Redação Pragmatismo
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Racismo não 06/Dec/2011 às 16:33
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Estagiária negra é forçada a alisar cabelo para preservar 'boa aparência'

'O padrão daqui é cabelo liso'. disse a patroa.

CABELO AFRO RACISMO PRECONCEITO NEGRO

A estagiária Ester Elisa da Silva Cesário acusa seus superiores de perseguição e racismo. Conforme Boletim de Ocorrência registrado no dia 24 de novembro, na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) de São Paulo, ela teria sido forçada a alisar o cabelo para manter a “boa aparência”. A diretora do Colégio Internacional Anhembi Morumbi ainda teria prometido comprar camisas mais compridas para que a funcionária escondesse os quadris.

Ester conta que foi contratada no dia 1º de novembro de 2011, para atuar no setor de marketing e monitorar visitas de pais interessados em matricular seus filhos no colégio, localizado no bairro do Brooklin, na cidade de São Paulo. A estagiária afirma ter sido convocada para uma conversa na sala da diretora, identificada como professora Dea de Oliveira. Nos dias anteriores, sempre alguém mandava recado para que prendesse o cabelo e evitasse circular pelos corredores.

“Ela disse: ‘como você pode representar o colégio com esse cabelo crespo? O padrão daqui é cabelo liso’. Então, ela começou a falar que o cabelo dela era ruim, igual o meu, que era armado, igual o meu, e ela teve que alisar para manter o padrão da escola.”

Além das advertências, Ester afirma ter sofrido ameaças depois de revelar o conteúdo da conversa aos demais funcionários do colégio. Eles teriam demonstrado solidariedade ao perceber que a estagiaria estava em prantos no banheiro.

“Depois disso, eu me vesti para ir embora e, quando estava saindo, ela me parou na porta e disse: ‘cuidado com o que você fala por aí porque eu tenho vinte anos aqui no colégio e você está começando agora. A vida é muito difícil, você ainda vai ouvir muitas coisas ruins e vai ter que aguentar’.”

Colégio se defende

Após contato da reportagem, um funcionário indicado pela Direção do Anhembi Morumbi informou que a instituição não recebeu nenhuma notificação sobre o registro do Boletim de Ocorrência. Ele negou a existência de preconceito e se limitou a dizer que “o colégio zela pela sua imagem e, ao pregar a ‘boa aparência’, se refere ao uso de uniformes e cabelo preso”.

A advogada trabalhista Carmen Dora de Freitas Ferreira, que ministra cursos no Geledés – Instituto da Mulher Negra – assegura que a expressão “boa aparência” é usada frequentemente para disfarçar preconceitos.

“Não está escrito isso, mas quando eles dizem ‘boa aparência’, automaticamente estão excluindo negros, afrodescendentes e indígenas. O padrão é mulher loira, alta, magra, olhos claros. É isso que querem dizer com ‘boa aparência’. E excluir do mercado de trabalho por esse requisito é muito doloroso, afronta a Lei, afronta a Constituição e afronta os direitos humanos.”

Métodos conhecidos

De acordo com o depoimento da estagiária, as ofensas se deram em um local reservado. A advogada explica que essa prática é comum no ambiente de trabalho, além de ser sempre premeditada.

“O assediador sempre espera o momento em que a vítima está sozinha para não deixar testemunhas, mas as marcas são profundas. O preconceito é tão danoso, que ele nega direitos fundamentais, exclui, coloca estigmas, e a pessoa se sente humilhada, violentada. Quando o assediador percebe a extensão do dano, ele tenta minimizar, dizendo ‘não foi bem assim, você me interpretou errado, eu não sou discriminador, na minha família, a minha avó era negra’.”

Ester ainda afirma que teria sido pressionada a deixar o trabalho, ao relatar o ocorrido a uma conselheira do Colégio. Como decidiu permanecer, passou a ser vigiada constantemente por colegas.

“Eu estou lá e consegui passar numa entrevista porque sou qualificada para o cargo, mas ela não viu isso. Ela quis me afrontar e conseguiu abalar as minhas estruturas emocionais a ponto de eu me sentir um lixo e ficar dois dias trancada dentro de casa sem comer e sem beber. Você pensa em suicídio, se vê feia, se sente um monstro.”

Sequelas e legislação

Ester revela que as situações vividas no trabalho mexeram com sua auto-estima e também provocaram grande impacto nos estudos e no convívio social.

“Desde que isso aconteceu, eu não consigo mais soltar o cabelo. Quando estou na presença dela eu me sinto inferior, fico com vergonha, constrangida, de cabeça baixa. É a única reação que eu tenho pela afronta e falta de respeito em relação a mim e à minha cor.”

O Boletim de Ocorrência foi registrado como prática de “preconceito de raça ou de cor”. A Lei Estadual nº 14.187/10 prevê punição a “todo ato discriminatório por motivo de raça ou cor praticado no Estado por qualquer pessoa, jurídica ou física”. Se comprovado o crime, os infratores estarão sujeitos a multas e à cassação da licença estadual para funcionamento.

Radioagência NP, Jorge Américo, com Geledés

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Comentários

  1. Mario L. M. Gaio Postado em 06/Dec/2011 às 16:55

    Normalmente esse blog apresenta reportagens interessantes mas essa é de doer. Estão procurando cabelo em ovo. Uma instituição tem todo o direito de pedir esse tipo de 'boa aparência', que significa discrição. O que o colégio pediu foi aparência discreta, não chamativa. Não estou emitindo minha opinião sobre o que seja ou não boa aparência, estou só afirmando que é direito do empregador pedir essa discrição. Afinal, é ele quem paga o salário. Inclusive falou-se na reportagem sobre 'camisas mais compridas para esconder o quadril'. Isso só enfatiza que a empresa pede uma aparência discreta em seus funcionários. Se a tal diretora usou o termo 'boa aparência' ela escolheu mal as palavras, mas não vi nenhum sinal de racismo no relato acima. Sem esticar o assunto, não seria MUITO mais fácil não contratar a moça e falar que ela não tem perfil???

    • Vando Juvenal Postado em 23/Jan/2015 às 16:25

      Essa sua opinião é tão discriminatória quando a dela, porque a reitera. Discrição agora é mais uma forma de mascarar racismo, então? Parabéns pela criatividade. Daqui a pouco a intenção de invisibilizar socialmente as negras e os negros será mandá-los se pintar de brancos, já que o padrão eurocêntrico é esse!

  2. Carlos Postado em 06/Dec/2011 às 17:50

    Não sei se a diretora será condenada por racismo, mas condeno a atitude dela. Essa intolerância estúpida com o que é diferente de um padrão imposto pela TV deve ser combatida sempre que houver oportunidade. A garota não estava de saias curtas, sei lá, ou vestida com trapos e roupa rasgada, simplesmente foi subjugada por ter cabelos distintos dos que se encontram nas baladinhas bacanas e nas novelas. Não se pode medir a dor ou que se passa na cabeça de uma menina que tem sua aparência contestada por ter uma fibra de cabelo que não se adeque à Europa colonizadora.

  3. Luis Soares Postado em 06/Dec/2011 às 18:08

    Me desculpe Mário, mas pedir 'boa aparência', nesses moldes, não tem nada a ver com discrição, mas com violência.

    • Vando Juvenal Postado em 23/Jan/2015 às 16:29

      Veja que no fim, pra piorar, ele diz que a moça nem deveria ser contratada...

  4. elis Postado em 06/Dec/2011 às 20:50

    O 3º parágrafo enfatiza bem a discriminação.
    Se as outras funcionárias que trabalham no local também têm que prender o cabelo, é compreensível, caso contrário, não há obrigatoriedade.
    "Boa aparência" é um termo muito vago, pois o que é bom pra um, pode ser ruim pra outro, e vice-versa. Tudo tem que ser especificado e informado.
    Se a empresa tem um padrão de vestimenta, isso tem que ser informado ao funcionário no momento da contratação e expresso por escrito, de preferência, que o funcionário assine um papel concordando com as condições e estando ciente das mesmas.
    Discriminação e prejuízos morais são crimes.

  5. Claudio Postado em 06/Dec/2011 às 22:20

    Se tivessem pedido "boa aparencia" para um branco, ele teria é que engolir ou ir embora. Nao tem Decradi prá ele. Alí é simplesmente uma regra de trabalho que ele deve cumpri e se nao gosta, rua. Como a pessoa é negra faz-se um dramalhao do tipo "O direito de nascer". Nao vale.

  6. Luis Soares Postado em 06/Dec/2011 às 23:01

    Vale, porque racismo é crime. E se pedirem 'boa aparência' para um branco certamente não será pela cor da pele ou fibra do cabelo, porque na mente de um racista agressor esses traços só são inadmissíveis quando o cidadão ou a cidadã são negros.

    Somos tolerantes com quem relativiza o racismo por ingenuidade, mas não vejo porque o sermos com quem utiliza de má-fé.

  7. Carla Rainel Postado em 06/Dec/2011 às 23:12

    Eu acho que a grande falha foi ela mandar a menina alisar os cabelos, como se cabelo afro fosse ruim e feio. E por tudo que os negros sofreram no tempo da escravidão sendo humilhados é que toda matéria serve de alerta. Preconceito não tem cor. Se uma pessoa de cor branca sofre preconceito tem que denunciar e não se calar. Vale pra todos Claudio, seja índio, branco, negro, mulado,etc. A escola tem o direito de cobrar boa aparência com roupas adequadas ao ambiente, mas não poderia a diretora ter mandado a estagiária alisar os cabelos.

  8. Cri.Ar. Postado em 07/Dec/2011 às 12:43

    Vai procurar se meter com essa gente, um bando de sacana! O pior é que o lacaio aí, ainda diz que é assim que tem que ser. Se o empregador mandar você lamber o sapato dele você vai lamber, ou vai pra rua que é o seu lugar... Atitude de quem compartilha com este tipo de sociedade mesquinha, de pessoas que se acham melhores que as outras e pior só exoneram o povo, o país... Meus caros, se querem ver isto resolvido de uma vez... procurem ir na contra-mão dessa "elite" que só quer saber do bônus e que nós nos responsabilizemos com o ônus.

  9. Cri.Ar. Postado em 07/Dec/2011 às 12:47

    Há! E a propagandinha no fim do texto, piada né...
    POR QUE VOCÊ... VALE MUITO!

  10. zanza Postado em 07/Dec/2011 às 18:05

    Em 1º lugar o cabelo dela não é "ruim"..é crespo!!!Já vai daí a discriminação e o racismo sim. Se não queria com a aparência dela, pq contrataram queria fazer a linha demagógica uma negra, mas de cabelo liso???Os cachos dela são lindos soltinhos, hidratados...foi discriminação sim...e com brancos não fariam isso e não se tem lei é pq os negros sofrem racismo justamente pelo que vcs não têm cabelo crespo (que adoram falar "ruim").

  11. Verônica Postado em 07/Dec/2011 às 18:21

    O comentário do Mário mostra o quanto o racismo está tão enraizado na cultura que as pessoas absolutamente não enxergam. O que é "boa aparência"? Ter cabelo liso? Isso supõe que ter cabelo crespo é má aparência, que o cabelo crespo é feio ou ruim, e é sim racismo GRITANTE. Fico indignada quando vejo como falta reflexão por parte das pessoas em perceberem o tipo de coisa que estão achando "nada demais". Muito nojo.

  12. Mario L. M. Gaio Postado em 08/Dec/2011 às 19:22

    Verônica, deixei bem claro que não estava emitindo minha opinião sobre o que seja boa aparência, no que concordo com vc e faço a mesma pergunta que vc fez: "o que é boa aparência?". Se vc leu meu comentário até o fim, percebeu que eu disse que a 'diretora' escolheu mal as palavras. Vc, por exemplo, não sabe como é meu cabelo. Minha crítica é direcionada à reportagem, à forma como ela foi feita. É parcial e se apropria de um imaginário para falar de racismo. Parece texto da revista Veja, só que do lado oposto. Quando vc diz que "fica indignada quando vê falta de reflexão por parte das pessoas..." entendo que eu sou uma dessas pessoas. Bem, posso garantir que houve muita reflexão de minha parte. Minha reflexão foi feita sobre o texto, que induz as pessoas a pensarem igual. É um texto que espera comentários favoráveis à causa da moça. Eu não falei em momento algum do cabelo da moça. Insisto numa coisa: por que contrataram a moça então? Teria sido tão simples falar que ela não tinha perfil... Um coisa é certa, gosto desse tipo de debate porque é sobre ideias. Um abraço.

  13. George Santos Postado em 19/Dec/2011 às 10:54

    Racismo: Só enxerga quem sofre.

  14. Jan Ribeiro Postado em 04/Jan/2012 às 13:44

    Cadê que a diretora teve peito para falar com a imprensa? claro que não!

  15. la viea mon avis Postado em 13/Jan/2012 às 22:06

    ..nossa se não foi racismo...foi o que?

  16. germanomundo Postado em 22/Jan/2012 às 21:39

    Discordo de você! Seguramente não vão pedir a uma loira que prenda o cabelo. O Brasil é um pais altamente racista e hipócria e isso está tão erraizado na nossa cultura, que até achamos atitudes como esta "normal", tenha dó. Parabéns por essa página web.

  17. Naiara Postado em 15/Feb/2012 às 16:20

    O tipo do cabelo não faz de uma pessoa incapaz ou desqualificada para ocupar uma posição no mercado de trabalho. O tipo de comentário feito pela diretora, sim. E no final do primeiro parágrafo a palavra certa seria COMPRIMENTO, e não CUMPRIMENTO.

  18. Matheus Vetra Postado em 31/May/2012 às 23:06

    sociedade imunda de valores e conceitos esse é o brasil o pais de todos.

  19. Vivi Postado em 06/Jul/2012 às 10:31

    Ai que historia terrivel pior foi a minha ,eu tava com o cabelo alisado e uma menina da sala chegou e falou assim para de alisar esse seu cabelo duro

  20. Gabriela Postado em 29/Oct/2012 às 00:51

    A diretora escolhe a aparência que ela quer que a funcionária tenha, simplesmente pelo fato de que é o funcionário que passa a imagem da empresa. Se ela quiser que todo mundo pinte a cara de azul e vista bikini para atender um cliente, o funcionário vai ter que se adequar se não quiser perder o seu emprego. O cabelo é a mesma coisa. Não tem diferença entre uniforme, unha, maquiagem e cabelo... Tudo isso faz parte da aparência. A maior parta das lojas escolhe a maneira de se portar, a roupa, o penteado, a cor do esmalte, o sapato de seus funcionários. Isso é normal para o sistema que predomina hoje no mundo. A preferencia dessa diretora pelo cabelo "liso" pode não ser justificada por uma ideologia racista, e sim por uma questão de estética, de volume, e de atenção dada pelas pessoas que manterão contato com a estagiária.

    • Marco Postado em 29/Jan/2015 às 15:14

      Não, não é assim não. Aparência tem a ver com fenótipo racial e é proibido a discriminação racial. Nenhum empresário pode se utilizar de critérios raciais seja pra empregar ou pra escolher quais clientes deseja ter.

  21. lene almeida Postado em 16/Sep/2013 às 17:46

    Que situação triste, e tudo isso é bem verdade pois quando pedem para uma pessoa de outra etnia prender o cabelo, é uma norma d a empresa para todos em geral, mas eu nunca vi alguem pedir para uma pessoa de cabelos lisos enrolar seus cabelos e sabe porque? porque mesmo que não admitimos o padrão de beleza é o cabelo liso, tenho uma filha pequena de lindos cabelos cacheados, e o que eu mais ouvi foi o quando eu vou gastar fazendo chapinha pra dar jeito no cabelo dela...agora eu pergunto, ja viram falar isso pra uma bebezinha de cabelo liso...fica a reflexão...

  22. Vídeo do governo do estado do Pará revela o racismo institucional - 📰 Semovente Postado em 19/Nov/2016 às 10:07

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