Luis Soares
Colunista
Compartilhar
Geral 23/Aug/2012 às 16:37
5
Comentários

Michael Moore e Oliver Stone: 'Por que defendemos Assange e Wikileaks'

“Conclamamos os povos britânico e sueco a exigir que seus governos respondam algumas questões básicas. Por que as autoridades suecas recusam-se a interrogar Assange em Londres? E por que nenhum dos dois governos pode prometer que Assange não será extraditado para os Estados Unidos?”, questionam cineastas

Texto de Michael Moore e Oliver Stone. Tradução: Daniela Frabasile, Outras Palavras

Passamos nossas carreiras de cineastas sustentando que a mídia norte-americana é frequentemente incapaz de informar os cidadãos sobre as piores ações de nosso governo. Portanto, ficamos profundamente gratos pelas realizações do WikiLeaks, e aplaudimos a decisão do Equador de garantir asilo diplomático a seu fundador, Julian Assange – que agora vive na embaixada equatoriana em Londres.

julian assange moore stone

Da esquerda para a direita: Julian Assange, fundador do Wikileaks e os consagrados cineastas Michael Moore e Oliver Stone. Foto: divulgação

O Equador agiu de acordo com importantes princípios dos direitos humanos internacionais. E nada poderia demonstrar quão apropriada foi sua ação quanto a ameaça do governo britânico, de violar um princípio sagrado das relações diplomáticas e invadir a embaixada para prender Assange.

Leia mais

Desde sua fundação, o WikiLeaks revelou documentos como o filme Assassinato Colateral, que mostra a matança aparentemente indiscriminada de civis de Bagdá por um helicóptero Apache, dos Estados Unidos; além de detalhes minuciosos sobre a face verdadeira das guerras contra o Iraque e Afeganistão; a conspiração entre os Estados Unidos e a ditadura do Yemen, para esconder nossa responsabilidade sobre os bombardeios no país; a pressão do governo Obama para que outras nações não processem, por tortura, oficiais da era-Bush; e muito mais.

Como era de prever, foi feroz a resposta daqueles que preferem que os norte-americanos não saibam dessas coisas. Líderes dos dois partidos chamaram Assange de “terrorista tecnológico”. E a senadora Dianne Feinstein, democrata da Califórnia que lidera o Comite do Senado sobre Inteligência, exigiu que ele fosse processado pela Lei de Espionagem. A maioria dos norte-americanos, britânicos e suecos não sabe que a Suécia não acusou formalmente Assange por nenhum crime. Ao invés disso, emitiu um mandado de prisão para interrogá-lo sobre as acusações de agressão sexual em 2010.

Todas essas acusações devem ser cuidadosamente investigadas antes que Assange vá para um país que o tire do alcance do sistema judiciário sueco. Mas são os governos britânico e sueco que atrapalham a investigação, não Assange.

Autoridades suecas sempre viajaram para outros países para fazer interrogatórios quando necessário, e o fundador do WikiLeaks deixou clara sua disposição de ser interrogado em Londres. Além disso, o governo equatoriano fez uma oferta direta à Suécia, permitindo que Assange seja interrogado dentro de sua embaixada em Londres. Estocolmo recusou as duas propostas.

Assange também comprometeu-se a viajar para a Suécia imediatamente, caso o governo sueco garanta que não irá extraditá-lo para os Estados Unidos. Autoridades suecas não mostraram interesse em explorar essa proposta, e o ministro de Relações Exteriores, Carl Bildt, declarou inequivocamente a um consultor jurídico de Assange e do WikiLeaks que a Suécia não vai oferecer essa garantia. O governo britânico também teria, de acordo com tratados internacionais, o direito de prevenir a reextradição de Assange da Suécia para os Estados Unidos, mas recusou-se igualmente a garantir que usaria esse poder. As tentativas do Equador para facilitar esse acordo entre os dois governos foram rejeitadas.

Em conjunto, as ações dos governos britânico e sueco sugerem que sua agenda real é levar Assange à Suécia. Por conta de tratados e outras considerações, ele provavelmente poderia ser mais facilmente extraditado de lá para os Estados Unidos. Assange tem todas as razões para temer esses desdobramentos. O Departamento de Justiça recentemente confirmou que continua a investigar o WikiLeaks, e os documentos do governo australiano de fevereiro passado, recém-divulgados afirmam que “a investigação dos Estados Unidos sobre a possível conduta criminal de Assange está em curso há mais de um ano”. O próprio WikiLeaks publicou emails da Stratfor, uma corporação privada de inteligência, segundo os quais um júri já ouviu uma acusação sigilosa contra Assange. E a história indica que a Suécia iria ceder a qualquer pressão dos Estados Unidos para entregar Assange. Em 2001, o governo sueco entregou à CIA dois egípcios que pediam asilo. A agência norte-americana entregou-os ao regime de Mubarak, que os torturou.

Se Assange for extraditado para os Estados Unidos, as consequência repercutirão por anos, em todo o mundo. Assange não é cidadão estadunidense, e nenhuma de suas ações aconteceu em solo norte-americano. Se Washington puder processar um jornalista nessas circunstâncias, os governos da Rússia ou da China poderão, pela mesma lógica, exigir que repórteres estrangeiros em qualquer lugar do mundo sejam extraditados por violar suas leis. Criar esse precedente deveria preocupar profundamente a todos, admiradores do WikiLeaks ou não.

Conclamamos os povos britânico e sueco a exigir que seus governos respondam algumas questões básicas. Por que as autoridades suecas recusam-se a interrogar Assange em Londres? E por que nenhum dos dois governos pode prometer que Assange não será extraditado para os Estados Unidos? Os cidadãos britânicos e suecos têm uma rara oportunidade de tomar uma posição pela liberdade de expressão, em nome de todo o mundo.

Recomendados para você

Comentários

  1. rafael de morais Postado em 23/Aug/2012 às 21:48

    ótimo post ! que inteligencia .

  2. Alana Postado em 23/Aug/2012 às 22:35

    Admiro muito o Michael Moore.

  3. João Postado em 24/Aug/2012 às 11:54

    O que falta para o povo da americo do norte ver que seu governo é tirano e bizarro aos olhos do resto do mundo? A ignorância dessa pais que se julga dono do mundo e que carregam com um orgulho idiota a bandeira de seu pais em suas casas, comércios e repartições públicas. O que me leva a refletir sobre nossa própria ignorância em imita-los usando suas roupas, ouvindo suas musicas, e assistindo seus filminhos holiudianos... É triste para nossa condição humana, em plenos século XXI, ainda discutirmos esses problemas tão pequenos perto de nossas capacidades.

  4. Guilherme Postado em 04/Sep/2012 às 14:11

    Vou contar uma história pra vocês: sabe porquê SOPA e PIPA ainda não passaram no congresso americano pra virarem leis, leis de atuação extraterritorial como eles querem, de alcance superlativo no mundo todo, sabe por quê? Porque eles ainda não conseguiram desenvolver um sistema de censura pra internet e não querem admitir essa incapacidade técnica. Mas tenham certeza que eles estão trabalhando duro pra isso, contratando cabeças, cientistas, hackers, todos iludidos e seduzidos pelos gordos salários que devem ser oferecidos a eles. É só questão de tempo até inventarem a cinta de castidade da internet. A internet é o maior tiro no pé do neoliberalismo. Criaram o monstro que veio a atormentar os grandes monopólios industriais, banqueiros e governantes conservadores do mundo e sua máquina ideológica jornalística e cultural. Eu acredito até que a internet veio trazer uma espécie de Internacional que está se organizando. E pode ser a mais forte e efetiva das Internacionais... Mas reitero, é tudo questão de tempo. Será uma clareira a ser fechada em um futuro não muito distante, e a escuridão total vai reinar no mundo, talvez conheçamos o golpe de misericórdia do Capitalismo aí!