Redação Pragmatismo
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Ditadura Militar 13/Dec/2011 às 14:44
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Por que os torturadores de Dilma escondem os rostos na foto que se tornou emblema?

A foto de Dilma Rousseff sendo interrogada por funcionários da ditadura tem se prestado a várias leituras. A cena dos dois homens escondendo o rosto com a mão assemelha-se muito à imagem de criminosos escondendo a face para não serem reconhecidos. Eles são autores de crimes que definem a verdadeira impunidade que ainda precisa ser enfrentada no Brasil.

Dilma tortura

“A foto de Dilma no interrogatório não é a síntese da juventude brasileira de quatro décadas atrás. É apenas a foto de uma moça destemida diante de dois homens torturados pela desonra”.

Katarina Peixoto*

No dia 3 de dezembro, a revista Época publicou uma foto de Dilma Rousseff sendo interrogada por delinquentes oficiais depois de 22 dias de tortura. A foto é extraordinária sob muitos aspectos e um deles é a sua expressividade como história, como fato histórico. Uma jovem altiva mira o ou os interrogadores e dois dos delinquentes que participavam da barbárie esconderam o rosto para o fotógrafo (a história desse ato fotográfico mereceria por si só uma análise detida, não tanto da intenção do fotógrafo, mas da função desse tipo de foto, numa ditadura, em sessões de interrogatório). Dilma, como todos podem saber, foi torturada. Os torturadores de Dilma, não.

Essa foto tem sido objeto de algumas reflexões na imprensa brasileira. Uma delas, assinada pelo jornalista Moisés Mendes, do jornal Zero Hora (edição de 11/12/2011) chama a atenção por uma curiosa escolha de palavras. Estabelecendo uma relação entre o período histórico da ditadura e a foto de Dilma, o jornalista escreve:

Éramos alienados, seu Mino. Jovens com o perfil de Dilma, comunistas, democratas ou anarquistas, que provocaram o confronto com o regime com suas próprias vergonhas, eram quase todos da minoria da militância estudantil. Só leve a sério quem aparecer contando vantagem, com histórias de resistência e bravura naquele 1970, se conhecer sua trajetória.

A foto de Dilma no interrogatório não é a síntese da juventude brasileira de quatro décadas atrás. É apenas a foto de uma moça destemida diante de dois homens torturados pela desonra”. (ver íntegra do artigo no final)

Torturados pela desonra? A cena dos dois homens escondendo o rosto com a mão assemelha-se muito à imagem de criminosos escondendo a face diante das lentes de uma máquina fotográfica ou de uma câmera de televisão. Considerando o período histórico e o contexto da cena, parece muito mais plausível que a tentativa de esconder o rosto tenha pouco a ver com um “sentimento de desonra” e tudo a ver com um gesto com um objetivo bem definido: não ser identificado. Os criminosos, em geral, não gostam de ser identificados.

A possibilidade de os torturadores sentirem-se envergonhados obviamente não está descartada; seria nada mais que uma possibilidade e, enquanto tal caberia averiguar. Uma das dificuldades para que isso ocorra é que, no Brasil, os torturadores nunca se disseram envergonhados, sequer assumiram o que fizeram e menos ainda foram punidos. Como não bastasse, os arquivos em que seus delitos estão registrados foram ou destruídos ou sonegados da cidadania brasileira e assim seguem, mesmo quase trinta anos após o fim da ditadura. A ocultação dos torturadores, dos seus atos e de suas personalidades de direito torna impossível averiguar a sua vergonha.

De fato, em termos jurídicos, um crime imprescritível (como o são os crimes contra a humanidade, dentre eles a tortura), uma vez não investigado, processado e punido se constitui como crime continuado. Assim, não há qualquer obstáculo jurídico ou lógico para se atribuir aos delinquentes que torturaram, entre outros, a atual presidente democraticamente eleita do Brasil o adjetivo que lhes é devido: criminosos contra a humanidade.

Aqui aparece um ponto que parece ser decisivo para as leituras da foto em questão. O Estado brasileiro, até hoje, não reconheceu que foi autor de crimes no período da ditadura. Não se trata apenas de reconhecer crimes contra o marco constitucional da época. Um governo eleito foi derrubado por alguns setores civis e militares, num movimento autoritário que feriu de morte o marco constitucional da época. Além desse crime, outros foram praticados: prisões arbitrárias e ilegais, demissões arbitrárias do serviço público e de empresas, perseguições, sequestros, torturas, assassinatos…Crimes cometidos por agentes de um estado de exceção.

Neste contexto, os interrogadores de Dilma escondem o rosto não porque estão “torturados pela desonra”, mas porque, objetivamente, pertencem a uma organização criminosa que tomou de assalto o Estado brasileiro. O fato de isso não ser reconhecido por um jornalista sério mostra o quanto o Brasil precisa acertar as contas com sua própria história.

Os crimes praticados por criminosos que até hoje insistem em esconder seus rostos continuam sem inquérito, sem processo, sem acusação, sem defesa, sem julgamento. Os torturadores não têm vergonha alguma pelo simples fato de que eles, institucionalmente, isto é, como membros do aparato de segurança e das forças armadas, jamais confessaram seus crimes.

E se o Brasil tivesse aberto os arquivos da ditadura civil-militar que se seguiu ao golpe de estado de 1964? E se as famílias dos supliciados e desaparecidos tivessem tido acesso aos corpos de seus entes familiares, bem como às condições de seu assassinato?

Os delinquentes que participaram do interrogatório da jovem Dilma Rousseff, depois de esta passar por 22 dias de tortura, por acaso foram investigados e padeceram como acusados sem inquérito, tiveram os seus corpos supliciados e as suas subjetividades invadidas pela brutalidade da violação física e mental de que se faz a tortura? Há alguma confissão inconfessa ao público, em que algum torturador teria incorrido?

As dificuldades e resistências em reconhecer que o Estado foi autor de crimes só reforçam a importância de uma Comissão da Verdade, que traga à luz os rostos que até hoje tentam se esconder e os fatos que até hoje permanecem escondidos. Há um jargão (distorcido) que costuma ser repetido à exaustão que consiste em dizer que “o Brasil é o país da impunidade”. As nossas prisões estão abarrotadas e todos sabem qual é o perfil de seus habitantes. A impunidade no Brasil aplica-se, sobretudo, aos chamados crimes de colarinho branco, mas a mãe de todas as impunidades é a que até hoje está encravada no coração do Estado. Os crimes cometidos pelo Estado brasileiro, como o da tortura, permanecem impunes e, mais do que isso, sendo reproduzidos em peças policiais obscuras que também escondem o rosto.

Por isso, também, seria importante que Dilma determinasse a abertura dos arquivos da ditadura militar. Mais do que pela autoridade moral de ter sido vítima da ação dos delinquentes torturadores e assassinos; mais do que pela sua subjetividade e decência, mais do que pelo respeito que ela tem pelos que ficaram pelo caminho, pelos que foram subtraídos, até em seus restos mortais, de seus familiares, ela pode abrir os arquivos. Para além da confusão gerada e reproduzida pela lei da anistia, é importante abrir esses arquivos para acabar com as mentiras históricas, até quando cometidas por gente séria, em conotações equívocas e que dão guarida à falsidade na descrição do que se passou.


(*) O jornal Zero Hora só disponibiliza os links dos textos de sua edição impressa para assinantes. Segue abaixo o artigo em questão:

11 de dezembro de 2011 | N° 16914
A foto de Dilma, por Moisés Mendes

Enquanto alguém fotograva Dilma Rousseff naquele interrogatório da Auditoria Militar do Rio, você fazia o quê? Você que era jovem, com idade para duelar com a ditadura e cometer loucuras em nome da democracia ou de uma revolução, o que você fazia naquele novembro de 1970 enquanto Dilma encarava os militares com o nariz empinado e você nem sabia que Dilma existia?

Admita: você, seus irmãos, seus colegas, seus vizinhos não faziam quase nada. Eu confesso: tinha 17 anos, dormia escutando as baladas da Rádio El Mundo de Buenos Aires e acordava pensando no milagre que eliminaria minhas espinhas da cara. Como nos empurraram para a alienação naquele 1970, em Alegrete ou em Porto Alegre!

E agora você, que tem hoje a idade de Dilma em 1970, que tem 22 aninhos, que já postou mais de mil fotos suas no Facebook: você já tem uma foto síntese como aquela de Dilma? Tem a imagem que revele sua alma, que dispense legendas, que esteja para você como a Mona Lisa está para todas as mulheres e como a Guernica de Picasso está para todas as guerras? Você tem uma imagem que tenha condensado tudo de você?

Se ainda não produziu a foto reveladora de sua presença neste mundo, não se penitencie. A foto de Dilma é única. Não acredite na conversa de que todos os jovens daquele 1970 enfrentavam a ditadura com o olhar de laser de Dilma. Os jovens de 1970 estavam anestesiados por quatro anos de regime militar, pelo Tri no México, pela censura.

A edição número 115 de Veja, de 18 de novembro daquele 1970, trazia esta capa: Em quem os jovens votaram. A reportagem tratava de uma pesquisa com mil jovens de 18 a 22 anos, de São Paulo, Rio, Porto Alegre e Recife, que votavam pela primeira vez no dia 15 daquele mês para eleger senadores e deputados.

Algumas revelações da pesquisa: 52% não sabiam por que os militares fizeram o golpe de 64; outros 25% disseram que o golpe evitara o comunismo; 71% achavam que o povo estava feliz com a situação do país; 51% dos jovens gaúchos votariam na Arena (o partido do governo) e 44% no MDB (da oposição); e 55% de todos os pesquisados no país votavam “por obrigação” (só 10% entendiam que votar era um direito). E quem tinha sido Oswaldo Aranha? 83% não tinha a menor noção. E qual seria a nota para o presidente Médici? Um 8,4. E assim por diante.

Na eleição, de 70, o MDB levou uma lambada de dois votos por um da Arena. A Arena elegeu 41 senadores e 223 deputados federais. O MDB, apenas seis senadores e 87 deputados. No Estado, Daniel Krieger e Tarso Dutra, arenistas, foram eleitos senadores com o dobro de votos dos emedebistas Paulo Brossard e Geraldo Brochado da Rocha.

Foi uma goleada do partido do governo, com o voto faceiro dos jovens. Vão dizer que havia a campanha do voto nulo, que o país ainda estava confuso, que faltava coesão ao MDB, aos democratas e às esquerdas. Nessa confusão, os jovens eram, como escreveu Mino Carta, o diretor de Veja, “pouco politizados, muito práticos e eventualmente ingênuos”.

Éramos alienados, seu Mino. Jovens com o perfil de Dilma, comunistas, democratas ou anarquistas, que provocaram o confronto do regime com suas próprias vergonhas, eram quase todos da minoria da militância estudantil. Só leve a sério quem aparecer contando vantagem, com histórias de resistência e bravura naquele 1970, se conhecer sua trajetória.

A foto de Dilma no interrogatório não é a síntese da juventude brasileira de quatro décadas atrás. É apenas a foto de uma moça destemida diante de dois homens torturados pela desonra.

*Katarina Peixoto é doutoranda em Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: [email protected]

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Comentários

  1. iran dias Postado em 16/Mar/2012 às 17:22

    quem torturava que nem esses militarzinhos escrotos , apenas cumpriam ordems , devemos denunciar os verdadeiros financiadores da tortura, que foi os dolares dos gavernantes americanos

    • eu daqui Postado em 10/Mar/2016 às 10:13

      MAS EU TENHO RECEBIDO ORDENS ILEGAIS E TENHO RECHAÇADO TODAS MEMSO SOB RISCO DE LEVAR UMA BALA.

  2. Luiz Claudio Lins Postado em 18/Mar/2012 às 23:05

    Tanto a matéria do jornal gaúcho quanto à matéria que o comenta, com todas as considerações-clichês que já lemos ínumeras vezes tergiversam sobre o mesmo ponto que todos, sem exceção, ao comentar de maneira confortável episódios sinistros e lamentáveis da história política brasileira sonegam: coragem. Dilma Roussef assim como outros opositores ao regime, românticos, utópicos, errôneos em seus cálcuos estratégicos do real impacto da luta revolucionária perante a opinião pública, tiveram o que hoje não vemos em quase nenhuma categoria profissional (jornalistas em especial). A determinação de enfrrentar não opositores agressivos nas palavras. Mas um exército conivente com a prática da tortura, do intimidamento, da supressão dos direitos civis. Que usou de métodos bárbaros e do assassinato do "inimigo" no que eles chamaram de guerra suja perpretrada contra as minúsculas e despreparadas organizações revolucionárias de guerrilha. Quem, estatisticamente falando, nas assépticas e refrigeradas redações da grande imprensa neo-liberal faria igual seja por qual defesa de ideais? Nessa hora vale o " pito ao inverso" que o "Rei" espanhol ousou dar no "ditador" Chavéz: Porque não se calam e olham para si mesmos no medo de perder o emprego por uma mera opinião independente (que dirá de um confronto patronal...)???

  3. Luiz Postado em 24/Apr/2012 às 11:09

    Porque que esse pessoal adora CUBA - `"e um regime comunista". O comunismo é como prender um passaro na gaiola, fica triste ou canta de tristeza. Vcs querem ser um passaro preso a gaiola.

  4. adalto Postado em 30/May/2012 às 17:19

    Eles escondem o rosto por medo de outros terroristas que poderiam matar um de seus familiares.

  5. comentador Postado em 11/Jun/2012 às 13:36

    pq razão os militares se deixariam fotografar, se estariam escondendo o rosto??

  6. marcia Postado em 29/Dec/2012 às 13:33

    sabe porque perseguiam e quase ninguem fala, querem calar o grito de liberdade tanto religiosa como aconteceu em toda o mundo desde a epoca dos profetas ate hoje ,te pergunto .qual a igreja que mandava matar ?quem mandava nos reis e rainhas se nao obedecer eles descomungava?volte a estudar a historia do pais e do mundo que vai ter a resposta! tenho certeza que ainda estao vivos ou as familias se calam com vergonha e seriam apontados na rua .e falariam assim ex:olha o filho do assassino de milhares de pessoas.

  7. Gilberto Postado em 26/Feb/2013 às 08:12

    A ditadura militar foi um governo de transição. E esse governo poderia ter sido de esquerda ou de outra ideologia politica. Agora, o que não dá pra aceitar em qualquer governo, é a tortura. Não se deve punir ou criticar qualquer governo daquela época. Mas os torturadores sim. A tortura não deveria fazer parte de governo nenhum. A tortura é puro sadismo sem nenhuma função prática. O torturador nada mais é do que um monstro que se delicia com o sofrimento dos outros. Tentem buscar a vida particular de um torturador para ver como foi sua vida pessoal. A tortura causa um prazer doentio e o torturador treina em sua própria família, em animais domésticos ou qualquer outro ser vivo mais fraco do que ele. Nem mesmo os torturadores devem ser torturados, nós deveríamos apenas nos livrarmos deles de uma forma que não causa-se sofrimento algum. Se você defende a ditadura militar, você esta defendendo seu ponto de vista politico. Mas se você defende a tortura seja ela de qual lado for, você é um sádico doente. Ou alguém acha que uma pessoa que arranca mamilos de mulheres com alicate, é uma pessoa de boa índole que estava fazendo aquilo por um mundo melhor?

    • eu daqui Postado em 06/Jun/2014 às 13:20

      Sádico doente uma ova ! O nome disso é bandido ! E bandido só serve pra ser punido !

    • Natália Postado em 17/Mar/2015 às 00:25

      E quem exercia a tortura? A ditadura militar. A tortura não deveria fazer parte de governo nenhum, mas se fez.

  8. josephine Postado em 04/May/2013 às 17:11

    A tortura era instrumento da ditadura e se você acha que não tem função prática assista a esse vídeo e vai mudar de idéia: http://www.youtube.com/watch?v=Y4p6MvwpUeo

  9. Felipe Veroneze Postado em 09/Oct/2013 às 08:20

    O fato de eles estarem com os rostos cobertos é simples, sabiam que estavam fazendo a coisa errada, pois em suas leis e mensagens ao povo, eles aboliam a tortura, mas nem sempre cumpriam aquilo que falavam. Em todos os países que sofreram com uma ditadura, aqueles que comandavam e torturavam foram condenados pelos seus atos, pois a lei de anistia dessas localidades não foi aceita (a ex. Argentina). Até onde sabemos a Corte Interamericana de Direitos Humanos é contra a lei de anistia nas localidades onde se teve um regime militar, inclusive condena o desaparecimento de pessoas, que em nosso pais teve um índice bem menor comparado aos demais. Em nosso Brasil, até o momento, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que tal lei é compatível, ou seja, deve ser aplicada, ficando assim imunes aqueles que cometeram e comandaram as torturas e outras coisas mais. Olhando de uma ótica mais abrangente, temos que nossa Constituição traz em seu artigo 5º, III que diz "ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;". Vemos então que, hoje não é mais "possível" a tortura em nosso Estado, e até então não será possível condenar aqueles que a fizeram.E os rostos cobertos foram simplesmente para que eles não fossem "identificados".

    • Rosalindo Postado em 17/Mar/2015 às 00:28

      Cuba não torturou ninguém? E esse e o regime que se pretende implantar aqui! Vejam o caminho que segue a Venezuela!

  10. Alexander Postado em 22/May/2014 às 09:06

    Não houve ditadura e sim Regime Militar, e aqueles militares que escondem os rostos já previam que hoje viveriam justiçamento e revanchismo. Os guerrilheiros lutavam pela ditadura comunista e não pela democracia, realizaram sequestros, assassinatos, torturas, assaltos, etc.. Hoje estão no poder e quem conta a história são os vencedores temporários. Nenhum general ficou rico pois não faziam corrupção. E hoje na democracia?

  11. eu daqui Postado em 06/Jun/2014 às 13:19

    Foto bem ilustrativa da época e da situação.

  12. Vanilda Carneiro Postado em 22/Apr/2015 às 13:02

    É triste ler um texto tão bem escrito, e depois ler alguns comentários! Dá vontade de votar pra cama e dormir!

  13. marcello Postado em 22/Apr/2015 às 23:26

    Estão rindo muito!