Redação Pragmatismo
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Rede Globo 25/Feb/2012 às 14:44
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Assassinato da língua: "Padrão Globo de qualidade" extermina a voz brasileira

Esse ar “civilizado”de apresentadores regionais mereceria um Molière. Enunciam, sempre sob orientação do fonoaudiólogo, “mê-ninô”, “bô-necÔ”, enquanto o povo, na história viva da língua, continua com miní-nu e buneco. O que antes era uma transformação do sotaque, atingiu algo mais grave: na sua inesgotável ignorância, eles passaram a mudar os nomes dos lugares naturais da região

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Urariano Mota

Mais de uma vez eu já havia notado que os apresentadores de telejornalismo têm uma língua diferente da falada no Brasil. Mas a coisa se tornou mais séria quando percebi que, mesmo fora do trator absoluto do Jornal Nacional, os apresentadores locais, de cada região, também falavam uma outra língua. O que me despertou foi uma reportagem sobre o trânsito na Avenida Beberibe, no bairro de Água Fria, que tão bem conheço. E não sei se foi um despertar ou um escândalo. Olhem Clique aqui

Na ocasião, o repórter, o apresentador, as chamadas, somente chamavam Beberibe de Bê-Bê-ribe. O que era aquilo? É histórico, desde a mais tenra infância, que essa avenida sempre tenha sido chamada de Bibiribe, ainda que se escrevesse e se escreva Beberibe.

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Ligo para a redação da Globo Nordeste. Um jornalista me atende. Falo, na minha forma errada de falar, como aprenderia depois:

– Amigo, por que vocês falam bê-bê-ribe, em vez de bibiribe?

– Porque é o certo, senhor. Bé-Bé é Bebê.

– Sério? Quem ensina isso é algum mestre da língua portuguesa?

– Não, senhor. O certo quem nos ensina é uma fonoaudióloga.

Ah, bom. Para o certo erram de mestre. Mas daí pude ver que a fonoaudióloga como autoridade da língua portuguesa é uma ignorância que vem da matriz, lá no Rio. Ou seja, assim me falou a pesquisa:

Em 1974, a Rede Globo iniciou um treinamento dos repórteres de vídeo… Nesse período a fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller começou a trabalhar na Globo. Como conta Alice-Maria, uma das idealizadoras do Jornal Nacional: “sentimos a necessidade de alguém que orientasse sua formação para que falassem com naturalidade”.

Foi nesta época, que Beuttenmüller, começou a uniformizar a fala dos repórteres e locutores espalhados pelo país, amenizando os sotaques regionais. No seu trabalho de definição de um padrão nacional, a fonoaudióloga se pautou nas decisões de um congresso de filologia realizado em Salvador, em 1956, no qual ficou acertado que a pronúncia-padrão do português falado no Brasil seria do Rio de Janeiro”.

Mas isso é a morte da língua. É um extermínio das falas regionais, na voz dos repórteres e apresentadores. Os falares diversos, certos/errados aos quais Manuel Bandeira já se referia no verso “Vinha da boca do povo na língua errada do povo/ Língua certa do povo”, ganha aqui um status de anulação da identidade, em que os apresentadores nativos se envergonham da própria fala. Assim, repórteres locais, “nativos”, se referem ao pequi do Ceará como “pê-qui”, enquanto os agricultores respondem com um piqui.

De um modo geral, as vogais abertas, uma característica do Nordeste, passaram a se pronunciar fechadas: nosso é, de “E”, virou ê. E defunto (difunto, em nossa fala “errada”) se transformou em dê-funto. Coração não é mais córa-ção, é côra-ção. Olinda, que o prefeito da cidade e todo olindense chamam de Ó-linda, nos telejornais virou Ô-linda. Diabo, falar Ó-linda é histórico, desde Duarte Coelho. Coisa mais bela não há que a juventude gritando no carnaval “Ó-linda, quero cantar a ti esta canção”. Já Ô-linda é de uma língua artificial, que nem é do sudeste nem, muito menos, do Nordeste. É uma outra coisa, um ridículo sem fim, tão risível quanto os nordestinos de telenovela, com os sotaques caricaturais em tipos de físicos europeus.

Esse ar “civilizado”de apresentadores regionais mereceria um Molière. Enunciam, sempre sob orientação do fonoaudiólogo, “mê-ninô”, “bô-necÔ”, enquanto o povo, na história viva da língua, continua com miní-nu e buneco. O que antes era uma transformação do sotaque, pois na telinha da sala os apresentadores falariam o português “correto”, atingiu algo mais grave: na sua imensa e inesgotável ignorância, eles passaram a mudar os nomes dos lugares naturais da região.

O tão natural Pernambuco, que dizemos Pér-nambuco, se pronuncia agora como Pêr-nambuco. E Petrolina, Pé-tró-lina, uma cidade de referência do desenvolvimento local, virou outra coisa: Pê-trô-lina. E mais este “Nóbel” da ortoépia televisiva: de tal maneira mudaram e mudam até os nomes das cidades nordestinas, que, acreditem, amigos, eu vi: sabedores que são da tendência regional de transformar o “o” em “u”, um repórter rebatizou a cidade de Juazeiro na Bahia. Virou JÔ-azeiro! O que tem lá a sua lógica: se o povo fala jUazeiro, só podia mesmo ser Jô-azeiro.

Direto da Redação

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Comentários

  1. Claudia Postado em 25/Feb/2012 às 16:37

    Bom... eu ja vi muitos desses casos, e uma vez assistindo a um seminário de Radio e TV, um professor fala aos alunos: - O mais correto é utilizar o sotaque Paulista em programas de radio e televisão. Quando eu ouvi isso, fiquei abismada, mesmo morando em São Paulo, eu acho que cada região tem um sotaque e uma forma de falar e expressar, achei totalmente errado o que aquele professor falou aos estudantes! E até hoje sempre que estou viajando fora do meu estado, observo nas radios e televisões e o que ele tinha falado é verdade, todos os meios de comunicação acabam utilizando o sotaque Paulista, fico indignada com isso.

    • Luis Soares Postado em 25/Feb/2012 às 17:03

      É a pretensão de querer transformar o sotaque regional que não esteja alinhado aos padrões à um sinônimo de inferioridade humana e intelectual. Essa busca pela uniformidade não é nada mais do que a bestialização da linguagem.

      • thomaz Postado em 03/Jan/2014 às 12:05

        Rapá, e a tal da interrogativa: "Qual que é, qual que foi..." . Terrível! A paulistada adora... e está em praticamente quase todos os telejornais e programinhas inclusive de canais - ditos sofisticados - fechados. Considero um crime contra a riquíssima diversidade cultura nordestina.

      • francisco martins Postado em 24/Jan/2016 às 21:45

        Ariano Suassuna já comentava sobre o sotaque de aeroporto que assim como o dos tele apresentadores não é de nenhuma regiao do Brasil.

  2. Acir B Moreira Postado em 25/Feb/2012 às 22:41

    Alimento minha ideologia e minha crítica todos os dias com as postagens de colegas internautas mais críticicos como Luís Soares. Mas como Professor de Língua Portuguesa que combate diariamente o preconceito linguístico, me deliciei com esta. E concordo plenamente com as postagens acima, pois na minha pacata União da Vitória, Sul do Paraná, os locutores de FM falam com sotaque carioca ou Paulistano, muitos sem ter saído da região. Esta semana explorei com meus alunos, uma entrevista do Professor Carlos Alberto Faraco (UFPR), para a Revista "Na ponta do lápis" (dez=2011), entitulada: Olhai a beleza da diversidade linguística", na qual ele diz que "num país que lutou trezentos anos pela ideologia do monolinguismo, a variedade linguística é demonizada(...) sendo que tem que se libertar dessa demonização e perceber por dentro a beleza da diversidade linguística, a cara do país linguisticamente tão diversa".

  3. Osmar T POA Postado em 26/Feb/2012 às 01:19

    Que eu saiba, se tem BE é pra ser pronunciado BE. Não gosto de ouvir a apresntadora da BAND das 20hs dizer "fães e bões" e não fãs e bons. É um sotaque horrivel; ela devia se limitar a apresentar jornais locais e poupar-nos (gaúchos do interior) a ouvir isto e assemelhados.

    • Giada Postado em 18/Sep/2013 às 10:08

      Mais fácil seria você se limitar a ouvir apenas o seu sotaque, não acha? Eu poderia dizer que o seu sotaque que é horrível, mas não sou como você e sei valorizar as diversidades linguísticas do Brasil.

  4. Luis Soares Postado em 26/Feb/2012 às 15:34

    Acir, amigo, fico feliz com o seu comentário e é muito bom tê-lo como participante ativo deste singelo espaço democrático. Devo procurar a entrevista do professor Carlos Alberto.

  5. Luciano Faria Postado em 26/Feb/2012 às 20:05

    Adorei a matéria e também acho ridícula essa tentativa dos meios de comunicação de áudio e áudio-visual em querer criar um sotaque único para todo o Brasil. Ainda bem que vemos na reportagem que está "linkada" que o povo parece não absorver o que a mídia quer nos impor pois é gritante a diferença entre o sotaque dos reporteres e o das pessoas entrevistadas. Sotaque é sotaque e tem muitas variações até dentro de um mesmo Estado. Como exemplo podemos citar a diferença de sotaque entre a zona da mata, agreste e sertão de Pernambuco. Imagine se fôssemos reunir todos os sotaques do Brasil, que é um país de proporções continentais, e jogar num "liquidificador linguístico" e criar um sotaque único para os brasileiros. Não imagino se teríamos um "suco ou vitamina" ou se teríamos um "veneno" como resultado. Mas há de se convir que é melhor um sotaque paulissssta do que um staque cariuóca pois ôlinda se tormaria Ôlhinda. Bom, prefiro continuar cantando Ó-linda, quero cantar....".

  6. Mateus Ribeiro Postado em 29/Feb/2012 às 19:19

    Seus comentários são baseados em "achismos". Existem regras para isso. Embora hajam pequenas diferenças em locuções regionais, este é o conceito padrão ensinado para locutores nacionais: "3.3 Reduções Os finais átonos – fracos – das palavras terminadas pelas vogais e e o, e o artigo o, e a ligação em e, seguidos ou não de s, são pronunciados como "i" e "u", respectivamente. O estudante foi até o mirante e disse ao fotógrafo: faça o registro. U estudanti foi até u miranti i dissi au fotógrafu: faça u registru. Os finais de palavras sublinhados são reduções. Observe que a palavra até termina em e tônico (forte) e não segue a regra. A leitura das palavras com final átono em "e" e "o", sem redução, torna a fala artificial, como se fosse pronúncia de estrangeiro: Ô estudantê ê ô amigô…" Módulo 1 do Curso de Locução Profissional da ABLAP

    • Luis Soares Postado em 29/Feb/2012 às 19:32

      Mateus, o que você coloca apenas faz sentido para quem só teve aula de certo/errado e acha que isso é tudo, especialmente se não tiver nenhuma formação histórica que lhe permitiria saber que o certo de agora pode ter sido o errado de antes.

  7. Iranice Silva Postado em 04/Mar/2012 às 11:54

    O pior foi a reporter falar "entre eu e ele", o correto seria entre mim e ele.

  8. José Carlos da Silva Postado em 05/Mar/2012 às 12:57

    Assim transformaram o estado de Roraima em Roráima... Aqui no Estado,temos a princesa do norte capixaba que passou a ficar no Noroeste capixaba depois de uma afiliada da Globo assim começar a chamar, porém, continua sendo a princesa do norte...Entenda-se isto!

  9. Carla Joaquina Postado em 07/Mar/2012 às 10:32

    Será que eu entendi corretamente? O blogueiro aqui presente defende a PRONÚNCIA ERRADA? Então ao invés de mesmo, vamos falar mermo. Não chamaremos mais o irmão de irmão e sim de brôu. Será agora mermão e não meu irmão. Que você queira falar mal da Rede Globo, tudo bem, é um direito seu. Mas por favor, arranje uma razão melhor. Porque boneco é e sempre será bôneco. Tomate não é tumati e tômatê. E viva a língua portuguesa.

    • Luis Soares Postado em 07/Mar/2012 às 12:41

      Sim, Carla, você entendeu errado. Mas aí é que está: és livre para usar da interpretação que quiseres.

  10. Leonardo Teixeira Postado em 19/Mar/2012 às 17:24

    Fala-se do jeito que se escreve. Ponto. Sotaque é outra história... Como tenho direito, achei o post estúpido. Vi o link e pensei que ia ler algo de relevância. A Globo é uma empresa. Nenhum garçom trabalha sem seu uniforme. Da mesma forma que nenhum apresentador deve fugir do padrão da Globo. É a regra da empresa. Mesmo assim, parabéns.

    • Rosana Postado em 20/Feb/2014 às 15:06

      A questão é que essa padronização já está descaracterizando os nomes das próprias regiões. Além disso, fala do jeito de se escreve, VÍRGULA. Várias palavras com "e" têm valor de "i", ou letra "o" valer como "u", por exemplo. O português não é uma língua tão fonética assim, e esse é um dos motivos de ter tanta gente escrevendo errado. Se fosse regra falar com se escreve, todos falariam "muito" em vez de "muiNto", ou falariam Copácábáná em vez de Cópacábãna. A própria pronúncia do nome "Rio de Janeiro" é "Riu di Janeiru" na maior parte do país. Então eu defendo a preservação dos sotaques. Podem suavizar, mas não padronizar.

  11. Anonimo Postado em 19/Mar/2012 às 20:13

    Isso é verdade. Trabalhei numa empresa que prestava serviços à rede globo. No contrato já estava explícito que os "atendentes", se não fossem cariocas, deviam falar com o sotaque carioca. Um absurdo tão ridículo que não tenho nem palavras.... isso estava EM CONTRATO e se a empresa não cumprisse, podia pagar multa. Quer absurdo maior também que a XUXA? Gaúcha com aquele sotaque carioca? E a Angélica, Paulistana??? Ninguém merece. E a mini série "As Cariocas" que de Cariocas teve acho que no máximo 2 atrizes? agora que consertaram e mudaram o nome para "As brasileiras". Devem ter recebido inúmeras críticas!!!

  12. Anonimo Postado em 19/Mar/2012 às 20:14

    Detalhe: A empresa fica no interior de São Paulo.

  13. ikk Postado em 22/Mar/2012 às 22:19

    Mas se você tem o direito de falar Bibiribe, eles também têm o direito de falar Beberibe, não é?

    • Rosana Postado em 20/Feb/2014 às 15:08

      Mas eles não têm o direito de falar JOazeiro.

  14. Thiago Machado Postado em 02/Apr/2012 às 10:30

    Leonardo, fala-se do jeito que se escreve? Pois bem: então, vamos ver: como vc fala as seguintes palavras: axé, exame e sexo? Bom, vamos ver... nas 3 palavras temos a mesma letra, o "x", entre duas vogais. Sempre a mesma situação, certo? Então temos que pronunciar o "x" sempre da mesma forma? Olha, mas que gozado... NÃO é pronunciado da mesma forma! E, além disso, tirando algumas populações do sul do país, as palavras terminadas em "e" e "o" não são pronunciadas por NINGUÉM com esses fonemas. Para maioria das populações do Brasil, tomate não termina em "tê" átono, e sim em "ti" ou "tchi". Menino não se pronuncia "mê-ni-nô' para vastas parcelas da população brasileira, e sim "mi-ni-nu". Inclusive pessoas que "cultas", no sentido de que estudaram. No meu Estado de Minas Gerais, por exemplo, pessoas pós graduadas e pessoas analfabetas falam, da mesma forma, "mininu", sem medo de ser feliz. Àqueles que acham que manuais de locutores sabem alguma coisa de língua; que acharam esse post estúpido; que acusam o autor de "achismo", deveriam, em vez de eles mesmos ficarem "achando" tudo isso, ler mais e estudar linguística. Se tivessem se dado ao trabalho de estudar um pouco, veriam que a ciência linguística moderna aponta exatamente o mesmo caminho do blogueiro. Já vocês fazem críticas sem fundamento algum, e com a pior das arrogâncias, típíca de quem não tem argumento.

  15. Karina Postado em 20/Apr/2012 às 04:27

    Depois de muito ler e escutar nesta vida, cheguei à seguinte conclusão: os detratores acérrimos da linguística (e da sociolinguística) são como os moralistas. Sua prédica cotidiana demonstra uma profunda ignorância sobre o que estão falando e uma prática real completamente inversa. Quanto mais ignorante se é, mais se nega a linguística e se defende cegamente as ilusórias normativas da gramática tradicional (que, aliás, contempla e aceita as variantes regionais de pronunciação).

  16. Marcos Antonio Scur Postado em 20/Apr/2012 às 15:30

    Sendo do sul. eu pronuncio como os reporteres, e portanto para mim esta bem ouvi-los assim; mas a pronuncia nordestina e' linda e o povo vai continuar falando assim independentemente do trabalho dos reporteres. Mas quem e' de outra parte do Brasil nao vai falar com o sotaque nordestino jamais, a nao ser que passe a viver no nordeste (o que nao e' o caso da maioria). Portanto, a nivel nacional a pronuncia do portugues deve ser uma so, universal para todos os brasileiros. Ja imaginaram uma reportagem de Alegrete, RS sendo transmitida a nivel nacional inclusive para o nordeste? Pareceria aos nordestino como outra lingua, pois o sotaque do interior do RS e' muito diferente do interior do nordeste. Sendo assim, um reporter local nunca teria a oportunidade de ter uma reportagem a nivel nacional se ele falasse o "gauches"; e assim o mesmo para outros reporteres de varias regioes do Brasil. Sera mesmo que a globo esta cometendo um erro? Eu penso que nao.

  17. Adriana Postado em 09/May/2012 às 13:33

    Marcos, concordo com vc. Sou de SP-capital (nascida e criada), e como sabem há muitos nordestinos aqui. Indiferente de qualquer sotaque, acredito e concordo que pra ser em rede nacional, o melhor seria mesmo uma linguagem que todos entendessem e da forma correta. É muito ruim, inclusive, ouvir repórteres falarem errado, e olha que é muito erro falado, muito além do sotaque. Melhor deixar as formas de dizer para a população regional e não para a mídia.

  18. Ana Carolina Postado em 01/Jun/2012 às 18:03

    Osmar T POA: Para provar que existem pessoas que pensam assim e vêem seu sotaque como superior. Meu deus, o que é esta frase: "É um sotaque horrivel; ela devia se limitar a apresentar jornais locais e poupar-nos (gaúchos do interior) a ouvir isto e assemelhados." Eca. Poupe você os internautas de ter que ler isso, pf. Mateus Ribeiro: Obrigada por mostrar o que realmente acontece, de forma clara. Apenas com esse pouco que você mostrou do manual da ABLAP já é possível ver que os locutores modelam sua fala de acordo com um padrão. Acontece que esse padrão descrito (sílabas finais átonas E e O pronunciadas como I e U) corresponde ao sotaque carioca. Uma pronúncia diferente dessa (no caso, E e O átonos como "E" e "O") não "torna a fala artificial, como se fosse pronúncia de estrangeiro". Se eu não me engano, é dessa forma que os gaúchos pronunciam. Eles não são estrangeiros, e sua pronúncia não deveria ser classificada como não-padrão. Carla Joaquina: As mudanças que você propõe não são só de pronúncia (irmão->brôu?), mas acho que você sabe disso. Eu não acredito que pronunciar "B-I-B-I-R-I-B-I" seja errado, e o correto seja "B-E-B-E-R-I-B-I". São formas diferentes de pronunciar a palavra Beberibe. Não acho que seja um fenômeno comparável a gírias ou erros de português. São sotaques, nenhum está errado. Aprenda a respeitar a pronúncia de brasileiros de outras regiões, pf. Leonardo, acho que a Globo deveria se comportar como uma empresa nacional, embora não seja um órgão do Estado, mas na medida em que alcança e influencia boa parte do território nacional. Uma empresa desse tamanho não pode agir como se falasse só para o estado do Rio de Janeiro. Acho absurdo a emissora obrigar um funcionário baiano, que trabalha na filial baiana, fazendo uma matéria local que será exibida no estado da Bahia, a falar com sotaque carioca. Isso é agir como se o sotaque carioca fosse o sotaque oficial do Brasil, o padrão. O que é deplorável, na minha opinião. Marcos Antonio Scur: Não discordo completamente do que você disse, só não acho que uma pronúncia universal do português brasileiro seja uma boa idéia. Uma reportagem de Alegrete, como você disse, pareceria uma outra língua para o telespectador de Recife, mas uma outra língua que ele é capaz de entender. O que realmente dificulta a comunicação entre pessoas de regiões diferentes, na maioria dos casos, é o vocabulário diferente, creio eu. Sabe, aqueles vários nomes para a mesma coisa, que variam conforme a região? Não acho que os diferentes sotaques, dentro do Brasil criem barreiras para a comunicação oral e seja necessária a criação de uma "língua franca". Eu acho que o português brasileiro ainda é uma língua só, com variações regionais. É a emissora, no caso a Globo, que não dá a um repórter local (gaúcho) a oportunidade de fazer uma reportagem de nível nacional. Ela pode muito bem dar. Não haveria implicações catastróficas, além dos cariocas surpresos por ouvir um sotaque que não o seu em rede nacional. Os nordestinos já escutam um sotaque diferente do seu, escutam o carioca. Continuariam entendendo. Seria muito mais natural que a emissora incentivasse os repórteres a falar com o sotaque de sua região. Haveria então uma mistura de sotaques, como há uma mistura de fisionomias e vozes, e o jornal refletiria melhor a voz do Brasil.

  19. Alberto Postado em 13/Jun/2012 às 20:19

    Não se pode confundir sotaque, característica regional apreciável, com erro. Falar sutaque em lugar de sotaque é errado, falar guverno em lugar de governo é errado, e falar prisidenti em lugar de presidente é errado e tem péssima sonoridade, falar X em lugar de S é errado e irritante.

  20. Fabio Postado em 14/Jun/2012 às 14:58

    Temos um grande problema aí. Regionalismos à parte, se escuto 'Bibiribe', vou aprender que existe no Nordeste uma avenida chamada 'Bibiribe', e assim vou escrever ou mesmo pesquisar sobre o nome. Como não é a escrita correta, dificultaria a minha pesquisa, além de ensinar um nome que não existe. Delicado, qdo se quer manter a riqueza da língua, em contraponto com a correta compreensão de um nome, em todo o território nacional. Concordo que ao passar informação, deva-se utilizar um padrão que todos os brasileiros possam entender, sem causar confusões de interpretação. Eu mesmo gostaria que corrigissem o 'arroiz', que se fala nos telejornais nacionais. Ou que se reforme a língua e se coloque o tal 'i' que não existe ali. O mesmo vale pra avenida 'Bibiribe'. É a minha opinião.

  21. Ana Carolina Postado em 15/Jun/2012 às 14:28

    Alberto: lol XD Sou errada, sou irritante, sempre na ishtrada, sempre dshtantsh /ʃ/ /ʃ/ /ʃ/ /ʃ/ /ʃ/ /ʃ/ /tʃ/ /tʃ/ /ʃ/ /ʃ/ http://pt.wikipedia.org/wiki/Fricativa_palatoalveolar_surda Irritantʃʃʃ? http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Voiceless_palato-alveolar_sibilant.ogg

  22. Matheus Vieira Postado em 12/Jul/2012 às 13:46

    Não se pode esquecer a questão econômica. No Brasil o sotaque "padrão" virá da região economicamente mais influente sobre os demais. Sou professor de inglês e percebo isso em alguns países. Nos EUA o padrão está numa briga que ainda não decidem se é o sotaque do estado Californiano (cheio de variantes!) ou o da cidade de Nova York. Por enquanto Nova York está ganhando, mas é uma delícia escutar o sotaque dos estados do centro-sul dos EUA. O mesmo acontece na Inglaterra, em que Londres detém o sotaque padrão. As línguas inglesas do norte e sul do país são quase ininteligíveis. É um outro estudo da língua. Isso é perversamente natural, na verdade nos fizeram aceitar isso. Sou paulistano, mas repudio esta prática, porque existe uma questão ideológica por trás disso, a de neutralizar a identidade e despertar a pessoa para um ideal de nativo, termo que por si só já é ridículo!

  23. george Postado em 12/Jul/2012 às 14:24

    "Entre EU e o Calos Bonfim" ou "Entre MIM e o Carlos Bonfim"?

  24. Marco Alencar Postado em 12/Jul/2012 às 15:34

    Reclamar por alguém pronunciar as palavras segundo a língua formal é novidade para mim.

    • Moderação Postado em 29/Jul/2012 às 14:18

      Marco Alencar, anormal seria você conseguir explicar o que significa 'pronunciar palavras segundo a língua formal', visto que os universos da linguagem falada e o da gramática escrita naturalmente se distinguem, ou, se preferir, não confluem perfeitamente. A não ser que você leve em consideração que o Brasil esteja limitado às quatro paredes da casa onde vive.

  25. bbb Postado em 12/Jul/2012 às 15:44

    td farinha do mesmo saco,akela pedofila gaucha com sotaque carioca,akela outra metida a besta paulistana de Santo Andre,morou no Bairro do Limao e foi pra rede Podre so na imitacao do sotaque carioca fora outros tantos td igual.nnn

  26. Pedro Postado em 12/Jul/2012 às 19:20

    Post desmedido. Sou pÉrnambucano, e não foi nem um pouco ofensivo o caso de Beberibe. Até porque eu falo bê-bê-ri-be e não bi-bi-ri-be. Estás a criticar por criticar. Há coisa muito mais séria sobre a globo para ser debatida. Em síntese, faltou pragmatismo no teu post (que irônico ein?).

    • Rosana Postado em 20/Feb/2014 às 15:19

      E falar JOazeiro tá tranquilo também? Mesmo que seja Juazeiro até na escrita.

  27. Enrique Postado em 08/Oct/2012 às 11:05

    Me lembrei (espero que os cultivadores da norma padrão não liguem por eu começar com um pronome átono) de um caso há algum tempo em uma comunidade do orkut, em que alguns paulistas criticavam uma repórter baiana da Band nacional por falar "temp[é]ratura", "t[é]l[é]fone", etc., diziam que ela falava errado. Eu estava só começando o curso de Letras e aquilo me incomodou bastante, porque eu SEMPRE falei como ela e estava lendo que falei errado a minha vida inteira. Quem eles achavam que eram? Os donos da língua? Já não basta a imprensa nacional nos tentar enfiar goela abaixo sua cultura e seus times de futebol e agora ainda querem mudar nosso jeito de falar? Ahh, me faça uma garapa, viu? Eu tive o prazer de cursar fonética e fonologia com uma professora do interior paulista recém-chegada a Salvador, era uma diversão discutir as diversas maneiras de pronunciar pretônicas e postônicas em variadas regiões do país. A propósito, não conhecia o blog e, pelo título, entrei aqui esperando um monte de besteira hehehe. Excelente texto.

  28. carolina Postado em 08/Oct/2012 às 12:16

    A reclamação é pq estão ensinando o povo do Nordeste a pronunciar as palavras corretamente? Só falta me falarem que o "canidatu" e o "rezixtro" nordestinos fazem parte da cultura e não podem ser destruídos. Faça-me o favor.

    • Marlo Postado em 02/Sep/2013 às 10:55

      Meu deus! Como você é ignorante. kkkkkkkk

  29. Nazo Ribeiro Postado em 29/Dec/2012 às 15:40

    Eu também já percebi essa ignominiosa transformação (gostaram da palavra?) no modo como os apresentadores dos telejornais da TV Liberal aqui de Belém do Pará já estão falando. Todo o mundo sabe que o sotaque paraense é caracterizado pelo "s" chiado (uma mistura de carioca com português de Portugal) e que falamos, por exemplo, "litro" de "lhitro" (o som de "lh" é comum entre nós). Mas agora eles aparecem falando com um "s" sibilante, assobiado, característico das falas de paulistanos. Eu, particularmente, acho isso caricato, ridículo e imbecilizante.

  30. Fernanda Maciel da Silveira Postado em 08/Jun/2013 às 20:42

    Sou professora e considero inaceitável que a riqueza e a diversidade de nossa língua sejam vistas como "erro" por algumas emissoras de televisão. A variação linguística é um fenômeno que mostra a beleza cultural de nosso país, e tentar "neutralizar" sotaques demonstra nada mais do que a vontade de "neutralizar" também outras vozes que não sejam aquelas das elites brasileiras.

  31. Adalberto F. de Sousa Postado em 24/Jun/2013 às 18:49

    Antigamente o cabra saia do "Ciará pra Sum paulo ou Rio di Janero" e voltava xiando ou sibilando os Ss finais. Hoje em dia nem precisa mais, basta ficar na frene da tv.

  32. Tadeu Montenegro Postado em 19/Aug/2013 às 10:52

    Uma das locutoras do jornal local daqui da Petrolina-PE tem um sotaque assim "bem produzido". A afiliada local da Globo se chama Grande Rio TV e o Jornal é o "GR TV", só que ela fala: "GÊ ÊRRÊ TV". O nosso velho e bom "ÉRRE" foi assassinado!

  33. Gabi Barbosa Postado em 19/Aug/2013 às 11:22

    Ai, Carolina, que dó de você, quanta ignorância... primeiro pela falta de compreensão do texto, segundo pela falta de conhecimento da cultura nordestina. Achei super válida a discussão. É certo que os repórteres tem de falar da forma mais clara possível, mas desrespeitar os sotaques de cada região realmente já é demais.

  34. Augusto M. Postado em 25/Aug/2013 às 08:17

    Não existem as palavras gUverno, cUlégio e bUrracha, mas existe bUrrice.

  35. ODAIR Postado em 18/Oct/2013 às 22:36

    sou a favor de padronizar a falar correto. o que é "e" não pode falar "i" e pronto. tu crítico deveria ter vergonha de defender a destruição da língua pronunciando de qualquer maneira e cada vez pior. Não se adota um estado . mas não se defende o errado, sim.Parece que vai deixar de ser de onde é se falar melhor.! não tenhas medo de aprender. não aprenda com TV e sim com o óbvio de falar feio como mudar letras e comer as palavras .isso não é sotaque .

  36. Silvia Leticia Postado em 20/Feb/2014 às 08:12

    Bom, alguns reporteres de jornais locais nao sao da regiao em q trabalham. Na minha regiao, sul da Bahia, costumam aparecer reporteres de Minas, do ES e algumas regioes proximas. Imagine se eles fossem pra frente da TV baiana e comecassem a falar com o sotaque de onde vieram? De inicio, eu nao conseguiria prestar atencao em nada. Por isso eu defendo uma padronizacao mediana na fala dos profissionais dos telejornais, mas h'a q se atentar para os fonoaudiologos que as emissoras contratam. Um fono q ensina a pessoa a falar 'JOAZEIRO' ao inves de JUAZEIRO (o texto citou esse exemplo) precisa de algumas aulinhas de geografia/historia, tupi e lingua portuguesa.

  37. João Souto Postado em 26/Apr/2014 às 21:21

    Só para constar, a realização de ''o'' final em ''u'' e de ''e'' final em ''i'' são características universais à língua portuguesa, inclusive das variantes européias e africanas, tendo como exceção apenas os dialetos tradicionais do Paraná/Sul do país - o famoso ''leitÊ quentÊ dá dor no dentÊ''.

  38. Denis Pinheiro Postado em 20/Jun/2014 às 00:32

    A cidade do Ceará, Beberibe (sou de Mossoró no RN) chamamos de "Bêbêribi". Já Olinda chamamos de Ólinda mesmo. Sinceramente não sei em qual situação, nós brasileiros, estamos quando o assunto é língua portuguesa. Em que estado estamos, em qual Estado estamos... Trocadilhos a parte segue vida.