Luis Soares
Colunista
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Academia 06/Sep/2012 às 12:25
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O desabafo de José Saramago sobre privatizações: Privatize-se tudo!

“Para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo…”

josé saramago privatizações

Falecido escritor José Saramago. Foto: reprodução

O texto abaixo trata-se de um registro de José Saramago, sobre as privatizações, em Cadernos de Lanzarote – Diário III, págs. 147 e 148.

Eis o texto:

“Regressados de uma viagem à Argentina e Bolívia, os meus cunhados María e Javier trazem-me o jornal Clarín de 30 de Agosto. Aí vem a notícia de que vai ser apresentada ao Parlamento peruano uma nova lei de turismo que contempla a possibilidade de entregar a exploração de zonas arqueológicas importantes, como Machu Picchu e a cidadela pré-incaica de Chan-Chan, a empresas privadas, mediante concurso internacional.

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Clarin chama a isto “la loca carrera privatista de Fujimori”. O autor da proposta de lei é um tal Ricardo Marcenaro, presidente da Comissão de Turismo e telecomunicações e Infra-Estrutura do Congresso peruano, que alega o seguinte, sem precisar da tradução: “En vista de que el Estado no ha administrado bien nuestras zonas arqueológicas – qué pasaría si las otorgaramos a empresas especializadas en otros países con gran efectividad?

A mim parece-me bem. Privatize-se Machu Picchu, privatize-se Chan Chan, privatize-se a Capela Sistina, privatize-se o Pártenon, privatize-se o Nuno Gonçalves, privatize-se a Catedral de Chartres, privatize-se o Descimento da Cruz, de Antonio da Crestalcore, privatize-se o Pórtico da Glória de Santiago de Compostela, privatize-se a Cordilheira dos Andes, privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.”

Cadernos de Lanzarote

Os Cadernos de Lanzarote são a reunião dos diários de José Saramago escritos no período de 1993 a 1995 na ilha de Lanzarote, arquipélago das Canárias onde ele viveu com sua mulher Pilar.

A melhor definição de diário é do próprio Saramago neste livro:

Por muito que se diga, um diário não é um confessionário, um diário não passa de um modo incipiente de fazer ficção. Talvez pudesse chegar mesmo a ser um romance se a função da sua única personagem não fosse a de encobrir a pessoa do autor, servir-lhe de disfarce, de parapeito. Tanto no que declara como no que reserva, só aparentemente é que ela coincide com ele. De um diário se pode dizer que a parte protege o todo, o simples oculta o complexo. O rosto mostrado pergunta dissimuladamente: Sabeis quem sou?, e não só não espera resposta, como não está a pensar em dá-la.

Pragmatismo Politico

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Comentários

  1. Helder Postado em 06/Sep/2012 às 16:42

    "...E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.”

  2. jair da silva nascimento Postado em 07/Sep/2012 às 11:36

    tenho em mente que alguma mente bilhante nao estao mais aqim mais continua ais decomrberta dele um que ele pessava sobre o bem esta de quem trabalha /saramago fala sobre a privativascao do estado /

  3. Saulo Postado em 07/Nov/2012 às 06:40

    Saramago é fenomenal!

  4. Antônio Postado em 08/Nov/2012 às 21:21

    Fantástico!

  5. Antonio Neto Postado em 13/Nov/2012 às 17:36

    No Maranhão dever-se-ia começar por privatizar o Senador José Sarney, assim seria ele destituído da condição de senador vitalício do Brasil. Em seguida, e para que não se cometa a injustiça de deixá-lo sem o merecido prêmio de consolação, dever-se-ia privatizar o Estado do Maranhão e entregá-lo, por uma quadra mínima de dois séculos, renovável por igual período, ao decano dos coronéis, para que possa ser usado por ele como reserva de domínio exclusiva, área de caça, herdade ou fazenda sua. Antonio Neto, 47 anos, CPF 235.220.203-59, Professor.

  6. Julio Postado em 28/Jun/2013 às 16:56

    Colocar a família Sarney em um museu, toda empalhada ... Assim eu acho que o Maranhão começa a avançar. MAs o povo não tira essas sanguessugas gordas de cima do erário, aí fica difícil!!