Luis Soares
Colunista
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Política 11/Oct/2011 às 22:49
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Primeira escola gay do Brasil oferece diversidade e inovação

Apesar do foco no mundo gay, héteros também são bem-vindos na escola. Atualmente, duas meninas heterossexuais participam das oficinas de revista
Todos os fins de semana, jovens organizam-se nas três
turmas da escola. Foto: Rennato Testa
Alardeada como a primeira “escola gay” do Brasil, a Escola Jovem LGBT quase passa despercebida no pacato bairro residencial em que está instalada, na cidade de Campinas (SP). A despeito do título adotado, não se trata de uma escola regular, dirigida para o ensino de Matemática, História ou Língua Portuguesa. Dentro da casa de seis cômodos, cerca de 30 jovens LGBT (sigla para lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) participam gratuitamente de aulas de música, teatro e de produção de revistas, todas voltadas para o universo gay. A ideia nasceu há dez anos, a partir de e-mails trocados pelo fundador, o jornalista Deco Ribeiro, com outros jovens que passavam pelas mesmas angústias que ele. 
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Hoje com 39 anos, Deco conta que se descobriu homossexual no início da adolescência, aos 13. “Eu achava que era o único gay da minha escola, da minha rua, da minha cidade. Com a internet, descobri que muitos passavam pelo mesmo que eu”, lembra. Com o sucesso da lista de e-mails, que chegou a reunir 4 mil participantes, Deco criou um site para agregar as principais dúvidas e questionamentos dos jovens. Foi quando nasceu o E-Jovem, transformado em 2004 em uma ONG para combater a homofobia.
Em 2009, o projeto de Deco para uma escola de artes voltada para jovens LGBT venceu um edital do Ministério da Cultura, em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura. Único dos 350 candidatos a propor a criação de um centro cultural voltado para a diversidade sexual e de gênero, o projeto passou a ser um dos Pontos de Cultura do Estado e a receber uma verba de 60 mil reais por ano. Com o dinheiro, Deco transformou a casa em que vivia com o companheiro Chesller -Moreira (a drag queen Lohren Beauty) em escola. O espaço ainda parece improvisado. O pequeno pátio recebeu carteiras e espelhos nas paredes pintadas de rosa e branco, um banner e a clássica bandeira arco-íris do movimento são os únicos sinais de militância LGBT. Na outra sala, três computadores e um monitor formam a sala de informática. As oficinas oferecidas também funcionam como espaço de convivência. “Aqui todo mundo pode ser como realmente é”, afirma Deco. A verba do Ministério também paga o salário de três professores e fornece ajuda de custo para seis bolsistas. Como as aulas são gratuitas, a quantia de 100 reais serve principalmente para transporte. Além de jovens de Campinas, há alunos de cidades próximas, como Valinhos e Monte Mor.
Apesar do foco no mundo gay, héteros também são bem-vindos na escola. Atualmente, duas meninas heterossexuais participam das oficinas de revista. “Não é um curso fechado para gays. Acreditamos que, quanto mais você conhecer o diferente, mais rica será sua experiência”, explica Deco. Nem todos, porém, -compartilham do mesmo ponto de vista. Em novembro do ano passado, a escola foi atingida por pedras e garrafas. A suspeita é que o ataque tenha partido de moradores da região. A direção da escola colocou a boca no trombone: depois dos avisos na mídia local de que câmeras de segurança seriam colocadas na entrada, não houve mais ataques.
Todos os fins de semana, jovens gays, bissexuais e travestis entre 14 e 24 anos organizam-se nas três turmas de dez alunos da escola. O clima é de descontração. Muitos estão fora da escola tradicional. É o caso de Gabriel. Aos 15 anos, não aceito pela família biológica, o garoto relata diversas fugas de abrigos da prefeitura, onde era, muitas vezes, hostilizado pelos outros adolescentes. Encontrado à beira de situação de risco pelo fundador da escola, Gabriel vive com o casal no espaço da escola desde o ano passado. “Eu sou aluno integral”, brinca. A travesti Juana, de 21 anos, é exceção. Ela está no segundo ano do Ensino Médio de uma escola estadual da cidade e conta que conquistou o respeito de colegas e professores. “A vice-diretora até foi assistir minha apresentação de dança”, comemora. Juana também luta pela erradicação da homofobia nas escolas: “Todo travesti tem o direito de estudar”. A sensação de estar entre semelhantes faz toda a diferença para o jovem Willber, 18 anos. Um pouco mais tímido, o rapaz conta, com os joelhos balançando de nervosismo, que ficou sabendo da escola por meio dos amigos. “Aqui todo mundo entende como eu sou, eu me identifico com eles”, garante.
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Além dos três cursos em vigor hoje (criação de revista, música e teatro), a escola já ofereceu aulas de dança, criação de fanzines e um curso livre de defesa pessoal. Ministrada por um especialista em artes marciais, o curso era focado em como evitar e como escapar de agressões. Até o fim do ano, Deco espera oferecer cursos de Sociologia da Homossexualidade, de Espanhol e de Drag Queen, que será desenvolvido por Lohren Beauty e vai ensinar desde a escolha do figurino e maquiagem até presença de palco.
Antigo participante da lista de e-mails que deu origem ao E-Jovem, Breno Queiroz, de 25 anos, recebe 300 reais por mês para ministrar uma oficina semanal de criação de revistas. Ano passado, o jornalista já havia participado como professor do curso de produção de fanzines, publicação alternativa que trabalha com linguagem de quadrinhos. “Muitos foram praticamente alfabetizados com o fanzine, outros não sabiam usar o computador”, lembra. As oficinas deram origem a cinco volumes do fanzine No Closet, cuja tiragem de 5 mil exemplares foi distribuída gratuitamente.
Para o diretor da escola, o movimento LGBT passa por um período de transição. O primeiro momento, marcado pela busca da visibilidade e aceitação, já passou. Agora é a hora do discurso, da sociedade saber o que os gays têm a dizer. Por outro lado, o aumento da visibilidade alimentaria rea-ções de setores mais conservadores. Apesar de ter sido o ano da aprovação da união estável entre pessoas do mesmo sexo, 2011 encaminha-se para o triste recorde de assassinatos de homossexuais no Brasil.

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Tory Oliveira, em Carta na Escola

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