Luis Soares
Colunista
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Preconceito social 23/May/2012 às 10:07
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Jornalistas se unem contra atitude grotesca da repórter Mirella Cunha

Movidos pela reportagem “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”, produzida pelo programa “Brasil Urgente Bahia” e reprisada nacionalmente na emissora Band, um grupo de jornalistas enviou uma carta aberta ao governador Jaques Wagner para protestar contra programas jornalísticos que chamam de policialescos

Confira abaixo a íntegra da carta pública destinada ao governador Jaques Wagner e a toda sociedade baiana e brasileira.

mirella cunha band

Em reportagem da Tv Bandeirantes, Mirella Cunha expõe ao ridículo um acusado de estupro, e desperta reações diversas na rede. (Foto pincelada do blog Partido da Imprensa Golpista)

Carta aberta de jornalistas sobre abusos de programas policialescos na Bahia

‘O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.’
(Gregório de Mattos e Guerra)

Ao governador do Estado da Bahia, Jaques Wagner.
À Secretaria da Segurança Pública do Estado da Bahia.
Ao Ministério Público do Estado da Bahia.
À Defensoria Pública do Estado da Bahia.
À Sociedade Baiana.

A reportagem “Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência”, produzida pelo programa “Brasil Urgente Bahia” (assista aqui) e reprisada nacionalmente na emissora Band, provoca a indignação dos jornalistas abaixo-assinados e motiva questionamentos sobre a conivência do Estado com repórteres antiéticos, que têm livre acesso a delegacias para violentar os direitos individuais dos presos, quando não transmitem (com truculência e sensacionalismo) as ações policiais em bairros populares da região metropolitana de Salvador.

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A reportagem de Mirella Cunha, no interior da 12ª Delegacia de Itapoã, e os comentários do apresentador Uziel Bueno, no estúdio da Band, afrontam o artigo 5º da Constituição Federal: “É assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral“. E não faz mal reafirmar que a República Federativa do Brasil tem entre seus fundamentos “a dignidade da pessoa humana”. Apesar do clima de barbárie num conjunto apodrecido de programas policialescos, na Bahia e no Brasil, os direitos constitucionais são aplicáveis, inclusive aos suspeitos de crimes tipificados pelo Código Penal.

Sob a custódia do Estado, acusados de crimes são jogados à sanha de jornalistas ou pseudojornalistas de microfone à mão, em escandalosa parceria com agentes policiais, que permitem interrogatórios ilegais e autoritários, como o de que foi vítima o acusado de estupro Paulo Sérgio, escarnecido por não saber o que é um exame de próstata, o que deveria envergonhar mais profundamente o Estado e a própria mídia, as peças essenciais para a educação do povo brasileiro.

Deve-se lembrar também que pelo artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, “é dever do jornalista: opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos“. O direito à liberdade de expressão não se sobrepõe ao direito que qualquer cidadão tem de não ser execrado na TV, ainda que seja suspeito de ter cometido um crime.

O jornalista não pode submeter o entrevistado à humilhação pública, sob a justificativa de que o público aprecia esse tipo de espetáculo ou de que o crime supostamente cometido pelo preso o faça merecedor de enxovalhos. O preso tem direito também de querer falar com jornalistas, se esta for sua vontade. Cabe apenas ao jornalista inquirir. Não cabem pré-julgamentos, chacotas e ostentação lamentável de um suposto saber superior, nem acusações feitas aos gritos.

É importante ressaltar que a responsabilidade dos abusos não é apenas dos repórteres, mas também dos produtores do programa, da direção da emissora e de seus anunciantes – e nesta última categoria se encontra o governo do Estado que, desta maneira, se torna patrocinador das arbitrariedades praticadas nestes programas. O governo do Estado precisa se manifestar para pôr fim às arbitrariedades; e punir seus agentes que não respeitam a integridade dos presos.

Pedimos ainda uma ação do Ministério Público da Bahia, que fez diversos Termos de Ajustamento de Conduta para diminuir as arbitrariedades dos programas popularescos, mas, hoje, silencia sobre os constantes abusos cometidos contra presos e moradores das periferias da capital baiana.

Há uma evidente vinculação entre esses programas e o campo político, com muitos dos apresentadores buscando, posteriormente, uma carreira pública, sendo portanto uma ferramenta de exploração popular com claros fins político-eleitorais.

Cabe, por fim, à Defensoria Pública, acompanhar de perto o caso de Paulo Sérgio, previamente julgado por parcela da mídia como ‘estuprador’, e certificar-se da sua integridade física. A integridade moral já está arranhada.

Salvador, 22 de maio de 2012.

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Comentários

  1. Regina Monteiro Postado em 23/May/2012 às 10:39

    Parabéns aos colegas jornalistas pela iniciativa de protestarem contra esta violência aos direitos humanos. O jornalismo deve estar sempre ao lado da verdade, dos cidadãos e promover os valores de uma sociedade mais justa e igualitária. O sensacionalismo é a vergonha do jornalismo.

  2. Rodrigo Postado em 23/May/2012 às 14:27

    a band e a globo são produtos de um brasil que deixa de ser

  3. Josiane Postado em 23/May/2012 às 15:26

    Queremos saber se houve respostas!

  4. Eduardo Postado em 23/May/2012 às 16:15

    é o típico perfil do(a) funcionário(a) com estampa, branquinha, carinha boa... São promovidas, a despeito do grande abismo cultural entre o(s) diploma(s) apresentados e o produto final disso. Esses tipos pululam em todos os setores, principalmente na iniciativa privada.

  5. Fernando Vieira Goettems Postado em 23/May/2012 às 20:50

    MP da Bahia já entrou com representação... http://sul21.com.br/jornal/2012/05/mpf-da-bahia-entra-com-representacao-contra-reporter-do-brasil-urgente/comment-page-1/#comment-48389

  6. Lyndy Luca Postado em 23/May/2012 às 21:07

    Eu escrevi um e-mail à Band solicitando que essa pseudo jornalista fosse demitida. Eles enviaram-me a seguinte resposta: "Lyndy, Informamos que a Band vai tomar todas as medidas disciplinares necessárias. A postura da repórter fere o código de ética do jornalismo da emissora. Para mais esclarecimentos , ligue para a Assessoria da Band e fale com Márcio Tadeu. 0 11 3131 4221 Estamos sempre a disposição. Atenciosamente," A Band, em momento algum, desculpou-se pelo comportamento da dita jornalista que falava sob o seu crivo. Nem um "por favor" ou "pedimos desculpas..."! Realmente, estou estupefacta com a resposta que me dirigiram... Mas o mais importante é que estão a se tomar providências! Isso é apenas uma pequena mostra do que o povo, "botando a boca no trombone", é capaz de fazer!

  7. Marluze Postado em 30/May/2012 às 11:59

    Indigação total. Concordo. Não é a cara que faz o profissional. http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/forum/na-tv-uma-violencia-contra-toda-a-sociedade/

  8. Breno Postado em 05/Jun/2012 às 14:51

    O crime por ela cometido acaba por se tornar mais patético do que o do entrevistado, eis que a mesma se apresenta como pessoa de bom discernimento e elevado grau de escolaridade, mas utiliza-os para agredir e ofender uma pessoa simplesmente para fazer chacota e demonstrar ser uma pessoa superior. De pessoas assim minha querida, a sociedade está farta. Vai pro Shopping passear e deixa o cargo pra quem realmente tem moral pra trabalhar. Pede pra sair!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  9. Jéssica Postado em 05/Jul/2012 às 15:10

    O fato é que diversos crimes bárbaros são noticiados pela mídia diariamente e não há repórter que se ouse a destratar um acusado quando este possui um alto poder aquisitivo.

  10. ana luiza Postado em 19/Sep/2013 às 14:32

    pessoal, alguem pode me informar os desdobramentos deste fato? Obrigada.

  11. Angelo Postado em 03/Oct/2013 às 15:17

    lamentável que esses programas tenham audiência... Isso é fruto da cultura do nosso povo que gosta dessas coisas, o povão mesmo, adoraria ver linchamentos pela tv... Lixo social tem que ser jogado fora... E reeducar as pessoas, a justiça, a cidadania, fica aonde?

  12. EDUARDO Postado em 31/May/2014 às 18:25

    Infelizmente, temos no Brasil uma cômica inversão de valores. A mídia julga, sendo que o seu papel principal seria o de informar COM IMPARCIALIDADE, sem estabelecer juízo de valor, a não ser nos editoriais jornalísticos. Temos também outro grave problema: o social. Um país onde uma pessoa menos esclarecida e com menos posses se torna vítima de chacota televisiva, sem direito a defesa alguma é um pais que ainda tem muito a aprender....

  13. ANDERSON Postado em 05/Aug/2014 às 14:06

    engraçado... depois de ler todas as opiniões descritas pelas pessoas á cima, e vamos deixar claro que este canal é aberto para expor a notícia, a indignação, opiniões, entre outras, quero lembrar que o sofrimento, a exposição , vergonha, entre outros ruins sentimentos sofridos por essa mulher ninguém fala... direitos humanos para presos tudo bem ..bonito, e para quem sofreu????vou falar uma coisa sobre profissão:. TODAS TEM AS SUAS ÉTICAS, MAS NA MORAL VAMOS COLOCAR A MÃO NA CABEÇA E ESQUECER UM POUCO AS ÉTICAS E AGIR COM O CORAÇÃO... SE VOCÊ NÃO SE COMOVE POR UMA MULHER QUE FOI ESTRUPADA E DEIXAR DE LADO ESTA ÉTICA, MEU AMIGO(A) REALMENTE O NOSSO MUNDO ESTÁ PERDIDO.