Luis Soares
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Política 13/Oct/2011 às 21:28
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Manifestantes 'contra corrupção' não sabem o que combatem e/ou almejam

A corrupção é uma praga que corrói e deve ser combatida, mas ao movimento falta qualquer tipo de proposta objetiva, o que o transforma num simples desabafo, além de servir a interesses escusos

O buraco é mais embaixo
Governos progressistas precisam dizer ao que vêm. Os socialistas europeus se renderam às regras do mercado e foram engolidos pela crise, possibilitando o crescimento da direita. Barack Obama, eleito como sinal de mudança após a truculência republicana, está com seus menores índices de popularidade, sem conseguir reduzir o poder do mercado e tímido demais ao enfrentá-lo. Dificilmente voltará a ter os votos dos que acreditaram no lema “yes, we can”, já que não pode mudar nada e enfrenta uma insatisfação que cresce e aparece no movimento “Ocupar Wall Street”.

Não adianta ser de esquerda ou progressista sem implantar nos governos uma linha de atuação que assim os identifique. 

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O governo Lula começou amarrado pela Carta aos Brasileiros e a necessidade de recuperar um país em frangalhos e parecia condenado a ser mais do mesmo, apesar das boas intenções. Aos poucos, foi encontrando o caminho, e, no segundo mandato, deslanchou. A ênfase nos programas sociais, o fim das privatizações em grande escala e o papel atuante do Estado levaram o Brasil a outro patamar, elogiado no mundo todo.

A atuação decisiva do governo e o uso das ferramentas do Estado no enfrentamento da crise econômica foram exemplares. Ao oferecer crédito em meio à crise, fortalecer o mercado interno e movimentar a economia, o Brasil mostrou que não se resolvem situações de aperto econômico com mais aperto. O sufoco por que passam muitos países europeus, condenados a apertar ainda mais os cintos e a sacrificar suas populações, mostra que este modelo de rigor fiscal não dá certo. E, além do mais, é injusto, pois condena as pessoas a pagar pelos erros que não cometeram, enquanto os responsáveis são sempre socorridos pelos Estados e continuam na bonança.

Certa vez, elas ‘cansaram’
O governo Dilma é um prosseguimento do governo Lula nas suas linhas mestras. Em sua visita à Bulgária, Dilma reafirmou os compromissos com o crescimento e com um modelo que não interrompa o ciclo virtuoso que o país vem vivendo. A presidente não cai no conto da ameaça inflacionária como inibidora de uma política expansiva e atua com firmeza, inclusive sobre a taxa de juros, para não deixar que o mercado retome o controle total do país.

Neste sentido, parecem fora de foco as manifestações contra a corrupção que tentam emplacar por aqui. Não que a corrupção não deva ser combatida, pois é uma praga que corrói nossa sociedade desde os tempos de colônia. Mas ao movimento falta qualquer tipo de proposta objetiva, o que o transforma num simples desabafo, além de servir a interesses escusos. Os casos de corrupção que vieram à tona foram resolvidos e não se nota no atual governo complacência com este tipo de situação. 

Talvez fosse mais efetivo um movimento pela reforma política que mudasse as regras do jogo e impedisse que governos progressistas ficassem reféns de alianças com fisiologistas. Ou por uma forma de democracia mais direta, pela qual os governos pudessem consultar a população sobre diversas temas e deixá-la decidir sobre os rumos do país.

O filósofo esloveno Slavoj Zizek esteve visitando o acampamento do movimento “Ocupar Wall Street”, no parque Zuccotti, em Nova York, e falou aos manifestantes. 

“Lembrem-se, o problema não é a corrupção ou a ganância, o problema é o sistema”, disse ele, salientando as possibilidades quase ilimitadas que nos são oferecidas sem que, na prática, possamos desfrutar delas. “É possível viajar para a lua, tornar-se imortal através da biogenética… Mas olhem para os terrenos da sociedade e da economia. Nestes, quase tudo é considerado impossível. Querem aumentar um pouco os impostos aos ricos? Eles dizem que é impossível. Perdemos competitividade. Querem mais dinheiro para a saúde? Eles dizem que é impossível, isso significaria um Estado totalitário. Algo tem de estar errado num mundo onde vos prometem ser imortais, mas em que não se pode gastar um pouco mais com cuidados de saúde.”
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O discurso de Zizek deveria ser escutado aqui. As questões por ele levantadas são as essenciais. Também seria necessário taxar mais os ricos e o governo está em plena campanha por mais dinheiro para a saúde. A reação por aqui é exatamente a mesma que ele aponta. A corrupção não é o problema central. A luta deve ser por mais bem comum. E isto, no estágio de desenvolvimento brasileiro, é melhor saúde e educação para todos e uma possibilidade de um padrão de vida decente, sem desigualdades que nos envergonhem. Corrupção existe no mundo todo e precisa ser enfrentada com aperfeiçoamento dos mecanismos de investigação e punição. Mas está longe de ser uma questão transformadora.

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Mair Pena Neto – Direto da Redação

Comentários

  1. @Limarco Postado em 14/Oct/2011 às 10:26

    Excelente texto.
    Era só acompanhar as hashtags no Tuiter, para perceber o vazio dos protagonistas. No meu tempo não seriam admitidos sequer na ala "festiva".

  2. Sagawa Postado em 14/Oct/2011 às 20:24

    casos de corrupçao, resolvidos??? foram resolvidos ou arquivados??? Ah! quanto mimimi...de petista

  3. Luis Soares Postado em 14/Oct/2011 às 21:42

    Quando a questão ética repentinamente se torna 'prioridade' em meio a um sistema injusto e falido, fica fácil constatar que essa juventude carece mesmo é de formação política consistente. O comentário acima não me deixa mentir.

  4. Maria Lucia Postado em 15/Oct/2011 às 08:46

    Muito bom! Ando preocupada com estes movimentos sem propostas que levam pelo emocional principalmente os jovens. E porque será que o seu Sagawa não vai procurar a turma dele?

  5. André Falcão de Melo Postado em 19/Oct/2011 às 00:53

    Amigo,
    Peço (e atrevidamente já o faço, confiante em sua aquiescência) sua permissão para postar esse texto no Blog do AnDRé fALcÃO, valeu?
    Forte abraço!

  6. Luis Soares Postado em 19/Oct/2011 às 10:03

    Meu camarada, sinta-se à vontade.

  7. pedrovaladares Postado em 15/Dec/2011 às 12:28

    Dizer que o movimento precisa de propostas é lugar comum. Agora, propor o que deve ser feito é que é o verdadeiro desafio, que o texto, infelizmente não aborda.

    Crítica sem proposição só serve para esvaziar o movimento.

    Na minha opinião, o caminho é baixar impostos e desburocratizar a abertura de empresas, fazer a reforma da previdência dos servidores públicos, que atualmente pesa muito no orçamento do governo. Com esse ajuste fiscal de longo prazo, é possível baixar juros.

    Outro ponto é facilitar os projetos de leis de iniciativa popular e a participação de grupos organizados com poder de voto dentro do parlamento.

  8. jose L. s. de oliveira Postado em 06/Jul/2013 às 14:30

    POLÍTICA É A ARTE DE GOVERNAR COM O MÁXINO DE PROMESSAS E O MÍNIMO DE REALIZAÇÕES

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