Redação Pragmatismo
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Democratização Comunicação 13/Sep/2012 às 12:39
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Comentários

Síndrome Jango impede fim dos abusos na Televisão Brasileira

Os governos brasileiros sofrem, na radiodifusão, da síndrome Jango. Quando a lei entrou em vigor, João Goulart era o presidente da República. Pouco tempo depois, esses mesmos radiodifusores, aliados a setores da mídia, obtiveram outra vitória: derrubaram o presidente e apoiaram a ditadura

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Alexandre Frota no programa ‘Conversa de Gente Grande’, da tv bandeirantes. Foto: Band

Crianças fazendo perguntas de adultos para “celebridades” surgiram como nova atração da Bandeirantes nas noites de domingo. Concorriam com Faustão na Globo, Silvio Santos no SBT e Gugu na Record, evidenciando que o controle remoto não serve mesmo para nada. Troca-se de canal, mas o nível continua o mesmo.

A Bandeirantes tentou inovar, e acabou colocando no ar um programa chamado Conversa de Gente Grande. Constrangedor. Menores de 12 anos entrevistavam “celebridades” com perguntas – algumas claramente formuladas pela produção do programa – destinadas a provocar risadas nos adultos.

Para Alexandre Frota, uma criança perguntou como tinha sido “a primeira vez”. Outra quis saber se Sabrina Sato havia feito “o teste do sofá” para trabalhar na TV. Como se nota, a escolha dos entrevistados e das perguntas enquadra-se perfeitamente no artigo da Constituição que estabelece preferência, nos programas de rádio e TV, para conteúdos com “finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas”.

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O que fazer? Infelizmente muito pouco. Não há para quem reclamar. No Brasil, ao contrário do que acontece nas grandes democracias do mundo, não existe um órgão regulador capaz de ouvir o público e dialogar com as emissoras. A existência desse órgão foi prevista em alguns dos 19 anteprojetos de lei para o rádio e a televisão, elaborados desde os anos 1980, nunca levados adiante. Continuamos com a mesma legislação que, em 27 de agosto, completou 50 anos.

Os governos brasileiros sofrem, na radiodifusão, da síndrome Jango. Quando a lei entrou em vigor, João Goulart era o presidente da República. Ele vetou 52 artigos do texto aprovado no Congresso, a maioria de interesse dos radiodifusores. No entanto, de forma inédita, o Parlamento brasileiro derrubou os vetos presidenciais, mostrando, em 1962, uma força até hoje inabalável.

Menos de dois anos depois, esses mesmos radiodifusores, aliados a outros setores da mídia, obtiveram uma vitória maior: derrubaram o presidente da República, integrados que estavam ao movimento civil-militar de 1964. Essa talvez seja a razão principal da timidez de todos os governos, de lá para cá, levar adiante o debate em torno de uma nova lei para a radiodifusão.

Há 50 anos o Brasil tinha 71 milhões de habitantes e só 5% possuíam um aparelho de TV. Hoje somos quase 200 milhões e a televisão está em 98% dos domicílios. Hábitos, valores e costumes eram bem diferentes. A pílula anticoncepcional não havia sido inventada nem a minissaia era moda. Era um país rural, com 80% da população morando no campo. Hoje é o inverso, mas a lei permanece a mesma. Sem falar das diferenças tecnológicas. O videoteipe era a grande novidade, permitindo, por exemplo, que Chico Anísio contracenasse com ele mesmo, e os jogos da Copa do Mundo no Chile pudessem ser vistos aqui, no dia seguinte. Tudo em preto e branco.

Uma lei feita para aquele momento é incompatível com os tempos atuais. Por ser tão desatualizada não regula nada e permite abusos. Como o aluguel de horários para igrejas, a propriedade de vários meios de comunicação por um mesmo grupo empresarial, a falta de diversidade nas programações, a renovação das concessões de rádio e TV sem debate público, entre outras aberrações.

É óbvia a necessidade de uma lei de meios. Aliás, ela já está pronta há muito tempo. Há contribuições, por exemplo, dos ministros Sergio Motta e Juarez Quadros, dos governos Fernando Henrique, e, mais recentemente, do ministro Franklin Martins, no segundo governo Lula. Mas aí entra em cena a síndrome Jango. O poder político das empresas de comunicação – ferozes adversárias das mudanças – atemoriza os governos, tornando-os reféns do atraso. E o telespectador, vítima da TV, não tem para quem reclamar quando vê uma criança perguntando a uma “celebridade” como foi a sua primeira relação sexual.

Laurindo Leal Filho, Revista do Brasil

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Comentários

  1. João Postado em 13/Sep/2012 às 13:12

    Liberdade de expressão. Lidem com isso.

  2. Adalberto Postado em 13/Sep/2012 às 14:58

    Eu vomitei um pouco ao ler isso aí. Mas defendo o direito desse pobre diabo de postar e defender essas atrocidades, pois acredito na liberdade de expressão. MEsmo quando é usada para falar uma merda tão colossal.

  3. Leandro Coelho Postado em 13/Sep/2012 às 15:20

    Lamentavelmente estava passando por um televisão ligada no momento em que o programa de Marcelo Taz estava no ar. O convidado era o (ex?) ator de filmes pornô Alexandre Frota. Não pude acreditar quando vi uma criança aparentando seus oito anos de idade pegar o microfone e perguntar ao convidado se ele já havia brochado quando em cena de um filme pornô. Alexandre Frota ficou sem ação. Seu semblante demonstrava sua incredulidade. Marcelo Taz, por sua vez, gargalhava sem parar. O menino sorria, tal como uma foca de circo, olhando à sua volta, espantado e rindo com a reação inesperada de todos presentes diante de sua pergunta decorada. Não sei se ele já sabia o que significava brochar e um filme pornô. É triste constatar que, hodiernamente, uma criança de sua idade tem todos os meios de comunicação unidos, em horário nobre, para lhe ensinar o significado das duas palavras. Porém, as emissoras de televisão estão se aperfeiçoando, e, hoje, fazem vítimas presenciais. Tiram as crianças de suas casas e as levam a um estúdio de televisão para, diante dos pais (cúmplices) ensiná-las o significado dos termos que só deveriam aprender quando mais maduros, e adestrá-las a fazer as "inocentes" perguntas. E agora só resta a pergunta: e o que vem por aí?

    • Thayssa Postado em 21/May/2014 às 13:01

      me pergunto qual a diferença entre isso q vc relatou e o discurso que se propaga na televisão brasileira sobre casamento, adultério, sexo e outros temas relacionados... outro dia vi uma cena na novela das 8 em que as duas personagens lésbicas se abraçavam semi-nuas numa praia deserta (apareceram de costas, é claro, mas estavam apenas de calcinha)... se vcs acham um absurdo uma criança fazendo essa pergunta para o alexandre frota, saibam q essa mesma criança tem grandes chances de assistir a novela das 8 da globo...

      • Daniel Postado em 29/Aug/2014 às 19:55

        A novela da Globo começava às 9, hira emq pais responsáveis já colocaram os filhos pra dormir, pq afinal de contas, na manhã seguinte ela tem q ir pra escola. Além disso, novela ñ é um programa infantil...por isso passa das 21:00 às 22:00 e ñ das 9:00 às 10:00

  4. Bruno Postado em 15/Sep/2012 às 15:13

    Mais análise e menos papo de bar, por favor.

  5. Rafael Corso Postado em 16/Sep/2012 às 10:08

    "liberdade de expressão" de algumas famílias e de algumas regiões...de alguns interesses estabelecidos...e que lesa o que está escrito na constituição sobre os deveres dos meios de comunicação........monopólio não é liberdade de expressão....

  6. Guilherme Postado em 16/Sep/2012 às 11:47

    As pessoas parecem replicantes. Papagaios, que do bichinho herdaram a capacidade de repetir, e dos humanos, herdaram a capacidade de falar concatenadamente, o cérebro não faz parte da herança. Então essas pessoas andam por aí com frases feitas e ecomendadas, perfeitamente preparadas em pacotinhos que a mesma imprensa que abomina uma lei de regulamentação fornece a eles. Quer dizer, você financia o seu exército dando as armas para ele, óbvio, mas o soldado não precisa pensar, ele só precisa obedecer e usar a arma. Daí esses sujeitos saem por aí atirando demagogias do tipo "liberdade de expressão, deal with it, bitch". Ora, não precisei refletir muito, nem sequer exigir muito do meu cérebro (pq eu herdei um), não foi grande obstáculo para mim concluir que: lei de regulamentação a uma Imprensa irresponsável e censura são coisas ABSURDAMENTE diferentes. Censura, aliás, é para o que esta mesma imprensa irresponsável contribuia na época da Ditadura Militar no Brasil. Nunca mais esqueci a diferença entre liberdade e libertinagem: não sou religioso, mas estudei em colégio de freiras, certa feita, numa aula de ensino religioso a freira perdeu as estribeiras com a sala, nem Deus segurou, e ela dando um come na sala disse que nós estávamos confundindo liberdade com libertinagem. Bom, ela era histérica, e nós éramos crianças encapetadas. Depois disso ficamos fazendo sarro dela gritando com a sala a diferença entre liberdade e libertinagem, e por isso nunca mais esqueci. E tomando o hábito da freira, mas sem o dogmatismo religioso, e com certeza de que tenho razão e não estou cometendo um excesso, eu digo para a Imprensa brasileira: vocês estão confundindo liberdade com libertinagem.

  7. Synara Postado em 02/Oct/2012 às 17:10

    Não vou entrar no mérito da qualidade do programa nem do texto do jornalista, apenas informá-lo e aos demais que HÀ, SIM, a quem reclamar: Departamento de Justiça, Classificação, Qualificação e Títulos (DEJUS), do Ministério da Justiça. O sr. Laurindo e quem mais se interessar pode entrar em http://portal.mj.gov.br/data/Pages/MJ6C4030FEITEMID6637B07519324BB2A62C77E5918D7CF2PTBRNN.htm e baixar o "Procedimento de monitoramento de programação televisiva: Reclamações, Ação ex officio, etc" A partir daí é só ler como fazer para recorrer.

    • Francisco Postado em 09/Jun/2014 às 14:10

      Uma conhecida trabalhou na classificação. Histórias engraçadas. Ganhar briga de tubarão da imprensa nunca foi uma delas.

  8. Roberto Pedroso Postado em 29/Nov/2012 às 11:15

    Liberdade de expressão é uma coisa,mas o que as emissoras de sinal aberto fazem no Brasil é no minimo discutível:a exploração da imagem de crianças a pesada publicidade direcionada ao publico infantil a forma como alguns programas exploram a figura da mulher,o modo como alguns programas ditos humorísticos debocham das minorias e usam pessoas pobres e miseráveis para realizam"brincadeiras"humilhantes ademais a homogenização da programação das emissoras em determinados horários faz reacender o debate sobre um maior controle da sociedade civil organizada sobre o que é exibido nas tvs de sinal aberto pois em muitos países da Europa se tem esse tipo de controle não se trata de censura e sim uma forma de manter um nivel minimamente aceitável da qualidade da programação das emissora de sinal aberto pois sabemos que as emissoras de televisão são afinal de contas concessões publicas e por esse motivo devem manter o minimo de respeito aos cidadãos.

  9. Igor Nascimento Postado em 10/Dec/2012 às 19:11

    Surpreso com a quantidade de analfabetos funcionais comentando aqui. De qualquer forma, é históricamente preocupante o fato de sermos completos reféns da mídia e ainda endossar tal condição. Penso que uma revolução anti-mídia é necessária, pra que se estabeleça de uma vez um marco regulatório pra imprensa a fim de que as emissoras citadas tenham suas orelhas puxadas pro fato de tais serem APENAS concessões, já que o governo tem sido covarde e negligente.

  10. Grego79 Postado em 11/Nov/2014 às 00:53

    No fim do golpe militar eu tinha cinco anos e lógico não sei na pratica o que foi a ditadura, mas imagino mais ou menos como foi. Só que, quando "vejo" uma mídia áudio visual ou uma revistinha que nos ordena a ver, falando da ditadura e o valor da liberdade, sinto que falam a favor deles e só. O povo não tem liberdade e ainda vive sob uma ditadura, a ditadura midiática. O povo é culpado e submisso, a bela maioria! O povo pode se unir para reivindicar a regulamentação da mídia urgente, mas não, saem para pedir liberação de drogas, pedir Impeachment, pedir um novo golpe militar!!! Ah povo!