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Política 12/Nov/2011 às 00:01
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Luiz Inácio Lula da Silva: a voz do Brasil; a voz dos que não têm voz

Autor: Frei Betto  

Lula é, hoje, a voz do Brasil. De modo especial, a voz dos que não têm voz. Nenhum brasileiro tem, no exterior, tanta audiência. Os chefes de Estado prestam atenção no que ele diz, inclusive Dilma Rousseff
 


Universidades dos cinco continentes o homenageiam com o diploma de doutor “honoris causa”. Empresários, dentro e fora do Brasil, querem conhecer seu ponto de vista sobre a conjuntura. Organismos internacionais se interessam pelo modo como o seu governo combateu a fome e reduziu a desigualdade social no Brasil.

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A vida é imprevisível. Frágil como uma folha seca. E o futuro a Deus pertence. Súbito, Lula vê-se afetado por um câncer na laringe. Até parece que a natureza decidiu atingi-lo em seu calcanhar de Aquiles. Como ocorreu ao pianista João Carlos Martins, cujos dedos das mãos, afetados por uma sucessão de problemas de saúde, quase o obrigaram a se afastar da música. Hoje, ele é reconhecidamente um exímio regente.

O câncer parece perseguir os chefes de Estado: Lugo, Chávez, José Alencar… Lula é feito da mesma matéria-prima de Alencar. Os dois foram dotados de um imbatível otimismo frente à vida, sustentado por consistente fé cristã. Como Alencar, Lula se sabe predestinado – não no sentido messiânico que o termo possa sugerir, e sim como resultado de uma convergência de fatores que o levaram à vida pública e, graças à sensibilidade social trazida de berço, se empenha em minorar a desigualdade social e promover uma ampla política de inclusão dos empobrecidos.

Todo o poder de comunicação de Lula se centra na voz. Ele nasceu brindado pelo dom da oratória. Lembro do início de nossa amizade, nas grandes assembleias metalúrgicas do ABC, no estádio da Vila Euclides, nos primeiros anos da década de 1980. Lula, antes de sair de casa, elencava num pedaço de papel os temas a serem abordados em seu discurso de encerramento da concentração operária. Era sempre o último a falar. Seu discurso marcava a culminância da assembleia.

Ocupado o palanque, iniciava-se a sucessão de pronunciamentos: diretores do sindicato dos metalúrgicos, líderes operários, advogados trabalhistas, políticos… À medida que o ato avançava, os pontos elencados por Lula brotavam da boca dos oradores que o precediam. Eu me sentia aflito por ele, preocupado se, ali no palanque, ele teria ideia de outros temas que ninguém tivesse abordado.

Terminada a lista de oradores, a palavra de coroamento da manifestação cabia a Lula. Todos prestavam silenciosa atenção, como se cada uma de suas frases devesse ser absorvida pela multidão. Então, Lula surpreendia. Não por arrancar da cartola retórica, como um mágico, temas inéditos. A pauta era a mesma. A novidade consistia no modo como a abordava.

Não falava com a cabeça, e sim com o coração. Não proferia teorias nem se perdia na ênfase de frases demagógicas. Discursava a partir de experiências oriundas de sua trajetória pessoal, criava parábolas, contava “causos”. Exortava, advertia, expressava metáforas bem humoradas, destilava ironias em torno da ditadura, caricaturava ministros e empresários, cobrava de cada grevista empenho na mobilização, atiçava os brios éticos da massa trabalhadora. Seu pronunciamento soava mais moral do que político. Sua voz inflamava a assembleia.

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Agora, a voz padece. Descansa. Exige cuidados. Lula, como ocorre às águias ao atingirem 40 anos de idade, se recolhe à montanha para adquirir novo vigor. E, em breve, retomar seu voo por uma política, no Brasil e no mundo, centrada no fim da miséria e da pobreza – onde a sua vida teve início. 

Adital

Comentários

  1. Prô Cris Chabes Postado em 12/Nov/2011 às 12:07

    Não só fã do LULA, mas....gosto de textos bem redigidos.

    Sou fã da escrita crítica, da escrita analítica, mesmo que com certo grau de subjetividade moral.

    Seu texto "poético", induz ao amor maternal a um dos maiores nomes da política brasileira.

    Não ouso dizer: "ao maior líder político que esse país já teve", pois houveram outros, até mais populistas que ele. Loucos talvez, mas um pouco de cada um fez LULA ser LULA.

    Contudo tenho que concordar com você, a águia para e refaz sua história para voltar e continuar sua trajetória de vôos incertos, mas com a certeza de vitória na reta de chegada.

    Cris Chabes

  2. Beatriz Marks Postado em 12/Nov/2011 às 23:56

    Caramba!!! Ele quase se torna um ditador se continuasse no poder, tantos ministros caindo no governo Dilma é o esquício do que sobra do governo Lula, ninguém cita o FHC que deu início a tudo isso, montou o principal: a BASE de tudo!

    Criticavam FHC chamando de Viajando Henrique Cardoso e Lula comprou um avião particular só pra viajar.

    Eu tenho memória política, não posso louvar um homem que se aliou aos piores corrutos do país pra chegar ao poder.

    Eu que o diga que sou maranhense e sei o que é viver sob a humilhação dos Sarneys!

    Por que vou louvar Lula, se ele só fez o que todo presidenten deve fazer que é administrar o país com o meu dinheiro dos meus e dos seus impostos?

    Vou louvá-lo pelo que é obrigação de qualque presidente fazer?

    Ou eu devo me conformar com a máxima: "É corrupto mas fez alguma coisa?!" Rá! Que ideia!

  3. karlRahner Postado em 14/Nov/2011 às 15:46

    "Lula é, hoje, a voz do Brasil". De fato, a voz está doente. A voz está com câncer. Precisamos curar esta voz, em todos os sentidos...

  4. Michele Postado em 15/Nov/2011 às 00:53

    Gostaria de saber quem é o autor desta belíssima foto. Onde estão os créditos?

  5. Luis Soares Postado em 24/Nov/2011 às 01:50

    Michele, olha que me esforcei para procurar o autor da foto, mas não encontrei. É provável que tenha sido algum fotógrafo da Presidência. Mas como não posso confirmar, o autor segue por ora desconhecido.