Redação Pragmatismo
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América Latina 03/Apr/2012 às 09:40
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Eduardo Galeano lança novo livro e afirma: "Fomos treinados para ter medo de tudo"

A cada dia, nasce uma história em “Os filhos dos dias”, novo livro do escritor uruguaio. São 366 textos que, segundo Galeano, são histórias de invisíveis que merecem ser contadas. Confira a entrevista

eduardo galeano literatura abortoPublicado por Brasil de Fato, original de La Republica

Por que este título: Os filhos dos dias?

Segundo os maias, nós somos filhos dos dias, ou seja, o tempo é que estabelece o espaço. O tempo é nosso pai e nossa mãe e, como somos filhos dos dias, o mais natural é que a cada dia nasça uma história. Somos feitos de átomos, mas também de histórias.

Dentro dessas histórias há muitas vinculadas à nossa vida cotidiana. Você assinala: “vivemos em um mundo inseguro”. A particularidade é que projeta que existem diferentes concepções sobre a insegurança. A que se refere?

Muitos políticos no mundo inteiro, não é algo que passa somente em nosso país, exploram um tipo de histeria coletiva a respeito do tema da insegurança. Te ensinam a ver o próximo como uma ameaça e te proíbem de vê-lo como uma promessa, ou seja, o próximo, esse senhor, essa senhora que anda por aí, pode roubar-te, sequestrar-te, enganar-te, mentir para você, raramente oferecer-te algo que valha a pena receber. Creio que essa forma parte de uma ditadura universal do medo. Fomos treinados para ter medo de tudo e de todos e este é o álibi que necessita a estrutura militar do mundo. Este é um mundo que destina metade de seus recursos à arte de matar o próximo. Os gastos militares, que são o nome artístico dos gastos criminais, necessitam de um álibi. As armas necessitam da guerra, como os abrigos necessitam do inverno.

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Quando fala dos medos, você joga com essa palavra para assim mencionar os meios e tem uma história que é “os meios de comunicação”. A que lugar você atribui aos meios em nossos medos?

Às vezes, os meios atuam como medos de comunicação, então, se convertem em medos de incomunicação. Isto não é verdade para todos, mas sim para alguns meios que no mundo inteiro exploram esse tipo de histeria coletiva desatada com o tema da insegurança. Mentem, porque a insegurança não se reduz à insegurança que se pode sofrer nas ruas. Inseguro é este mundo e a primeira é a insegurança no trabalho, que é a mais grave de todas e da qual nunca falam os políticos que exploram o tema da insegurança. Não há nada mais inseguro que o trabalho. Todos nos perguntamos: e amanhã, haverá quem me contrate? Voltarei ao lugar de trabalho onde estive hoje? Terá alguém ocupado meu lugar?

Esse medo real de perder o trabalho ou de não encontrá-lo é a fonte de insegurança mais importante. Tão inseguro é o mundo, a quantidade de pessoas que matam os carros nisso que chamamos acidentes de trânsito, na realidade são atos criminosos por conta dos condutores que tendo permissão de dirigir, tem permissão para matar, ou a insegurança da maioria das crianças que nascem no mundo condenados a morrer muito cedo de fome ou de enfermidade incurável.

Aparecem as histórias dos desaparecidos, mas lhe menciono uma em particular, chamada Plano Condor, onde a história que se conta pertence a Macarena Gelma. Como foi para você conhecer Macarena Gelman?

Comecei conhecendo ao pai de Macarena (Marcelo) e ao avô Juan (Gelman) com quem trabalhei junto na revista Crisis em Buenos Aires e que é meu amigo de toda a vida. São muitos anos de amizade, ou melhor, de irmandade. Juan (Gelman) teve que sair da Argentina para continuar vivo, naqueles dias que se viviam em Buenos Aires, onde tinha que ir ou esconder-se. Então, eu recebia com muita frequência a seu filho Marcelo e me fiz de pai por algum tempo, depois o mataram, e a outra história é bastante conhecida.

A mulher de Marcelo (María Claudia) foi sequestrada na Argentina. Eram acusados do crime de protestar, delitos de dignidade que tem a ver com o direito estudantil ao protesto. Esses eram os crimes dos meninos, como eles foram assassinados muito cedo. A María Claudia assassinaram no Uruguai, onde já funcionava o mercado comum da morte, que foi o melhor em funcionamento, porque o Mercosul ainda tinha dificuldades graves. O mercado da morte funcionou muito bem naquelas horas do terror onde as ditaduras trocavam favores. Mandaram María Claudia grávida para o Uruguai e aqui os militares uruguaios se encarregaram do trabalho. Esperaram ela dar à luz, ela passou seus últimos dias, ou talvez seus últimos meses, na sede do Bulevar Artigas e Palmar (SID) onde descobriu-se a placa em memória de María Claudia e todos os que estiveram ali.

Me impressionou o contraste pela beleza exterior do palácio e os horrores que escondia. Depois de dar à luz, a mataram e entregaram seu filho(a) a um policial, troca de favores. A partir de uma busca complicada de Juan (Gelman) e seus amigos, conseguiu encontrá-la e agora chama-se Macarena Gelman. Nós tornamos muito amigos e uma vez jantando em casa, me contou essa história que é parte das histórias de “Os filhos dos dias” (livro). É uma história muito íntima, muito particular e lhe pedi autorização para publicá-la. É uma história rara, mas reveladora. Conta que quando ainda não sabia quem era e vivia em outra casa, com outro nome, nesse período sofria de insônia contínua, que não a deixavam dormir a noite porque a perseguia sempre o mesmo pesadelo. Via uns senhores desconhecidos muito armados que a buscavam no dormitório onde estava dormindo, debaixo da cama, no guarda-roupa e em todas as partes e ela acordava gritando e angustiadíssima.

Durante muitíssimo tempo, toda sua infância teve esse pesadelo que a perseguia e ela não sabia o por quê, de onde vinha. Até que conheceu sua verdadeira história e soube que estava sonhando os pesadelos que sua mãe havia vivido enquanto a formava no ventre. A mãe, uma estudante de apenas 19 anos, era perseguida de verdade por outros senhores armados até os dentes que a encontraram e a mandaram para morrer no Uruguai. Macarena estava no ventre dessa mulher acoada e perseguida. Desde o ventre padecia a perseguição que sua mãe sofria e depois a sonhou e se converteu em seus próprios pesadelos. Ela sonhou o que sua mãe havia vivido. É uma história que parece uma metáfora da transmissão, das penas, dos horrores, e também de outras continuidades que não são todas horríveis.

É um livro que contém muitas histórias de mulheres. Por que?

Também há muitas histórias de mulheres em meus livros anteriores, como Espelhos e Bocas do Tempo. Há muitas histórias dos invisíveis, e as mulheres ainda são bastante invisíveis. Há histórias de negros, de índios, das culturas ignoradas, das pessoas ignoradas e que merecem ser redescobertas porque têm algo para dizer e vale a pena escutar.

Neste último livro (Os filhos dos dias) há uma história que me impressionou muito, e que não havia escrito até agora, a de Juana Azurduy. Juana foi uma heroína das guerras de independência. Encabeçou a tomada do Cerro de Potosí que estava nas mãos dos espanhóis. Ela era a chefe de um grupo guerrilheiro que recuperou Potosí das mãos espanholas.

Depois seguiu guerreando pela independência, perdeu seus 7 filhos e seu marido nessa guerra. Finalmente, foi enterrada em uma fossa comum e morreu na pobreza mais pobre que se possa imaginar. Antes havia recebido um título militar, foram as forças independentistas as que lhe deram um título que dizia em mérito: “a sua viril coragem”. Precisou-se de muito tempo para que uma presidenta argentina (Cristina Fernández) a outorgasse o título de General por sua feminina valentia.

Há muitas histórias dos povos originários, da luta pelos recursos naturais, e o rol das multinacionais. Em particular, uma história dedicada à selva amazônica.

Essa história sobre a Amazônia recorda que a Texaco, empresa petroleira que derramou veneno durante muitos anos, arruinou boa parte da solva equatoriana. Foi a juízo, mas perdeu. As vítimas desse atentado à natureza e às pessoas desse lugar não tinham meios econômicos, enquanto a Texaco contava com centenas de advogados. Ao cabo de anos, contudo, o pleito foi ganho, mas ainda não se colocou em prática, porque há muitas maneiras de se apelar, e de tirar a bola para fora e para isso não faltam doutores.

No livro tem um olhar crítico sobre os governos progressistas que ainda não descriminalizaram o aborto.

O livro toca todos os temas sempre a partir de histórias concretas. Não é um livro teórico.

As 366 histórias não são somente latino-americanas, você percorre o mundo.

Há muitas histórias que merecem ser recuperadas. Luana, por exemplo, foi a primeira mulher que firmou seus escritos nas tábuas de barro. Ocorreu há quatro mil anos e dizia que escrever era uma festa. Essa mulher é desconhecida. E vale a pena contar que essa história existiu.

A respeito da crise internacional , você resgata o que ocorreu na Islândia e o movimento dos indignados na Espanha.

Esta crise provém de um círculo muito pequeno de banqueiros onipotentes. Me ocorreu para esta história um título sinistro que foi “adote um banqueiro”. Os responsáveis da crise são os que mais têm se queixado e os que mais dinheiro tem recebido. Eles têm sido recompensados por fundir o planeta. Todo esse dinheiro que destinou aos que causaram o pior desastre na história da humanidade seria suficiente para dar comida aos famintos do mundo com sobra, inclusive.

Você acha uma contradição a existência do movimento dos indignados e que, ao mesmo tempo, tenha ganhado o Partido Popular na Espanha?

A aparição dos indignados é o que de mais lindo ocorreu no mundo nos últimos tempos. Creio que o melhor da vida é sua capacidade de surpresa. O melhor dos meus dias é o que ainda não vivi. Cada vez que uma cigana me cerca para ler a minha mão a peço por favor que a pague, mas que não leia. Não quero que me digam o que vai me ocorrer, o melhor que a vida tem é a curiosidade e a curiosidade nasce da ignorância do destino. A explosão dos indignados começou na Espanha, e depois se estendeu em outras partes. É uma boa notícia a capacidade de indignação. Bem dizia meu mestre brasileiro Darcy Ribeiro (intelectual brasileiro já falecido) que o mundo se divide entre os indignos e os indignados e que tem-se que tomar partido, há que se eleger.

Pensei muito nele quando surgiu este movimento. Jovens que perderam seus empregos e suas casas por responsabilidade desses malabarismos financeiros que acabaram despojando os inocentes de seus bens. Eles não foram os que pegaram empréstimos impossíveis, não foram eles os culpados da bolha financeira e deste disparate que aconteceu na Espanha de construir e construir e agora está cheia de moradias desabitadas e gente sem casa.

O PP ganhou a eleição, é verdade. A direita ganhou as eleições, e terá que lutar para que isso mude. Isto que aconteceu na Espanha também fala do desprestígio de forças de esquerda que entram na vida política prometendo mudanças radicais, e depois terminam repetindo a história, ao invés de mudá-la. Muitas pessoas, sobretudo os jovens, se sentem desapontadas e abandonam a política.

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Comentários

  1. Prof. PADilla UFRGS Direito Desportivo Postado em 03/Apr/2012 às 12:04

    O medo é a pequena morte. O medo eleva barreiras, constrói muros e aumenta as distâncias entre as pessoas de bem, e tem sido FOMENTADO pelos safados para lhes ampliar os espaços. A Coragem base transdisciplinar da proposta do movimento Acordar que se assenta, basicamente, em 4 pilares que se podem resumir: 1. A verdade. Acorda, ilumina e harmoniza. Quem ainda não a encontrou provavelmente parou de coletar informações antes de chegar no final... 2. A coragem: Contrói pontes e encurta distâncias. O medo - que cria muros e barreiras e aumenta as distâncias entre as pessoas de bem, tem sido FOMENTADO pelos safados para lhes ampliar os espaços. 3. A intenção positiva (ou amor incondicional): Todas as pessoas de bem querem o mesmo, um mundo melhor, embora estejam sendo jogadas umas contra as outras pelos safados aproveitando das peculiaridades de COMO cada uma deles imagina que seja um mundo emlhor, e o que precisamos fazer para despertá-lo. De certa forma, cada um de nós tivemos um pouco de responsabilidade até agora pois nos deixamos manipular, pelos safados, que para isto usam o medo e outras emoções/características primitivas. Reescrevendo uma das máximas satrianas: “Liberdade é o que você faz daquilo que fizeram a você.” maturidade de não se DEIXAR manipular pelas emoções, aprendermos um razoável controle. Uma boa estratégia é procurar - em tudo, qual a intenção positiva dos agentes. Facilita perceber as intenções positivas ecológicas, das intenções (positivas para quem quer aquilo) egoísticas... 4. O Acordar: Cabe a cada um construir um mundo melhor a partir de si mesmo, não se permitindo manipular e colabando, sempre e a cada momento, para acordar as pessoas de seu contato... O mais interessante e extraordinário na amizade, é a troca de idéias que propicia. Porque quanto mais nos libertamos das idéias, doando-as desinteressadamente, maior espaço abre-se, em nossa consciência, para que muito mais idéias novas cresçam e floresçam! alguns segundos atrás

  2. Emanuel Maciel Postado em 10/Apr/2012 às 13:54

    Pra se pegar dinheiro no banco ou caixas bancários é feito um super esquema de segurança, com policiais altamente preparados e armados, e transportados em carros que suportam diversos tipos de armas com janelas e para-brisas idem. As pessoas são transportadas em caixas quentes e barulhentas chamadas ônibus e que muitas das vezes dão prego ou não param quando solicitados, e se a pessoa tiver com risco de vida... não se têm um super esquema para salva-las e muito menos pessoas super preparadas e com "armamento" de ultima geração. Geralmente são pessoas, ou heróis, que ja sera angustiado por sua árdua rotina e baixa remuneração. No Banco, se esperava muito tempo para se ser atendido, entretanto, criou-se uma lei que faz esse atendimento ser rápido. Nos hospitais, se espera a morte ta pior maneira possível, e nada é feito pra mudar, pelo menos até esse segundo. E.M 2012

  3. sergio luís Postado em 27/May/2012 às 07:49

    O medo inibe a solidariedade e a esperança,faz com que as pessoas vivam enclausuradas em sua pseudo-segurança. A atriz Regina Duarte falou que tinha medo na eleição de 2002 e o medo que ela dizia sentir é o medo que as classes mais abastadas sentem de não se sentir representadas e de perderem privilégios. O medo alimenta reações violentas de agressões não vividas,o medo legitima um estado policial e repressor. Qualquer negro é suposto ladrão e qualquer árabe um suposto terrorista. O estereótipo daquilo que sugere medo é o estereótipo do marginalizado e oprimido,que na verdade é a vítima da violência dessa construção do inconsciente coletivo por parte da mídia. As UPPs estão aí,legitimando um governo CORRUPTO no qual o investimento na educação faz com que o estado do Rio esteja apenas na frente do Piauí em qualidade em toda a federação

  4. carla suhett Postado em 20/Oct/2012 às 13:34

    Acho pertinente quando Galeano fala sobre o papel da mídia na disseminaçaõ do medo;a coisa é divulgada de forma tal como se não houvesse saída ou propostas novas e estivéssemos condenados a viver neste círculo vicioso.Há novas formas de viver e de se conceber a Vida!!!

  5. Raquel Majela Lemos Postado em 25/Oct/2012 às 00:07

    O medo fez-me refém de um ex-marido, mal, tirano que usa até a magia negra: terreiro de umbanda. Quando percebi, pedi o divorcio alegando que gostava dele como a m irmão de sangue meu. No começo, acredito até que ele tenha gostado; mas a empregada, a cozinheira, a mãe. a lavadeira, a cotureira; enfim a mulher tem várias jornadas de trabalho, além da profissão exercida. Formei-me em Letras e deixei de trabalhar com meu ex-marido. Adoro ser professora, mas os filhos (já adultos) optarm por morarem comigo, havia um com 17 anos e estudava e então ele dava uma pensão, mas logo meu filho completou idade encerrou a pensão. O ex-marido mandou ,ou a mulher que ele arrumou , fazer um feitiço contra mim. Sou uma peesoa de fé, mas acontece que eu estava com enormes dificuldades financeiras e sem ajuda. Ficava cada dia mai cansada, veio o estresse, a fadiga, depressão - deixei a porta aberta para o feitiço entrar- e assim fui parar em um hospital piquiátrico. aí de lá completamente grogue de medicamentos; perdi a memoria, fiquei afastda do trabalho por causa da doença. Foi o cansaço que me deixou vulneravel e então fui obsediada, outra alma tomou meu corpo e quem me salvou foi minha irmã, que tinha plena convicção de que quem estava alí não era eu; por causa do olhar. Afinal só consigo falar com uma pessoa olhando no olho. Minha irmã levou-me em um centro espírita que retiraram o hóspede indesejado. Quando iam me afatar do trabalho para outra área, depois de um licença longa, pedi para meu ex-psiquiatra dar-me alta e ele deu. Fui para uma das piores escolas e sobrou para mim as 6 quintas séries da escola, todos fora da faixa, repetenes, bi repetentes e comecei um trabalho árduo para faze esa 5ª e depoi no ano seguinte as 6ª a lerem e escreverem um português melhor, norma padrão. A qual só é aceita nos artigos de delegaciad para cima. Porém a diretora não foi com a minha cata, pois eu não baixava a cabeça nas reuniões pedagógicas e essa diretora não quiz conhecer meu trabalho, chamou-me na sala dela para me dar bronca sem motivo e para quem estava frágil. Obviamente eu agentei at´r o fim do ano o concurso de remossão: só havia uma escola CEF 17 na Expanão do setor O. Consegui trabalhar até maio de 2009, renovaram minha licença mmédica té outubro de 2010 quando foi publivsfs minha aposentadoria no Diário Ofiicial. Estou lutando, desistir jamais. Raquel Majela lemos - professora de Língua Portugurda

  6. Wilson Pereira Filho Postado em 29/Jul/2013 às 22:00

    O medo é um estado de inconsciência mórbido, enquanto o homem não for educado para observar os seus medos sem dele procurar fugir, jamais será capaz de transcendê-los.