Luis Soares
Colunista
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Política 23/Aug/2011 às 00:37
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Relato de Trípoli: Acabaram com Kadafi, ou com a Líbia?

Original: Franklim Lamb em Counterpunch
Imprensa hospedada em hotel na capital Trípoli
O grande retrato emoldurado em
dourado do coronel Muammar Gaddafi, que há anos adornava a parede por
trás do balcão da recepção no meu hotel, sumiu. Também sumiram as 72
bandeiras verdes que tremulavam em postes brancos, à entrada. Não seria
de bom tom perguntar à equipe, reduzidíssima hoje, sobre quem removeu
aqueles itens, porque o ato de remover pode vir a ser grave ofensa,
conforme a evolução dos acontecimentos por aqui. Meu amigo Ismail, que
comanda a recepção, fez-me uma careta de ‘não-me-venha-com-essa’,
quando elogiei os novos espelhos que hoje ocupam o lugar do líder.

Leia mais:

Olhando pela janela do 26º andar do Hotel Corinthia, às 7h30 da manhã
de hoje, na direção da linha de arranha-céus no horizonte de Trípoli,
parece que o regime de Gaddafi já não existe.

Durante toda a noite ouviram-se tiros celebratórios em áreas aqui
próximas, em torno da “Praça dos Mártires” (ex-Praça Verde), mas todos
na cidade acordaram com a cabeça fervilhando de dúvidas. Alguns
perguntam “Será que o exército de Gaddafi está abrindo uma armadilha
para as forças rebeldes, deixando-os entrar fácil e rapidamente, e em
seguida, quando estiverem reunidos em celebrações públicas,
contra-atacarão?”

Poucos acreditam no que disse hoje cedo um representante do Comitê
Nacional de Transição, que os rebeldes controlam 95% de Trípoli. É
impossível. A cidade tem vasta superfície, e é evidente que as forças
rebeldes são poucas e só se veem em alguns pontos.

Uma coluna de 22 veículos militares com pintura de camuflagem, cheios
de soldados do exército regular passou lentamente pela frente do hotel
às 8h10 hoje, virou à direita em direção ao mar, onde está o Bab al
Bahar Hotel (“ponte para o mar”) e, junto à praia, o hotel JW Marriott
não ocupado, onde estaria posicionado o atirador que acertou minha
perna ontem
. O médico entregou-me a bala, de lembrança, e eu estou bem,
exceto porque o ferimento ainda dói. Um empregado do hotel disse, ao
chegar, que há várias horas soldados do exército estão-se agrupando nos
arredores de Trípoli.


Do outro lado do meu hotel, vejo pickups carregadas de
‘rebeldes’ com a bandeira tricolor, que
andam lentamente na direção da
praça Verde (ou “dos Mártires”). Penso no que acontecerá, caso errem o
caminho.

Notícias de que Saif e Mohammad Gaddafi teriam sido presos reforçam a
ideia de que o governo pode ter exagerado ao estimar o apoio que teria
entre a população. Outros dizem que o ataque pela OTAN-EUA foi tão
brutal, que a população apavorou-se. Os poucos que trabalham no hotel e
algumas crianças que, bem cedo, pulam o muro do hotel para nadar na
piscina, e que, todos, cantavam “Allah, Mohammad, Muammar, Libya wa bass
[Deus, Maomé, Gaddafi e Líbia: só precisamos disso!], suspenderam os
cantos, e o apoio à expulsão do “líder”, entre eles, parece ser unânime.
Muitos dos que trabalham no meu hotel mostram-se desanimados,
cabisbaixos.

O surto repentino de apoio à partida de Gaddafi, pelas mesmas pessoas
que, quando cheguei à Líbia, há cinco meses, pareciam adorá-lo na Praça
Verde, é surpreendente mas talvez mostre que déspotas poderosos são
muitas vezes mais forma que conteúdo e, dadas algumas condições, caem
bem rapidamente.

Entre os estudantes meus amigos, as perguntas são, quase todas, sobre o
que aconteceu à resistência contra “os ‘rebeldes’ da OTAN”; que fim
levaram os 65 mil soldados treinados que impediriam que “os ‘rebeldes’
da OTAN” entrassem em Trípoli – dos quais falou, ontem à noite o
porta-voz do governo Musa Ibrahim –; se realmente ainda havia algum
exército líbio para defender Trípoli. E sobre a transição: como será?
As tribos disputarão até a morte o poder central? A Líbia terá de pagar
pela infraestrutura destruída? Os países da OTAN pagarão pela
destruição? Haverá como garantir contratos de petróleo e gás para
aqueles países, sem despertar a ira popular, cada dia mais hostil contra
Europa e EUA por causa do alto número de civis mortos? Os EUA
conseguirão mais uma base militar (a que havia na Líbia, Wheelus, foi
fechada por Gaddafi em junho de 1970)? O novo governo reconhecerá Israel
(diz-se por aqui que a OTAN já teria exigido imediato reconhecimento)?
O Conselho Nacional de Transição cumprirá a promessa de transição
rápida, democrática, com eleições imediatas? Não faltam perguntas.

Ontem pela manhã, andando de bicicleta por Trípoli, vi sinais de que
algo estranho está acontecendo: não há guardas de segurança pelas ruas
(à frente do meu hotel, sempre houve uns vinte). Nenhum dos empregados
que dormiram fora do hotel apareceu para trabalhar hoje cedo.  Ismail e o rapaz que cuida dos computadores com conexão para Internet dormiram no hotel – e Miss Lorraine, senhora britânica que cuida da recepção aos hóspedes, mora no hotel. Só esses estavam no hotel hoje (Miss Lorraine parecia muito perturbada).

Ontem de manhã, ao sair do hotel pelas 7h30, com minha bicicleta,
surpreendi-me ao ver uma mulher parada, sozinha, na calçada em frente ao
hotel. E mais ainda surpreendi-me quando me cumprimentou, com um
sorriso – “Hello Mr. Lamb!”  


Leia também:
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É Marianne, que trabalha com Lorraine em algum ponto das entranhas
desse aclamado hotel de “sete estrelas”. Já falara com ela pelo
telefone, mas não lembrava de nos termos encontrado. Perguntei-lhe o que
fazia na rua deserta. “Tenho de conseguir quem me leve até o porto!”
Estranho, naquelas circunstâncias; perguntei-lhe por quê. “Minhas férias
de duas semanas começam hoje, e tenho de conseguir lugar em algum
barco para Malta”. Levei um susto. “Minha filha, por favor, não há
barco algum para Malta hoje; e o porto é local perigoso para você.”
“Mas meu namorado está à minha espera em Malta”, ela insistiu.  “Então
faça o seguinte: se conseguir um táxi, telefone para mim, que eu
divido o custo da corrida e acompanho você até o porto.” Marianne
concordou, mas nunca mais a vi.

A delegação da ONU partiu ontem, depois de cinco dias em “missão para
recolher dados”. Não sei que dados terão recolhido, porque não saíram
do hotel, sempre à espera – como fazem todos os estrangeiros aqui – de
receber confirmação de encontro solicitado com autoridades ou quem for.
A líder da delegação, uma senhora de Nazaré  na Palestina
Ocupada, convenceu a OTAN a autorizar que estrangeiros usassem os
assentos vagos no avião da ONU – motivo pelo qual o hotel ficou deserto
de hóspedes.

Não há sinal algum do coronel Gaddafi. Espalha-se sobre Trípoli uma estranha calma.


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu – RedeCastorPhoto

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