Luis Soares
Colunista
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Mídia desonesta 11/Aug/2012 às 02:14
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Eduardo Guimarães: Rejeição a cotas explica desde desigualdade até o mensalão

Em meio a gritaria política, a mídia ressuscita a teoria sobre “prejuízo acadêmico” que seria gerado pelos cotistas e abafa o contraditório e os próprios fatos

cotas aprovadasPor Eduardo Guimarães, em seu sítio

Durante a semana que finda, assisti reportagem do Jornal da Globo que se propôs a dar “dicas” sobre as profissões “em alta” no mercado e que ofereceu um dado absolutamente estarrecedor, ainda que não seja novo: o país tem enorme carência de profissionais em profissões absolutamente imprescindíveis ao crescimento econômico.

Um exemplo: faltam engenheiros a um país que, na contramão de um mundo em recessão, segue crescendo, ainda que, agora, em ritmo bem menor devido ao agravamento da crise econômica internacional.

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O fato é que escasseiam profissionais com curso superior no país apesar do forte aumento do número de universitários nos últimos anos. Isso ocorre porque cursar universidade, por aqui, sempre foi privilégio da elite branca do Sul e do Sudeste. Foi assim que o Brasil chegou a ser um dos três países mais desiguais do mundo na segunda metade do século passado.

O gráfico que ilustra este texto explica a política no Brasil ao menos entre 1960 e 2012. Representa a Curva de Lorenz, desenvolvida pelo economista estadunidense Max O. Lorenz em 1905 para representar a distribuição de renda em regiões ou países.

O método é muito simples: quanto mais próximo de 1 maior é a desigualdade, e quanto mais perto de 0 é menor.

O Coeficiente de Gini, vale explicar, não é uma criação “petralha”. É calculado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) – no Brasil, é apurado em parceria com o IBGE e com o IPEA.

Como se vê no gráfico, em 1960 a posição do Brasil no índice era de 0,5367. Durante a ditadura militar a desigualdade foi aumentando e mesmo após a redemocratização o país continuou promovendo concentração de renda chegando ao ponto máximo em 1990, cinco anos após o fim daquela ditadura.

A partir de 1990, a desigualdade começou a cair, ainda que de forma quase imperceptível. Entre aquele ano e 2002, último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, a desigualdade caiu de 0,6091 para 0,583. A partir de 2003, começou a cair em ritmo 3 vezes maior do que o preconizado pelo PNUD (ONU), chegando, ano passado, a 0,519 – inferior ao que vigia em 1960.

A queda da desigualdade brasileira durante o governo Lula, portanto, foi a maior em meio século – e, aliás, a maior da história do país em período tão curto (oito anos).

A correlação desses dados com a política é imensa. Como se vê, a ditadura militar veio para tornar o rico mais rico e o pobre mais pobre. E, após a ditadura, a situação melhorou muito pouco por mera falta de vontade política.

Durante os governos pós-redemocratização, mas anteriores à era Lula, a melhora da concentração de renda foi pífia apesar de ter caído timidamente durante a era FHC, quando chegou a subir um pouco e depois caiu de novo. Mas pouco, repito.

No período tucano no governo do Brasil, o índice caiu de 0,59 para 0,58, ou seja, quase nada. Eis a explicação para o fato de o PT ter vencido as três últimas eleições presidenciais: os três governos petistas vêm diminuindo a distância entre pobres e ricos como nunca antes na história deste país…

Os estudos do IBGE, do IPEA e do próprio PNUD também revelam um dos principais fatores para a maior concentração de renda a partir de 1964: houve um desmonte literal da educação pública.

A fim de cumprir o objetivo para o qual foi instalada, a ditadura tornou a educação de qualidade um bem das classes mais abastadas do Sul e do Sudeste, que são essencialmente de ascendência indo-europeia, ou seja, essencialmente brancas. Para ter boa educação escolar as famílias tinham que pagar caro, o que, obviamente, só estava ao alcance dos mais ricos.

Por conta disso, no começo da era Lula as universidades brasileiras – sobretudo as públicas – pareciam ser de países nórdicos. Os estacionamentos dessas instituições viviam repletos de carros de luxo e os corpos discentes eram de uma brancura de ofuscar os olhos, com seus olhos azuis e cabelos loiros.

A partir da década passada, porém, políticas públicas começaram a mudar essa situação.

Claro que o mérito maior para a queda acelerada da concentração de renda que o Brasil vem experimentando se deve ao Bolsa Família, mas a política reconhecidamente com maior potencial para mudar a ainda enorme concentração de renda no país é a que levou jovens pobres ao ensino superior.

Já dura quase uma década a política de cotas étnicas e sociais nas universidades públicas (sobretudo nas federais, como UFRG, UNB, UFRJ, UFBA e outras). Além das cotas há o Prouni, que permitiu aos jovens pobres chegarem a universidades privadas com financiamento federal.

No início, há quase uma década, quando o governo Lula trouxe para o Brasil a política afirmativa de inspiração norte-americana que criou uma classe média negra nos Estados Unidos, a elite branca do Sul e do Sudeste reagiu com ira e passou a propagar “criações mentais” (expressão em alta) sobre “prejuízo acadêmico”.

Mas o que seria esse “prejuízo acadêmico”?

Grandes grupos de mídia como as Organizações Globo, o Grupo Folha, o Grupo Estado, a Editora Abril e partidos políticos como DEM e PSDB abriram guerra contra o governo Lula valendo-se da teoria de que ao levar estudantes de escolas públicas para as universidades isso faria baixar o nível acadêmico delas.

A teoria demo-tucano-midiática era a de que, por terem formação escolar inferior, esses estudantes das escolas públicas – que, em maioria esmagadora no país, são negros – tornar-se-iam profissionais medíocres e não conseguiriam acompanhar os estudantes brancos egressos da escola particular, que proliferou durante a ditadura de forma a dar aos mais ricos chances melhores na vida.

O DEM, aliás, chegou a entrar na Justiça contra as políticas afirmativas petistas (cotas e Prouni) alegando que o governo federal estaria cometendo uma injustiça contra os brancos ricos das escolas particulares. O processo foi parar no STF e ali foi derrotado.

Ao mesmo tempo, a teoria sobre “prejuízo acadêmico” que seria gerado por jovens negros e pobres às universidades de elite (que, no Brasil, são as públicas, ou seja, financiadas pelos impostos sobretudo dos mais pobres), desmoronou.

Universidades como UFRG, UNB, UFRJ, UFBA e outras começaram a formar turmas de cotistas oriundos da escola pública e negros e o que se viu foi que não só tiveram o mesmo desempenho acadêmico que os egressos brancos das escolas particulares como, em alguns casos, até os superaram, sem falar que os cotistas abandonam menos os cursos, enquanto que os não-cotistas lideram as desistências.

Após DEM, PSDB e imprensa perderem a ação no STF contra as cotas e o Prouni, nesta semana perderam no Legislativo – o Senado aprovou a política de cotas nas universidades federais. A mídia e os partidos de oposição reagiram, pois essa aprovação é ainda pior do que a derrota na Justiça porque materializa a política de cotas.

Não foi por outra razão que começaram a pipocar reações. Associações de escolas particulares prometem questionar na Justiça a política de reserva de vagas para negros e egressos de escolas públicas. Todavia, não passa de jogo político porque a instância máxima do Judiciário já rejeitou esse questionamento sobre as cotas serem injustiça de negros pobres contra brancos ricos.

No âmbito dessa gritaria política, a mídia ressuscita a teoria sobre “prejuízo acadêmico” que seria gerado pelos cotistas e abafa o contraditório e os próprios fatos.

Nos jornais ligados ao PSDB e ao DEM, as colunas de leitores e os colunistas voltam à carga contra as cotas com argumentos como o de que os cotistas rebaixariam o nível das universidades apesar de as experiências com a política afirmativa do PT mostrarem que os cotistas chegam a superar os não-cotistas.

Estabelecida a correlação entre a política de cotas e a queda da desigualdade mais intensa na era Lula, sobra outra correlação que o leitor certamente ainda não entendeu. Que relação têm as cotas com o mensalão?

Ainda na semana que finda, jornalistas respeitados como Janio de Freitas, da Folha, e até o ministro do STF Joaquim Barbosa ressaltaram como a mídia trata diferentemente os mensalões tucano e petista – o primeiro é abafado e o segundo vira “reality show”.

Ora, por que a mídia não gosta do PT a ponto de ser seletiva ao cobrir casos de corrupção desse partido? Afinal, todos sabem que nunca os ricos ganharam tanto quanto na era petista, ainda que não mais ganhem sozinhos.

Essa ojeriza ao PT ocorre simplesmente porque a mídia, o DEM e o PSDB representam os setores abastados da sociedade que impuseram ao Brasil uma ditadura militar que concentrou renda valendo-se da Educação como instrumento de injustiça social.

Por isso é que o mensalão tucano está sendo abafado enquanto a mídia transforma o julgamento do mensalão petista nesse espetáculo circense que todos estão vendo. Tenta, assim, convencer o país de que o PT encerra mais corrupção do que os partidos que defendem os interesses da elite branca do Sul e do Sudeste.

Simples assim.

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Comentários

  1. Daniel Postado em 11/Aug/2012 às 19:50

    "Se" a desigualdade brasileira durante o governo Lula caiu e anda caindo, em contrapartida sobe o número de pobres e extremamente pobres (recebedores do bolsa vagabundo).......a desigualdade social está caminhando para uma desigualdade de baixo nível, ou seja, nivelado por baixo, seremos iguais na pobreza!

  2. Henrique Postado em 12/Aug/2012 às 13:19

    Dois saques a supermercados,na Espanha(1ª semana de agosto), um em Sevilha, outro em Cádiz, no Carrefour. Os saques foram distribuídos em periferias pobres. A insatisfação social na zona do euro deixou a mídia e a direita de cabelos em pé. Saques motivados por fome e incapacidade de poder de compra apresentam-se como plausíveis na quarta maior economia do euro. A EU exige 30 “atitudes” para salvar a Espanha: terá aumento de impostos indiretos, cortes de DIREITOS TRABALHISTAS e aumento unilateral da jornada de trabalho no setor público. A Grécia vai para o 5º ano de recessão com o PIB caindo 7% ao ano. A Itália enfraquece a olhos visto. A França anda para trás. Em Portugal 20% estão desempregados ou subempregados. Em 2013, na Espanha, o desemprego atingirá 25% da população. O exemplo do Bolsa Família , constitui hoje uma reivindicação de esquerda na Espanha, Grécia, Portugal, Itália. Nos EUA, que já tem um cupom de alimentação herdado de Roosevelt, o Congresso quer aprovar um corte de US$ 16 bilhões nos tíquetes distribuídos a famílias pobres --o maior arrocho na história do programa desde os anos 90. No Brasil o BOLSA FAMÍLIA resiste ao conservadorismo, ao preconceito e à mídia aliada ao crime organizado e seus lacaios. Segundo estudo , que os preconceituosos BURROS não entendem, o Bolsa Família erradica miséria e ajuda Brasil a crescer. A explicação da Ministra – QUE É MUITO FÁCIL DE ENTENDER SEM ALIENAÇÃO NENHUMA: “Um em cada quatro brasileiros já é beneficiário do Bolsa Família, mesmo com os recursos do programa consumindo apenas 0,46% do PIB. Além disso, cada R$ 1 destinado ao programa retorna à economia como R$ 1,44. “Mais do que um gasto, é um grande investimento que nós estamos fazendo, não só para tirar a população da pobreza, mas para o país continuar a crescer”, diz a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campelo. ... bURRICE E COMPLEXO DE VIRA-LATAS ANDAM DE MÃOS DADAS!

  3. carolina Postado em 05/Sep/2012 às 19:09

    Muito fácil falar que a desigualdade caiu com base em dados estatísticos, da sua sala com ar condicionado com seu pc com internet banda larga. Vai ver a realidade de fora, vai andar na periferia da sua cidade, vai andar no centro. Não, a pobreza ainda tá lá, incrustada, como um câncer. Mudança na desigualdade vai além dessas estatísticas, tem muita gente falando que a vida melhorou porque passou a comer carne 3 vezes na semana, porque vai conseguir pagar (isso com muitos carnes atrasados) um sofá dividido em 20 vezes pela casas bahia e isso não tem nada a ver com diminuição na desigualdade social, isso é o governo enganando o povo. O povo pobre continua pobre e o povo rico continua rico. Cotas? Sou contra, mas não pelos argumentos citados e sim porque mais uma vez o governo consegue se safar da sua obrigação de aumentar a verba para uma educação básica que inclui desde a primeira série ao terceiro ano do ensino médio. Parabéns ao colunista que se diz revoltado com a mídia mas fecha os olhos para o descaso deste governo com o pobre e os estudantes de escolas públicas.

  4. Clelia Postado em 20/Nov/2012 às 10:54

    Bom esse artigo para começarmos a discutir cotas com seriedade e não com tentaivas de assegurar o poder. A única coisa com a qual absolutamente não concordo, e não é por ser paulista, loura e de olhos verdes (infelizmente não é azul, talvez eu até me salve do preconceito do autor), é a insistência dele em frisar que o aumento da diferença entre pobres negros e brancos ricos foi e é um projeto do sul/sudeste. De jeito nenhum. Não nos esqueçamos que o DEM(O) é acentuadamente nordestino e cada vez mais nordestino e que Castelo Branco era Cearense e assim vai. A elite brasileira nunca foi regionalista, sempre foi muito unida, desde a colônia. Nâo é a toa que o PSDB se une ao DEM(O). É a concretização de um projeto elitista nacional, não importa de que região essa elite venha, desde que seja elite sempre está unida. Tem-se Tassos Gereissatis no PSDB do Ceará, Sarneys (PMDB) no Maranhão , Jaders Barbalhos, Cíceros, Maranhões, Marcos Macieis etc, que são tão coniventes e artífices desse período histórico brasileiro de acentuação de pobreza como Alckmins, Serras, Malufs, Bornhausens. Como dizia BRECHT “entre os vencidos o zé povinho passava fome, entre os vencedores o zé povinho passou também”. E é aí que não podemos nos perder nesse tipo de ‘regionalismos’.

  5. Ray Postado em 27/Nov/2012 às 13:44

    Muito bom o texto sobre todo o jogo de interesses dos mais ricos para tentar barrar as cotas. Mas alguns fatos há de serem questionados (estes que continuo questionando a respeito de cotas): 1 - As vezes transparece que aqueles a favor de cotas raciais julgam somente existir negros pobres, não há brancos pobres. Por esse motivo não concordo em separar por "raças" e sim por níveis econômicos como também existe. 2 - Eu particularmente tenho receio que a educação básica (do infantil ao médio) não ganhe avanços significativos a médio prazo. Concordo plenamente que o nível do ensino superior diminua com pessoas vindo de escolas públicas, mas isso não deve justificar a não melhoria no ensino público básico. E essa defesa do PT? Mais pareceu aquela história de "olha aí mamãe, ele também sujou a casa também! Você me persegue só porque... nem sei ao certo porque você me persegue..." Por favor, menos #mimimi. (Mas não deixa de ter um fundo de lógica sobre a questão do "circo" que se transformou o julgamento do mensalão do PT.)

  6. Vinícius Virgens Postado em 31/Jul/2013 às 18:07

    Em resposta a Carolina: Falo agora diretamente de um bairro pobre em Salvador, "do alto" do meu notebook, com internet WI-FIi e sendo bolsista do Prouni em uma boa faculdade de Direito. Ou seja, é evidente que os dados estatísticos não refletem a INTEIRA realidade do país, entretanto, é inegável a sensível melhora na vida da população brasileira, digo isso por vivência da transformação social que ocorreu na minha vida particular, no meu bairro e em Salvador