Redação Pragmatismo
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PT 17/Feb/2012 às 14:17
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O PT, Kassab e os aeroportos: exame de polêmicas à luz da realidade

O maior desafio é continuar a desenvolver um projeto de governo inclusivo, aliando crescimento à distribuição de renda, e agindo de acordo com princípios defendidos pelo PT em situações decisivas

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Lula enfrentou encruzilhadas e aceitou desafios

Há dez anos no poder, o PT enfrenta grandes transformações, algumas que chegaram a arranhar sua essência, mas, mal ou bem, se mantém como o único partido efetivamente orgânico do Brasil e que se mostra capaz de levar adiante um projeto comprometido com a distribuição de renda e a redução das desigualdades. Neste percurso, o partido perdeu a virgindade, impossível de ser mantida na idade adulta, e encarou a realpolitik na busca, conquista e manutenção do poder.

Agora mesmo, o PT se depara com duas questões polêmicas, que causam desilusões, mas que precisam ser examinadas à luz da realidade, com todas as nuances que as envolvem. A primeira é a privatização dos aeroportos, já em curso com a concessão de três terminais à iniciativa privada, e a outra é uma possível aliança com o PSD de Gilberto Kassab nas eleições do fim do ano para a prefeitura de São Paulo.

Sem querer invocar questões semânticas, existe uma diferença substancial entre vender um bem ou empresa pública, como foi feito com a Vale do Rio Doce e a CSN, por exemplo, e conceder serviços à administração e exploração privada. Isso, aliás, já ocorre com as rodovias, exploradas há anos por concessionárias, em diferentes governos.

Mesmo quando se trata de concessões, há diferenças de princípios entre visões políticas. Umas simplesmente outorgam a concessão e sobre ela não exercem praticamente nenhum poder, permitindo excesso de pedágios a preços aviltantes. Outras escolhem o concessionário pela melhor relação serviço/custo do pedágio, buscando beneficiar os usuários do serviço concedido.

Na concessão dos terminais aeroportuários, a Infraero manteve participação de 49% e poder de veto sobre decisões. Os concessionários não podem fazer reengenharia com o pessoal da Infraero e nem revender os aeroportos, que não lhe pertencem. Os grupos privados que assumem os terminais não podem fechar os olhos à a realidade brasileira, e fazer como Roger Agnelli, quando estava à frente da Vale, que encomendou meganavios fora do país, desprezando a indústria naval que ressurgia e aqui gerava empregos.

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Concessão de serviços públicos sempre existiu e continuará existindo independente do viés do governo. Se o Estado está sem condições de fazer os investimentos necessários para o seu bom funcionamento, que o conceda dentro de regras claras e benéficas para a sociedade, e se concentre nos investimentos sociais, estes sim essenciais para a transformação que o país vem experimentando nos últimos anos.

Já a aliança com Kassab deve doer mais nos corações petistas, mas ela não parece pior do que as feitas nos dois governos de Lula e no atual governo Dilma. O PT sempre priorizou as alianças com partidos do centro à esquerda, como PDT, PSB e PCdoB, mas apenas com eles não conseguiria chegar ao poder, e, sobretudo, governar, dentro das regras (ruins) do jogo da política brasileira.

Logo na primeira vitória de Lula, o arco estendido a uma série de legendas médias e pequenas, e sem nenhuma ideologia, a não ser desfrutar do poder, causou sérios prejuízos, manchando o partido e o governo. Na reeleição, Lula já aliou-se ao PMDB – idéia defendida por José Dirceu desde 2002 -, estabilizando mais o governo, mas, nem por isso, vendo-se livre de maus ministros e pequenos golpes.

Mesmo com esses problemas, Lula desenvolveu um projeto de governo inclusivo, aliando crescimento à distribuição de renda, e agindo de acordo com princípios defendidos pelo PT em situações decisivas, como a política adotada na crise econômica mundial, a partir de 2008. Isso só é possível quando existe um grupo hegemônico nas alianças. O PT teve que ceder muitas coisas aos partidos que formam a base de apoio a seus governos, mas é ele que comanda o processo e dá as diretrizes do governo.

No caso de uma possível aliança com Gilberto Kassab, talvez seja ela o caminho para a conquista do governo de São Paulo e para encerrar um ciclo que distancia a capital paulista do resto do país. Mais do que isso, poderia significar o tiro de misericórdia no setor mais conservador do país, entrincheirado lá, como em 1932, atrapalhando o salto definitivo para um país mais justo e mais humano.

Mair Pena NetoDireto da Redação

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Comentários

  1. Diogo Costa Postado em 17/Feb/2012 às 18:12

    Desde que Lula chegou a presidência a 8 anos atrás, as pessoas que apoiam o PT tem sentido na pele o preconceito e a raiva que a elite paulistana tem por ele. Fazer aliança com Kassab não é apenas um conjuctura política. É humilhar o militante que tanto lutou para defender este governo e seu projeto. A população de São Paulo não quer Kassab. As pessoas que votam no PT não querem esta aliança. Então porque ela deve existir? Apenas mostra que o PT, como todos os outros partidos, está esquecendo de levar em consideração o seus eleitores e isto acaba mostrando que ele será igual a todos os outros.

  2. marcelo Postado em 17/Feb/2012 às 18:29

    Aqui em M'Boi Mirim, o Kassab é uma persona NON GRATA, se o PT aceitar o apoio do PSD, esse grande colégio eleitoral vai frustar a contabilidade petista. Quem viver verá

  3. jonathas Postado em 17/Feb/2012 às 19:42

    não concordo com a privatização dos terminais aeroportuários. soube essa semana que os terminais de campinas, que é um aeroporto de carga, dava o lucro necessário p/ cobrir os déficits de 20 outros aeroportos!esse déficit, então, passa a ser do governo. em relação à aliança com Kassab, vejo com bons olhos. como o PSD é formado, em sua maioria, pelos dissidentes do PSDB, é bom reforçar essa separação. não ideológica, porque não há. mas no sentido de acabar com o ciclo neoliberal em são paulo...

  4. Matheus Postado em 20/Feb/2012 às 01:14

    Sou contrário à privatização de qualquer forma que seja feita, venda ou concessão, por entrega pura e simples ou "parceria público-privada" (onde o público entra com o investimento e o privado sai com o lucro).

  5. Henrique Postado em 24/Feb/2012 às 12:49

    Quem é aliado do Sarney não deveria se envergonhar de uma aliança com Kassab. Essa aliança só reforça o ideal atual do PT de se manter no poder a qualquer preço, se igualando aos partidos que tanto criticou no passado. Infelizmente não existe liderança politica consistente neste pais.

  6. Rafael Postado em 24/Feb/2012 às 20:47

    Em primeiro lugar a suposta aliança PT-PSD, por mais dolorida que fosse, seria menos se não houvesse retrocesso na diretriz econômica. Para mim o PSD foi uma criação, não do Kassab, para tapear o governo... Privatização e concessão pro povão que foi esfolado pelos privatistas durante muito tempo tem uma conotação muito ruim. A impressão que tenho é que está se reeditando as novas "parcerias" com a iniciativa privada para os serviços públicos, isto é prejudicial ao povo em geral. Mas a justificativa é que se for uma concessão bem feita, com regras e se o Estado não tiver condições de dar conta de tal serviço, não mal nenhum. O problema neste argumento é se o Estado não tem condições, por que raios o BNDES tem que financiar esta coisa? O BNDES poderia financiar a própria Infraero, penso eu. E qual o motivo para a exigência de empresas estrangeiras no leilão ou licitação, não me lembro ao certo?