Luis Soares
Colunista
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Desigualdade Social 10/Sep/2012 às 12:07
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Mãe é 'obrigada' a vender filhas por menos de R$ 10

Podemos culpar Purnima e outras mães que agem dessa mesma forma? Sabemos que casos como esse acontecem em outras partes do mundo onde a violência infantil é crescente e o número de crianças abandonadas ultrapassa a casa dos milhões

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Purnima vendeu filhas por não conseguir alimentá-las. Foto: divulgação

Leila Cordeiro, Direto da Redação

Li hoje num site de notícias uma história que me tocou profundamente. Uma indiana chamada Purnima Halder, de 30 anos, cuja vida é devastada pela pobreza, decidiu vender as três filhas, de 10, 8 e 4 anos, porque não tinha a mínima condição de alimentá-las.

Para completar a infelicidade de Purnima, o marido, bêbado e a violento, espancava ela e as crianças com frequência, até que num dia a boçalidade do homem chegou ao cúmulo de expulsar as quatro de casa.

Abandonada e sem dinheiro, Purnima foi parar numa estação de trem e, tomada pelo desespero, acabou decidindo vender as crianças por quantia equivalente a menos de 10 reais, para que as filhas supostamente tivessem a chance de ter uma vida melhor.

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Mal sabia ela, entretanto, que o destino das filhas seria o tráfico de crianças na região de Bengala Ocidental, onde o grave problema do tráfico humano contabiliza o desaparecimento de 15 mil crianças nos últimos anos.

Pelo menos em relação às filhas, a história acabou bem para Purnima, porque o fato chegou ao conhecimento de assistentes sociais, que conseguiram impedir a venda e encontraram um abrigo seguro para elas

Mas o desespero de Purnima me emocionou sinceramente e, durante boa parte do meu domingo, pensei no sofrimento daquela mulher ao decidir pela venda das filhas. Qual mãe poderia aguentar a dor de entregar as filhas a um estranho? Vender um filho como um objeto qualquer, mesmo que numa situação de extremo desespero, é como morrer em vida. Não haveria como esquecer um só minuto o momento da separação.

Mas aí entra o outro lado da história. Podemos culpar Purnima e outras mães que agem dessa mesma forma? Sabemos que casos como esse acontecem em outras partes do mundo onde a violência infantil é crescente e o número de crianças abandonadas ultrapassa a casa dos milhões.

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Filhas de Purnima foram vendidas por um preço equivalente a menos de R$ 6. Foto: divulgação

Talvez a história de dor e sofrimento dessa mulher indiana possa servir de alerta aos governantes indianos, terra de Mahatma Gandhi que perdeu a vida na luta pela paz e contra a pobreza em seu país. Afinal, se na India, uma das potências emergentes do BRIC acontece esse tipo de coisa, imaginemos em países muito mais pobres, onde as enormes diferenças sociais e econômicas, espalham a fome e a miséria, deixando aos sobreviventes a terrível opção de se desfazer dos filhos, como quis fazer Purnima.

Num mundo onde a maior fatia do bolo fica nas mãos de poucos, muito poucos, 1% talvez, é preciso cobrar dos dirigentes mundiais, que vivem se reunindo em cúpula disso, cúpula daquilo, uma ação verdadeiramente honesta em favor do ser humano, para que ele não seja visto apenas como um número nas estatísticas, mas como alguém que é vítima dessa absurda distribuição da riqueza.

Como mãe, torço para que a indiana Purnima possa vencer o trauma pelo qual certamente está passando e possa reconstruir sua vida ao lado das filhas, pois não existe nada mais sagrado do que o amor incondicional da mãe pelos filhos.

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Comentários

  1. João Postado em 10/Sep/2012 às 14:00

    DARLUZ Autor: Marcelino Freire (BaléRalé / Editora: Ateliê Editorial / 2a. Edição / 2003) Dei José, dei Antônio, Maria, dei. Daria. Dou. Quantos vierem. É só abrir o olho. Nem bem chorou, xô. Não posso criar. É feito gato, não tem mistério. É feito cachorro na rua, rato no esgoto. Moço, quem cria? É fácil pimenta no cu dos outros. Aí vem a madame, aí vem gente dizer: arranje um trabalho. Arranje você. Me dê o trabalho, agora. Não sei ler, não sei escrever, não sei fazer conta: José, Antônio, Maria, Isabel, Antônio. Dou nome assim só pra não me perder. Quem mais? Evoé, Evandro. Agora chamem como quiser. O filho depois ganha vida importante. Sei de um que até é doutor sei-lá-de-quê, eu estou pouco me lixando. Menino é para largar mesmo. Agora dizer que dá um peso no peito, a consciência chumbada, que nada, não tem essa. Vem você morar nesse buraco. Vem você dar um jeito no mundo, repartir seu quarto. Nunca. Esse olho é irmão desse. Veja, Maria, pôs Jesus no mundo, filho do Espírito Santo. O Pai largou. Você viu como José sumiu, se evaporou? Maria é que foi lá, no pé da cruz, se arrepender. Eu, não. Eu quero mais é distância. Você ter filho chorando, no seu pé. Fome, está escutando? Fome. O que você faz com a fome, tem remédio? Agora é fácil opinar nesse bê-a-bá. Sei que quando morrer não vou para o inferno, já estou aqui. Só saio daqui para outro canto. Falo isso para o Altamiro, ele ri. Meu quarto marido, o Altamiro. Porra de marido. Só tem homem vagabundo no mundo. Por isso salvo os meninos. Faço mais do que o governo faz. Faço e dou destino. Dou, dou, dou. Vendi a Beatriz no farol. A moça que comprou chorava de dar dó, um nó. A moça do carro abriu o vidro, o marido pagou e zum. Para nunca mais, como um vento. Para nunca mais, um esquecimento. Cicatrizo tudo, entende? Meu corpo está vacinado. Agora a mulherada de hoje, na frescurinha. Ultra-som, escutar a batidinha do coração. Dão muita importância para o amor. Amor, quem me deu? Altamiro, esse porco? Já viu amor entre porco, entre sapo, entre pombo? Aí dizem que o pombo é bonito porque o pombo se empomba, porque o pombo corre atrás da pomba. Fico só vendo esse derramamento. Bom é pombo assado e pronto. Pombo melhor do mundo. Pombo para necessidade e acabou. Dizer que ninguém abandona ninguém, que toda mãe é mãe até o fim, tá aqui, ó. Sou mais mãe que muita mãe por aí. Leva o filho para escola e abandona. Leva o filho para o shopping e abandona. Para a puta que pariu e abandona. Pelo menos fui corajosa, não fui? Tive peito, não tive? Fala. Quem assume essa postura, qual o filho da mãe? Vai, diz. Quem, menina? Agora deixar florzinha morrer murcha. Já vendi até leite do peito, você acredita? Vendo. Teta, treta, entende? Alimentei aí um bichinho que a mãe não quis dar pra ninguém. Fica ali, agarrando o filho na miséria, pode? Peito tá morto, não tem leite? Eu dou, mas cobro. Troquei por um sofá, não lembro. Fiz negócio. Quero ver quando esta peste crescer, quero ver. Só de saber que meu leite ajudou esse diabo a se foder. E tem mais. Todo mundo é solidário. Mas na hora, olha, o povo é foda. Vem aconselhar pílula, distribuir planejamento. Quero saber o que fazem com nosso sofrimento. Vai, quem diz? Quem já foi infeliz? A moça do carro, a moça que levou Beatriz, chorava naquele momento. Mas hoje é hoje. Hoje é outro tempo. Agora esse filho de uma jumenta vem pra cima de mim, o Altamiro. Marido merda, entende? Vem aqui, tira o caralho do corpo, bêbado. Eu aguento. Tenho mais pena do caralho dele do que de José, Antônio, Paulo, Juscelino. Melhor que ter filho morto, tenho esse orgulho. Todos nasceram vivos. Dou, dou, dou, Altamiro.