Redação Pragmatismo
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Política 13/Jan/2012 às 13:36
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Esplendorosa resposta ao papa Bento 16: amor e felicidade são ameaças?

O amor nunca poderia ser uma ameaça para a humanidade; antes, sim, uma salvação para os seus piores males, um antídoto contra os venenos que a intoxicam, uma vacina contra as doenças que a afligem

Papa Bento XVI

Papa Bento XVI

O papa Bento XVI disse que o casamento homossexual “ameaça o futuro da humanidade”.

Eu pensava que o que o ameaçava eram as guerras (muitas delas étnicas ou religiosas), a fome, a miséria econômica, a desigualdade e as injustiças sociais, a violência, o tráfico de drogas e de armas, a corrupção, o crime organizado, as ditaduras de todo tipo, a supressão das liberdades em diferentes países, os genocídios, a poluição ambiental, a destruição das florestas, as epidemias…

Porém o papa, mesmo ciente de todos esses males e consciente de que sua instituição – a Igreja Católica Apostólica Romana – contribuiu com muitos deles ao longo da história ocidental, disse que a humanidade é ameaçada pelo fato de dois homens ou duas mulheres se amarem e, por isso, decidirem construir um projeto de vida comum e obter o reconhecimento legal dessa união para gozar de direitos já garantidos aos heterossexuais.

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O amor e a felicidade como ameaças contra a humanidade: foi o que afirmou Bento XVI.

O amor, uma ameaça?!

Dentre todos os desatinos do papa, este foi o que mais me chocou. Talvez porque sua afirmação estapafúrdia e anacrônica tenha violado diretamente a minha dignidade humana de homossexual assumido e orgulhoso de minha orientação sexual e de minha formação científica (sim, porque a afirmação de Bento XVI parte da crença absurda de que o casamento civil igualitário vai transformar todos os homens e mulheres em homossexuais e vai impedir que todas as mulheres da Terra recorram às técnicas de reprodução artificial).

Ora, o amor, como a fé, é inexplicável: sente-se ou não. Não há dicionário que possa defini-lo; só o poeta pode dizer alguma coisa a respeito — fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente — mas para entendê-lo é preciso sentir tudo aquilo que o papa, os cardeais, os bispos e os padres, pelas regras do trabalho que escolheram desde jovens, são proibidos de sentir – seja por outro homem, seja por uma mulher.

Talvez por isso eles não entendem.

Mas o amor nunca poderia ser uma ameaça para a humanidade; antes, sim, uma salvação para os seus piores males, um antídoto contra os venenos que a intoxicam, uma vacina contra as doenças que a afligem. O papa está errado de cabo a rabo. Ele não entendeu nada mesmo.

Contudo, mesmo não entendendo, ele deveria ter um pouco de responsabilidade. Suas palavras têm poder, influência, entram na cabeça e no coração de milhões de pessoas no mundo inteiro. Ele poderia usá-las para fazer o bem. Em vez de dedicar tanto tempo e esforço a injuriar os homossexuais — eu confesso que não consigo entender o porquê dessa obsessão que ele tem com a gente — o papa poderia se colocar na luta contra os verdadeiros males que ameaçam, sim, a humanidade. Esses que matam milhões, que arruínam vidas, que condenam povos inteiros.

Bento XVI não pode continuar difundindo o ódio e o preconceito contra os gays. Ele não pode dizer que nós, só por amarmos, só por reclamarmos que o nosso amor seja respeitado e reconhecido, somos “uma ameaça”. Aliás, porque esse tipo de frases têm uma história. “Os judeus são a nossa desgraça!” (“Die Juden sind unser Unglück!”), disse o historiador Heinrich von Treitschke, e essa desgraçada expressão, publicada na revista alemã Der Sturmer e logo usada como lema pelos nazistas, deu no que deu. Nós, homossexuais, também sabemos disso: o nosso destino na Alemanha nazista, onde Bento XVI passou sua juventude, era o mesmo dos judeus, só que em vez da estrela de Davi, o que nos identificava noscampos de concentração era o triângulo rosa.

A tragédia do nazismo deveria ter servido para aprender que o outro, o diferente, não é uma ameaça, nem uma desgraça, nem o inimigo. E nós, homossexuais, não ameaçamos ninguém. O nosso amor é tão belo e saudável como o de qualquer um. E merecemos o mesmo respeito e os mesmos direitos que qualquer um.

Da mesma maneira que acontece agora com o “casamento gay”, o casamento entre negros e brancos — chamado, na época, “casamento inter-racial” — já foi considerado “antinatural e contrário à lei de Deus” e uma ameaça contra a civilização. Numa sentença de 1966, um tribunal de Virgínia que convalidou sua proibição usou estas palavras: “Deus todo-poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e as colocou em continentes separados. O fato de Ele tê-las separado demonstra que Ele não tinha a intenção de que as raças se misturassem”. O casamento entre alemães “da raça ária” e judeus também foi proibido por Hitler. Até os evangélicos tiveram o direito ao casamento negado em muitos países durante muito tempo, porque eram, também, uma ameaça para a Igreja católica. Parece que alguns pastores não se lembram, mas foi assim.

Na Argentina, que em 2010 aprovou o casamento igualitário, a primeira grande reforma ao Código Civil, no século XIX, foi impulsionada pela demanda dos protestantes, que reclamavam o direito a se casar. Vários casais não católicos se apresentaram na Justiça, como agora fazem os homossexuais. Quando o país aprovou a lei de criação do Registro Civil e, depois, o matrimônio civil, em 1888, houve graves enfrentamentos entre o governo argentino e a Igreja Católica, que incluíram a quebra das relações diplomáticas com o Vaticano. No Senado, um dos opositores ao matrimônio civil disse que, a partir de sua aprovação, perdida a “santidade” do matrimônio, a família deixaria de existir. A lei foi chamada de “obra-mestra da sabedoria satânica” por monsenhor Mamerto Esquiú, quem disse sobre os governantes argentinos da época que “amamentam-se dos peitos da grande prostituta, a Revolução Francesa”. Todas a predições apocalípticas que foram feitas contra a lei de matrimônio civil, no entanto, não se cumpriram. Anunciaram, garantiram que o mundo ia se acabar… mas o mundo não se acabou.

Passou-se mais de um século, mas as discussões são as mesmas. Os argumentos são os mesmos. E o papa Bento XVI continua sem entender. Não entende, tampouco, que o casamento civil e o casamento religioso são duas instituições diferentes. O casamento civil está regulamentado pelo Código Civil, que pode ser modificado pelo Congresso, já o casamento religioso depende das leis de cada igreja: por exemplo, o casamento católico é diferente do casamento judeu.

O casamento religioso é feito na igreja, templo, mesquita ou terreiro; o civil, no cartório. Para celebrar o casamento religioso na Igreja católica, os noivos devem ser batizados ou fazer um juramento supletório do batismo e devem realizar um curso prévio na igreja – o que não é necessário para o casamento civil, que pode ser celebrado por pessoas de qualquer religião ou por ateus. O casamento religioso, na maioria das igrejas cristãs, é indissolúvel – já o civil admite o divórcio.

Em conseqüência, uma pessoa pode se casar na Igreja apenas uma vez na vida, mas pode casar quantas vezes quiser no cartório, desde que seja divorciada. O casamento religioso, para que produza efeitos jurídicos, deve ser registrado no cartório – os efeitos jurídicos do casamento civil são imediatos. E essas são apenas algumas das muitas diferenças que existem entre o casamento civil e o religioso…

O que nós, homossexuais, reclamamos é o direito ao casamento civil. O projeto de emenda constitucional (PEC) que estou impulsionando no Congresso não mexe em nada com casamento religioso, cujos efeitos jurídicos são reconhecidos no art. 226 § 2 da Constituição, que se manterá inalterado. Meu projeto legaliza o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, mas nada diz sobre o casamento religioso. Da mesma maneira que o Estado não deve interferir na liberdade religiosa, as religiões não devem interferir no direito civil. Este último é uma instituição laica, que deve atender por igual as necessidades daqueles e daquelas que acreditam em Deus — em qualquer Deus ou em vários Deuses — e também daqueles e daquelas que não acreditam.

Chegará o dia no qual uma criança irá à biblioteca da escola para procurar, nos livros de história, alguma explicação sobre um fato surpreendente que o professor comentou em sala de aula: “Até o início do século 21, o casamento entre dois homens ou duas mulheres não era permitido”. Para o nosso pequeno cidadão, essa antiga proibição resultará tão absurda como hoje nos resulta a proibição do casamento entre negros e brancos, ou do voto feminino. E se ele descobrir, na biblioteca, que houve um dia em que um papa disse que o casamento gay ameaçava a humanidade, provavelmente sentirá a mesma repulsa que nós sentimos ao lermos a desgraçada frase de von Treitschke.

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Bento XVI deveria pensar se ele quer passar à história dessa maneira. Ainda está em tempo.

Tomara que algum dia ele seja capaz de entender e aceitar o amor — qualquer maneira de amor e de amar — e fazer aquilo que Jesus Cristo pregava: “Amarás ao próximo como a ti mesmo”.

Reproduzimos texto de Jean Wyllys publicado originalmente em CartaCapital

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Comentários

  1. Rita Candeu Postado em 14/Jan/2012 às 10:49

    ótimo texto Jean

  2. João Ricardo Postado em 17/Jan/2012 às 22:48

    Esse final encerrou com chave de ouro. Excelente texto.

  3. Mariangela Postado em 22/Jan/2012 às 20:41

    Jean sempre argumenta com base em fatos sólidos, nunca em "achismos". tem minha admiração!

  4. Ricardo Postado em 24/Feb/2012 às 17:37

    Significado de ameça: "Palavra, ato, gesto pelos quais se exprime a vontade que se tem de fazer mal a alguém: discurso cheio de ameaças. Sinal, manifestação que leva a acreditar na possibilidade de ocorrer alguma coisa" No caso, Bento não estava utilizando o primeiro signficado da palavra, mas o segundo. O Papa teme a possibilidade de extinção da raça humana. E não que a união homossexual faça maldade com alguém.

  5. Alex Postado em 29/Feb/2012 às 13:37

    Acredito que é uma ameça a moral que infelismente esta se perdendo nos nossos dias.

  6. Charlie Passarel Postado em 21/Mar/2012 às 18:06

    Gostaria de saber do autor da materia acha que a espécie humana se reproduziria, caso houvessem apenas casamentos homosexuais. Clodovil Hernandez, notório homosexual, usava esse argumento de que era contra a união homosexual porque por princípio era contra qualquer coisa que fosse contrária à perpetuação da raça humana. Nesse sentido, ele e o Papa exprimem o mesmo pensamento. Quem quiser conferir os argumentos de Clodovil: http://youtu.be/YLnXn9LpwuU

    • Renata Albuquerque Postado em 21/Mar/2012 às 18:32

      Charlie, apesar de a sua pergunta ser extremamente estúpida e ignorante, o autor da matéria já a respondeu no texto. Basta se dar ao trabalho de ler o texto. "Caso isso, caso aquilo". Só mesmo um imbecil de marca maior para imaginar que a defesa do casamento homossexual implica na extinção do casamento heterossexual. Em que mundo você vive? Casamento homossexual representar perigo para a reprodução da espécie só na cabeça de um sujeito como o Papa ou de meninos de 15 anos como você. Se liga, olha a tua volta, para e pensa no que realmente representa perigo para a humanidade. A intolerância que você prega é muito mais prejudicial para os passos vindouros da humanidade do que qualquer outra coisa.

  7. Henrique Postado em 04/Jul/2012 às 20:48

    O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade. Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito. Albert Einstein ... O que o 16 faz é tentar manipular a consciência do cristão, ameaçando-o com a ira de Deus. Isso nada mais é que injuriar o próprio Deus que nos criou livres. Aí não tem nada de bom senso, democracia e atualização dos conhecimentos. É uma burrice inquisitória.

  8. Deusimar Postado em 03/Jan/2013 às 18:39

    Bento XVI disse uma grande verdade. Homossexualismo é contrário a Deus. A Bíblia fala claramente contra a homossexualidade. Não interessa se é um desejo furtivo ou enrrustido ou escolha de opção. Homossexualismo é pecado. Hoje as pessoas estão entregues à dissolução, aos prazeres e gozos, não interessam qual forma eles caminham, o interessante é aproveitar a tudo que seria livre e permitido? Moralidade e procedência não são mais valores. Mas sim amor, paz e sexo. Hoje é balada, night, madrugadas, quebradinhas, ninguém é de ninguém, meninas que dão selinhos e beijos entre si, ménage e por ai vai, mulheres e homens que descem ao fundo do abismo e no outro dia alguns assumem seus atos enquanto outros fingem-se de santinhos... ambos vão prestar contas um dia ao Criador.

  9. LUIS CARLOS M- DA R. Postado em 03/Jul/2013 às 19:16

    AMOR E FELICIDADE 1 QUE COISA MAIS ENVERGONHA DO DIABO ESTA EM! MENTES DOENTES E DEPRAVADAS ESTAS ! DEUS JÁ DESTRUIU UMA COISA COMO ESTA E VAI FAZER DE NOVO, SÓ QUE DESTA VEZ, DEFINITIVA , PORQUE ISTO E A MAIOR CAUSA DE A TERCEIRA GUERRA MUNDIAL VIR, SERA POR CONTA DISSO, DESTA NOJENTA E PODRE SOCIEDADE QUE HOJE ESTA SOBRE A TERRA, DEUS LIMPARA ESTA PODRIDÃO DE CIMA DA TERRA,ESPEREM E VERÃO ! COISA MAIS PODRE, E NOJENTA ATE MESMO PENSAR NUMA COISA COMO ESTA! SE DEUS CONDENA O ADULTÉRIO, A PROSTITUIÇÃO, UM HOMEM TOMAR A MULHER DO PRÓXIMO, SIM PORQUE SE ELA AINDA TEM MARIDO VIVO, E ELA SE JUNTA OU CASA SE COM OUTRO ELES ESTÃO EM ADULE TRIO, PORQUE ESA MULHER TEM O MARIDO VIVO, A DESTE ADULTÉRIO VEM OS FILHOS BASTARDO ! E JESUS AINDA DISSE; QUEM OLHAR PARA UMA MULHER PAR COBIÇA-LA EM SEU CORAÇÃO JÁ COMETEU ADULTÉRIO COM ELA, DE QUEM É A CULPA POR ANDAREM AI NAS RUAS PELADAS ? ENTÃO EM VISTA DE TRUDO ISTO DIZER QUE ELE TEM DE ACEITAR ESTA PODRIDÃO, DE HOMEM COM HOMEM MULHER COM MULHER A VÃO SE CATAR !