tiroteios, sequestros, acidentes de carro ou pela violência do tráfico, das milícias ou da polícia.

As estatísticas se referem aos LGBTs assassinados exclusivamente por conta de sua orientação sexual e/ou identidade de gênero! Negar isso é o mesmo que negar a violência racista que só se abate sobre pessoas de pele preta, como as humilhações em operações policiais, os “convites” a se dirigirem a elevadores de serviço e as mortes em “autos de resistência”.

Qual seria a reação de todas e todos nós se Veja tivesse publicado uma coluna em que comparasse negros e negras com cabras e judeus com espinafre? Eu não espero pelo dia em que os homens e mulheres concordem, mas tenho esperança de que esteja cada vez mais perto o dia em que as pessoas lerão colunas como a de Guzzo e dirão “veja que lixo!”.

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Comentários

  1. M. S. Postado em 13/Nov/2012 às 20:31

    "Mas foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos, que eu dominei meu asco" essa referência foi linda de se ver, assim como o texto inteiro. :)

  2. Priscila Postado em 13/Nov/2012 às 21:48

    esse Guzzo é um lixo, e seus comentários estão a altura dele

  3. Lu de Oliveira Postado em 13/Nov/2012 às 22:06

    Respondeu à altura e desmascarou as meias verdades que o colunista exibe em seu comentário! Parabéns Jean.

  4. matheus Postado em 13/Nov/2012 às 23:06

    A Veja cada dia que passa me decepciona mais. Acabou a analise crítica e posições ideologia. Tudo está abaixo do lucro, que vem, por sinal, de polêmica;esquece-se a formação dos leitores. Realmente, não faltam intelectuais no Brasil Faltam intelectuais com ética!

  5. Leandro Coelho Postado em 14/Nov/2012 às 01:53

    Estes excrementos são a pedra base da ideologia da Veja, composta de colunistas que se vendem à uma oligarquia imunda, excludente e avessa às mudanças que favorecem as maiorias excluídas (sempre taxada como minorias). Já está na hora desse lixo de publicação sair das bancas. Não através de censura ou repressão, mas pelo simples ostracismo, pelo abandono dos leitores, que deveriam se recusar a ler o que essa laia que atrasa o Brasil há 500 anos escreve...

  6. Rafaela Postado em 14/Nov/2012 às 02:26

    A desonestidade desse pessoal de direita cansa. Seria tão fácil se dissessem apenas "não gosto e pronto", mas ficam tentando inventar e distorcer a realidade, a lei, a metafisica e tudo mais com retorica e enfeites literários pra tornar suas opiniões, gostos e preconceitos "algo mais" que mero gosto pessoal e preconceito. Distorcem até o Teflon, que não inventado pela NASA como o Guzzo disse.

  7. Fellipe Postado em 14/Nov/2012 às 11:12

    Excelente manifestação.... Parabéns ao deputado Jean Wyllys... Sagaz e perspicaz....

  8. Thiago Hermes Postado em 14/Nov/2012 às 13:08

    A desconstrução do "texto" do famigerado "jornalista" pelo deputado foi monumental, convincente, coberta de coerência e digna de aplausos. Parabéns deputado!

  9. Guilherme Postado em 14/Nov/2012 às 17:56

    Que clareza de argumentação, que texto bem escrito. Queria que existissem mais jornalistas e colunistas no Brasil com a qualidade técnica e articuladora, com a sobriedade e sofisticação de Jean Wyllis, apesar de ele não ser nem jornalista ou colunista (o que, por sinal, evidencia ainda mais a urgência dessa qualidade existir dentro do mundo jornalístico, uma vez que alguém de fora deste mundo supera em muito mais de 50% de toda a corja do jornalismo de massa do nosso país, composto por "profissionais" seletivamente recrutados e escalados por Globo, Veja, Folha, Estadão e afiliadas). Em tempo: a Veja é nojenta, cada vez mais me desperta um ódio horrendo contra essa revista, de tal modo que é até perigoso, preciso me vigiar, porque tanto ódio vai, no fim das contas acabar me igualando a este lixo de veículo de comunicação tão baixo e podre...

  10. Dora Postado em 16/Nov/2012 às 10:38

    O texto realmente é muito coerente parabéns.Minha opinião é muito simples,sou a favor da liberdade e respeito em todos os sentidos,não creio que o dito colunista seja uma pessoa ruim,ele só tem uma opinião diferente da grande maioria,e essa opinião deve ser respeitada,mesmo sendo antagonica a miinha,é um colunista que respeito muito, apesar de não me identificar com sua ideologia nada impede que ele a divulgue.

  11. Angel Postado em 16/Nov/2012 às 21:15

    Pergunta... Porque a "NAO EXISTENTE" comunidade gay lança uma campanha ... tipo não comprar a veja por algum tempo... Acho a revista deveria se retratar, dar direito de resposta, qq coisa... Não sou militante, mas acho que mesmo tão diferentes podemos nos unir.. Eu pessoalmente vou começar a comprar qualquer outra revista mas a veja não compro por um bom tempo!!!!

  12. Will SJ Postado em 19/Nov/2012 às 15:36

    fiz um video sobre esse artigo ridículo e principalmente sobre essa revista! http://www.youtube.com/watch?v=57i37O-Cj7U

  13. roberto Postado em 19/Nov/2012 às 16:07

    Veja, não dá pra não ler....e não ficar com raiva!!

  14. Ge Postado em 06/Feb/2013 às 18:20

    Bravo, meu caro Deputado!!!!

  15. Théo Postado em 17/May/2013 às 11:02

    REPITO Bravo, meu caro Deputado!!!!

  16. Eduardo Postado em 05/Jul/2013 às 23:01

    ... o dono dela morreu e vão acabar com a PLAYBOY, deviam acabar é com esta "oia" vesga e preconceituosa, elitisada ao extremo.

  17. marly ,14.07.2013 Postado em 14/Jul/2013 às 20:37

    Faço minhas as palavras de Théo: "Bravo, meu querido deputado"!!!! Nada melhor que esta frase para expressar o que qualquer ser humano normal, lúcido e coerente pode sentir diante de provocações tão medíocre. Parabéns, Jean Wyllis.