Luis Soares
Colunista
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Meio Ambiente 07/Aug/2012 às 14:44
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Professor da USP sobe em árvore para impedir destruição

O professor diz que, caso a empresa volte, subirá de novo nas árvores contra o corte. Segundo a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, o serviço será feito ainda nesta semana

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Professor sobe em árvore para impedir poda

O historiador e professor da USP Henrique Carneiro, de 52 anos, acordou ontem com o som de motosserras podando árvores da Praça Laerte Garcia da Rosa, perto da sua casa, no Jardim Rizzo, Butantã, zona oeste. Preocupado com os fícus, seringueiras e amoreiras, que, segundo ele, já haviam sido podados indiscriminadamente na sexta-feira, Carneiro saiu correndo, mas era tarde. Uma das árvores tinha perdido três partes do tronco e funcionários da empresa contratada para o serviço seguiam na direção de outra. Como seus argumentos pareciam não convencê-los, o professor subiu na árvore e se recusou a sair até desistirem de cortá-la.

A reportagem é publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 07-08-2012.

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Alguns riram de mim, outros até concordaram. As árvores estavam saudáveis, não atrapalhavam a rede elétrica e a ordem era de poda generalizada. Esse tipo de ação é irreparável. Depois de cortadas, nada poderia ser feito”, afirma. “A herança brasileira é de destruição do verde, a começar pela Mata Atlântica. Há uma cultura ‘antiárvore’, as pessoas parecem ter horror ao verde. O que houve aqui foi crime, atentado ao espaço verde e lúdico.”

Segundo a Subprefeitura do Butantã, um pedido de poda foi feito ao Conselho de Segurança do bairro. A poda, no entanto, seria de uma única seringueira e não das 15 árvores podadas pelas motosserras. A justificativa seria garantir a segurança do local com mais luminosidade – argumento compartilhado por alguns moradores.

“Essa praça é uma escuridão só. Ficamos preocupados com assalto. Concordo com a poda”, disse a aposentada Claudette Franco, de 66 anos, vizinha de Carneiro e da praça. “Precisamos de ar, verde, mas tudo que é exagerado deve ser questionado”, afirmou a também aposentada Marlene Marcondes, de 77.

Para o artista plástico Ivan Pereira, de 72 anos, a segurança é uma preocupação, mas outra solução poderia ter sido encontrada. “Precisamos de iluminação, mas o que fizeram aqui não foi poda, foi estupidez. Tenho uma foto do meu filho brincando naquela árvore quando ainda era uma criança. Cortaram 30 anos de história.”

A subprefeitura garante que, antes da execução dos serviços, agrônomos fazem vistoria e elaboram laudo técnico sobre a condição das árvores. Ainda segundo o órgão, podas são feitas quando as árvores apresentam más condições, estão prestes a cair ou interferem na fiação elétrica.

Durante todo o dia, Carneiro e sua mulher, Sílvia Miskulin, de 41 anos, também historiadora e professora universitária, ficaram de prontidão para evitar a poda. Eles procuraram vizinhos para pedir apoio e enviaram denúncia ao Ministério Público. O professor diz que, caso a empresa volte, subirá de novo nas árvores contra o corte. Segundo a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, o serviço será feito ainda nesta semana.

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Comentários

  1. Fernando Postado em 08/Aug/2012 às 10:51

    Em 1976 um fato semelhante a este aconteceu em Porto Alegre em frente à faculdade de Medicina da UFRGS. Um estudante indignado com a maneira como a CEEE - companhia estadual de energia elétrica - punham abaixo as árvores que "atrapalhavam" a fiação elétrica. A PM foi chamada e a confusão generalizou-se. Os estudantes todos a favor do rapaz encarapitado na árvore, a PM gritando lá embaixo ameaçando. Naquela época, da ditadura, cometer um ato destes era cadeia, na certa. Logo chegou uma figura embemática do RS quando o assunto é defesa do meio-ambiente: José Lutzemberger. Depois de muita negociação a árvore foi poupada e a barra do estudante foi aliviada mas ele foi detido para averiguações - vai ver que pensaram que era uma nova forma de manifestação comunista. Depois desse episódio, a comunidade começou a olhar com mais atenção e carinho para suas árvores e jardins públicos. Anos depois, assistindo a um programa sobre ecologia na TV, este episódio foi citado como sendo o marco inicial da preservação ambiental no Brasil. Se é verdade eu não sei. Mas eu estava lá e vi de perto.

  2. Maria Helena Fioranelli Postado em 08/Aug/2012 às 18:11

    Parabéns professor pela consciência diante da escuridão coletiva e institucional.Viver um paìs de verdade requer atitude como a sua. Brasil beira à comodidade e banalização frente a assuntos tão relevantes como este. Estranha e retrògadamente ptamos por fios elétricos medonhos no lugar do verde como se a visão destes fosse natural e demos lugar a uma paisagem bizarra, feia que rasga o céu de nossas cidades.. Um emaranhado absurdo no lugar de majestosas àrvores. Valor compartilhado de uma gente que resvala no comum. Brasil tornou se um lugar pìfio nete e em muitos outros sentidos... primamos pela deselegância total. Deparar com a consciência diante de tanta falta de senso coletivo é um alento. Afinal as mais significativas e belas cidades do mundo estão coroadas de verde traduzido em calçadas, jardins e parques bem tratados e que são valorizados pela população que nem de longe sonhar em violenta-los para dar lugar a mais uma garagem residencial, liberar visão de placa comercial, ou simplesmente para evitar que folhas e flores "sujem" a calçada. Esta mentalidade nebulosa que cultivamos é o que nos caracteriza... e quando surge alguém defendendo a luz que habita na copa das grandes àrvores ( como me disse um dia um velho ìndio) .. gente assim não é entendida pela maior parte das pessoas. Brasil tem um longo caminho a percorrer ... este lugar tornou-se àrido em todos os sentidos.

  3. Mônica Oliveira Postado em 13/Aug/2012 às 23:00

    Aqui em Carapicuíba a prefeitura está derrubando seringueiras com mais de 50 anos. Uma obra de canalização necessária está sendo feita, mas a derrubada de árvores parece indiscriminada. Além do verde está morrendo a história local. https://www.facebook.com/photo.php?fbid=393663864029510&set=a.393663680696195.90065.372982466097650&type=3&theater http://mural.blogfolha.uol.com.br/2012/08/13/corregos-da-grande-sao-paulo-tem-pouca-manutencao-e-lixo-nas-margens/

  4. Carmel Farias Puri Postado em 30/Aug/2012 às 15:19

    Parabéns ao professor!! as pessoas não sabem da importancia das árvores.Todos deveriam fazer como o professor, defender as árvores e com isso melhorar o ar que respiramos.