Luis Soares
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Racismo não 21/Jul/2012 às 19:43
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Racismo contra menina de 4 anos deixa mãe revoltada; filha foi chamada de 'preta horrorosa'

Menina foi ofendida por avó de garoto que se revoltou com o fato de o neto ter dançado quadrilha com uma criança negra. Polícia vai investigar o caso

racismo contagem belo horizonte

Mãe denuncia racismo contra filha de 4 anos; aluna é xingada de "preta horrorosa". Foto: Divulgação

“Quero saber por que deixaram uma negra e preta horrorosa e feia dançar quadrilha com meu neto.” Foi assim, segundo o que já foi apurado pela polícia, que a avó de um aluno de uma escola infantil particular em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, se referiu a uma menina de 4 anos, em um caso de crime de racismo que revoltou funcionários do Centro de Educação Infantil Emília e levou a mãe da criança a denunciar a mulher à polícia. A diretora da escola foi acusada de não ter feito nada para impedir as ofensas racistas e ainda ter tentado abafar o caso.

O episódio ocorreu dia 10, mas somente ontem, apoiada pela organização não governamental SOS Racismo, a mãe da menina, a atendente de marketing Fátima Viana Souza, revelou detalhes do caso. Ela só ficou sabendo das agressões à filha porque a professora Cristina Pereira Aragão, de 34 anos, que testemunhou tudo, inconformada com a situação e com a falta de ação da diretora da escola, pediu demissão e procurou a família da menina para denunciar o que ocorreu. Outra professora confirmou aos pais da criança a denúncia feita por Cristina.

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Fátima lembrou que a festa junina foi no sábado, dia 7, e que toda a sua família foi para prestigiar a menina. Na terça-feira, dia 10, a avó do garoto, de acordo com o que consta no boletim de ocorrência policial ao qual o Estado de Minas teve acesso, invadiu a escola aos gritos querendo saber por que deixaram uma “negra horrorosa” dançar com o neto dela. “Minha filha presenciou tudo e foi chamada de preta feia. Os coleguinhas da sala ao lado escutaram e foram ver o que estava acontecendo”, disse a mãe, chorando. “Minha filha ficou quieta num canto da sala e a professora a defendeu dizendo que a atitude daquela mulher era crime. Mesmo assim, minha filha continuou sendo insultada”, disse Fátima.

A mãe disse ainda que não foi informada do ocorrido. No dia, seu marido buscou a filha na escola e tudo parecia normal. Ela lembrou que naquela terça-feira a menina chegou perturbada da escola, não jantou e não conseguiu dormir. “Achei que ela tivesse brincado demais e estava cansada”, disse Fátima. No dia seguinte, a menina vomitou na sala de aula e a diretora alegou para os pais que ela havia comido muitos salgados num piquenique da escola. A professora, que já havia pedido demissão, procurou os pais e contou o que havia acontecido.

“Fiquei desesperada. Foi horrível. Acho que a minha filha vomitou de medo. Conversei com ela, que repetia o tempo todo que não fez nada, se sentindo culpada. O racismo contra um adulto é intolerável. Contra uma criança indefesa, pior ainda. E eu não estava lá no momento para defender a minha filha”, lamentou Fátima, que vai tirar a menina da escola e quer que a agressora seja punida. “Vou lutar na Justiça pela minha filha e por tantas outras crianças negras que passam pela mesma situação e não é feito nada”, disse. Fátima informou que vai providenciar atendimento psicológico para a filha. “Ela está se achando inferior, que o bom é ser de outra cor”, concluiu.

Indignação e demissão

A professora Cristina contou ter ficado indignada com a falta de atitude dos responsáveis pela escola e pediu demissão. “A diretora disse que não iria comunicar nada aos pais da menina, nem chamar a polícia, pois esse tipo de problema acontece em qualquer escola e que se fosse brigar com toda família preconceituosa não teria ninguém estudando na sua escola. Fiquei revoltada e preferi me desligar da escola para não ser conivente com um ato criminoso”, disse Cristina. Ela acrescentou que tentou evitar que a menina escutasse as ofensas, mas a mulher apontou o dedo em seu rosto e a mandou ficar calada, afirmando que a professora recebia salário para dar aula para o neto dela.

O delegado da 3ª Delegacia de Polícia de Contagem, Antônio Fradico de Araújo, instaurou inquérito e vai intimar a avó do garoto, identificada apenas como Mariinha, e os demais envolvidos na ocorrência para prestar depoimento. A Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial de Contagem acionou os órgãos de defesa dos direitos humanos e também o Ministério Público Estadual, pedindo providências.

Agravantes

O advogado do SOS Racismo e professor de direito da PUC Minas, José Antônio Carlos Pimenta, esclarece que a pena para o crime de racismo pode chegar a nove anos de prisão. Mas, no caso da menina ofendida em Contagem, a Justiça pode considerar injúria racial, que tem pena de no máximo três anos. “Mas há dois agravantes nesse caso e a pena pode aumentar. O crime foi cometido dentro de uma escola e a vítima é menor de 18 anos”, disse o advogado. A responsável pela escola também pode responder civilmente, pois ela tinha o dever legal de proteger a menina, analisou o advogado. A diretora, do Centro de Educação Infantil Emília, Joana Reis Belvino, foi procurada pelo EM, mas se recusou a comentar o caso. A polícia não forneceu informações que permitissem identificar e localizar a mulher denunciada por racismo.

Estado de Minas

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Comentários

  1. Fernando Postado em 22/Jul/2012 às 10:35

    Cristina Pereira Aragão: esse nome é para ser lembrado. Uma verdadeira cidadã, educadora e mulher de honra. Quanto ao resto, a começar pela dona da escola, passando pela avó troglodita até chegar no cenário mais amplo desse episódio que infelizmente não é isolado, só me resta concluir que o ainda falta muito para o Brasil sair da era da pedra lascada. Jogar a culpa de tudo para cima do governo é fácil mas a verdade é que a sociedade é doente e não faz o mínimo esforço para se curar.

  2. Luiz Fernando Postado em 22/Jul/2012 às 15:36

    As única "horrorosas" nessa história é essa senhora, que vocifera com racismo contra uma menina completamente indefesa de 4 anos, e a diretora que foi conivente com essa barbárie, que transborda de covardia. O que a família dessa menina vai precisar fazer para tirar esse trauma, eu não sei. Então, ainda dizem que não há racismo no Brasil...aham.

  3. Jorge Postado em 22/Jul/2012 às 20:35

    Fato como este ocorrido em Minas, não podem mais serem aceitos pela sociedade. Precisamos parar de acreditar que somente crimes como os de não pagamento de pensão alimentícia, por exempolo, são punidos com rigor, enquanto os demais caem na impunidade. Assim como criaram a lei Maria da Penha, deveriamos criar uma lei mais rigorosa, tendo como objetivo proteger nossas crianças de fatos semelhantes a este. Este seria o ponto de partida, que atingiria todos os setores envolvidos, educacionais, jurídicos, organismos de conscientização e valorização do ser humano, enfim. Sabe-se que, pelo fato demostrado, professores não tem preparo para lidarem com casos deste tipo. Por outro lado, a cultura do “não é comigo” ou “não estou vendo nada” precisa acabar, sob pena de enormes prejuízos à nossas crianças e adolescentes. Tenho a certeza de que toda a comunidade de Minas Gerais não compactua com este tipo de episódio vergonhoso, que estarreceu o resto do país, bem como minha família e minha cidade. A justiça irá prevalecer, terá que prevalecer, porque somente com igualdade de direitos poderemos viver em paz em nosso país. A segregação e o preconceito não educam ninguém. Jorge Militar das forças armadas, Marataízes, E.S. email: [email protected]

  4. Fabio Postado em 23/Jul/2012 às 18:25

    diretora só estava preocupada com a repercussão que o caso poderia gerar (e gerou) e atrapalhar seus ganhos financeiros. Diretora só estava (e está) preocupada com seus lucros.

  5. Luiz Fernando Postado em 23/Jul/2012 às 19:20

    Perdão pelos "typos", acrescentei a diretora como outra escória que acobertou o racismo, e esqueci das concordâncias nominais e verbais. Claro que o correto é "As únicas horrorosas nessa história são..."

  6. Rafael Postado em 24/Jul/2012 às 21:01

    E novamente não foi crime de racismo mas sim injuria racial? Sinceramente eu não sei mais o que essa racista miserável tinha de fazer para ser presa por racismo qu foi o que ela cometeu, talvez se ela tivesse, além dos xingamentos, espancado a garota e a matado ai sim reconheceriam que foi racismo, essa coisa tinha de pegar pena por racismo e pena máxima.

  7. Luciene Postado em 31/Jul/2012 às 23:10

    Cúmulo do absurdo. Essa senhora é uma bossal, estúpida, sem o mínimo de respeito pelo próximo. Uma covarde. Imagine que tipo de criação essa mulher monstruosa deu a seus filhos. Ela deveria ser proibida de conviver em sociedade. Velha escrota!

  8. Lyndy Luca Postado em 01/Aug/2012 às 20:25

    Parabéns à professora Cristina Pereira Aragão! Uma profissional de verdade! Uma verdadeira educadora e cidadã, dotada de ética suficiente para não ser conivente com crimes tão mesquinhos e perversos quanto esse, capaz de transtornar uma criança de 4 anos! Que Deus a abençoe e ilumine seus caminhos, e lhe dê outro emprego, melhor que aquele! Que possa ter a oportunidade de um dia ser uma diretora, pois exerceria a função, muito provavelmente, com louvor, pelo que demonstrou! Que a justiça seja feita e todos os criminosos e coniventes com o crime, rigorosamente punidos! E depois ainda dizem que não há racismo, e que os negros tem as mesmas condições que os brancos... E depois ainda tem gente que tem a cara-de-pau de reclamar do sistema de cotas para os afrodescendentes! Que reflitam! Casos como esse infelizmente não são isolados...

  9. Rui Oliveira Postado em 16/Oct/2012 às 21:44

    Olá minha gente, é lamentável tudo isso que aconteceu nesta escola com essa criança, contudo, devemos lembrar aqui, se os governos não são hoje responsáveis como tenta amenizar essa culpa um comentário acima, eles são coniventes, pois se buscarmos os livros didáticos doados as escolas públicas, ainda se nota uma invisibilidade do negros e negras neles, e as poucas imagens, quase sempre os negros e negras são postas em condições inferiores aos brancos, e ressaltamos que isso nestes 10 anos de governos dito progressiva, e sem falar dos 8 anos de um certo sociólogo, porém, temos que lembrar que os órgãos judiciários são fisiologista e comandados em grade parte por pessoas brancas, que tendem naturalmente neste momento, a ficarem por assim dizer, a favor de seu grupo étnico, contudo isso, a reação foi feita por uma professora consciente, e é neste sentido, que devemos manter a esperança de termos com as gerações futuras ,menos preconceitos. Rui Olveira - Presidente do Grupo de União e Consciência Negra - GRUCON RJ

  10. Graziele Tavares da Silva Postado em 08/Jul/2013 às 10:43

    Racismo, preconceito duas palavras que infelizmente trazem dor e tristeza para qualquer ser humano (humano mesmo não esses monstros que existe), imaginem para uma criança inocente que já tem que viver todos os dias vendo na tv, internet os exemplos usados nas publicidades sempre com pessoas felizes e sempre brancas. Me lembro sempre nesses momentos dos comerciais de manteiga muita gente linda, feliz, bem maquiada e BRANCA. porque tanto preconceito se vivemos nesse mundo onde todos, digo todos mesmo, temos um parente distante ou proxímo que é negro que tem um amigo, conhecido negro. Acredito que essa mãe sentiu a maior dor possível com esse fato, e espero de coração que as desalmadas, culpadas e verdadeiras horrorosas paguem pelo que fizeram e principalmente espero que essa inocente menina se recupere dos danos deixados pelo ocorrido. Espero que um dia as pessoas possam entender que o importante realmente é o que as pessoas são , sentem e principalmente é resgatar o amor que com o tempo parecer ter esfriado ou deixado de existir.