Luis Soares
Colunista
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Meio Ambiente 17/Jul/2012 às 10:51
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Leonardo Boff: Nós ocidentais, os principais responsáveis pela atual tragédia humana

O tempo ocidental se esgotou e já passou. Por isso perdeu qualquer legitimidade e força de convencimento

professor leonardo boff

O teólogo e escritor Leonardo Boff. Imagem: Arquivo

O complexo de crises que avassala a humanidade nos obriga a parar e a fazer um balanço. É o momento filosofante de todo observador crítico, caso queira ir além dos discursos convencionais e intrassistêmicos.

Por que chegamos à atual situação, que objetivamente ameaça o futuro da vida humana e de nossa obra civilizatória? Respondemos sem maiores justificativas: principais causadores deste percurso são aqueles que nos últimos séculos detiveram o poder, o saber e o ter. Eles se propuseram dominar a natureza, conquistar o mundo inteiro, subjugar os povos e colocar tudo a serviço de seus interesses.

Para isso foi utilizada uma arma poderosa: a tecnociência. Pela ciência, identificaram como funciona a natureza e, pela técnica, operaram intervenções para benefício humano sem reparar nas consequências.

Esses senhores que realizaram esta saga foram os ocidentais europeus. Nós, latino-americanos, fomos à força agregados a eles como um apêndice: o Extremo Ocidente.

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Esses ocidentais, entretanto, estão hoje extremamente perplexos. Perguntam-se aturdidos: como podemos estar no olho da crise, se possuímos o melhor saber, a melhor democracia, a melhor consciência dos direitos, a melhor economia, a melhor técnica, o melhor cinema, a maior força militar e a melhor religião, o Cristianismo?

Ora, essas “conquistas” estão postas em xeque, pois elas, não obstante seu valor, inegavelmente não nos fornecem mais nenhum horizonte de esperança. Sentimos: o tempo ocidental se esgotou e já passou. Por isso perdeu qualquer legitimidade e força de convencimento.

Arnold Toynbee, analisando as grandes civilizações, notou esta constante histórica: sempre que o arsenal de respostas para os desafios não é mais suficiente, as civilizações entram em crise, começam a esfacelar-se até o seu colapso ou assimilação por outra. Esta traz renovado vigor, novos sonhos e novos sentidos de vida pessoais e coletivos. Qual virá? Quem o sabe? Eis a questão cruciante.

O que agrava a crise é a persistente arrogância ocidental. Mesmo em decadência, os ocidentais se imaginam ainda a referência obrigatória para todos.

Para a Bíblia e para os gregos, esse comportamento constituía o supremo desvio, pois as pessoas se colocavam no mesmo pedestal da divindade, tida como a referência suprema e a Última Relidade. Chamavam a essa atitude de hybris, quer dizer: arrogância e excesso do próprio eu.

Foi esta arrogância que levou os EUA a intervir, com razões mentirosas, no Iraque, depois no Afeganistão e, antes, na América Latina, sustentando por muitos anos regimes ditatoriais militares e a vergonhosa Operação Condor, pela qual centenas de lideranças de vários países da América Latina foram sequestradas e assassinadas.

Com o novo Presidente Barak Obama se esperava um novo rumo, mais multipolar, respeitador das diferenças culturais e compassivo para com os vulneráveis. Ledo engano. Está levando avante o projeto imperial na mesma linha do fundamentalista Bush. Não mudou substancialmente nada nesta estratégia de arrogância. Ao contrário, inaugurou algo inaudito e perverso: uma guerra não declarada usando “drones”, aviões não tripulados. Dirigidos eletronicamente a partir de frias salas de bases militares no Texas, atacam, matando lideranças individuais e até grupos inteiros nos quais supõe estarem terroristas.

O próprio cristianismo, em suas várias vertentes, se distanciou do ecumenismo e está assumindo traços fundamentalistas. Há uma disputa no mercado religioso para ver qual das denominações mais aglomera fiéis.

Assistimos na Rio+20 a mesma arrogância dos poderosos, recusando-se a participar e a buscar convergências mínimas que aliviassem a crise da Terra.

E pensar que, no fundo, procuramos a singela utopia bem expressa por Pablo Milanes e Chico Buarque: “A história poderia ser um carro alegre, cheio de um povo contente”.

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Comentários

  1. maria helena Postado em 09/Dec/2012 às 06:37

    A Seca de 2012. Desde décadas atrás é do conhecimento de todos a chamada “Indústria da seca”. O coronelismo agia leviana e deliberadamente, observando o infortúnio que se abatia sobre centenas de famílias, a terra era devastada, o gado morria de fome e de sede. Do alto de sua arrogância, vestindo ternos de linho branco, devidamente passados à goma, esses semideuses visitavam essas áreas castigadas pelo fenômeno climático, oferendo-lhes pequenos favores, algum dinheiro, alguns alimentos e, claro, apresentando-se como políticos que se importavam com eles. Valendo-se da ternura e ignorância daqueles homens e mulheres, muitos “políticos” continuaram exibindo a sua “alta performance” parlamentar por longos anos (de dor). E eis que uma nova realidade chegou, desmantelando essa inescrupulosa indústria, a Lei de Responsabilidade Fiscal e o rigor nas Licitações. Tomados pelo constitucionalismo que impera no mundo inteiro, esses oportunistas encontram dificuldade de tomar de assalto o novo sertanejo. Ele abandona sua terrinha, mas não é venal como muitos na Câmara baixa. Com a indústria da seca em crise e o nordestino se reerguendo com altivez, alguns políticos se despreocupam do povo e ousam dizer que está se gastando muito dinheiro com o elemento humano e que o governo deveria se preocupar mais com o crescimento do Brasil.Risível! Elementar, belos olhos azuis! O Brasil é dos brasileiros. E o povo brasileiro é prioridade, sim! Num momento no qual EUA está saindo de uma recessão, a Europa em crise, etc... Não adiantam os índices do superávit batendo recordes enquanto boa parte da população padece na miséria e no analfabetismo. Parafraseando o Ministro Fux do STF: “O céu ainda não é de brigadeiro, mas o voou certamente é de um condor”. O Brasil como modelo a ser seguido, assiste ao presidente Rafael Correa dizer diante das câmeras que vai aumentar os impostos dos bancos para subir o valor do bônus desenvolvimento humano do povo equatoriano. Como uma das soluções surge a transposição do rio São Francisco. Um projeto do governo federal, que muita celeuma já rendeu. Ele objetiva a construção de dois canais (totalizando 700 quilômetros de extensão) para levar água do rio para regiões semiáridas do Nordeste. Mas só a transposição não basta, é preciso viabilizar a irrigação, necessita-se também da perfuração de poços nas áreas mais distantes e orientação por parte dos órgãos públicos para a cultura adequada, para esse belo povo. E quiça, em algumas áreas a plantação em tabuleiros para suprir a agricultura familiar. Nada disso prospera sem a ajuda dos órgãos competentes ensinando técnicas agrícolas. Nos tabuleiros cultiva-se frutas, mas a EMBRAPA também precisa fazer a sua parte nesse processo de resolver o problema da seca...fazer da região árida do sertão um novo Israel. A Seca retira as famílias de suas casa, o gado morre, a vegetação se transforma em palha dourada, a maioria migra para as cidades em busca de algo para sobreviver, e as famílias se dispersam...com saudade de sua terrinha, o homem que era seguro torna-se amargo; nos olhos da mulher, a ternura vai cedendo lugar a tristeza e saudades de seus filhos que se separaram para sobreviver...e assim, silenciosamente vão adoecendo. Há quem pense que pobre não têm doenças psicossomáticas, como pensaram em tempos idos que escravos eram animais, pessoas desprovidas de inteligência. Já dizia Cazuza: “A burguesia fede”...Nessa nova era até o exército quer ajudar, como fez na duplicação de algumas rodovias. É preciso a contrapartida do governo federal, o dinheiro para tocar as obras. Oxalá esse dinheiro chegue lá e não seja desviado, como outrora, para servir aos caprichos do governador (da primeira dama) e seus asseclas. Maria Helena d'Ars.