Redação Pragmatismo
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Palestina 20/Nov/2012 às 18:00
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O desabafo de Robert Fisk, um dos maiores especialistas em Oriente Médio

Israel chama este banho de sangue em Gaza de Operação Pilares da Defesa. Pilares da Hipocrisia seria mais adequado

Por Robert Fisk

Terror, terror, terror, terror, terror. Aqui vamos nós outra vez. Israel vai “extirpar o terrorismo palestino” – coisa que afirma fazer, sem sucesso, há 64 anos –, enquanto o Hamas, a mais recente das “milícias mórbidas” da Palestina, anuncia que Israel “abriu as portas do inferno”, assassinando seu líder militar Ahmed al-Jabari.

israel palestina gaza crianças

Um homem chora a morte de quatro crianças em Gaza, na morgue do hospital Shifa

O Hezbollah várias vezes anunciou que Israel “abriu os portões do inferno” para atacar o Líbano. Yasser Arafat, que era um super-terrorista, em seguida um super-estadista – depois de adentrar o gramado da Casa Branca – e, em seguida, tornou-se um super-terrorista novamente quando percebeu que tinha sido enganado nas negociações de paz em Camp David, ele também falou das “portas do inferno” em 1982.

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E nós, os jornalistas, estamos escrevendo como ursos malabaristas de circo, repetindo todos os clichês dos últimos 40 anos. A morte de Jabari era um “ataque direcionado”, um “ataque aéreo cirúrgico” – como os que mataram quase 17 mil civis no Líbano, em 1982, os 1 200 libaneses, a maioria civis, em 2006 , ou os 1 300 palestinos, a maioria civis, em Gaza, em 2008-9, ou a mulher grávida e o bebê que foram mortos pelos “ataques aéreos cirúrgicos” na Faixa de Gaza, na semana passada. Pelo menos o Hamas, com seus foguetes Godzilla, não reivindica nada “cirúrgico”. Eles são destinados a matar israelenses – quaisquer israelenses, mulher, homem ou criança.

Como, na verdade, são os ataques israelenses em Gaza. Mas diga isso e você vai ser um nazista antissemita, quase tão mau e diabólico como o movimento Hamas, com o qual Israel negociou nos anos 80, quando incentivou esse bando de mafiosos a tomar o poder na Faixa de Gaza e, assim, eliminar o exilado super-terrorista Arafat. A nova taxa de câmbio em Gaza por mortes de palestinos e israelenses atingiu 16:1. Ele vai subir, é claro. A taxa de câmbio em 2008-9 foi de 100:1.

E estamos criando mitos também. Jabari era o “líder das sombras número 1″ do Hamas, de acordo com a Associated Press. Mas como poderia, quando sabemos sua data de nascimento, dados da família, seus anos de prisão por Israel, durante os quais ele mudou de lado, do Fatah para o Hamas? Aqueles anos de prisão não converteram Jabari ao pacifismo, não é? Bem, sem lágrimas, ele era um homem que vivia pela espada e morreu pela espada, um destino que, naturalmente, não vai afligir os guerreiros de Israel como os civis em Gaza.

Washington apoia o “direito de defesa” de Israel e reivindica uma neutralidade espúria – como se as bombas em Gaza não viessem dos Estados Unidos e como seguramente os foguetes Fajr-5 vêm do Irã. Enquanto isso, o secretário de relações exteriores da Inglaterra William Hague considera o Hamas o “principal responsável” pela última guerra. Mas não há nenhuma evidência disso. Segundo a revista The Atlantic Monthly, o assassinato por Israel de um “deficiente mental” palestino, que foi parar na fronteira, pode ter sido o estopim. Outros suspeitam que foi a morte de um menino palestino pelos israelenses, quando um grupo armado tentou atravessar a fronteira e foi confrontado por tanques. Caso em que militantes palestinos – não o Hamas – podem ter dado o pontapé inicial do jogo.

israel palestina gaza

Um exemplo de “ataque aéreo cirúrgico” contra os palestinos

Mas não há nada capaz de impedir esse absurdo, esse lixo de guerra? Centenas de foguetes caem sobre Israel. Verdade. Milhares de hectares de terra são roubados de árabes por Israel para os judeus, e somente os judeus, na Cisjordânia. Não há sequer terra suficiente agora para um Estado palestino. O problema, curiosamente, é que as ações de Israel na Cisjordânia e seu cerco de Gaza estão trazendo para mais perto o evento que as trombetas de Israel temem anunciar a cada dia: que Israel enfrenta a destruição.

Na batalha de foguetes – inclusive os Fajr-5 do Irã e os drones do Hezbollah – uma nova fronteira está sendo cruzada por ambos os lados. Não se trata mais dos tanques israelenses cruzando a fronteira com o Líbano ou a fronteira de Gaza. Trata-se dos foguetes teleguiados, os drones e os hackers de computador – e a escória humana pelo caminho será ainda menos relevante do que tem sido ao longo dos últimos dias.

A Primavera Árabe agora trilhará seu próprio caminho: seus líderes vão ter de seguir o humor de seu público. Assim, eu suspeito, será com o pobre e velho rei Abdullah, da Jordânia. E se Benjamin Netanyahu acredita que o ataque dos primeiros foguetes iranianos exige o Big Bang do Irã, e depois o Irã dispara de volta – e talvez os americanos também e depois o Hezbollah – e Obama é engolido por outra guerra entre o Ocidente e o Islã, o que acontece então?

Bem, Israel irá pedir um cessar-fogo, como faz rotineiramente contra o Hezbollah. Vai pedir de novo o apoio eterno do Ocidente em sua luta contra o Mal, Irã incluído.

E por que não elogiar o assassinato de Jabari? Por favor, esqueça que os israelenses negociaram com Jabari, através do serviço secreto alemão, menos de 12 meses atrás. Você não pode negociar com “terroristas”, certo? Israel chama este banho de sangue de Operação Pilares da Defesa. Pilares da Hipocrisia seria mais adequado.

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Comentários

  1. Mario Postado em 20/Nov/2012 às 19:35

    Hmmmm...engraçado....só aparecem fotos de crianças palestinas mortas, acho que em Israel não devem existir crianças...aqueles foguetes palestinos são de mentirinha só servem pra fazer barulho e fumaça.

    • FERNANDA Postado em 25/Jul/2014 às 15:05

      Engraçado... vc viu quantos civis morreram em Israel? quantos dessem eram crianças? se vc for pesquisar um pouco vai saber pq só aparece fotos de crianças palestinas mortas!! engraçado mesmo...

    • Emilio Postado em 04/Aug/2014 às 19:57

      Dê uma olhada nesta entrevista do filho de um general israelense. Talvez ele lhe esclareça se existem crianças em Israel. https://www.youtube.com/watch?v=ToYDesW47Wc

  2. Araújo Postado em 20/Nov/2012 às 22:14

    Israel é um estado terrorista, sanguinário. Não sobreviverá, existe por interesse americano. Para o bem da humanidade precisa ser isolado.

  3. Teodoro G. Silva Postado em 20/Nov/2012 às 23:32

    Os E. U. usam Israel como testa de ferro, para poder manter seus interesses no Oriente Médio. Parece que Israel não percebe, ou faz de conta. Relações Internacionais! Política podre...

  4. Marcelo Postado em 21/Nov/2012 às 13:06

    Robert Fisk é um grande jornalista, tem dois ótimos livros que tratam respectivamente do Oriente Médio e da Guerra Civil Libanesa. Não esperava nada menos dele..

  5. Antonio de Pádua Postado em 21/Nov/2012 às 16:00

    E quando os Palestinos matam crianças e mulheres Israelenses, não é terrorismo ? Por que jogam foguetes em Israel então ?

  6. Guilherme Augusto Postado em 21/Nov/2012 às 16:17

    Desde o início da criação do Estado de Israel o problema é simples, e poderia, inclusive, ter sido resolvido lá nos idos dos anos 40/50: a ONU ter dividido uma área e chamado formalmente de "Estado Palestino". Mas só instalaram um Estado lá (oficialmente), este que se achou no direito de ir aos poucos "ocupando e pilhando" o Estado Palestino que lá já estava instalado (a despeito de toda a longa questão mitológico-religiosa da região ser "naturalmente" do povo judeu). Naqueles anos haveria alguns estremecimentos, mas nada que durasse até hoje, se Palestina tivesse tido a mesma (eu digo a mesma, não maior) proteção que teve o Estado de Israel. Mas porque uma medida tão simples não foi implementada? Bom, aí eu sou conspiratório: eu acredito que um grupo de influentes (governos tradicionalmente imperialistas, gigantes empresários), puxados por um mais influente (aquele Império contemporâneo, à frente de e principal mentor de todos organismos internacionais, que à princípio deveriam ser neutros e de fato internacionais) mantêm um masterplan para a humanidade, em encontros seculares e secretos, que podem muito bem integrar uma sociedade secreta daquelas que estamos acostumados a ver e ouvir falar, ou podem estar organizados numa sociedade secreta, tão secreta que nunca soubemos nada a respeito. No entanto, afastando o caráter conspiratório da minha teoria, uma coisa é certa: algum interesse há por trás; ora, sempre que uma medida simples deixa de ser tomada em lugar de um estratagema complexo e duradouro, tem coisa por trás, pelo simples fato de ser inexplicável a recusa em adotar uma medida simples, por parte de um organismo teoricamente neutro como a ONU, o que evidencia mais uma vez que é só "teoricamente". Numa verdadeira omissão que opera para postergar e manter um estado de guerra que fomenta e dá lucro para muita, mas muita gente, afinal todos os setores da indústria já lucraram com a questão Israel-Palestina, desde a bélica até a cinematográfica, sem falar nas telecomunicações, na imprensa (ora, do que vivem os grandes portais sem uma guerra longe de seus países desenvolvidos e ocidentais para mostrar para seu povo um bode expiatório de toda a barbárie e o mal e manter um discurso hipócrita que esconde as mazelas e imperfeições do próprio povo ou país?).

  7. Wanderley T. Costa Postado em 22/Nov/2012 às 11:50

    Os serviços de Inteligência já conseguiram localizar e matar Saddam Hussein, Osama Bin Laden... recentemente mataram Kadafi. Por quê não conseguem identificar, localizar e matar os líderes e membros do Hamas e outros grupos terroristas? Parece até que Israel deseja que eles continuem a existir e os ameaçar. O quê realmente está por trás disso tudo?

  8. julio Postado em 22/Nov/2012 às 14:38

    Acho péssimo essa campanha anti-Israel promovido por esta página. Os muçulmanos acreditam que Abrão, Isaque, David, Salomão, etc são muçulmanos e não judeus. Eles possuem uma noção distorcida da realidade e de si mesmos. Sem contar que o Alcorão é uma cópia de outros mitos… Por que vocês não divulgam isso? Porque são desinformados. Vocês sequer entendem de política e religião. A maçonaria fundou o os Estados Unidos da América, e quem fundou a Maçonaria? Desvendem este mistério, oh, vocês que são contra Israel !!! A maçonaria controla os Estados Unidos, e este país tem papel fundamental no mundo. A ascenção americana no mundo não foi obra do acaso, patéticos, foi planejada, primeira guerra mundial, segunda guerra... Para os cristãos, Jesus Cristo acendeu aos ceús em Jerusalém... Para os muçulmanos, Maomé acendeu aos céus em Jerusalém... Não é muita coincidência??? Matem esse enígma, patéticos... O que tiver que acontecer, será.

    • Flavio Castro Montenegro Postado em 13/Jul/2014 às 10:03

      Simplesmente, hoje, os mísseis palestinos são abatidos em ar, a retaliação, com a consequente morte de civis palestinos, foi uma retaliação israelense a um ataque que culminou em feridos, enquanto, no lado palestino, centenas de mortos, por isso não vemos crianças israelenses, ou civis mortos. A guerra têm sido desproporcional, face ao elevado nível tecnológico do poderio bélico israelense. Seu motivo não é a intolerância religiosa, mas, a política territorial/expansionista de Israel levada à cabo desde sua criação, a qual se dá na faixa de Gaza, e muitas vezes apoiados pelos E.U.A. Essa guerra nada têm de ver com religião.

  9. JANDER ARRUDA Postado em 30/Nov/2012 às 12:07

    Todo, más todo os artigos que leio são contra Israel! que povo tão odiado é esse meu deus? Israel só quer o direito de existir! só isso. Deixem Israel em paz! todo os povos do mundo tem sua pátria! porque os judeus não tem direito a uma pequena faixa de terra espremida entre o mar e povos que lhe odeiam? terras essas que enclusive só eram desertos e mais desertos,ficando a parte mais fértil com os palestinos. QUE DEUS ABENÇÕE O POVO JUDEU E O ESTADO DE ISRAEL!!!!

    • FERNANDA Postado em 25/Jul/2014 às 15:11

      Deus não abençoo quem promove matança de crianças inocentes!! Depois vem com esse papinho de coitado do povo judeu sofreu tanto, os judeus sabem mais do que ninguém o que é ter suas vidas destruídas, suas familias, mas parecem que esquecem o que sofreram com o holocausto, estão respondendo com a mesma moeda.