Luis Soares
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Índios 06/Nov/2012 às 13:14
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Índios Guarani-Kaiowá repudiam reportagem da Veja: "racista e mentirosa"

Lideranças da comunidade indígena Guarani-kaiowá emitiram, na segunda-feira (5), nota de repúdio à reportagem publicada na revista Veja sobre a situação dos indígenas no Mato Grosso do Sul. Para eles, a matéria assinada por Leonardo Coutinho é racista e discriminatória

“Fica evidente que o jornalista Leonardo Coutinho não procura compreender e divulgar a realidade dos Guarani e Kaiowá, faltando com a verdade total consigo mesmo, ou melhor, se desrespeitando e mentindo para todos cidadãos do Brasil”, escreveram as lideranças.

índios guarani kaiowá revista veja

Povo Guarani-kaiowá repudia oficialmente reportagem da revista Veja. (Foto: reprodução)

A revista, publicada na sexta-feira (2), teria argumentado que ONGs e antropólogos manipulam a luta dos indígenas pela retomada de suas terras. O texto exalta a produtividade do agronegócio no MS e diz, de forma irônica, que índios ameaçam tomar todo o território brasileiro.

“A revista Veja, como sempre, não perdeu a oportunidade de apresentar a imagem dos Guarani e Kaiowá como seres incapazes, como se nós indígenas não fossemos seres humanos pensantes, fomos considerados como selvagens e truculentos”, afirmam os indígenas em nota.

Os Guarani-kaiowá aproveitaram a carta para agradecer aos cidadãos brasileiros que demonstraram apoio a sua causa através das redes sociais.

Confira a carta na íntegra abaixo:

Nota de repúdio da Aty Guasu frente à divulgação de Guarani e Kaiowá na revista Veja

Esta nota das lideranças de Aty Guasu Guarani e Kaiowá visa destacar a importância das manifestações públicas conscientes de cidadão (ã) do Brasil em defesa da vida Guarani e Kaiowá.

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Além disso, pretendemos repudiar reiteradamente a divulgação e posição racista e discriminante de jornalista Leonardo Coutinho da REVISTA VEJA.

Observamos que na última semana, a REVISTA VEJA divulgou os temas: “VISÃO MEDIEVAL DE ANTROPÓLOGOS DEIXA ÍNDIOS NA PENÚRIA” E “NAÇÃO” GUARANI. Autor-jornalista é o Leonardo Coutinho.

A princípio, nós lideranças Guarani e Kaiowá entendemos que os cidadãos (ãs) brasileiros (as) merecem respeito, em geral, esperam de um jornalismo democrático um resultado da investigação justa e séria dos fatos para divulgá-los com ética e responsabilidade, demonstrando fielmente versões das partes envolvidas de modo a que a opinião pública possa construir conhecimento isento a respeito do tema divulgado, não é o que se constata na REVISTA VEJA diante da situação do Guarani e Kaiowá em foco.

Em primeiro lugar, constatamos que na divulgação mencionada de REVISTA VEJA há manifestação de racismo, preconceito e discriminação. Assim, fica evidente que o jornalista Leonardo Coutinho é racista, ele não procura compreender e divulgar a realidade dos Guarani e Kaiowá, faltando com a verdade total consigo mesmo, ou melhor, se desrespeitando e mentindo para todos (as) cidadãos (ãs) do Brasil. Visto que esse jornalista racista da REVISTA VEJA nem se preocupa em fazer o trabalho de jornalista a partir de uma aproximação minimamente científica, mas ele fez e divulgou o tema Guarani e Kaiowá de modo distorcida a partir de corpus de informações sem fundamento, meramente embasado em senso comum e sem valores científicos.

No contexto atual, é importante se observar que diante da manifestação contínua dos cidadãos (ãs) do Brasil em favor da demarcação e devolução de territórios tradicionais aos Guarani e Kaiowá, a imprensa REVISTA VEJA, como sempre, não perdeu a oportunidade de apresentar, mais uma vez, a imagem dos Guarani e Kaiowá como seres incapazes, como nós indígenas não fossemos seres humanos pensantes, fomos considerados como selvagens e truculentos; assim, nesta manchete da REVISTA VEJA há, antes de tudo, incitação ao preconceito, a discriminação e ao ódio o que acaba por colocar em risco total toda a população Guarani e Kaiowá, alimentando violências, racismo, discriminação e estigmas sobre os Guarani e Kaiowá, por isso, nós lideranças da Aty Guasu pedimos as autoridades competentes para realizar uma investigação rigorosa e punição cabível ao autor, Leonardo Coutinho que foi responsável pela divulgação de imagem negativa Guarani e Kaiowá na REVISTA VEJA.

Diante dessa divulgação infundada da REVISTA VEJA a respeito de luta Guarani e Kaiowá, nós lideranças indígenas não acreditamos que a maioria dos cidadãos (ãs) do Mato Grosso do Sul e do Brasil tenha conhecimento sobre Guarani e Kaiowá somente a partir do senso comum a distância, porém compreendemos que todos (as) brasileiros (as) manifestantes são educados e adquirem os seus conhecimentos sobre a situação atual Guarani e Kaiowá a partir de observações diretas da realidade do grupo social que por isso têm fundamentos para refletir e se manifestar como cidadão (ã). De fato, é isso que está ocorrendo no último mês no Brasil, cidadãos (ãs) conscientes se manifestaram e ainda se manifestam, através das redes sociais e em espaços públicos, em favor da vida dos Guarani e Kaiowá, exigindo as efetivações de direitos humanos e indígenas. Porém, o jornalista Leonardo da REVISTA VEJA considera que esses cidadãos (ãs) manifestantes seriam ignorantes e não conheceriam as situações dos Guarani e Kaiowá, os tachando de ignorantes aos cidadãos (ãs) em manifestação. Em nosso entendimento, como indígenas Guarani e Kaiowá, consideramos sim que esses cidadãos (ãs) manifestantes de várias federações do Brasil conhecem muito bem a nossa história e nossa situação atual, por essa razão ampla se manifestam em favor de nossa vida para garantir a nossa sobrevivência. Enquanto o Leonardo Coutinho da REVISTA VEJA tenta colocar os Guarani e Kaiowá em risco total além de ignorar os conhecimentos dos cidadãos (ãs) manifestantes.

Queremos deixar evidentes que nós lideranças da Aty Guasu Guarani e Kaiowá de modo autônomos e conscientes vimos lutando pela recuperação de nossos territórios antigos, essa luta pelas terras tradicionais é exclusivamente nossa, nós somos protagonistas e autores da luta pelas terras indígenas, nós envolvemos os agentes dos órgãos do Estado Brasileiro, os agentes das ONGs e todos os cidadãos (ãs) do Brasil e de outros países do Mundo.

Finalizando, nós lideranças da Aty Guasu Guarani e Kaiowá de modo conscientes vamos lutar sem parar pela recuperação de nossas terras antigas, juntamente com cidadãos (ãs) manifestantes do Brasil em destaque, continuremos a lutar contra GENOCÍDIO Guarani e Kaiowá e iremos insistir na necessidade premente do Estado brasileiro se envolver profundamente com o nosso problema Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul. Sabemos que Governo do Brasil tem seu dever Constitucional assumir e decidir com firmeza e rigor uma dinâmica eficaz para fazer respeitar Direitos Humanos e Indígenas no Mato Grosso do Sul. Entendemos perfeitamente que é dever do Estado brasileiro viabilizar recursos financeiros e humanos, refletir e planejar estratégias que culminem em soluções efetivas aos problemas fundiários dos Guarani e Kaiowá aqui focada. Diferentemente da REVISTA VEJA, temos grande esperança e entendemos que os apoios de manifestantes dos cidadãos (ãs) do Brasil deverão contribuir, no tempo, para melhorar a qualidade de vida dessa grande parcela do nosso povo Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul.

Por fim, prestamos o nosso imenso agradecimento a todos (as) cidadãos (ãs) manifestantes pela compreensão e atenção merecida. A nossa luta continua contra GENOCÍDIO.

Atenciosamente,

Tekoha Guasu Guarani e Kaiowá, 04 de novembro de 2012

Lideranças da Aty Guasu Guarani e Kaiowá-MS

Sul 21

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Comentários

  1. Marilda Senna Guarani Kaiowá Postado em 06/Nov/2012 às 15:44

    O 'jornalista' Leonardo Coutinho parece ter faltado às aulas de ética profissional de sua faculdade, também demonstra o grau de sua ignorância visto que, desconhece a realidade sobre o uso da Terra no Brasil. A produtividade do agronegócio traz benefícios e lucros bem rentáveis somente àquele que está com a posse da terra. A sociedade brasileira (e nisso estão inclusos os índios) não obtém nenhum lucro do agronegócio. Na verdade, tem prejuízo, pq enquanto o pequeno agricultor não possui terra para plantar os alimentos que irão para nossa mesa, o latifundiário esgota o solo, precisando cada vez mais de terras. Deveria ler sobre a questão agrária no Brasil antes de falar bobagem. Quem sabe começa lendo "Partido da Terra: Como os Políticos Conquistam o Território Brasileiro" Autor: Alceu Luis Castilho, também jornalista. Não tive o prazer, ainda, de ler este livro, mas ao julgar as críticas que tem recebido, seu autor fez um belo trabalho de pesquisa para fundamentar seus argumentos. Em seu texto, Leonardo Coutinho esclarece apenas uma coisa: De quem defende interesses.

  2. Robson Postado em 06/Nov/2012 às 22:55

    Estamos prestes a ver uma "Nova Canudos" ? O descaso, críticas preconceituosas, a ignorância e irresponsabilidade social de amadores, antiéticos e uma sociedade omissa. Um jornalista de verdade jamais colocaria opiniões particulares discriminatórias em uma matéria! Neste século haverá algum Euclídes disposto a relatar a luta do povo indígena? Ou presenciaremos mais um massacre em terras brasileiras movido pela discriminação, coronelismo, alienação, manipulação da massa e indiferença? Vamos pensar? Quem sabe alguma boa aconteça, quem sabe a razão salve algumas vidas, quem sabe o que pode acontecer se todos nós parássemos para refletir e conhecer antes de julgar? Quantas vezes na história isso aconteceu? Muitas vidas foram perdidas na nossa história humana pela ignorância... Até quando vamos ignorar?

  3. João Santana Postado em 07/Nov/2012 às 13:49

    Interessante. As lideranças Guarani e Kaiowá entendem que os cidadãos brasileiros merecem respeito. Ora, imaginava que os índios eram cidadãos brasileiros! Ou eles não se consideram brasileiros, apesar da CF/88 lhes dar essa condição? Realmente, interessante.

  4. Luh Postado em 08/Nov/2012 às 01:44

    Resumido aqui: “A revista Veja, como sempre, não perdeu a oportunidade de apresentar a imagem dos Guarani e Kaiowá como seres incapazes, como se nós indígenas não fossemos seres humanos pensantes, fomos considerados como selvagens e truculentos”, afirmam os indígenas em nota. Essa imagem do índio de ser inferior tem que mudar!

  5. Alvaro Postado em 08/Nov/2012 às 20:15

    Concordo e digo que não adianta estar na constituição que todos são cidadãos brasileiros. O reconhecimento próprio e da sociedade é, acima de tudo, mais importante.

  6. Rogério Postado em 09/Nov/2012 às 12:00

    "João Santana, em 7 de novembro de 2012 às 13:49 disse: Interessante. As lideranças Guarani e Kaiowá entendem que os cidadãos brasileiros merecem respeito. Ora, imaginava que os índios eram cidadãos brasileiros! Ou eles não se consideram brasileiros, apesar da CF/88 lhes dar essa condição? Realmente, interessante." Entendo seu ponto de vista, mas da forma como vejo, em nenhum momento eles se excluíram de tal grupo. Eu, também como brasileiro, acho que os cidadãos brasileiros merecem respeito. E acho que esse não é o foco em questão do texto. Enfim, interessante sua análise...

  7. Luciano Postado em 11/Nov/2012 às 13:07

    Defendo o agronegócio. Venham ao interior do Brasil ver sua diversidade. Pequenos produtores a grandes fazendas. Todos gerando empregos, produzido respeitando o meio ambiênte e gerando grandes divisas ao Brasil. Respeito a causa indígena mas não podemos tornar o país em uma grande reserva.

  8. alejandro álvarez Postado em 27/Nov/2012 às 19:23

    estou ligado nessa parada que vivimos num mundo super globalizado e permea muitos ámbitos na vida dos nativos hoje em día e pouca coisa se pode fazer para evitar-o. só que os dereitos começam cuando nao agredem o dereito alheio. há um proverbio "El respeto al derecho ajeno es la paz" respieitar o seu dereito a vivir nos povos originarios fora dos museus e sem exlusao nem preconceito por parte nossa saudaçoes! Alejandro