Luis Soares
Colunista
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Religião 24/Sep/2012 às 12:58
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Leonardo Boff: A origem do poder absolutista dos Papas

Poder monárquico dos Papas criam obstáculos praticamente intransponíveis para o diálogo ecumênico com as outras Igrejas. Saiba como tudo começou

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Papa Bento XVI, o ‘todo poderoso da vez’. Foto: divulgação

Por Leonardo Boff

Escrevíamos anteriormente neste espaço que a crise da Igreja-instituicão-hierarquia se radica na absoluta concentração de poder na pessoa do Papa, poder exercido de forma absolutista e distanciado de qualquer participação dos cristãos, criando obstáculos praticamente intransponíveis para o diálogo ecumênico com as outras Igrejas.

Não foi assim no começo. A Igreja era uma comunidade fraternal. Não havia ainda a figura do Papa. Quem comandava na Igreja era o Imperador pois ele era o Sumo Pontífice (Pontifex Maximus) e não o bispo de Roma ou de Constantinopla, as duas capitais do Império. Assim o imperador Constantino convocou o Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia (325) para decidir a questão da divindade de Cristo.

Ainda no século VI o imperador Justiniano que refez a união das duas partes do Império, a do Ocidente e a do Oriente, reclamou para si o primado de direito e não o do bispo de Roma. No entanto, pelo fato de em Roma estarem as sepulturas de Pedro e de Paulo, a Igreja romana gozava de especial prestígio, bem como o seu bispo que diante dos outros tinha a “presidência no amor” e o “exercia o serviço de Pedro” o de “confirmar na fé” e não a supremacia de Pedro no mando.

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Tudo mudou com o Papa Leão I (440-461), grande jurista e homem de Estado. Ele copiou a forma romana de poder que é o absolutismo e o autoritarismo do Imperador. Começou a interpretar em termos estritamente jurídicos os três textos do Novo Testamento atinentes a Pedro: Pedro como pedra sobre a qual se construiria a Igreja (Mt 16,18), Pedro, o confirmador da fé (Lc 22,32) e Pedro como Pastor que deve tomar conta das ovelhas (Jo 21,15). O sentido bíblico e jesuânico vai numa linha totalmente contrária: do amor, do serviço e da renúncia a toda supremacia.

Mas predominou a leitura do direito romano absolutista. Consequentemente Leão I assumiu o título de Sumo Pontífice e de Papa em sentido próprio. Logo após, os demais Papas começaram a usar as insígnias e a indumentária imperial (a púrpura), a mitra, o trono dourado, o báculo, as estolas, o pálio, a cobertura de ombros (mozeta), a formação dos palácios com sua corte e a introdução de hábitos palacianos que perduram até os dias de hoje nos cardeais e nos bispos, coisa que escandaliza não poucos cristãos que leem nos Evangelhos que Jesus era um operário pobre e sem aparato. Então começou a ficar claro que os hierarcas estão mais próximos do palácio de Herodes do que da gruta de Belém.

Mas há um fenômeno para nós de difícil compreensão: no afã de legitimar esta transformação e de garantir o poder absoluto do Papa, forjou-se uma série de documentos falsos. Primeiro, uma pretensa carta do Papa Clemente (+96), sucessor de Pedro em Roma, dirigida a Tiago, irmão do Senhor, o grande pastor de Jerusalém. Nela se dizia que Pedro, antes de morrer, determinara que ele, Clemente, seria o único e legítimo sucessor. E evidentemente os demais que viriam depois. Falsificação maior foi ainda a famosa Doação de Constantino, um documento forjado na época de Leão I segundo o qual Constantino teria dado ao Papa de Roma como doação todo Império Romano.

Mais tarde, nas disputas com os reis francos, se criou outra grande falsificação as Pseudodecretais de Isidoro que reuniam falsos documentos e cartas como se viessem dos primeiros séculos que reforçavam o primado jurídico do Papa de Roma. E tudo culminou com o Código de Graciano no século XIII tido como base do direito canônico, mas que se embasava em falsificações de leis e normas que reforçavam o poder central de Roma, não obstante, cânones verdadeiros que circulavam pelas igrejas. Logicamente, tudo isso foi desmascarado mais tarde sem qualquer modificação no absolutismo dos Papas. Mas é lamentável e um cristão adulto deve conhecer os ardis usados e forjados para gestar um poder que está na contra mão dos ideais de Jesus e que obscurece o fascínio pela mensagem cristã, portadora de um novo tipo de exercício do poder, serviçal e participativo.

Verificou-se posteriormente um crescendo no poder dos Papas: Gregório VII (+1085) em seu Dictatus Papae (“a ditadura do Papa”) se autoproclamou senhor absoluto da Igreja e do mundo; Inocêncio III (+1216) se anunciou como vigário-representante de Cristo e por fim, Inocêncio IV(+1254) se arvorou em representante de Deus. Como tal, sob Pio IX em 1870, o Papa foi proclamado infalível em campo de doutrina e moral.

Curiosamente, todos estes excessos nunca foram retratados e corrigidos pela Igreja hierárquica. Eles continuam valendo para escândalo dos que ainda creem no Nazareno pobre, humilde artesão e camponês mediterrâneo, perseguido, executado na cruz e ressuscitado para se insurgir contra toda busca de poder e mais poder mesmo dentro da Igreja. Essa compreensão comete um esquecimento imperdoável: os verdadeiros vigários-representantes de Cristo, segundo o Evangelho (Mt 25,45) são os pobres, os sedentos e os famintos.

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Comentários

  1. PEDRO SÁ Postado em 01/Nov/2012 às 23:24

    Esse ex frei, EXPULSO da Igreja Católica, deveria ficar calado, pois só fala e escreve MERDA. É o mesmo que criou e Teoria da Libertação, uma CÓPIA BARATA E VERGONHOSA DO MARXISMO. Ele teve a coragem de dizer que Jesus era Comunista. Quantas pessoas Jesus matou ? NENHUMA

    • Antonio Carlos Postado em 08/Oct/2013 às 15:43

      Quem disse que ser comunista é ser matador amigo? Tá certo que o comunismo de Max não funcionou, mas isto por outras milhares de razões, o que não justifica a forma ofensiva praticada pela pessoa do Leonardo Boff. Leonardo está corretíssimo nas afirmações acima citadas. Jesus não está sendo representado por esse governo papal e absolutista. A doutrina de Jesus é: Aquele que quiser vir a mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me". O que está sendo pregado no vaticano desde Leão I nada mais que um autoritarismo desenfreado e sutil onde a maioria dos seguidores nao dão conta do que verdadeiramente ocorre. Razão essa que o papa Francisco, que embora não é da mesma linha de fé que tenho, conquistou a minha confiança devido a sua forma muito mais humilde e abrangente nesse tratamento. Fique ciente, amigo, que o que mais nos tem preocupado nesses ultimos dias é a cegueira com que as pessoas lidam com o óbvio.

  2. Maria Sônia Aguiar Postado em 21/Nov/2012 às 13:03

    Pedro Sá, vc está por fora de td. Precisa ler mais, estudar mais pra depois colocar opinião seja sobre o que for. Na filosofia de Jesus e na a filosofia de Marx, há muito em comum, principalmente sobre a igualdade entre os homens, coisa que ambos pregavam. Comunista não é matador, leia mais sobre a filosofia de Marx e ficará sabendo de coisas que nem a Igreja , principalmente a católica, nem os governos deixam as pessoas ficarem sabendo mais sobre o assunto porque, isso não é bom nem pra um nem para o outro, vai contra interesses de ambos.Leia também sobre a Teoria da Libertação, e aí sim vc vai ter como debater o assunto. Do jeito que vc se apresenta em seu comentário, pobre de argumentos, demonstrando total ignorância dos fatos, nem podemos ter o trabalho de respondê-lo.

  3. maria costa Postado em 05/Dec/2012 às 16:10

    Muito bom seu texto, Frei Leonardo,o senhor conta com minha simpatia. Admiro os que não têm medo de dizer a verdade, mesmo à vista de um sistema corrupto, falido, mentiroso e fracassado, que agora quer recuperar fiéis através das redes sociais... Bom, continue a escrever, serei sempre sual mais ardorosa leitora. Com carinho Maria.

  4. José de Souza Batista - zequinha Postado em 16/Feb/2013 às 21:02

    Exatamente por revelar a impureza do romanismo e falta de originalidade em seu dito "cristianismo", Leonardo Boff foi punido com "silêncio obsequioso", forma sutil, polida e moderna de calar a boca. Na realidade, o romanismo se vale da religião para usufruir e desfrutar das benesses políticas e econômicas, oferecidas pelo poder. Se, na realidade, os "papas e bispos", fossem de fato cristãos, deveriam imitar o Mestre, assim como deu exemplo Paulo, que disse:"SEDE MEUS IMITADORES COMO EU SOU DE CRISTO". Quem, dentro da hierarquia romanista, tem coragem de dizer tais palavras? Boff está corretíssimo, pois é profundo conhecedor da história nada santa da "madre igreja", que de igreja, a rigor, não tem nada, pois o sentido semântico-etimológico do termo quer dizer, "congregação, assembléia, reunião, ajuntamento, dos que crêem". Ele mesmo disse em entrevista ao Jornal Zero Hora, de Porto Alegre-RS, que " a história da igreja é política e escabrosa, com papas ladrões, assassinos e assassinados...." A realidade é que o povão, é enganado e conduzido, como diz a Palavra de Deus, "como ovelhas mudas para o matadouro", pelos insensíveis condutores romanistas, que, a exemplo dos fariseus dos dias de Jesus, "gostam de serem saudados nas praças, com suas roupagens vistosas mas, interiormente, como sepulcros caiados". Se alguém tiver dúvidas, que pesquise a história da instituição romana com seus meios de impor seus domínios, e estender, assim seus conhecimentos, conhecendo a vergonhosa postura de muitos dos seus chamados "sua santidade", pesquisas que, provavelmente, mudarão a forma de pensar e o conceito acerca desta entidade política, que têm em seu chefe, um líder de estado.

  5. Fritz Mendonça Postado em 19/Feb/2013 às 17:14

    Pedro Sá, aprenda, a Igreja Católica matou muito mais gente que o comunismo. Jesus foi muito mais um comunista, ou um anarquista, no sentido que é pregado por Liev Tolstói, do que Católico. A Igreja Católica seria a primeira a repudiar um Cristo que voltasse à terra. Tudo bem, talvez não primeira; todas as igrejas se dizem cristãs, mas não o são. Mas a frase que realmente fica é a de que tanto a teoria marxista quanto a prática de Cristo foram mal interpretadas, e tenderam a projetos institucionais de poder. Cristo era anárquico, aceitador das diferenças, questionador dos poderes instituídos à sua época.