Redação Pragmatismo
Compartilhar
Racismo não 29/Oct/2012 às 20:40
30
Comentários

A vereadora transsexual e o mendigo branco de olhos azuis

A tragédia cotidiana nas ruas expõe o valor desigual da moeda do racismo para negros e brancos. É sua essência rediviva

Eis que o novo hit das redes sociais é um mendigo-gato de olhos azuis. As moças querem levá-lo para casa, dar leitinho na boca, banhá-lo e passar talco. Semelhante ao que ocorre com os moços presos, com penas longas a cumprir, quando arranjam casamento de dentro da penitenciária. Descolam mulheres fidelíssimas, que zelarão pelo nome que o detento lhes dá, e elas, em troca, lhes darão filhos depois das visitas íntimas, que elas mesmas se encarregarão de sustentar.

mendigo branco curitiba olhos azuis

Rafael, que vive drama humano de brancos e negros, tem o poder de mobilizar sentimentos humanitários que só aos brancos é dado arregimentar. Rafael Nunes é branco demais (disseram bonito demais) para ser mendigo.

Há pouco tempo, Renato Rocha, ex-baixista do Legião Urbana, foi descoberto na condição de mendigo nas ruas do Rio de Janeiro. Ele foi famoso, teve algum dinheiro, frequentou badaladas festas de embalo, teve milhares de fãs, deve ainda tê-los, foi belo. Não me lembro de que alguém tenha querido levá-lo para casa, dar leitinho na boquinha e coisa e tal. Parece que preto mendigo, mesmo famoso, é um preto só.

As famílias de Renato Rocha e de Rafael Nunes, este o nome do mendigo caucasiano de Curitiba, têm em comum, além do fato de serem trabalhadoras, desprovidas de lastro econômico hereditário, como os demais membros do Legião, por exemplo, o fato de terem oferecido apoio aos dois filhos desgarrados da orientação familiar que um dia tiveram. Renato e Rafael, por sua vez, como diversos moradores de rua, afirmam-na como um espaço de liberdade, de fuga das normas sociais que os oprimem, além de serem usuários de drogas. Existe nestas opções, quando assim se configuram, realmente, um drama humano pouco acessível a nós, mortais de vidinha organizada e previsível.

Leia também

Um dia, encontrei um homem branco, caucasiano, em um galpão de seleção de material reciclável. Perguntei qual era a história dele. Havia sido empresário, me contaram. Faliu, perdeu tudo e abandonou a família, envergonhado. Antes disso, tomara o cuidado de passar a casa onde vivia com a família para o nome de um amigo-irmão sem vínculo de parentesco. Evitou assim, que fosse penhorada junto com os outros bens para pagar dívidas, garantiu a segurança da família que, grata, um dia o reencontrou. Foram as filhas que contaram a história à assistente social e aos poucos tentavam se reaproximar. Ele, arredio, mal cumprimentava as pessoas, apenas selecionava o lixo e nas horas vagas, lia todas as revistas e livros com os quais se deparava. Só aceitara conversar com a filha mais nova.

Já Urinólia, moça negra, trabalhadora do mesmo local, viera da Maioba, interior do Maranhão, trazida por uma família da região de Higienópolis para trabalhar na casa deles como faz-tudo e mais um pouco. Ao fim do primeiro mês de trabalho, enquanto dormia, o adolescente da casa masturbou-se em cima dela. A moça acordou, gritou assustada e naquele momento mesmo foi expulsa da casa pelos patrões. Vagou dois dias pelas ruas da cidade, bebendo restos de líquidos encontrados no caminho, até lembrar-se que tinha fome e passar a vasculhar o lixo. Depois de uma semana andando a esmo, comendo comida das lixeiras de restaurantes e procurando lugar seco para dormir, encontrou um pessoal catando latas e papelão. Perguntou se podia juntar-se a eles, foi aceita de braços abertos. Sentiu-se mais protegida, dormiam debaixo das carroças, tinham um cachorro como guardião, até que fundaram uma cooperativa e hoje ela mora num quarto de pensão, enquanto constrói a própria casa num mutirão de habitações populares.

Mas Rafael, além de viver um drama humano de brancos e negros, tem o poder de mobilizar sentimentos humanitários que só aos brancos é dado arregimentar. Refiro-me ao sentimento massivamente manifesto de que algo está fora da ordem na hierarquia da gente que vale muito e da gente que nada vale. Rafael Nunes é branco demais (disseram bonito demais) para ser mendigo.

O outro lado da moeda é Madalena, negra, transsexual, eleita vereadora em Piracicaba, interior de São Paulo, ameaçada de morte caso assuma a vaga conquistada na eleição deste ano. Uma mulher negra que além de um pênis e um rosto marcado pela vida, tem um corpo negro anti-modelo que não a habilita a desfilar em passarelas ou posar nua para revistas masculinas, como fez Roberta Close, lembram-se? Transexual branca, objeto de desejo de muitos homens socialmente heterossexuais, bem postos e moralmente conservadores, durante os anos 80. Se Roberta, Madalena fosse, tudo se resolveria pelo fetiche, mas uma preta transexual é inaceitável, como também impronunciáveis deveriam ter sido os gritos de auto-defesa de Urinólia. Madalena é preta demais, para ousar ser uma transexual legisladora numa câmara do interior paulistano.

Aqui, enquanto ouço as cordas sublimes do Ponteio afro para violoncelo, do querido Di Ganzá, apuro a motivação racial desses dramas todos. A tragédia cotidiana nas ruas expõe o valor desigual da moeda do racismo para negros e brancos. É sua essência rediviva.

Por Cidinha da Silva, em seu sítio

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook.

Recomendados para você

Comentários

  1. Ivan Postado em 29/Oct/2012 às 21:39

    Belo texto exposta de maneira bem esclarecedora e que devia ser usada em muitos pronunciamentos qdo se fala de excluídos no Brasil, realidades que o brasileiro não quer ver, que acha que a novela do dia tem um aspecto real a cada dia que passa, que acha que assistir noticiário o deixa bem informado, que critica pessoas que muitas vezes nem escolhe a vida que tem e que por diversos infortúnios acabam se vendo na sarjeta ou em condições que outros apontam o dedo para acusar.

  2. Isaac Postado em 29/Oct/2012 às 23:52

    Hoje ouvi um negro contando fatos de racismo que aconteceram com ele algum tempo atrás e outro mais recente. Hoje é mais camuflado o racismo, ou os atos são mais sutis. Mas tem muito mais de que a gente tem notícia. Realmente não há de se ter tolerância. Só queria dizer que quando acontece com alguém mais próximo se percebe mais o drama.

  3. Isaac Postado em 29/Oct/2012 às 23:54

    Não canso de dizer: parece que o mundo vai pra frente, mas tem cada retrocesso.

  4. fernando Postado em 30/Oct/2012 às 12:01

    nossa, que merda de texto é essa meu amigo

    • randao Postado em 20/Jul/2014 às 01:55

      Racista

  5. Lizamay Postado em 30/Oct/2012 às 12:48

    Essa "merda de texto", como perguntou o fernando, é a realidade do negro, que a mídia branca faz piada e desqualifica, desacredita... É a submissão ao mundo ocidental branco, que prefere que continue tudo como está e que aos negros só restem mesmo os serviços gerais, os subempregos ou mesmo as cadeias...

  6. Claudia Postado em 30/Oct/2012 às 13:46

    Ao Renato foi oferecido uma internação gratuita numa das clinicad de reabilitação mais caras do RJ. ele chegou ir até lá, gravou programa de TV e não quis ficar, não quis se tratar e preferiu voltar pra rua!!!!

  7. ramon Postado em 30/Oct/2012 às 16:18

    muito bom texto. SÓ UM ASNO não compreenderia..

  8. Daniel MM Postado em 30/Oct/2012 às 20:37

    Nessa página tem um asno.

  9. LUCAS ROVER Postado em 31/Oct/2012 às 11:29

    li os comentários antes do texto, vi uma reclamação do conteúdo... quase não li por causa disso, mas acabei lendo e afirmo: cala a boca fernando !! kk

  10. Joe Postado em 31/Oct/2012 às 11:42

    Que post horrivel e preconceituoso. preconceituoso sim, pq o cara é branco, ele não pode ser mendigo? Não tem nad aa ver ser branco, preto, rosa ou amarelo. O cara fez sucesso pq acharam ele bonito, assim como existem negros bonitos. Ponto. É só isso, não sei pq a galera adora fazer tempestade em copo dágua, qq coisa hoje em dia é "racismo". Acorda!!!

    • Gustavo S Postado em 31/Oct/2012 às 11:50

      Joe, vc definitivamente não entendeu nada. Releia o texto e abra a sua mente para além dessa perspectiva simplória.

  11. Hilário Postado em 31/Oct/2012 às 22:21

    Se fosse um mendigo negro gatão seria mais vagabundo ainda. Comentariam: Vai trabalhar vagabundo, um homem viçoso, forte, blá blá blá... o preconceito é sutil. Isso aconteceria e não adianta dizer que não. O texto não faz menção direta, ele é muito mais profundo que isso. Realmente não tem nada de superficial.

  12. Roberto Pedroso Postado em 04/Nov/2012 às 14:01

    O mais interessante e´que aqueles que dizem que "hoje em dia qualquer coisa é racismo"são BRANCOS, irônico não? Texto excelente!Se alguns não o entenderam o problema não é o texto...

  13. Narim Postado em 10/Nov/2012 às 12:39

    nem vou perder meu tempo..

  14. Roberto Pedroso Postado em 24/Nov/2012 às 11:29

    Afirmo que o Brasil só poderá de fato se tornar justo quando os problemas passarem a ser encarados de frente, pouco se fala sobre democracia racial e sempre existe uma turba de insatisfeitos prontos para criticarem as ações afirmativas de inclusão sócio- educacional destinada aos afrodescendentes, discutir a respeito dos ecos tenebrosos da escravidão suas consequências deletérias e torpes e a utilização de ações afirmativas para garantir o minimo de igualdade em uma sociedade racista e excludente, essa é uma das grandes questões de nossa atualidade.Alguns consideram a discussão sobre esses temas "perda de tempo,"estes devem estar mais preocupados com o final da novela das oito da globo.

  15. Douglas Schizate Postado em 03/Dec/2012 às 13:08

    Agora se o cara é mendigo e branco e as pessoas se espantam porque ele é bonito, e isso é racismo da sociedade??? Para com isso,e aquela moça que "estava"no lixão e virou modelo??? isso ninguem lembra e ela era negra passou até no fantastico anos atras. Mas isso não conta, agora tudo é motivo para acusar de racismo, dizer que toda a sociedade é racista, se querem acabar com o racismo só existe uma solução, é parar de querer enxegar diferenças entre as pessoas, e ficar martirizando o negro.

  16. cauim ferreira Postado em 12/Dec/2012 às 11:35

    Excelente artigo. Havendo racismo ou não no fato, um acontecimento não pode ser contestado, os valores exaltados no Brasil, tem consequências perversas. Dentre os marginalizados, somente aqueles que são "bonitos" é que existem, pela ótica da mídia que reverencia e a sociedade que aplaude, muitas vezes sem perceber. E o que significa ser "bonito" no Brasil atualmente? O que significa existir no Brasil hoje, para esta sociedade?

  17. Roberto Postado em 22/Dec/2012 às 09:02

    A grande mídia no Brasil quer fazer com que os menos atentos acreditem que existe uma democracia racial no País,fatos como "modelos descobertas em lixões , auxiliares de serviço gerais que são descobertos e transformados em modelos",isso tudo serve apenas para enganar os desatentos e fazer com que a população acredite que existem oportunidades iguais para todos independente da cor de sua pele e essa afirmação é falaciosa, obedece a um proposito pernicioso, pena que muitos não atinam para isso (continuam assistido o "Fantástico" da rede Globo achando que devemos parar de enxergar as diferenças e assim nos esquecermos dos problemas).A questão e´muito mais complexa, extensa e profunda não se refere apenas a valores estéticos.

  18. Lu Postado em 07/Jan/2013 às 18:51

    Que preguiça desse tipo de pensamento. Muitas vezes, bonito é só bonito mesmo, independente de ser branco, preto ou amarelo. Não dá pra comparar o Renato Rocha, com 50 anos e todo acabado, com esse garoto na flor da idade.

  19. Tatiane Postado em 26/Feb/2013 às 13:09

    Desculpa, mas: "O outro lado da moeda é Madalena, negra, transsexual, eleita vereadora em Piracicaba" já retrocede completamente o seu texto. Você quis dizer o que? Que Roberta Close foi melhor e teve mais oportunidades do que Madalena por ser modelo então? Ou que artistas e modelos tem um papel maior na sociedade do que militantes e políticos? Reflita. Seu próprio texto é preconceituoso. Somos todos iguais, com oportunidades idem. Cada um é o que é, ninguém é melhor por ser branco, negro, ou mais bonito. Racista e Classista é você, e pelo visto bem mal resolvido quanto á sua aparência também.

  20. Tatiane Postado em 26/Feb/2013 às 13:14

    E ah! tive mais de 4 chefes negras ao longo de minha carreira. E meu pai que era branco, trabalhou muitos anos vendendo sorvete nos trens da cptm de São Paulo e chegou á catar latinha numa época mais difícil. Parar com o coitadismo e de rebater preconceito com mais preconceito é o primeiro passo para a evolução. pense nisso.

  21. joao Postado em 10/Apr/2013 às 21:22

    Aos idiotas que não usam a mente um sonoro vai dar o cú quem sabe entrando algo ai chegue até o cérebro e consiga enxergar um palmo a frente do nariz e deixar de ser racista e reacionário.

  22. Isabel Postado em 16/Apr/2013 às 16:52

    É bom aparecer uns posts desse tipo por aqui, comprovam que nunca acharemos um espaço,ainda mais do tamanho desse site, em que dê pra concordar com tudo (o que é ótimo, afinal todo mundo pensando igual seria uma bosta). Ignorando o uso vazio da palavra "caucasiano" durante o texto todo,o que mais foi estragou uma crítica que poderia ter sido fantástica,foi a falácia da falsa dicotomia em frases como "O outro lado da moeda é Madalena, negra, transsexual, eleita vereadora em Piracicaba".Os contextos vividos peça a Madalena e o "mendigo-príncipe" como o estavam chamando nas redes,são diferentes.A pressão que a Madalena sofre é principalmente por ela deter um poder que ameaça políticos conservadores, temerosos de ver o nome de seu partido de direita,dito defensor da "moral,dos bons costumes e família tradicional" associado à uma travesti,negra,pobre.Eu não sou ingênua pra afirmar que essa adoração pelo Rafael Nunes se deve apenas ao fato dele ser bonito.Um mendigo branco,de cabelos claros e olhos azuis, mesmo em uma cidade de maioria branca como Curitiba,é algo raro e que chama atenção.Um cara com esse perfil e ainda por cima bonito, pros padrões da nossa sociedade,vai chamar mais atenção ainda.Postar uma foto dele na rede social mais utilizada por brasileiros é o passo final pro cara "viralizar" e se tornar objeto de adoração das garotinhas de 10,12,14,16,40,50 anos.Pouca foi a mobilização real para ajudar o sujeito no meio dos milhares compartilhamentos que a foto teve.O rapaz não era uma pessoa, era um objeto ou um espécime rara a se preservado a todo custo,afinal,era muita beleza desperdiçada do meio de tantos inválidos,tantos feios,tantos sujos.Quem não lembra da foto da bebê negra de olhos azuis que meia volta dá as caras no facebook como o título "A bebê mais linda do mundo"?Mais lindo pq,minha gente?De acordo com a Cidinha,isso tmb ñ seria uma forma de preconceito?"Negros de olhos castanhos,brancos de olhos azuis,sinto muito,mas vcs são muito mainstream,não têm o contraste necessário pra atender nossos padrões estéticos.Queremos esse tipo de mix,baby" Até isso teria sido um lado da moeda mais compatível com a adoração que a galera tava tendo por esse rapaz.O preconceito no Brasil é fenotípico: a mesma mão que aperta a bolsa contra o corpo qnd vê um negão mal vestido passar na rua, presta homenagem à Sheron Menezes no banheiro.Mas o texto ficou raso ao abordar apenas um aspecto do preconceito,quando podia ter abordado vários.Uma pena,vcs tmb são formadores de opinião.

  23. imobiliaria rio de janeiro Postado em 24/May/2013 às 00:13

    O preconceito nunca vai acabar.