Redação Pragmatismo
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América Latina 18/Oct/2012 às 20:45
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Saiba como as FARC resistiram por 50 anos na Colômbia

Geografia colombiana explica por que as Farc resistiram por cinco décadas. O país apresenta uma série de desafios, e as guerrilhas atuam justamente nas zonas mais remotas, marcadas pela pobreza e pela ausência do Estado

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Terreno montanhoso explica parte da longevidade das Farc. (Foto: BBC Colômbia)

Compreender os meandros do conflito entre as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o governo colombiano não é tarefa fácil, mas um detalhe crucial que explica o sucesso da guerrilha por quase meio século é a geografia do país e suas bases em montanhas.

São horas e horas de subida em uma mula, e o caminho é cada vez mais íngreme em meio aos picos do Departamento (Estado) de Cauca, reduto dos guerrilheiros e um dos territórios mais emblemáticos do conflito no país.

É um relevo que proporciona a manutenção das bases das Farc no país, servindo como “quartel-general” e corredor estratégico para movimentação. E esta é apenas uma pequena amostra de como o território colombiano é complexo, já que neste país os Andes não são uma cordilheira única, e sim três, que o atravessam de parte a parte. Outro detalhe é que as montanhas do norte não deixam nada a dever para as imensas selvas da Amazônia colombiana.

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Aviões contra montanhas

O país apresenta uma série de desafios, e as guerrilhas atuam justamente nas zonas mais remotas, marcadas pela pobreza e pela ausência do Estado. Foi exatamente nestas montanhas que há quase um ano foi abatido o então líder máximo das Farc, Alfonso Cano.

No alto da colina onde Cano se escondia no momento em que foi atacado pelas forças especiais do Exército também há pistas que podem ajudar a compreender a evolução do conflito armado.

Da casinha que servia de refúgio ao líder rebelde pouco ou nada sobrou, e alguns dos buracos produzidos pelas bombas que precederam a chegada das forças especiais ainda são visíveis em meio ao cafezal.

Os camponeses da região não esquecem o ruído das bombas nem o das numerosas aeronaves que participaram do ataque. São esses aviões e helicópteros que nos últimos dez anos deram ao Exército colombiano uma vantagem militar que agora parece irreversível. Mas entre essa vantagem e poder controlar esse vasto território há uma grande distância.

Isolamento

O Exército, por exemplo, voltou muito poucas vezes a essas colinas desde a morte de Cano.

Os pequenos grupos de guerrilheiros que se mobilizam por essas montanhas são uma presença muito mais constante. Em grande medida, este segue sendo o seu território. Sabem que estamos aqui. Estão nos observando. Para nós, porém, são uma presença invisível, protegida pelo isolamento de uma região que ainda depende de animais para se conectar com o resto do mundo.

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Alfonso Cano, ex-líder máximo das Farc, morto há 1 ano. (Foto: divulgação)

As mulas e os cavalos são fundamentais para os camponeses da região: são sua ferramenta de trabalho, sua conexão com postos de saúde, hospitais e mercados.

Tamanha é sua importância que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) decidiu enviar até aqui uma missão veterinária, acompanhada pela reportagem da BBC. Por ser esta uma zona de conflito, se o CICV não atendesse esses animais, ninguém cuidaria de sua saúde, o que teria um impacto no bem-estar de seus donos.

Outro exemplo do isolamento que às vezes é causa e consequência da extraordinária duração do conflito armado colombiano. Um isolamento que não apenas protege os rebeldes, mas que também permitiu que eles se mantivessem durante anos.

Coca e recrutamento

A falta de estradas, por exemplo, faz com que o consumo doméstico seja a razão de ser da maioria dos cultivos que se observa nas ladeiras das montanhas. E o tortuoso caminho percorrido no lombo de uma mula encarece notavelmente os poucos produtos que se pode levar aos mercados próximos.

Por isso não é de se estranhar que. entre os cultivos de café e de cana. de vez em quando se vejam pequenas plantações de coca, ainda que não tão abundantes como em outras regiões do país.

E a coca, que para muitos camponeses colombianos segue sendo o único cultivo verdadeiramente viável, se converteu também na principal fonte de financiamento da guerrilha, no combustível que permitiu manter ardendo por tanto tempo o conflito armado.

É também neste tipo de realidade que os rebeldes concentram seu trabalho de recrutamento.

Muitas vezes, usam a força. Mas frequentemente são simplesmente a opção mais atraente para jovens que não podem aspirar a quase nada. É a soma de todos esses fatores que convenceu muitos de que o conflito armado colombiano só pode terminar completamente pela via do diálogo.

E esta viagem também está deixando outra coisa bem clara: se a Colômbia quer desfrutar de uma paz duradoura, não pode se conformar com que as Farc abandonem as armas. Entre muitas outras coisas, também terá que trabalhar para que não seja tão difícil colher o café que cresce em montanhas como aquelas onde Alfonso Cano morreu.

BBC Mundo, El Chirriadero, Colômbia

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